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terça-feira, março 31, 2009

Extravagâncias (4)

100 melhores canções
Foi publicada uma lista de 100 melhores canções em El País Semanal: Las 100 mejores canciones elegidas por 100 músicos hispanoamericanos. A introdução de Diego Manrique ajuda a compreender as incongruências e os descarados absurdos que a lista patenteia. Desde logo, apercebe-se a predominância, entre os inquiridos, de músicos pop/rock... Um exercício desta natureza gera sempre controvérsia. Contudo, exercita a selectividade e permite reflectir sobre o impacto de certas músicas. Seja como for, senti-me logo impelido a confeccionar a minha lista das 100 melhores canções. Foi duro. Muitas extraordinárias canções acabaram excluídas... A partir de certo ponto, dentro do conjunto pré-seleccionado, foi necessário recorrer a critérios objectivos... Os critérios objectivos como:
- limitar a três o numero de canções de cada artista (enfim, com uma excepção...);
- contemplar os géneros mais variados;
- privilegiar canções com maior repercussão pública.
Eis a minha lista, soberanamente pessoalíssima, sem ordenação valorativa, apenas por ordem alfabética de artista:

DANCING QUEENABBA1976
COMO DOIS ANIMAISALCEU VALENÇA1982
FADO DO CIÚMEAMÁLIA RODRIGUES1966
POVO QUE LAVAS NO RIOAMÁLIA RODRIGUES1972
NO SÉ POR QUÉ TE QUIEROANA BELÉN / ANTONIO BANDERAS1997
TODA UNA VIDAANTONIO MACHINS/D
ESTOU ALÉMANTÓNIO VARIAÇÕES1983
ESTA TARDE VI LLOVERARMANDO MANZANERO1967
SI ME FALTAS TÚARMANDO MANZANERO1968
ADIÓS NONINOASTOR PIAZZOLLA1969
OBLIVIONASTOR PIAZZOLLA1984
THE TIMES THEY ARE A CHANGINGBOB DYLAN1964
LIKE A ROLLING STONEBOB DYLAN1965
LA LEYENDA DEL TIEMPO CAMARÓN DE LA ISLA1979
COMO EL AGUA CAMARÓN DE LA ISLA / PACO DE LUCÍA1981
PASODOBLE TORERO A GERALD BRENANCARLOS CANO1985
UM HOMEM NA CIDADECARLOS DO CARMO1977
VOLVER CARLOS GARDEL1935
VARIAÇÕES EM RÉ MENORCARLOS PAREDES1967
LA BOHÈMECHARLES AZNAVOUR1966
TATUAJECONCHA PIQUER1941
HAVE YOU EVER SEEN THE RAINCREEDENCE CLEARWATER REVIVAL1971
LOVE IN PORTOFINO DALIDA1959
MON MANÈGE A MOIEDITH PIAF1958
ACONTECIÓEL PELE / VICENTE AMIGO2003
ÁGUAS DE MARÇOELIS REGINA / TOM JOBIM1974
INÚTIL PAISAGEMELIS REGINA / TOM JOBIM1974
NEW YORK, NEW YORKFRANK SINATRA1980
CUATRO ROSASGABINETE CALIGARI1984
CARELESS WHISPERGEORGE MICHAEL1983
SIN VOLUNTADGILBERTO SANTA ROSA1993
SAPORE DI SALEGINO PAOLI1963
PRONÚNCIA DO NORTEGNR / ISABEL SILVESTRE1992
FELICES HORASHÉCTOR LAVOE1976
PERIÓDICO DE AYERHÉCTOR LAVOE1976
ESE HOMBREINDIA1994
BY THE TIME I GET TO PHOENIXISAAC HAYES1969
I STAND ACCUSEDISAAC HAYES1970
THEME FROM "SHAFT" ISAAC HAYES1971
NE ME QUITTES PASJACQUES BREL1959
MEDITERRÁNEOJOAN MANUEL SERRAT1971
O EMBUÇADOJOÃO FERREIRA-ROSAS/D
BÉSAME MUCHOJOÃO GILBERTO1977
RETRATO EM BRANCO E PRÊTOJOÃO GILBERTO1977
IMAGINEJOHN LENNON1971
CANTO MOÇOJOSÉ AFONSO1970
TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉMJOSÉ AFONSO1970
LA ESTRELLA DE JALISCOJOSÉ ALFREDO JIMÉNEZ1971
SEND IN THE CLOWNSJUDY COLLINS1975
SANTIMAIÑEKO FANDANGOA & IOAEOEKEPA JUNKERA1998
POZO DEL DESEOKETAMA1994
AUTOBAHNKRAFTWERK1974
PURO TEATRO LA LUPE1969
AVEC LE TEMPSLÉO FERRÉ1970
SOY UN PERRO CALLEJERO (EN VIVO)
LOS CHUNGUITOS1988
FOI NA TRAVESSA DA PALHALUCÍLIA DO CARMO1958
ESPÍRITU SIN NOMBREMANZANITA1980
UN RAMITO DE VIOLETASMANZANITA1981
EU SEI QUE VOU TE AMARMARIA CREUZA / TOQUINHO / VINICIUS1970
MERCÉMARIA DEL MAR BONET1971
SA DES CAVALLERMARIA DEL MAR BONET1979
GRANDE, GRANDE, GRANDEMINA1971
L'IMPORTANTE È FINIREMINA1975
ANCORA, ANCORA, ANCORAMINA1978
PAROLE, PAROLEMINA / ALBERTO LUPO1972
TÚ, MI DELIRIO
MONCHOS/D
NATURE BOYNAT KING COLE1963
NOCHES DE BOHEMIANAVAJITA PLATEÁ1998
LES CORNICHONSNINO FERRER1966
PRIME ORE DEL MATTINOORNELLA VANONI1974
UN MONDO DI PIÙORNELLA VANONI1974
GAVILÁN O PALOMAPABLO ABRAIRA1977
CHIAMAMI ADESSOPAOLO CONTE1992
ESCLAVEPAPA WEMBA1988
EL FRACASO DE MI AMORPAQUITA LA DEL BARRIO1996
TRES VECES TE ENGAÑÉPAQUITA LA DEL BARRIOS/D
HABANERA DE LOS OJOS CERRADOSPASIÓN VEGA2001
20º ANIVERSARIO (PALABRAS)PATXI ANDIÓNS/D
REUNITEDPEACHES & HERB1978
'O SSAJE COMME FA' O COREPINO DANIELE1992
ESCUELA DE CALORRADIO FUTURA1984
AL VENTRAIMON1966
QUANDOROBERTO CARLOS1967
DETALHESROBERTO CARLOS1971
AMIGOROBERTO CARLOS1977
SEVILLAROCÍO JURADO1991
PATRIARUBÉN BLADES / SON DEL SOLAR1988
CAMINANDORUBÉN BLADES / SON DEL SOLAR1991
DOLCE VITA RYAN PARIS1983
A QUERERSALMARINA1985
TRUESPANDAU BALLET1983
MOMENTS IN LOVETHE ART OF NOISE1984
YESTERDAYTHE BEATLES1965
LET IT BETHE BEATLES1970
(I CAN'T GET NO) SATISFACTIONTHE ROLLING STONES1965
GET OFF OF MY CLOUDTHE ROLLING STONES1965
ALALA DAS MARIÑASUXÍA1995
MALDITA SEAVICENTE FERNÁNDEZ1992
LOS DOS HERMANOSVICENTE / ALEJANDRO FERNÁNDEZ2005
PEDRO NAVAJAWILLIE COLÓN / RUBÉN BLADES1978

