No topo do Central Park a 110th Street assinala a entrada no Spanish Harlem, também conhecido como El Barrio. Se na área metropolitana de New York abundam hispanos um pouco por todo o lado, é aqui e no vizinho Bronx onde há a maior concentração. Spanish Harlem fica no extremo nordeste de Manhathan e é lá que estão os símbolos mais visíveis da comunidade porto-riquenha. Foi onde surgiu a salsa. Nessa invenção o protagonismo esteve entre os porto-riquenhos de NY, os newyoricans. Deve-se dizer quetal resultou do facto de constituírem uma comunidade especial, e não só por ser a mais numerosa entre os hispanos... Foram sempre os que mais se destacaram e tornaram-se, portanto, os mais influentes. O facto de recentemente ter surgido uma salsa big band com o nome Spanish Harlem Orchestra está na ordem natural das coisas. E o mesmo se pode dizer de ter editado um álbum com o título Across 110St. Esta big band é dirigida pelo pianista Óscar Hernández, que se destacou nos grupos que acompanharam Rubén Blades (Seis del Solar e Son del Solar) e nos que acompanharam o percussionista Ray Barretto. Propõe uma certa forma de retorno às origens da salsa e, mesmo, aos seus antecedentes orquestrais. É uma via próxima do jazz, tanto que se pode dizer que estamos em domínios do latin jazz... Neste álbum, o segundo, verifica-se que é uma proposta ao mesmo tempo de renascimento e modernização, cujo resultado é espectacular. De notar ainda a participação vocal de Rubén Blades, que é como que uma cereja no topo do bolo... Em suma, magnífico! Especialmente indicado para quem quer saber o que é salsa da mais pura.
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Spanish Harlem Orchestra / Rubén Blades - Como lo canto yo in Across 110St(2004)
Na sequência do filme El cantante foi editado o álbum da banda sonora, com as interpretações de Marc Anthony; mas também foi editado um outro álbum, com as versões originais, de Héctor Lavoe. É este aqui em apreço, o qual é uma colectânea oportuna, na medida em que permite uma aproximação mais rigorosa à matéria inspiradora do filme. Héctor tinha uma voz inconfundível. Nas notas incluídas no encarte do CD, da autoria de Ernesto Lechner, diz-se que era uma "voz profunda e aguerrida". Marc Anthony tem dotes de soneromas não pode, naturalmente, fazer sugerir plenamente essa voz. E não só. Héctor tinha um jeito muito peculiar de vocalizar, jingando, que se integrava magnificamente na fraseologia rítmica da salsa. Além do mais, tinha uma imagem, digamos, de crooner decadente. Aliás, o que se pode caracterizar como decadente confundia-se com uma pose rufia. A temática de muitas das suas músicas, assim como a sua vida, reforçaram essa imagem, que encontra correspondência num dos seus apodos, "El chico malo de la salsa" e na qualificação do seu estilo como salsa brava. O que pode haver de rebelde na imagem dos modernos soneros é mais pop e, portanto, muito mais convencional. Héctor Lavoe formou com Willie Colón o tandem que lançou a salsa. Foi com eles que a editora Fania se abalançou no propósito de se tornar numa espécie de equivalente latino da Motown ou da Stax. Viviam-se os finais dos anos 60 e inícios dos 70. Era uma parceria fulcral - um, representava a orquestra; o outro, a voz. Em meados de 70 outro grande nome da salsa, Rubén Blades, tornou-se o sucessor de Héctor como vocalista de Colón. Mas este facto, mais do que uma ruptura, representou a consagração de triângulo, pois continuaram as colaborações, só que a três e entrecambiando desempenhos. Basta referir, por exemplo, que El cantante, o tema emblemático, foi composto por Rubén; tema que, aliás, demonstra uma contundente exuberância orquestral. Refira-se, a propósito, que nas composições deste último, como nas composições e arranjos de Colón, há uma grandiosidade sinfónica que encontra na voz de Héctor a correspondência mais adequada. Note-se, finalmente, que com abundante informação no encarte e abrangendo gravações do período inicial, em que era o vocalista da orquestra de Colón, esta colectânea é mais completa do que a maioria das que existem de Héctor Lavoe, el cantante de los cantantes.
