O último dia foi dedicada às compras, tanto quanto o remanescente de liras e saldo do
Visa permitissem. Entretanto, aprendi que os bilhetes para os eléctricos (e metro), no valor de 2.000 liras, eram exclusivamente comprados em bares, quiosques e estações de metro. Finalmente, o calor abrandara. Comecei por me dirigir à estação de
Cadorna para me assegurar que era dali que saía o comboio para o aeroporto. Depois fui caminhando até ao centro. Não consegui encontrar a igreja desconsagrada que funcionou nos anos 70 como estúdio e onde Mina gravou alguns dos seus melhores discos.
Passei junto ao
Castelo Sforzesco. É uma construção austera, com uma torre imponente, que se situa num parque. Os Sforza dominaram o
Milanado nos finais da Idade Média. Depois, o território passou para a soberania da
Casa de Áustria, vindo a integrar o
Império Espanhol. Em meados do século XVII passou para o
Império Austríaco. Assim se manteve até ao
Rissorgimento. Há vestígios do domínio espanhol, mas há muitos mais do domínio austríaco. Até meados do século XIX as pessoas cultas dominavam tanto o italiano como o alemão. O povo falava
milanês, o qual já não se ouve hoje em dia nas ruas - parece que subsiste nas zonas rurais. Escutei-o numa rádio local (
Radio Meneghina) e soa assim como que uma mistura de italiano com francês.
Do
Castelo Sforzesco parte a elegante
Via Dante, que está reservada a peões... e bicicletas. Diga-se, que é frequente ver gente a andar de bicicleta, tanto nestas artérias como nas de trânsito normal. O castelo ainda dominava, ao fundo, quando uma curva me fez desaguar no
Duomo.
Perdi-me nas livrarias e lojas de discos situadas à volta do
Duomo. Não me admirei com a ampla oferta de temas de arte e arquitectura. A de mapas é também muito boa. Há uma abundante literatura sobre futebol. Quanto às lojas de discos, é visível que a fórmula
Virgin é mais bem sucedida que a fórmula
FNAC, ao contrário do que sucedeu em Espanha e Portugal.
Os quiosques têm uma oferta variada, quer pelas revistas, quer pelos diários provinciais. Contudo, em Milão mais de metade das pessoas que levam jornais nas mãos (e são muitas), fazem-no com o
Corriere della Sera, que desde há muito (pese o nome) passou a ser matutino. Entre os quatro jornais de informação geral de difusão nacional, um está sediado em Roma (
La Repubblica), outro em Turim (
La Stampa) e os outros dois em Milão (
Corriere della Sera e
Il Giornale). São magníficos no conteúdo e conservadores no seu grafismo – as primeiras páginas têm texto, não são dominadas por grandes títulos e fotos. A ascensão de
La Repubblica tem sido notável – é o hoje o jornal da opinião de esquerda, a nível nacional, equivalente ao
El País, em Espanha. O
Corriere della Sera é conservador moderado e traduz uma sensibilidade própria da burguesia do Norte de Itália. Entre os dois, a disputa pela liderança é cerrada e faz-se acima dos 700.000 exemplares de venda média diária! A vantagem vai ainda para o
Corriere. Mais atrás, vem o jornal ligado à
FIAT -
La Stampa (300.000) - e o que de melhor produziu a constelação mediática de Berlusconi, o
Il Giornale (250.000). Aqui, os índices de leitura de jornais são altos, mas a média nacional é inferior à de Espanha, algo que só se percebe se se souber que a sul de Roma esses índices são os mais baixos de toda a
União Europeia.
Milão, estando muito longe de ser dominada pelo turismo, proporciona uma noção mais precisa da realidade social italiana. Impressionou-me a quantidade de orientais e árabes que vi. Era de esperar ver alguns negros com a tez própria dos somalis ou etíopes (antigas colónias italianas). Vi-os, de facto, mas em quantidade menor do que magrebinos, paquistaneses, tailandeses, vietnamitas... Finalmente, devo referir que os contactos com italianos deram-me deles uma imagem de simpatia natural, sorridentes e solícitos.
O comboio que me levou ao aeroporto de
Malpenza, a meio da tarde, durou quase uma hora no trajecto. A minha última imagem de Itália foi, o avião levantando voo, a panorâmica do
Lago di Como, do
Lago Maggiore e dos Alpes. Bela imagem!