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quinta-feira, março 29, 2007

Complexo de Aljubarrota (16)

Portugal vs Espanha: Nível de vida - Índice de paridades de poder de compra / 2004
Prosseguindo a análise dos mais recentes dados do Índice de paridades de poder de compra divulgados pelo Eurostat, agora ao nível comparativo entre regiões, confirma-se o afundamento de Portugal. É particularmente notória a progressiva decadência da região Norte. A única região portuguesa que apresenta vantagem (mínima) sobre a vizinha região do outro lado da fronteira é agora o Alentejo em relação à Extremadura, dada a inversão de posição do Algarve em relação à Andalucía. Vejamos:

Média EU27 = 100

132.1 E - Madrid
126.7 E - Navarra
125.4 E - Euskadi / País Vasco
120.5 E - Catalunya / Cataluña
114.3 E - Illes Balears
109.4 E - La Rioja
107.4 E - Aragón
105.8 P - Lisboa
098.1 E - Cantabria
094.9 E - Castilla y León
093.9 E - Comunidad / Comunitat Valenciana
092.8 E - Canarias
090.8 P - Madeira
090.4 E - Ceuta
087.9 E - Melilla
087.0 E - Asturias
084.4 E - Murcia
081.0 E - Galicia
079.1 E - Castilla-La Mancha
077.6 E - Andalucía
077.1 P - Algarve
070.3 P - Alentejo
067.1 E - Extremadura
065.9 P - Açores
064.3 P - Centro
058.8 P - Norte


Fonte: Eurostat

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Complexo de Aljubarrota (15)

Portugal vs Espanha: Nível de vida - Índice de paridades de poder de compra / 2004
A evolução dos dados do Índice de paridades de poder de compra recentemente divulgados pelo Eurostat confirma uma tendência que se pode exprimir deste modo sensacionalista: Espanha dispara; Portugal afunda-se. Efectivamente, a tendência de lenta mas contínua aproximação em relação ao país vizinho, que se vinha verificando até, pelo menos, meados da década passada, deu lugar a esta consolidada tendência. No conjunto da Europa, aliás, enquanto a Espanha ganha posições relativas, Portugal perde-as...

Média EU27 = 100

251,0 Luxemburgo
141,4 Irlanda
130,0 Países Baixos
128,7 Áustria
124,5 Dinamarca
124,4 Bélgica
123,0 Reino Unido
120,3 Suécia
115,8 Alemanha
115,5 Finlândia
112,3 França
107,4 Itália
100,7 Espanha
91,4 Chipre
84,8 Grécia
83,3 Eslovénia
75,2 República Checa
74,8 Portugal
74,4 Malta
64,0 Hungria
56,7 Eslováquia
55,7 Estónia
51,1 Lituânia
50,7 Polónia
45,5 Letónia
34,0 Roménia
33,2 Bulgária

Em breve procederei à comparação entre os índices das regiões portuguesas e espanholas.

Fonte: Eurostat

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Complexo de Aljubarrota (14)

