domingo, janeiro 04, 2009

Argel - Cairo - Beirute (5) (Cinecittà 3 bis)

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Gillo Pontecorvo - A batalha de Argel [La battaglia di Argeli (1966)]

Nos anos 50 e 60 a produção cinematográfica italiana era prolífica. Na Europa, os estúdios da Cinecittà eram os que mais filmes faziam. A variedade e a qualidade eram diversificadas. Abrangiam-se todos os géneros e públicos. Esse passado brilha com fulgor. Tanto, que qualquer história do cinema reserva lugar destacado para o neo-realismo italiano (anos 40 e 50), exalta o melhor do western spaghetti (anos 60 e 70), não ignora a melhor comédia (anos 50, 60 e 70) e regista o impacto comercial de variados géneros populares (anos 50 e 60). Contudo, existem filmes que podem não ser tão facilmente detectados, já que não são enquadráveis nesses géneros. É o caso deste.
O género é docudrama político-militar. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um empenho político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos) e que é uma co-produção italo-argelina. Dir-se-ia reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Em boa verdade, não se pode dizer que não o seja, porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ao Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, o filme evita um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou numa vitória. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. O fatalmente prende-se com uma realidade que não podia ser ultrapassada, da qual fazia parte a empedernida cegueira dos pieds-noires (colonos), que teria que deitar tudo a perder, fosse como fosse... O que se pode entender através de algo que o filme atira à cara do espectador: a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num apartheid. Somos levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mentalidade e forma de vida do pied-noir. O contraste é violento. É um cenário de tragédia sem solução. Na Argélia, como em muitas outras colónias ficaram todos as perder.
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Gillo Pontecorvo - La battaglia di Argeli (Trailer)

Argel - Cairo - Beirute (4)

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Chaba Zahouania - Nights without sleeping (1988)


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Chaba Zahouania - Goulou limma (1988)

Argel - Cairo - Beirute (3)

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Robert Fisk - A Grande guerra pela civilização (2008) [Great war for civilisation (2005)]

Robert Fisk é um jornalista inglês, correspondente no Médio Oriente há mais de trinta anos. A partir de Beirute tem trabalhado para meios de comunicação social britânicos, nomeadamente o The Times e o The Independent. Poucos terão tanto conhecimento e experiência desta região. Tem-se destacado, não só por isso, mas também por uma abordagem que divulga expressiva e detalhadamente a visão e a perspectiva dos muitos ressentimentos e enfrentamentos em relação ao Ocidente. Tal abordagem tem-lhe feito abrir portas que não se abrem facilmente a jornalistas ocidentais; tem-lhe garantido acesso a fontes privilegiadas de informação. Basta dizer, por exemplo, que Bin Laden foi por ele entrevistado duas vezes - uma no Sudão; outra no Afeganistão. Na verdade, Fisk demonstra a preocupação de entender as razões do outro lado, levando o princípio da neutralidade jornalística a limites que podem, inclusivamente, ser mal-entendidos no mundo ocidental. Em boa verdade, dá-nos pistas para entender equívocos, omissões e contradições em que o Ocidente tem incorrido e que têm contribuído para o arrastamento e agravamento de problemas. O conflito israelo-palestiano é o mais importante, mas está longe de ser o único numa lista que começa, pelo menos, no tempo da I Grande Guerra, aquando do desmoronamento do Império Otomano. É o desfile de uma história de contumaz sobranceria, incompreensão e displicência por parte do Ocidente. Pode-se dizer que, de alguma forma, esta é a tese do livro.
O caudal informativo é portentoso. As descrições são detalhadas e abrangem situações limite, muitas vezes vividas na primeira pessoa. Diga-se, já agora, que Fisk corporiza a figura romântica do correspondente de guerra. Contudo, o livro, se bem que assente nas suas reportagens e artigos, está muito além de uma compilação. É uma síntese com nexo temático em torno dos grandes problemas do Médio Oriente, sendo este aqui um conceito que abrange o mundo árabe (desde o Magrebe), turco, persa, afegão e o indiano islamizado. Para além disso, faz incursões até à I Grande Guerra - "a guerra do seu pai" -, que acabam por ser muito mais pertinentes do que se possa imaginar... Não segue uma orientação cronológica. Está próximo de ser uma síntese de história contemporânea, regional com algumas limitações advindas do facto de ser feita por um jornalista. Contudo, a condição de jornalista propicia também vantagens, como a de se conseguir imagens impressivas de tantas e tantas situações extremas, que têm o condão de fazer perceber e sentir a realidade mais eficazmente do que através de descrições genéricas filtradas por conceitos académicos. Mais do que isso; em matérias como o genocídio arménio (remonta ao desmoronamento do Império Otomano e construção da Turquia moderna) e como a carnificina da Guerra Irão-Iraque, tornam-se pertinentes as descrições fortes, dadas as circunstâncias de omissão que têm rodeado esses extraordinários acontecimentos.
Maneja-se tão vasta e diversificada informação que, muitas vezes. surgem perguntas que não têm resposta. Apetece complementar a leitura desta obra com informações de índole histórica que dêem uma compreensão mais profunda. E já agora, questionarmo-nos se aquilo que atrás referi como tese do livro não será tão-só um dos aspectos para a compreensão dos problemas do Médio Oriente, porventura não o mais decisivo. Com efeito, muita da informação fornecida pode ir ao encontro de outras teses, nomeadamente, as que sustentam que os problemas essenciais preexistiam e já estavam configurados antes do choque contemporâneo com o mundo ocidental.
Uma nota final para um aspecto salientado na recensão critica feita no Público - as deficiências de tradução. No mínimo, parece que os tradutores não estarão suficientemente familiarizados com certos aspectos da cultura árabe. Designar Oum Kalsoum como cantor - ela que foi um autêntico mito, ícone maternal da cultura popular árabe - é, só por si sintomático...