El cantante termina com esta versão do tema que dá nome ao filme. De notar que no final, são introduzidas imagens reais do funeral de Héctor Lavoe. Por elas se pode verificar a popularidade del cantante de los cantantes.
El cantante como filme, propriamente dito, não é nada de especial, mas vale a pena pela música e pela informação. Essa bela estampa de mulher que é Jennifer López e o seu marido, Marc Anthony, não parece que tenham aqui grandes desempenhos interpretativos. A realização também não parece acertada no ritmo da acção. Em boa verdade, a história é um pouco desconexa e, ao fim e ao cabo, tudo redunda numa espécie de videoclip contínuo. Até certo ponto, ainda bem, pois a música é boa... Trata-se de salsa; Marc Anthony é um bom sonero; a produção musical corre por conta de Willie Colón - figura maior do universo salsero. Porém, o filme propõe-se reconstituir o percurso artístico daquele que foi um dos maiores soneros de sempre, Héctor Lavoe, e é uma pena que a sua vida e carreira não tenham dado azo a um grande filme. As qualidades interpretativas fizeram de Lavoe um mito. A sua vida trágica acentuou a dimensão do mito. Morreu de SIDA,numa decadência assinalada pelo consumo de drogas e tentativas de suicídio. Aliás, o filme não consegue suficiente densidade dramática ao abordar esses momentos. Em todo caso, sublinhe-se a boa música e também o contributo que dá para se entender o caldo de cultura de onde emerge a salsa, essa moderna simbiose de ritmos de Puerto Rico e Cuba com epicentro em Nueva York. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Info IMDB
Em Salsa-Central.com encontra-se uma lista dos 100 melhores CDs de salsa de sempre. A origem está na revista porto-riquenha Primera Hora. Todas as lista deste tipo desencadeiam controvérsia, contudo podem ser uma orientação útil para iniciados. Diga-se que dificilmente se encontrará algum destes CDs em Portugal. Na verdade, não importa muito, graças à possibilidade de os comprar pela Internet. De Espanha, França e, muito especialmente, dos Estados Unidos pode-se conseguir o que se pretende. A destacar: Amazon.com e CD Universe.
Andy Montañés / La Dimensión Latina
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Andy Montañés & La Dimensión Latina
Batacumbele
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Con un poco de songo
Bobby Valentín
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Algo nuevo
Bobby Valentín
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Musical seduction
Bobby Valentín
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Rompecabezas
Bobby Valentín
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Soy boricua
Celia Cruz / Johnny Pacheco
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Pete, Celia & Johnny
Celia Cruz / Tito Puente
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Homenaje a Benny Moré Volumes 1-2-3
Charlie Palmieri
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Heavyweight / Electro duro
Cheo Feliciano
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Cheo
Cheo Feliciano
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Estampas
Cheo Feliciano
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Sentimiento, tú...
Conjunto BorinCuba / Justo Betancourt
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Conjunto BorinCuba with Justo Betancourt
Domingo Quiñónez
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Poeta y guerrero
Eddie Palmieri
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Champagne
Eddie Palmieri
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Lo que traigo es sabroso
Eddie Palmieri
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Superimposition
Eddie Palmieri
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The sun of latin music
Eddie Palmieri / Tito Puente
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Masterpiece
El Gran Combo
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40th anniversary live!
El Gran Combo
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Acangana
El Gran Combo
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Nuevo milenio, el mismo sabor
El Gran Combo
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Happy days
El Gran Combo
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Mejor que nunca
El Gran Combo
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Unity
Familia RMM
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Combinación perfecta
Fania All Stars
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Commitment
Fania All Stars
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Live at the Cheetah Vol # 1 & 2
Fania All Stars
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Live at Yankee Stadium Vol # 1 & 2
Frank Ferrer
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2013
Frankie Ruiz
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Mi historia: Edición limitada
Gilberto Santa Rosa
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Esencia
Gilberto Santa Rosa
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Perspectiva
Héctor Lavoe
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Comedia
Héctor Lavoe
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La voz
Impacto Crea
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Impacto Crea
Ismael Miranda
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Así se compone un son
Ismael Rivera
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Eclipse total
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El sonero mayor
Ismael Rivera
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El único
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Soneando trombón
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Riot
Joe Cuba Sextette
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Comin’ at you
Joe Cuba Sextette
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Wanted dead or alive
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El maestro
Johnny Pacheco / Pete “El Conde” Rodríguez
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De nuevo los compadres
Johnny Pacheco / Pete “El Conde” Rodríguez
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Champ
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Distinto y diferente
Justo Betancourt
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Pa’ bravo yo
La Conspiración
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Ernies conspiracy
La Solución / Frankie Ruiz
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La Solución with Frankie Ruiz
Lalo Rodriguez
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Simplemente Lalo
Larry Harlow
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Electric
Larry Harlow
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Larry Harlow
Larry Harlow / Ismael Miranda
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Tribute to Arsenio Rodriguez
Lebrón Brothers
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Salsa y control
Louie Ramírez / Ray de la Paz
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Con caché!