D. Luis de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo Melhor (1636 - 1720)

O nacionalismo português desenvolveu-se de braço dado com um sentimento anti-espanhol, ou, pelo menos, anti-castelhano. Quando a história veiculava valores nacionalistas, havia uma galeria de heróis e de feitos exemplares que ilustravam tal sentimento. Imagino que a primeira lista do programa Os grandes portugueses albergaria alguns desses heróis, já que a educação nacionalista do Estado Novo (e da 1ª República...) foi assimilada em condições de conseguir não sossobrar de todo à cultura de massas vigente. Já agora, diga-se que a escola actual não inculca valores nacionalistas. Nem nacionalistas, nem outros, já que é um exagero apodar de valores a meia dúzia de insonsas banalidades cívico-democráticas ensopadas em molho de politicamente correcto com que os nossos alunos são hoje em dia servidos... Ora, vem isto a propósito para chamar a atenção que há um vulto que a educação nacionalista não contemplou. Trata-se de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo-Melhor. Provavelmente, entre portugueses, ninguém teve uma acção tão decisiva para Portugal ser independente.
A Restauração (1 de Dezembro de 1640) só se decidiu mais de vinte anos depois de ter sido proclamada. Durante todo esse tempo a situação foi de uma absoluta precaridade. Nem mesmo o declínio a pique da Monarquia Hispânica deixava na cena política europeia algum espaço de optimismo quanto às suas possibilidades de sobrevivência. Ocorrera como um efeito colateral do crescente poder da França de Richelieu, que foi usado de forma oportunista por essa e outras potências e, assim, se prolongara. O seu destino foi-se jogando num complicado xadrez que envolveu a França, Inglaterra e Províncias Unidas (Países Baixos). Ainda por cima, internamente, os actores que desencadearam o processo (nobreza provinciana e jesuítas) experimentaram ao longo desses anos vacilações e divisões que tornaram evidente a precaridade da situação.
Mas, ao fim de vinte anos parecia ter chegado o momento decisivo - a Monarquia Hispânia achava-se, finalmente, em condições de pôr fim à rebeldia. Era iminente a invasão. A única viabilidade para os Braganças parecia consistir em pôr-se nas mãos dos ingleses. O casamento de D. Catarina com Carlos II e o seu valioso dote (Tânger, Bombaim, dinheiro e facilidades comerciais) representou uma opção de realpolitk que se pode traduzir como ficar de cócoras... Foi essa a desesperada opção da regência de D. Filipa de Gusmão. Porém, tal estratégia foi corrigida pelo golpe palaciano do Conde de Castelo-Melhor. Sucede que, verificando tão comovente fraqueza, os ingleses acarinhavam a hipótese de não arriscar em demasia pelo débil aliado, assegurado que estava o valioso dote de D. Catarina. Estavam em condições de o fazer, de forma discreta e eficaz, já que eram mediadores entre Lisboa e Madrid. Em parte, pela indignação causada pelo dote, em parte pela percepção de que as diligências do embaixador inglês em Madrid apontavam em perigosa direcção, Castelo-Melhor fez girar a política de alianças na direcção do ambicioso Luís XIV.
A nova estratégia passou pelo casamento do lastimável D. Afonso VI com uma princesa francesa, Maria Francisca (após árduas negociações). Havia tudo a ganhar numa aproximação a França. Além de pôr a Monarquia Hispânica em guarda, pôs em guarda a própria Inglaterra e estabeleceu o melhor cenário para a guerra. Se a tudo isto acrescentarmos uma magnífica condução das operações militares, temos aqui o que representou a governação de Castelo Melhor. Foram poucos, mas decisivos anos. Só que sua força (e fraqueza) assentava num rei incapaz (D. Afonso VI), que manietava. Ganha a guerra, acabou por ser removido, como o próprio rei, aliás. Foi um golpe perpetrado pelo príncipe D. Pedro e, curiosamente, instigado pelos franceses. Implicou, também que a princesa Maria Francisca passasse de esposa do rei (provou-se que o casamento nunca fora consumado carnalmente e obteve-se dispensa papal) para esposa do irmão, novo homem forte e futuro rei D. Pedro II. Mas o essencial estava já alcançado. Derrotada e acossada por todos os lados, a Monarquia Hispânica ansiava pelo Tratado de Paz. Este chegaria em 1668.
A acção política de Castelo-Melhor não foi motivada por uma orientação francófila. Não por acaso o seu afastamento resultou de intriga francesa.
A sua orientação consistiu em aproveitar as rivalidades das potências europeias e tal implicou, num dado momento, a aproximação à França. Ganha a guerra, tal aliança deixou de ser crucial. Esta orientação teve continuidade na regência e reinado de D. Pedro II. O apoio francês à sua subida ao poder foi circunstancial, pois visava evitar a assinatura do Tratado de Paz com a Monarquia Hispânia. O facto de não o ter conseguido é demonstrativo dessa continuidade. Seja como for, na parte final do reinado de D. Pedro II haverá uma grande mudança: começará a inserção de Portugal na órbita do que viria a ser o Império Britânico.
Quanto a Castelo-Melhor, durante o exílio, esteve em França, Sabóia e Inglaterra, onde frequentou a corte (diz-se que providenciou o sacerdote católico que deu a extrema unção a Carlos II). No início do reinado de D. João V estará de volta, e durante a sua prolongada e respeitada velhice encontrar-se-á nos mais influentes círculos da corte.