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sábado, janeiro 03, 2009

Argel - Cairo - Beirute (2)


Oum Kalthoum - Al Atlaal (extracto) (1966)

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Salsa y merengue (33) (7 remake)

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Willie Colón / Rubén Blades - Siembra (1978)
Este álbum, editado pela Fania, produzido e dirigido pelo novaiorquino Willie Colón, composto e interpretado pelo panamenho Rubén Blades, é consensualmente considerado o mais importante na história da Salsa. Sobressai, desde logo, o facto de conter o famosíssimo tema Pedro Navaja, crónica de um marginal hispano de Nova York, cuja letra e desenvolvimento rítmico marcarão um estilo de referência. Contudo, os demais temas são magníficos, com destaque para a mordaz crítica social do tema incial, Plástico, (que começa em irónico ritmo disco...), para a sabrosura de Buscando guayaba e para a melodiosa Dime. No seu conjunto constitui uma álbum programático, quer pela proposta artística, quer pela temática, a qual se pode resumir no lema: orgulho hispano.

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Willie Colón / Rubén Blades - Buscando guayaba in Siembra (1978)

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Salsa y merengue (32)

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Gilberto Santa Rosa - Expresión (1999)
É, sem dúvida, um dos mais notáveis álbuns de Gilberto Santa Rosa e, ao mesmo tempo, um dos mais emblemáticos, porque ostenta um dos maiores hits da sua carreira (Que alguien me diga) e porque aponta uma tendência que se consolidará nos anos vindouros. Essa tendência consiste em compatibilizar a condição de sonero com uma emergente faceta de baladeiro. É sintomático que, a partir daqui se torne comum o recurso a versões alternativas (balada vs salsa), tal como, por exemplo, ocorreu com Marc Anthony. É uma estratégia comercial que tem proporcionado um punhado de baladas interessantes e não tem impedido que continue a haver, de forma dominante, muita e boa salsa.
Um dos aspectos mais estimulantes das gravações do Caballero de la Salsa, que é a riqueza orquestral, encontra aqui um dos seus pontos mais altos Na verdade, trata-se de uma produção muito cuidada, com evidentes pretensões comerciais. Não é apenas Que alguien me diga, em versão salsa e versão balada, tendo esta última sido um hit (sendo que, a versão salsa, é que o mereceria... ); é também o explosivo tema de entrada, Dejate querer, que disfere, mesmo no mais sisudo, incontroláveis impulsos dançarinos... E há ainda mais uma meia-dúzia de temas muito bons. Tanto quanto parece, tais pretensões comerciais conseguiram os seus objectivos: ultrapassaram-se os limites do mercado salsero tradicional (Nueva York, Puerto Rico, Santo Domingo, Caracas, Miami) e alcançou-se toda a Hispano-América. Abriu-se, inclusivamente, uma porta para a Europa, timidamente, através do mercado espanhol.
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Gilberto Santa Rosa - Que alguien me diga (versión salsa) in Expresión (1999)

Boulevard nostalgie (29)

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Edith Piaf - Platinum collection (2007)
Esta colectânea de Edith Piaf é constituída por 45 temas divididos por 3 CDs. Para além de abranger tudo o de mais importante, tem uma introdução escrita e notas informativas sobre cada tema. Para os mais exigentes saiba-se que há 2 edições integrais das suas gravações: uma, luxuosa, ligeiramente acima dos 100€ e outra, minimalista, por um incrível preço que anda na casa dos 25€! As gravações de Edith Piaf estenderam-se pelos anos 40, 50 e início dos 60. Era uma época em que, pelo menos fora dos EUA e, eventualmente, da Grã-Bretanha, não havia ainda álbuns LP. Na verdade, o formato esmagadoramente dominante era o EP de 78rpm, que permitia, no máximo 4 canções - duas de cada lado. Os primeiros álbuns apareceram como compilações dessas edições. Presumo, portanto, que de Piaf jamais tivessem existido álbuns de originais. Nestas circunstâncias as compilações têm uma importância especial e para os amantes da música é chocante que em relação aos artistas cuja carreira discográfica passou à margem dos LPs, raramente existam compilações criteriosas e informativas. Piaf, graças à projecção que tem, ainda assim é uma das excepções, pois, como referi, dela existem duas compilações integrais e uma compilação de média dimensão e qualidade aceitável como esta.

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Edith Piaf - Mon manège à moi (tu me fais tourner la tête) (1958)

Boulevard nostalgie (28)


Jacques Dutronc - Il est cinq heures, Paris s'éveille (1968)

terça-feira, dezembro 30, 2008

Boulevard nostalgie (27)

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François Margolin - Paris, la visite (2002)
Antes de mais, diria que estamos perante o non plus ultra dos documentários sobre cidades. A Montparnasse Édtions culmina aqui a reconhecida qualidade de excelência da colecção La visite. Tudo é excepcional: o texto, que reune as qualidades literárias às informativas; o conceito que lhe está subjacente, o qual reproduz num ciclo de 24 horas a evolução histórica da cidade; a fotografia, suavemente oscilando do poético ao realista; a música, através de temas alusivos à cidade apresentados como videoclips originais. Este último aspecto merece relevo, pois basta dizer que o primeiro clip é Il est cinq heures, Paris s'éveille, de Jacques Dutronc e o último é Mon manège à moi, de Edith Piaf. Diferentes facetas da cidade são apresentadas e de modo exaustivo. Mesmo para quem conhece Paris não deixará de descobrir mais atractivos.
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Paris, la visite - Sítio Oficial


François Margolin - Paris, la visite (Extracto)