sábado, março 22, 2008

Flamenco (31) (7 remake)

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José Soto Sorderita - Mi secreto pirata (1995)
José Soto Sorderita foi a primeira voz solista de Ketama e, na verdade, mesmo depois de ter saído, não deixou de continuar ligado ao grupo, já que regressou expressamente para participar nas duas edições do extraordinário Songhaï, que é, talvez, a obra cimeira do nuevo flamenco e, mundialmente, um dos mais aclamados produtos da chamada world music. Tem um timbre de voz bem flamenco, mas na variante fina. Sem desprimor para Antonio Carmona, que herdou a condição de voz solista de Ketama, Sorderita tem uma maior delicadeza, que, em certos temas, consegue ser oportunamente expressiva. Este álbum foi editado numa época em que Ketama estava já consagrado e a projecção de Sorderita continuava subsidiária da fama do grupo. Era o momento para reafirmar um caminho autónomo, em que o fusionismo é entendido de uma forma menos heterodoxa. Não temos aqui experimentalismo radical, temos, isso sim, uma linha de fusão que nunca ultrapassa um determinado limite. Em que consiste? Por exemplo: numa seguiriya utiliza-se um piano em vez da guitarra; nuns tanguillos ou numas bulerías recorre-se a guitarras eléctricas. Mas, com estas roupagens nunca deixam de ser bem reconhecíveis os palos (estilos básicos do flamenco). A destacar: Puros sesenta e o tema que dá nome ao álbum (respectivamente tanguillos e seguiriyas) que sintetizam inspiradamente o espírito de fusão entre casticismo e modernidade.
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José Soto Sorderita - Puros sesenta (1995)

terça-feira, março 11, 2008

Tanguedia (3)

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Carlos Gardel - The king of tango - Vol 1, Vol 2 (1999)
Há muitas antologias em CD de Carlos Gardel, mas são poucas as que apresentam qualidade de edição. Aparte algumas provenientes da Argentina ou de editoras sofisticadas do Japão, EUA, Grã-Bretanha ou França, cuja pontaria a públicos minoritários contempla os cultores do tango clássico, o que se encontra é, regra geral, descuidado e, por vezes, indigente. Contudo, no mercado português pode-se encontrar uma excelente antologia. É composta por dois volumes e é da editora britânica Nimbus. Apesar de desconcertante não inclusão de alguns dos êxitos mais conhecidos (Mi Buenos Aires querido, por exemplo), é compensador encontrar um encarte com abundante informação, incluindo resumos das letras de todos os temas. Além disso, a apresentação gráfica tem bom-gosto e é cuidada.
As gravações de Carlos Gardel têm, inevitavelmente, uma rusticidade que choca com modernos padrões de pulcritude sonora e sofisticação orquestral. Mas, em certa medida, por isso mesmo, ressalta a qualidade da voz carismática, plena de expressividade, onde o característico sotaque porteño tem um papel relevante. Além disso, há as letras... que expressam emoções excessivas, num registo oscilante entre o macho castigador e o macho enganado. É, enfim, o tango mais puro consagrado assim no arquétipo gardeliano para a eternidade. Aliás... Gardel cada día canta mejor.
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Carlos Gardel - Mano a mano (1928)

domingo, março 09, 2008

Tiro ao alvo (19)