Conde de Castelo-Melhor in Wikipedia


terça-feira, fevereiro 13, 2007

Complexo de Aljubarrota (13) (La copla 1 remake)

Carlos Cano (1946 - 2000)
Este cantautor granadino esteve na primeira linha da recuperação da copla (canção tradicional espanhola). Contribuiu decisivamente para um movimento de homenagem e modernização deste género, procedendo a um cruzamento entre tradição e inovação. Espírito generoso e solidário, Carlos Cano foi coerente com os seus ideais, traduzindo-os em empenhamento político. Sentimento que foi, aliás, transposto para a música popular de outros povos deste nosso tão desconhecido mundo. A nossa Amália teve nele um fiel devoto - facto que se traduziu concretamente naquele que foi o maior êxito da sua carreira - María, la Portuguesa. Uma bonita canção com inevitáveis ecos fadistas, ou não estivessem presentes acordes de guitarra portuguesa através de António Chainho... É o tema que abre Quédate con la copla, álbum de 1987. Espanta, espanta verdadeiramente que pouquíssimos ecos desta arrebatada e inspirada declaração de amor pelas coisas portuguesas tivessem cá chegado, tanto mais que foi mesmo um êxito em Espanha! É, enfim, uma outra vertente do velho complexo...

domingo, fevereiro 11, 2007

Complexo de Aljubarrota (12)

Pasión Vega - Lejos de Lisboa (2003)
Apesar de Portugal ser em Espanha um vazio, existe uma minoria informada, que não só se interessa, como aprecia o ignorado vizinho. Para alguma elite é mesmo um distintivo de bom gosto. Na cultura portuguesa encontram figuras e ambientes que promovem nos media e alguns encontram fontes de inspiração artística. É o caso de Pasión Vega que, no seu álbum Banderas de nadie, apresenta esta tema alusivo a Lisboa, com laivos de toada fadista. Em boa hora alguém fez esta montagem, que junta imagens de Lisboa com essse tema de Pasión Vega. É um simpático exercício doméstico que denota grande apreço pelo imaginário lisboeta.

sábado, janeiro 27, 2007

Complexo de Aljubarrota (11)

Rafael Valladares - A independência de Portugal: Guerra e Restauração 1640 - 1680 (1976) / La rebelión de Portugal 1640 - 1680 (1998)
Este livro é um achado. O tema tem estado sempre ausente das preocupações historiográficas espanholas. Por cá o tema ficou assolado por uma visão nacionalista e, a avaliar pelo mercado editorial, não tem despertado interesse que sustente novidades. Rafael Valladares é um caso sui generis. Para além de um interesse avalizado por uma profunda investigação, demonstra uma rara percepção do como o assunto é visto e sentido por cá. Será, enfim, um dos poucos espanhóis que compreendem a natureza do tal complexo de Aljubarrota... Mas a sua percepção vai mais longe - avança com elementos para se entender esse lugar ausente que Portugal ocupa na cosmovisão espanhola. Com efeito, uma peça essencial na sua tese é a que a perda do império português para a monarquia hispânica foi algo, a todos os títulos doloroso e traumatizante, de tal modo que constituiu o ponto de partida para um processo de perda não superado - um luto que nunca chegou a ser feito e que, com o tempo, cristalizou em esquecimento e ignorância anormais.
A informação discorre pelos caminhos da pura história política. Percebe-se que a Restauração se tornou possível graças ao contexto da política europeia da segunda metade do século XVII. Dois factores tornaram-se decisivos para o seu êxito: o Brasil e os Jesuítas. O pano de fundo favorável é, evidentemente, a decadência do império hispânico dos Habsburgos, a posição ascendente da França (já moldada pela raison d'état de Richelieu), primeiro, e a Inglaterra empenhada em obter o domínio da navegação atlântica, depois. Tal contexto não o ignorava, mas desconhecia muitos dados concretos que os ilustra. Espanta a debilidade da monarquia restaurada dos Braganças, cuja sobrevivência só é compreensível pela ainda mais espantosa inanidade da máquina militar do valido Conde-Duque Olivares. Neste particular há, para mim uma novidade: a sua clarividência política é bem mais débil do que supunha. Via-o mais como vítima de circunstâncias adversas, mas agora parece-me que a sua acção demonstra demasiada obstinação e rigidez. Em todo o caso, a situação ficou por definir muito tempo para além do seu desaparecimento do cenário político. Até quase ao final do século a reintegração de Portugal na monarquia hispânica continuou a ser uma possibilidade muito viável. Uma vez mais, o que acabou por ser decisivo foram os factores da grande política europeia, que jogaram sempre no sentido do enfraquecimento do império espanhol.
Uma nota final para sublinhar a qualidade gráfica desta edição - capa dura, sobrecapa, bom papel e boas gravuras.