Luis “Perico” Ortiz
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Sabor tropical
Luis “Perico” Ortiz
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Super salsa
Machito
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Carambola
Machito / Lalo Rodriguez
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Fireworks
Manny Oquendo / Libre
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Ahora!
Marvin Santiago
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Fuego a la jicotea
Oscar D’León
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Oro salsero: The best of Oscar D’León
Pete “El Conde” Rodriguez
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Este negro si, es sabroso
Puerto Rico All Stars
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Los Profesionales & Puerto Rico All Stars Volumes 1 & 2
Foi o último álbum que Gilberto Santa Rosa gravou com a sua orquestra. Chegara até aqui, ao longo de uma dúzia de anos, com uma orquestra estável, sendo que, até determinada altura, nos espectáculos e discos apresentava-se como Gilberto Santa Rosa y su orquesta. Dir-se-ia que é em jeito de consagração que, no encarte, aparecem, em destaque, cada um dos componentes da orquestra, agrupados em trompetas, saxofon, trombones, percusion, coro, bajo y piano. Ao todo são treze músicos. O conteúdo atesta o virtuosismo da trupe. É, efectivamente, um desempenho empolgante. Contudo, para tão gratificante constatação de riqueza orquestral, assinale-se também algo inusitado: a presença de cordas. Evidentemente, tal extravasa do âmbito salsero e não poderia estar a cargo da sua orquestra. Com efeito, é um conjunto de músicos convidados que trás a sonoridade de violinos, violoncelos e violas... O que se nota no início de vários temas. Este envolvimento sinfónico confere uma personalidade particular ao álbum e acentua o carácter estilístico do Caballero de la salsa, levando a extremos de suavidade a aliança entre ritmo e melodia. Sem nunca sair da salsa, note-se. Aliás, dá-se o caso que, numa meia-dúzia de temas, não deixa de arremeter com salsa bem caliente... Em suma, espectacular!
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Gilberto Santa Rosa - Mal herido in Cara al viento(1994)
Raimon canta Al vent. É um dos mais emblemáticos temas deste cantautor de Xàtiva, terra onde se fala valenciano, o dialecto catalão que, pela fonética, se aproxima do castelhano. É, sublinho, um tema emblemático. Tenho o EP original, com o "fritado" próprio do vinil muito usado. Comprei-o, em segunda mão, por 15 euros, há ano e meio em Barcelona. Data de 1963 e é material de valia entre coleccionadores. É um símbolo de um tempo e de um país (D'un temps i d'un país é título de um outro tema de Raimon e foi retomado por Serrat como título de um álbum evocativo dos tempos áureos da cançó). Al vent foi, nos anos 60, um hino anti-franquista. Diz Raimon que lhe surgiu quando, estrada fora, em cima de uma vespa, se dirigia de Xàtiva a Valencia, onde era aluno de História. Na letra e cadência transporta sentimento de rebeldia. Por isto e pelo facto de não ser cantado na lengua del imperio, tornou-se emblemático; basta dizer que trinta anos depois de ter sido gravado, a efeméride foi pretexto para o espectáculo de onde este vídeo foi extraído. Já agora, repare-se que, no palco, atrás de Raimon, estão Luís Cília e Paco Ibañez. Pode-se ainda ver Joan Manuel Serrat cantando emotivamente. Ao fundo está uma tela gigante que reproduz a pintura que Joan Miró fez para a capa do álbum de Raimon, Cançons de la roda del temps.
Raimon - Al vent (Barcelona, Palau Sant Jordi, 1993)