terça-feira, julho 29, 2008

Extravagâncias (3)

Monty Python - Spam in Monty Python's flying circus - 25º Episódio, sketch final (1970)
O ponto mais alto do humor foi alcançado pelos Monty Python na série Monty Python's flying circus, que por cá recebeu a nome de Os malucos do circo. A RTP passou-a nas emissões da hora de almoço, no início dos anos 70. Representa o ponto mais alto do humor e, em particular, do humor absurdo, tipicamente non sense, do qual os ingleses, melhor do que ninguém, conhecem os ingredientes. Muitos foram os sketches brilhantes, que podem agora ser apreciados em edições em DVD que, finalmente, chegaram ao nosso mercado. Este é um dos mais notáveis e tem uma história que merece ser contada. Spam era, e é, o nome de uma marca americana de carne de porco enlatada (tipo presunto). Durante a II Guerra Mundial era a a única carne não sujeita a racionamento. Daí resultou que a sua ruim qualidade se tornasse mais abominável pelas escassas alternativas. Gerações de britânicos, mesmo dos que da guerra já não tinham memória directa, guardaram Spam como sinónimo de algo enjoativo, indesejável. Foi com este lastro de quase trauma colectivo, que a trupe se lembrou da coisa no anárquico e improvisado processo produção de script para um sketch. O bando de vikings cantando as excelsas virtudes do Spam e a descrição da presença obsessiva do mesmo no menu é das coisas mais delirantes que já se viu... Contudo, a história não acaba aqui. Sucede que muito anos depois alguém se lembrou do Spam, por via deste sketch, como termo apropriado para designar a invasão de correio electrónico não solicitado. Ora, como se sabe, o termo pegou.
PS: No sketch a obsessão Spam contamina a própria ficha técnica que encerra o episódio. É demais...
Monty Python Spam Song

domingo, outubro 29, 2006

Extravagâncias (2)

Peter Webber - Rapariga com brinco de pérola (Girl with a pearl earring) (2003)