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Complexo de Aljubarrota (10) (1 remake)

Federico González - Reflexões de um espanhol em Portugal (2004)
Sempre senti atracção por Espanha. Na verdade, Espanha e Itália por umas razões, Grã-Bretanha por razões de outro tipo, são os países que mais me atraem. Sempre viajei muito por Espanha e posso dizer que conheço Espanha e os espanhóis melhor que a maioria dos portugueses. Este conhecimento foi reforçado pelo facto de ter o meu filho a estudar no Instituto Espanhol e pelo seguimento que faço dos meios de comunicação do país vizinho. Sempre li muito sobre assuntos relacionados com Espanha, podendo dizer que conheço bastante da sua história e geografia.
É um dado conhecido, mas não devidamente tido em conta, o mútuo desconhecimento dos vizinhos ibéricos; melhor dizendo – ambos pensam que se conhecem bem e, na realidade, estão longe de se conhecer bem. O desconhecimento consegue ser ainda maior pelo lado de lá. Ora, sobre isto impõe-se a leitura de Reflexões de um espanhol em Portugal, de Federico González, o qual, com certeiro poder de observação, se deu conta da dimensão do equívoco. O livro é, aliás, delicioso e deveria ser de leitura obrigatória para portugueses e espanhóis que têm de se aturar mutuamente. Pena é que se centre só no âmbito das relações empresariais e laborais.

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terça-feira, dezembro 05, 2006

Complexo de Aljubarrota (9)

Rafael Valladares e a Restauração
Palavras sábias e avisadas a do historiador Rafael Valladares a propósito da Restauração da independência de Portugal, em 1640.
Ler entrevista em O Sol.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Complexo de Aljubarrota (8)

