sexta-feira, janeiro 16, 2009
Mediterráneo / Mediterrània (53) (34 remake)
Raimon (Ramón Sanchis Pelejero) é o decano da cançó catalana, mas não é propriamente catalão, é valenciano. Nasceu em Xàtiva, no sul da província de Valencia. Convém saber que a área linguística catalã estende-se pelo litoral das terras valencianas até ao sul da província de Alicante. As localidades de Elx (Elche) e Crevillent, já próximas de Murcia, assinalam os seus limites meridionais. A forma valenciana de falar catalão (valencià) diferencia-se por uma fonética de vogais mais abertas e por um vocabulário com certas especificidades, uma boa parte das quais de origem árabe. Juntamente com um punhado de intelectuais valencianos, onde avulta Joan Fuster, Raimon foi, nos anos 60 e 70, intérprete de um ideal pan-catalanista que se traduzia no conceito Països Catalans - comunidade linguística entre Principat (Catalunya), Illes (Menorca, Mallorca, Eivissa) e País Valenciá. Tornou-se figura de proa do catalanismo. Mas, em boa verdade, foi mais do que isso, foi uma dos primeiros cantautores com projecção e nessa medida chegou a ter notoriedade em toda a Espanha, apesar de ter cantado sempre só em catalão. Alguns dos hinos antifranquistas dos anos 60 foram da sua lavra. Em qualquer lugar de Espanha os seus espectáculos transformavam-se em comícios. Porém, a sua música foi-se desenvolvendo para além das intervenção política. No início, a crua simplicidade da sua música, assente numa simples guitarra e em acordes lineares, fazia ressaltar uma voz poderosa e expressiva. Este trunfo sempre o manteve. Mas, já em 1966 havia sinais num outro sentido. Nesse ano saiu o álbum Cançons de la roda del temps, onde Raimon pôs em música poemas de Salvador Espriu e tinha uma capa da autoria de Joan Miró. Esta linha levá-lo-ia mais tarde aos poetas valencianos de finais da Idade Média, como Ausiàs March. Nos anos 80 e 90 estava já longe do panfletarismo, apostando por uma via mais valiosa de canção de texto.
Em 2000 é lançada uma reedição de toda a sua carreira discográfica em 10 volumes. No sexto consta Cançons de la roda del temps, não na versão original, mas numa outra, que havia sido entretanto gravada em 1981. A voz ainda poderosa e límpida de Raimon e o adusto lirismo de Espriu proporcionam uma experiência tão interessante como na versão original.
Em 2000 é lançada uma reedição de toda a sua carreira discográfica em 10 volumes. No sexto consta Cançons de la roda del temps, não na versão original, mas numa outra, que havia sido entretanto gravada em 1981. A voz ainda poderosa e límpida de Raimon e o adusto lirismo de Espriu proporcionam uma experiência tão interessante como na versão original.
Raimon - Cançó del matí encalmat (1981) in Raimon: Nova integral (2000)
segunda-feira, janeiro 12, 2009
terça-feira, janeiro 06, 2009
Cuore Matto (24) (9 remake)
Ornella Vanoni - La voglia di sognare (1974)
Nos anos 70, um pouco em contra-tendência, a canção italiana atinge a sua plenitude. É um facto que o Festival de San Remo estava cada vez mais longe do esplendor da década anterior, mas, em contrapartida, a produção discográfica utiliza meios de produção mais modernos, incorporando, pontualmente, alguns elementos oriundos do pop/rock. A perda de importância do cançonetismo, em Itália, traduz-se, assim, mais no plano quantitativo e, eventualmente, comercial, do que no plano substantivo da qualidade. É o que se passa com Ornella Vanoni, uma das consagradas dos tempos áureos de San Remo.
La voglia di sognare apresenta uma linha melodiosa homogénea. Contudo, o repertório não deixa de ser relativamente variado, com duas versões de temas franceses e uma versão de um tema brasileiro, sendo os oito restantes temas inéditos de consagrados compositores italianos. O valor do conjunto é elevado, mas o destaque vai para Un mondo di più, de Lucio Dalla e Sergio Bardotti - um sugestivo tema de amor que prova como a voz de Ornella, apesar de frágil, pode ser insinuante e quente...
La voglia di sognare apresenta uma linha melodiosa homogénea. Contudo, o repertório não deixa de ser relativamente variado, com duas versões de temas franceses e uma versão de um tema brasileiro, sendo os oito restantes temas inéditos de consagrados compositores italianos. O valor do conjunto é elevado, mas o destaque vai para Un mondo di più, de Lucio Dalla e Sergio Bardotti - um sugestivo tema de amor que prova como a voz de Ornella, apesar de frágil, pode ser insinuante e quente...
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Ornella Vanoni - Un mondo di più in La voglia di sognare (1974)
Viagens (67): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (10)
7º Dia (6ª Feira)
O último dia foi dedicada às compras, tanto quanto o remanescente de liras e saldo do Visa permitissem. Entretanto, aprendi que os bilhetes para os eléctricos (e metro), no valor de 2.000 liras, eram exclusivamente comprados em bares, quiosques e estações de metro. Finalmente, o calor abrandara. Comecei por me dirigir à estação de Cadorna para me assegurar que era dali que saía o comboio para o aeroporto. Depois fui caminhando até ao centro. Não consegui encontrar a igreja desconsagrada que funcionou nos anos 70 como estúdio e onde Mina gravou alguns dos seus melhores discos.