Desde logo, este filme assenta numa boa história - uma ficção construída em torno do enigmático quadro homónimo do pintor holandês Jan Vermeer. Não há bom filme sem boa história. Neste caso, a história, da escritora Tracy Chevalier, já fora um êxito como livro. O essencial começa, portanto, aqui. Contudo, há mais a destacar. Por exemplo, a fotografia (curiosamente, de um português, Eduardo Serra) consegue uma luminosidade adequada para a acção. Mais importante ainda são as interpretações, a começar pelas dos protagonistas, Scarlett Johansson (criada / modelo) e Colin Firth (pintor). A primeira compõe a figura da beleza nórdica por excelência, enriquecida por um registo de contenção, magistralmente acorde com o carácter do personagem que encarna. O filme proporciona algumas imagens construídas em torno do seu rosto, que são de invulgar beleza e constituem um paradigma já um pouco perdido nestes tempos em que a representação da beleza é geralmente alvo de interferências grosseiras... Com efeito, evitam-se os recursos demagógicos e o filme desenvolve-se por parâmetros de rigorosa castidade (não encontro melhor termo) no que concerne à relação entre pintor e modelo, nomeadamente na sua representação visual. Ou seja, não há nudez. Contudo, tal não obsta (bem pelo contrário...) a que, em muitas cenas, se instale a sensualidade. O interdito interiorizado pelos personagens centrais tem, assim, a sua coerente correspondência no que é dado a ver ao espectador.
Há ainda um aspecto que me seduziu: a reconstituição do ambiente da cidade de Delft, no terceiro quartel do século XVII. Os pormenores referentes ao vestuário, situações e lugares denotam rigor. É, portanto, também excelente como divulgação histórica, nomeadamente das condições de vida daquelas que eram, há cerca de 350 anos atrás, as populações com melhor nível de vida do mundo. Delft
(genuinamente holandesa) era, sem dúvida, um exemplo de opulenta cidade europeia desses tempos. E, no entanto, como era uma realidade rude comparativamente com a nossa, actual...
Uma nota final para referir que este filme foi distribuído em DVD, gratuitamente, pelo Expresso. Foi o último de uma série de oito DVDs. Foi uma insólita prenda proporcionada pela guerra dos semanários. Não deixa de ser bizarro que para enfrentar o aparecimento do Sol, se enveredasse por um táctica comercial tão extrema... Os leitores ficaram ganhar. Lástima foi eu não ter conseguido os dois primeiros.

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Info IMDb

domingo, setembro 11, 2005

Extravagâncias (1)

Peter Greenaway - O Contrato (The draughtman's contract) (1982)
O cinema de Peter Greenaway ocupa um lugar bem distante em relação ao mainstream formatado pelos padrões de Hollywood, os quais estão cada vez mais pobres e incapazes de surpreender. Consabidas fórmulas de sucesso são exploradas reiteradamente até à exaustão e a imaginação parece tolhida. Esta evolução é mal disfarçada pelo arsenal técnico e pelo impacto mediático do star system. Se a história do cinema deve estar para sempre credora de Hollywood é, acima de tudo, pelo cinema clássico. Infelizmente, por outro lado, o cinema europeu cada vez tem menos capacidade para se constituir como alternativa - muito limitado de recursos e, em larga medida, incapaz de se libertar de um pedantismo discursivo. Neste contexto o cinema de Peter Greenaway, por sinal, assumidamente pedante e intelectual, consegue uma originalidade, mediante um olhar estético e um particular génio de loucura. Em filmes posteriores chegará mesmo ao grotesco e sórdido, características que, para mim, aliás, sempre foram atractivas.
O argumento é curioso. Estamos numa zona rural do sul de Inglaterra (Wiltshire) em 1694. Um artista é contratado por uma dama da nobreza local (gentry) para fazer 12 desenhos que retratem a sua propriedade. O resultado dessa encomenda seria uma surpresa para o marido (ausente em viagem), que não deixaria de a apreciar, tendo em conta o particular orgulho que tinha nos magnificentes jardins. Para vencer a renitência do artista, a dama aceita as mais desproporcionadas exigências dele, incluindo... 12 favores sexuais. correspondentes a cada um dos desenhos. Para culminar tamanha arrogância, o artista exige ainda que tudo fique, preto no branco, contratualmente registado. A execução da encomenda é pontuada pelo rigoroso cumprimento das condições contratuais e ainda por extras - a filha da dama, desatendida pelo seu marido (um holandês petulante e pouco diligente no cumprimento dos deveres conjugais), é também disfrutada pelo afortunado artista. Dizer que artista é afortunado acaba por ser um equívoco em que o espectador cai inevitavelmente. O desenlace reserva-nos uma surpresa e o artista de arrogante afortunado acaba em vítima ingénua...
Greenaway é um arquitecto que derivou para o cinema. A sua obra tem um recohecível toque britânico de non-sense e também um hiper-barroquismo próprio de um espírito extravagante. Neste filme, além do mais, o barroquismo é literal, pelo facto da acção decorrer em cenários barrocos. Os diálogos e situações ressaltam ainda uma ironia própria de espíritos finos. Os cenários, só por si, são um espectáculo, desde as perucas aos jardins. A música de Michael Nyman é também espectacular - com uma feição exótica que resulta de um curioso casamento entre contemporaneidade e barroco.
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