Os desplantes de Mourinho
Para o bem e para o mal, este homem deve ser hoje em dia um dos portugueses mais famosos do mundo. É uma personalidade que suscita emoções fortes e contraditórias. É arrogante e, por isso, compreende-se bem a onda de antipatia que pode gerar. Mas, é um tipo inteligente, que domina como mestre os segredos do futebol - vide a comparação que o jornalista Alfredo Relaño (De fuera vendrá quien las verdades te dirá in As) estabelece com o mítico Helenio Herrera. Um tanto à conta do seu desmedido ego, desenvolve estratégias psicológicas de condicionamento dos adversários e de empolgamento dos seus jogadores. Nisto, é um mestre e vê-se que teve no presidente Jorge Nuno Pinto da Costa um dos seus inspiradores. A mim, produz-me sentimentos contraditórios, que vão da irritação à exaltação. Seja como for, as gratas memórias sobrepõem-se aos sentimentos negativos: é que não esqueço as glórias que trouxe ao meu FC Porto!
A primeira página da Marca deve deixar orgulhosos muito portugueses. Dentro de um certo complexo de pequenês, as façanhas deste homem são percebidas, por muitos, como redentoras. Se, ainda por cima, é o público espanhol o contemplado por mais algum desplante, a coisa sabe ainda melhor... Por um momento, eu próprio cedo a estas emoções primárias e vejo nesta primeira página uma espécie de arremedo de glória pátria (que exagero, enfim...).
Contudo, para além das emoções primárias da tribo lusitana, há que ter em conta que a primeira página da Marca responde a outro tipo de emoções. Na verdade, ilustra um sentimento merengón (ou seja, pró-madridista). Mourinho desenvolveu um particular contencioso com o Barça e este é mais um episódio dessa histórica picaresca. Em Madrid olha-se, no mínimo, com simpatia para quem cause mal-estar can Barça. O que se passa, é que a relação de Mourinho com o clube por onde passou discretamente como tradutor e adjunto é de amor / ódio. Talvez, no fundo, ele sonhe ser idolatrado nas ramblas, mas se tal não poder ser, encontra consolo em continuar a ser aí odiado e vir a ser um dia aclamado na madrilena Cibeles. Quem sabe se, ao fim e ao cabo, o porta-estandarte do orgulho lusitano está em Londres, a expensas de um nababo russo, numa espécie de transito que o conduzirá, mais dia, menos dia, a Madrid ou Barcelona.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Complexo de Aljubarrota (7)

Iberismo
Não cessam os ecos da tal sondagem do Sol em que mais de 1/4 dos inquiridos se manifestavam favoráveis a uma união ibérica. Parece que a revista Tiempo fez algo de similar e que a correspondente manifestação entre inquiridos espanhóis raiava os 50%. Nada de surpreendente. Não tenho notícia de anteriores dados que permitam estabelecer alguma evolução em inquéritos espanhóis, mas sei que no caso português se verifica um incremento. Seja como for, esta é uma temática muito portuguesa e pouco espanhola. Portugal está ausente das preocupações espanholas.
É saudável a evolução da opinião portuguesa. É sintoma de que um nacionalismo primário vai retrocedendo, embora tal suceda, creio, por razões interesseiras. Com efeito, existe por cá a visão exagerada de que os espanhóis vivem muito melhor. De tal monta, que poucos conseguem vislumbrar uma realidade: em Espanha há regiões cujo nível de vida é idêntico ou inferior ao de Portugal. Teoricamente, nada obstaria, em definitivo, a que numa
união ibérica, permanecessemos com um nível de vida idêntico ao que temos. Este iberismo pouco me diz, embora esteja ciente de que na sociedade espanhola existem desbloqueamentos do desenvolvimento que continuam a não existir entre nós. Tampouco me sinto inclinado a lucubrações teóricas de engenharia política que fazem tábua rasa da história. Na verdade, construções utópicas de um futuro confederal (ou algo parecido) parecem-me risíveis. Além de que, resta a questão essencial: substantivamente, que se ganharia? Tornarem-se os vizinhos mais iguais num mundo cada vez mais igual? O que me importa é contribuir para um maior conhecimento entre todos os povos da península, a partir, precisamente, das suas diferenças, construídas pela história e geografia, num quadro civilizacional comum. Este é o meu iberismo. É uma lástima que nós não nos apercebamos da benesse que é estar ao lado de um país tão interessante e estimulante como a Espanha e que, portanto, não saibamos tirar partido desse privilégio. Do mesmo modo, é uma lástima que os nossos vizinhos não se apercebam do mesmo em relação a nós. Sucede que existe uma certa complementaridade entre Portugal e Espanha, que pode ser mutuamente muito gratificante. Só uma escassa elite conhece tal segredo...

terça-feira, setembro 26, 2006

Complexo de Aljubarrota (6)