Passei junto ao Castelo Sforzesco. É uma construção austera, com uma torre imponente, que se situa num parque. Os Sforza dominaram o Milanado nos finais da Idade Média. Depois, o território passou para a soberania da Casa de Áustria, vindo a integrar o Império Espanhol. Em meados do século XVII passou para o Império Austríaco. Assim se manteve até ao Rissorgimento. Há vestígios do domínio espanhol, mas há muitos mais do domínio austríaco. Até meados do século XIX as pessoas cultas dominavam tanto o italiano como o alemão. O povo falava milanês, o qual já não se ouve hoje em dia nas ruas - parece que subsiste nas zonas rurais. Escutei-o numa rádio local (Radio Meneghina) e soa assim como que uma mistura de italiano com francês.
Do Castelo Sforzesco parte a elegante Via Dante, que está reservada a peões... e bicicletas. Diga-se, que é frequente ver gente a andar de bicicleta, tanto nestas artérias como nas de trânsito normal. O castelo ainda dominava, ao fundo, quando uma curva me fez desaguar no Duomo.
Perdi-me nas livrarias e lojas de discos situadas à volta do Duomo. Não me admirei com a ampla oferta de temas de arte e arquitectura. A de mapas é também muito boa. Há uma abundante literatura sobre futebol. Quanto às lojas de discos, é visível que a fórmula Virgin é mais bem sucedida que a fórmula FNAC, ao contrário do que sucedeu em Espanha e Portugal.
Os quiosques têm uma oferta variada, quer pelas revistas, quer pelos diários provinciais. Contudo, em Milão mais de metade das pessoas que levam jornais nas mãos (e são muitas), fazem-no com o Corriere della Sera, que desde há muito (pese o nome) passou a ser matutino. Entre os quatro jornais de informação geral de difusão nacional, um está sediado em Roma (La Repubblica), outro em Turim (La Stampa) e os outros dois em Milão (Corriere della Sera e Il Giornale). São magníficos no conteúdo e conservadores no seu grafismo – as primeiras páginas têm texto, não são dominadas por grandes títulos e fotos. A ascensão de La Repubblica tem sido notável – é o hoje o jornal da opinião de esquerda, a nível nacional, equivalente ao El País, em Espanha. O Corriere della Sera é conservador moderado e traduz uma sensibilidade própria da burguesia do Norte de Itália. Entre os dois, a disputa pela liderança é cerrada e faz-se acima dos 700.000 exemplares de venda média diária! A vantagem vai ainda para o Corriere. Mais atrás, vem o jornal ligado à FIAT - La Stampa (300.000) - e o que de melhor produziu a constelação mediática de Berlusconi, o Il Giornale (250.000). Aqui, os índices de leitura de jornais são altos, mas a média nacional é inferior à de Espanha, algo que só se percebe se se souber que a sul de Roma esses índices são os mais baixos de toda a União Europeia.
Milão, estando muito longe de ser dominada pelo turismo, proporciona uma noção mais precisa da realidade social italiana. Impressionou-me a quantidade de orientais e árabes que vi. Era de esperar ver alguns negros com a tez própria dos somalis ou etíopes (antigas colónias italianas). Vi-os, de facto, mas em quantidade menor do que magrebinos, paquistaneses, tailandeses, vietnamitas... Finalmente, devo referir que os contactos com italianos deram-me deles uma imagem de simpatia natural, sorridentes e solícitos.
O comboio que me levou ao aeroporto de Malpenza, a meio da tarde, durou quase uma hora no trajecto. A minha última imagem de Itália foi, o avião levantando voo, a panorâmica do Lago di Como, do Lago Maggiore e dos Alpes. Bela imagem!
Passei junto ao Castelo Sforzesco. É uma construção austera, com uma torre imponente, que se situa num parque. Os Sforza dominaram o Milanado nos finais da Idade Média. Depois, o território passou para a soberania da Casa de Áustria, vindo a integrar o Império Espanhol. Em meados do século XVII passou para o Império Austríaco. Assim se manteve até ao Rissorgimento. Há vestígios do domínio espanhol, mas há muitos mais do domínio austríaco. Até meados do século XIX as pessoas cultas dominavam tanto o italiano como o alemão. O povo falava milanês, o qual já não se ouve hoje em dia nas ruas - parece que subsiste nas zonas rurais. Escutei-o numa rádio local (Radio Meneghina) e soa assim como que uma mistura de italiano com francês.
Do Castelo Sforzesco parte a elegante Via Dante, que está reservada a peões... e bicicletas. Diga-se, que é frequente ver gente a andar de bicicleta, tanto nestas artérias como nas de trânsito normal. O castelo ainda dominava, ao fundo, quando uma curva me fez desaguar no Duomo.
