Joseba Tapia e Xabier Berasaluze "Leturia" constituem um dueto que, entretanto, já se tornou em quarteto. O primeiro é um dos mais exímios tocadores de trikitixa; o segundo toca pandeireta. É, precisamente, sobre esta base simples que se confecciona um música próxima das raízes. Com efeito, desde finais dos século XIX que a música popular basca de índole festiva assenta nesta combinação: trikitixa com pandeireta. Enquanto Kepa Junkera optou por uma via fusionista para a trikitixa e conseguiu notoriedade no universo da world music, Tapia privilegiou mais as origens. Mesmo assim, conseguiu alguma projecção exterior, nomeadamente no Canadá, onde o dueto fez, pelo menos, uma tournée e onde, aliás, o álbum aqui em apreço chegou a ser editado. Um magnífico exemplo, sublinhe-se, do que é a música popular basca e na qual transparece limpidamente a paisagem e o carácter da região. Contudo, deve-se acrescentar que, apesar deste bucolismo, esta opção artística tem, neste caso, subjacente uma certa conotação política que, no mínimo, está próxima do universo abertzale (nacionalismo radical de extrema esquerda). Com alguna ironia, porém, não raras vezes nestas melodias ressoam os ritmos de jotas e fandangos numa iniludível demonstração do peso dos laços com a hispanidade na formação do carácter de Euskal Herria. É que sucede que, apesar de tudo, esta terra nunca esteve assim tão fechada...
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Tapia eta Leturia - Trpitaira in Dultzemeneoa (1992)
O êxito de Kepa Junkera acabou por fazer vir ao de cima um conjunto de virtuosos do acordeão diatónico basco (trikitixa), os quais têm vindo a assegurar a continuidade de uma tradição que remonta aos casarios rurais de Navarra, Guipúzcoa e Vizcaya de finais do século XIX. Iker Goenaga é um deles. Neste seu álbum temos uma sonoridade menos cosmopolita do que aquela que Kepa tem vindo a alardear, mas mais próxima da tradicional, a qual assentava na combinação rudimentar entre triki e pandeireta. O tema Elgeta merece destaque. Além de ser uma bela toada de expressiva rudeza, é uma homenagem a um velho tocador de San Sebastián, conhecido como Elgeta, que nos anos 40, 50 e 60 tocava triki pelas ruas e bares da cidade, vivendo da mendicidade.
Monty Python - Spam in Monty Python's flying circus - 25º Episódio, sketch final (1970)
O ponto mais alto do humor foi alcançado pelos Monty Python na série Monty Python's flying circus, que por cá recebeu a nome de Os malucos do circo. A RTP passou-a nas emissões da hora de almoço, no início dos anos 70. Representa o ponto mais alto do humor e, em particular, do humor absurdo, tipicamente non sense, do qual os ingleses, melhor do que ninguém, conhecem os ingredientes. Muitos foram os sketches brilhantes, que podem agora ser apreciados em edições em DVD que, finalmente, chegaram ao nosso mercado. Este é um dos mais notáveis e tem uma história que merece ser contada. Spam era, e é, o nome de uma marca americana de carne de porco enlatada (tipo presunto). Durante a II Guerra Mundial era a a única carne não sujeita a racionamento. Daí resultou que a sua ruim qualidade se tornasse mais abominável pelas escassas alternativas. Gerações de britânicos, mesmo dos que da guerra já não tinham memória directa, guardaram Spam como sinónimo de algo enjoativo, indesejável. Foi com este lastro de quase trauma colectivo, que a trupe se lembrou da coisa no anárquico e improvisado processo produção de script para um sketch. O bando de vikings cantando as excelsas virtudes do Spam e a descrição da presença obsessiva do mesmo no menu é das coisas mais delirantes que já se viu... Contudo, a história não acaba aqui. Sucede que muito anos depois alguém se lembrou do Spam, por via deste sketch, como termo apropriado para designar a invasão de correio electrónico não solicitado. Ora, como se sabe, o termo pegou. PS: No sketch a obsessão Spam contamina a própria ficha técnica que encerra o episódio. É demais... Monty Python Spam Song
Ernest Hemingway - Fiesta [The sun also rises (1926)]
Li algures que as festas de San Fermín são actualmente o maior evento festivo do mundo a seguir ao Carnaval do Rio e à Festa da Cerveja de Munique. É bem possível que assim seja, tanto mais que, ano após ano, acresce a afluência de jovens forasteiros de todo o mundo. Uma boa parte deles são britânicos e a maioria são norte-americanos. A origem do fenómeno está, evidentemente, em Ernest Hemingway e, em particular, no romance Fiesta. Pamplona está reconhecida ao escritor e são múltiplas as referências que o atestam. Por exemplo, junto à Praça de Touros há um grande busto acompanhado por palavras que traduzem eloquentemente um espírito cívico de gratidão. É como se o escritor norte-americano se tivesse tornado património pamplonês; e é justo que assim seja! Ora, sucede que o romance é, além do mais, excelente. Merece ser lido não só por dar uma visão expressiva dos festejos, mas também por ser representativo de um género que mistura realismo documental com trama própria de ficção. Hemingway foi um dos melhores exemplos de jornalista-escritor ou, talvez mais apropriadamente, de escritor-jornalista e este romance é do mais inspirado que nessa dupla condição se produziu.