Prós e contras de 25 de Setembro de 2006 (RTP1)
Gravei o programa para o ver integralmente. Sem surpresa, constatei a enésima manifestação do velho complexo através dos seguintes aspectos: a verborreia da apresentadora, com alguma ignorância e uma contumaz pulsão sensacionalista; o reverente cenário de beija-mão preparado para José María Aznar. Nem a qualidade das intervenções da generalidade dos convidados pôde obviar tais incovenientes. Foi pena até porque Fátima Campos Ferreira até tem algumas qualidades para este tipo de programas...
Aznar foi um bom primeiro-ministro, porque aplicou a velha e sábia receita liberal num momento decisivo. Contudo, fora da área económica,
o seu liberalismo deixou a desejar, porque, na verdade, o seu pensamento é refém de alguma herança franquista. O patético delírio de querer associar o terrorismo etarra com o mega-atentado de 11 de Março é um sintoma desse mal genético. Enfim, trata-se de um desgraçado lastro da direita espanhola... Nas relações externas, o alinhamento com os Estados Unidos, se bem que louvável, foi demasiado primário, representou uma ruptura simbólica com algumas tradições da política externa espanhola, além de que chegou a tornar-se embaraçoso e, em última análise, pouco útil para a estratégia norte-americana. É evidente que estas questões não foram adequadamente discutidas, embora também não se perceba porque é que se enveredou tanto por estes domínios, a não ser, talvez, para tentar realçar a figura de Aznar como estadista...
Sobre
o tema, a discussão não se desprendeu do inconveniente de partir dos pressupostos habituais. Com efeito, a correcta perspectiva da generalidade dos participantes enunciou-se quase sempre em esforço contra argumentativo. Sejamos claros, uma boa parte dos repisados mitos desfazem-se num exercício simplório: olhar para o mapa da Península e ter em conta elementares dados da demografia e da história. Os dados usualmente arremessados para ilustrar a invasão económica espanhola são insuficientes face a realidades elementares. Eu diria, pelo contrário, que vinte anos após a adesão comunitária, é curioso que a presença económica espanhola em Portugal não seja ainda mais expressiva. O curioso, é que, de passagem, foram apresentados dados que atentam contra a ideia de invasão e deles não se soube retirar as devidas ilações, pelo menos para deixar no ar as mais elementares interrogações. Depois desfiaram-se outros comuns estereótipos que, de tão reiterados, sugerem que no luso terrunho se vivem pertinazes obsessões comparativas, que apelam ao divã de um impossível psicanalista colectivo... A diferença de nível de vida, por exemplo. Em Espanha é superior, mas as diferenças continuam a não ser significativas, sendo certo, porém, que nos últimos anos se acentuaram um pouco. Entre meados dos finais 50 e meados dos anos 60 a Espanha ultrapassou o nível de vida de Portugal. Desde então, as diferenças mantiveram-se dentro dos mesmos parâmetros relativos, atenuando-se ligeiramente a favor de Portugal durante os primeiros dez anos de integração comunitária. O que explica essa diferença? Uma cultura empresarial mais capitalista (centrada em três pólos: Catalunha, País Basco e Madrid) e uma armadura proteccionista de direitos laborais um pouco menos pesada. Em todo o caso, não se deve perder de vista que há acentuadas diferenças de nível de vida entre regiões espanholas. Quanto ao fado das idiossincrasias, há que sublinhar que, se é pertinente admitir uma idiossincrasia correspondente a um tipo espanhol, não é menos certo que existem diferenças entre as várias culturas que se integraram na construção histórica de Espanha. A genérica, resultou da convivência de várias culturas sob o mesmo tecto estatal durante séculos e determinou uma moldagem construída a partir do génio castelhano. Contudo, as diferenciações periféricas são acentuadas, a ponto, por exemplo, de se tornar grotesco associar salero, extroversão, alegria e outros tópicos afins à generalidade dos espanhóis. Entre nós são comuns as visões extremadas que não correspondem à realidade espanhola. Com efeito, esta está tão longe de ser invertebrada (exemplo: a ex Jugoslávia), como homogénea (exemplo: França - em devido tempo sujeita ao rolo compressor do jacobinismo). Mais coisas haveria a anotar, mas já chega.