Perdi-me nas livrarias e lojas de discos situadas à volta do Duomo. Não me admirei com a ampla oferta de temas de arte e arquitectura. A de mapas é também muito boa. Há uma abundante literatura sobre futebol. Quanto às lojas de discos, é visível que a fórmula Virgin é mais bem sucedida que a fórmula FNAC, ao contrário do que sucedeu em Espanha e Portugal.
Os quiosques têm uma oferta variada, quer pelas revistas, quer pelos diários provinciais. Contudo, em Milão mais de metade das pessoas que levam jornais nas mãos (e são muitas), fazem-no com o Corriere della Sera, que desde há muito (pese o nome) passou a ser matutino. Entre os quatro jornais de informação geral de difusão nacional, um está sediado em Roma (La Repubblica), outro em Turim (La Stampa) e os outros dois em Milão (Corriere della Sera e Il Giornale). São magníficos no conteúdo e conservadores no seu grafismo – as primeiras páginas têm texto, não são dominadas por grandes títulos e fotos. A ascensão de La Repubblica tem sido notável – é o hoje o jornal da opinião de esquerda, a nível nacional, equivalente ao El País, em Espanha. O Corriere della Sera é conservador moderado e traduz uma sensibilidade própria da burguesia do Norte de Itália. Entre os dois, a disputa pela liderança é cerrada e faz-se acima dos 700.000 exemplares de venda média diária! A vantagem vai ainda para o Corriere. Mais atrás, vem o jornal ligado à FIAT - La Stampa (300.000) - e o que de melhor produziu a constelação mediática de Berlusconi, o Il Giornale (250.000). Aqui, os índices de leitura de jornais são altos, mas a média nacional é inferior à de Espanha, algo que só se percebe se se souber que a sul de Roma esses índices são os mais baixos de toda a União Europeia.
Milão, estando muito longe de ser dominada pelo turismo, proporciona uma noção mais precisa da realidade social italiana. Impressionou-me a quantidade de orientais e árabes que vi. Era de esperar ver alguns negros com a tez própria dos somalis ou etíopes (antigas colónias italianas). Vi-os, de facto, mas em quantidade menor do que magrebinos, paquistaneses, tailandeses, vietnamitas... Finalmente, devo referir que os contactos com italianos deram-me deles uma imagem de simpatia natural, sorridentes e solícitos.
O comboio que me levou ao aeroporto de Malpenza, a meio da tarde, durou quase uma hora no trajecto. A minha última imagem de Itália foi, o avião levantando voo, a panorâmica do Lago di Como, do Lago Maggiore e dos Alpes. Bela imagem!
domingo, janeiro 04, 2009
Argel - Cairo - Beirute (5) (Cinecittà 3 bis)
Nos anos 50 e 60 a produção cinematográfica italiana era prolífica. Na Europa, os estúdios da Cinecittà eram os que mais filmes faziam. A variedade e a qualidade eram diversificadas. Abrangiam-se todos os géneros e públicos. Esse passado brilha com fulgor. Tanto, que qualquer história do cinema reserva lugar destacado para o neo-realismo italiano (anos 40 e 50), exalta o melhor do western spaghetti (anos 60 e 70), não ignora a melhor comédia (anos 50, 60 e 70) e regista o impacto comercial de variados géneros populares (anos 50 e 60). Contudo, existem filmes que podem não ser tão facilmente detectados, já que não são enquadráveis nesses géneros. É o caso deste.
O género é docudrama político-militar. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um empenho político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos) e que é uma co-produção italo-argelina. Dir-se-ia reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Em boa verdade, não se pode dizer que não o seja, porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ao Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, o filme evita um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou numa vitória. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. O fatalmente prende-se com uma realidade que não podia ser ultrapassada, da qual fazia parte a empedernida cegueira dos pieds-noires (colonos), que teria que deitar tudo a perder, fosse como fosse... O que se pode entender através de algo que o filme atira à cara do espectador: a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num apartheid. Somos levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mentalidade e forma de vida do pied-noir. O contraste é violento. É um cenário de tragédia sem solução. Na Argélia, como em muitas outras colónias ficaram todos as perder.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Info IMDb
O género é docudrama político-militar. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um empenho político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos) e que é uma co-produção italo-argelina. Dir-se-ia reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Em boa verdade, não se pode dizer que não o seja, porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ao Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, o filme evita um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou numa vitória. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. O fatalmente prende-se com uma realidade que não podia ser ultrapassada, da qual fazia parte a empedernida cegueira dos pieds-noires (colonos), que teria que deitar tudo a perder, fosse como fosse... O que se pode entender através de algo que o filme atira à cara do espectador: a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num apartheid. Somos levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mentalidade e forma de vida do pied-noir. O contraste é violento. É um cenário de tragédia sem solução. Na Argélia, como em muitas outras colónias ficaram todos as perder.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Info IMDb
Gillo Pontecorvo - La battaglia di Argeli (Trailer)
Argel - Cairo - Beirute (4)
Chaba Zahouania - Nights without sleeping (1988)
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Chaba Zahouania - Goulou limma (1988)
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