terça-feira, fevereiro 14, 2006

Complexo de Aljubarrota (5)

Afinal é bom ou mau ter um vizinho como a Espanha? (Artigo no Público)

Um dos aspectos recorrentes do "complexo de Aljubarrota" é a fixação na invasão económica espanhola. Muito se fala e se escreve sobre Espanha em Portugal. Quase tanto quanto se ignora Portugal em Espanha... Muitos portugueses não se dão conta desta troca desigual. Na verdade, este é o desequilíbrio que mais pode humilhar as sensibilidades nacionalistas. Menos mal que a maioria nem se dá conta de tão patético desequilíbrio...
Uma boa parte do muito que é publicado na imprensa portuguesa sobre Espanha é matéria económica. Hoje, o suplemento económico do Público, Dia D, apresentou uma reportagem subordinada ao título Afinal, é bom ou mau ter um vizinho como Espanha? Para se ter em conta como esta matéria vende, basta referir que um parte central da primeira página era uma chamada para a reportagem, com uma imagem do touro Osborne, cuja sombra deixa na penumbra uma boa parte do luso terrunho. Em todo o caso, a reportagem, para além de inevitáveis lugares-comuns, apresenta algo inovador: não ignora as debilidades estruturais da economia espanhola. Efectivamente, para além do importante crescimento económico nos últimos anos, bem contrastante com o que ocorre do lado de cá, a economia espanhola também tem problemas e... estruturais. Um é detectável pelo mapa que encabeça este post (Todos os arquipélagos adjacentes foram absurdamente esquecidos...): as desigualdades de nível de vida entre as regiões - é impressionante a diferença entre a Estremadura ou Andaluzia e Madrid, País Basco, Navarra, Catalunha ou Ilhas Baleares! Outra, é o desemprego, o qual, se bem que tendo diminuido nos últimos anos, continua em níveis elevados, ainda superior ao que existe em Portugal. Sobretudo, a reportagem alerta para o facto de que o crescimento económico espanhol assenta muito na especulação imobiliária que estoirou nos últimos dez anos. Associado a este factor temos que o nível de endividamento das famílias é elevadíssimo. Assim, por detrás desta prosperidade pode, eventualmente, insinuar-se a possibilidade de um crash... É certo que os especialistas citados não concedem elevada probabilidade à hipótese, porém o seu veredicto é consensual quanto a uma certa artificialidade do boom do crescimento... Não serve esta advertência para consolar os desanimados nacionalistas portugueses, mas apenas para sublinhar uma ironia que a reportagem agita: se tal crash alguma vez viesse a existir, a economia portuguesa sofreria tanto ou mais do que a espanhola. As realidades são implacáveis. A integração económica entre os dois estados ibéricos é uma realidade que convém, definitivamente, assumir; o contrário serve apenas para agravar todo o tipo de problemas que nos afectam.

domingo, outubro 30, 2005

Complexo de Aljubarrota (4)

Oliveira Martins (1845 - 1894)
Mais coerente e mais programático é o iberismo de Oliveira Martins. De um modo geral as propostas iberistas têm surgido mais frequentemente de correntes ideológicas situadas à esquerda. O socialismo federalista iberista de Oliveira Martins é, neste contexto, ainda, a mais influente de todas as propostas iberistas que alguma vez a intelectualidade portuguesa produziu.

Complexo de Aljubarrota (3)

António Sardinha (1887 - 1925)
Se alguém dentro da intelectualidade portuguesa parece ter estado imune a um complexo de Aljubarrota foi António Sardinha. Contudo, o seu iberismo merece ser analisado com mais detalhe, na medida em que mais do que assente numa teoria de integração política ibérica, parece assente, isso sim, numa atracção pela história e cultura de Espanha, em particular de Castela. Parece que tal se desenvolveu na sequência da sua fuga para Espanha que lhe permitiu conhecer pessoalmente uma realidade que não deixou mais de exercer sobre ele poderosa atracção. Para além desta prevenção, há que ter em conta que o movimento político-cultural em que participou, o Integralismo Lusitano, pode ser considerado, em aspectos essenciais, contraditório com este sentimento iberista. Seja como for, as suas ideias sobre a História dos povos ibéricos de algum modo fazem parte de uma concepção que será, mais tarde desenvolvida por, entre outros, Ramiro de Maeztu.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Complexo de Aljubarrota (2)

Cardinal Richelieu (Armand Jean du Plessis) (1585-1642)
Que faz aqui o Cardeal Richelieu? Pois sucede que hoje é dia 1º de Dezembro, feriado nacional. Poucos serão os portugueses com uma ideia rigorosa sobre o que originou este feriado. A maioria terá ideias que se resumirão à evocação de que "nesse dia nos tornámos independentes dos espanhóis". Os mais informados precisarão a Restauração da Independência como pondo termo a 60 anos de "domínio filipino". Na verdade, esse golpe nobiliárquico, pouco mais do que palaciano, veio criar uma situação que só se definiria cerca de 20 anos depois, no tempo da governação do Conde de Castelo Melhor. A Guerra da Restauração, no essencial, desenrolou-se nesse tempo diferido, muito depois do ocorrido no dia 1º de Dezembro de 1640. Não foi decisivo o sentimento nacional - de resto, este utilizar tal conceito para esta época ainda é parcialmente anacrónico. Foi decisivo, isso sim, o contexto de crise do império hispânico e, mais precisamente, o desafio lançado pela estratégia do "primeiro-ministro" de França, o Cardeal Richelieu. O criador da raison d'état veio alterar os dados estratégicos da Europa, com uma política que visava criar todo o tipo de dificuldades ao império hispânico. Nessa orientação se inseriu a instigação da revolta catalã, que eclodiu em Junho de 1640 e que, durante 19 anos, concentrou os mais importantes recursos militares do valido de Filipe IV, Conde-Duque Olivares. Durante esses 19 anos, Portugal pode preparar-se militarmente. Quando finalmente a máquina militar espanhola, desmoralizada e desgastada foi chamada a "pôr na ordem" os insurrectos portugueses, encontrou pela frente um motivado dispositivo militar de cariz defensivo, superiormente organizado pelo Conde Castelo Melhor. A Restauração ficou, finalmente, assegurada. O seu maior responsável objectivo tinha falecido há mais de 20 anos - fora o criador de la grandeur de la France: Richelieu. Falta um busto dele no monumento aos restauradores...

domingo, agosto 01, 2004

Complexo de Aljubarrota (1)

Federico González - Reflexões de um espanhol em Portugal (2004)
Sempre senti atracção por Espanha. Na verdade, Espanha e Itália por umas razões, Grã-Bretanha por razões de outro tipo, são os países que mais me atraem. Sempre viajei muito por Espanha e posso dizer que conheço Espanha e os espanhóis melhor que a maioria dos portugueses. Este conhecimento foi reforçado pelo facto de ter o meu filho a estudar no Instituto Espanhol e pelo seguimento que faço dos meios de comunicação do país vizinho. Sempre li muito sobre assuntos relacionados com Espanha, podendo dizer que conheço bastante da sua história e geografia.
É um dado conhecido, mas não devidamente tido em conta, o mútuo desconhecimento dos vizinhos ibéricos; melhor dizendo – ambos pensam que se conhecem bem e, na realidade, estão longe de se conhecer bem. O desconhecimento consegue ser ainda maior pelo lado de lá. Ora, sobre isto impõe-se a leitura de Reflexões de um espanhol em Portugal, de Federico González, o qual, com certeiro poder de observação, se deu conta da dimensão do equívoco. O livro é, aliás, delicioso e deveria ser de leitura obrigatória para portugueses e espanhóis que têm de se aturar mutuamente.