Em Tiro ao alvo (10), na sequência de apreciações muito mais positivas do que negativas acerca da política da educação, rematei da seguinte forma: "Em todo o caso, o ministério navega no rumo certo. Que a nave não naufrague entre as violentas tempestades que se avizinham!". Pois devo agora dizer que o rumo não se tornou incerto, mas, entretanto, tornou-se claro que o porto de chegada não é o melhor... E, dada a obstinação do timoneiro, começo a desejar o... naufrágio.
O modelo de gestão parece positivo. É desejável que a gestão das escolas deixe de estar cativa dos interesses corporativos dos professores. Contudo, noutras áreas sensíveis e decisivas as opções têm sido más. É assim com o modelo de avaliação de desempenho e, de um modo geral, com parte da avassaladora produção legislativa (alguém aplicou-lhe a designação de diarreia legislativa) em que destaco o modo como foi criado o corpo de professores titulares e, mais recentemente, o estatuto do aluno. São regulamentações complexas, por vezes contraditórias e ambíguas, lavrando injustiças a eito e criando problemas desnecessários. Descontadas as compreensíveis necessidades de aliviar encargos salariais, se algo parece claro, é, efectivamente, a pretensão de fazer grandes mudanças em pouco tempo. É indispensável introduzir grandes mudanças no nosso sistema de ensino. Porém, não é atinado querer mudar em tantos domínios, ao mesmo tempo, de modo tão radical e, o que é pior, em certos domínios cruciais, no sentido errado. Sucede que esta equipa não quer, simplesmente, pôr as coisas melhores, como fez com medidas tomadas no início e que, por exemplo, reduziram drasticamente os furos e o absentismo. Deveria prosseguir mais moderadamente, salvaguardando o que de bom tem feito, garantindo mais segurança e eficácia no que falta fazer e corrigindo erros. Mas parece que não quer ouvir nada nem ninguém. Assim, conclui-se, insisto, que não quer, simplesmente, pôr as coisas melhores. Quer ir, muito mais longe. Quer criar um mundo novo. Diria que parece estar acometida de um espírito messiânico, de tipo jacobino ou bolchevique... É inquietante, pois os redentores são perigosos, ainda mais num território tão sensível como o da educação. Apesar dos propósitos da senhora ministra, apesar do muito de positivo que já foi feito, parece que na equipa ministerial impera um espírito de cruzada, provavelmente inspirado em alguns credos mais ortodoxos das ciências da educação. Justifica-se esta inquietação, pois muito do que se vai revelando é próprio das teorias obcecadas por objectivos e competências, que têm ajudado a levar a educação ocidental ao descrédito. Já agora, diga-se que, curiosamente, este é o mesmo continente ideológico da velha esquerda que formou o nosso sindicalismo... A base são concepções rousseaunianas, onde a escola é vista como um lugar mais de prazer do que de esforço e relativiza-se a disciplina.
No que diz respeito à avaliação de desempenho, é um modelo orientado para uma realidade de papel traduzível em estatísticas. Objectivamente, é uma forma de obter indicadores a partir de estereótipos beahaviouristas, que são extrapolados e magnificados. Contudo, num ambiente inopinadamente competitivo, será também um infernozinho burocrático, assente em facilitismo para os alunos e só gratificante para os professores mais jeitosos em compôr a sua "aldeia Potemkine". Para aprimorar a coisa, em muitas escolas, a avaliação inter pares adiciona desconfianças, promiscuidades e invejas próprias de relações pessoais que há muito descambaram do plano profissional. Ou seja, burocracia e intriga. É certo que alguma melhoria resultará na prática lectiva, mas o processo será demasiado desgastante. Ou seja, a relação custos/benefícios será má. E, afinal, a alternativa seria simples: deixar no futuro director todas as competências avaliadoras, que seriam expeditamente tramitadas ao fim de três anos. Sem burocracias e esforços inúteis! Haveria ainda outras alternativas, como preparar um corpo especializado de inspectores. Mas escolheu-se um modelo burocrático, fomentador de intriga, amigo de zelotas das grelhas, de jardineiros de portfolios e encenadores habilidosos.
Nestas circunstâncias passo para o outro lado, onde agora, ironicamente, surgem propostas alternativas válidas, geradoras de menos injustiças e onde, até, os sindicatos já fazem um implícito reconhecimento de que o que existia antes era insustentável.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Memória do futebol (9)

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Keir Radnedge - 50 años de la Copa de Europa y la Liga de Campeones [50 years of the European Cup and Champions League], 2006
A mais importante e prestigiada competição mundial de clubes merecia um livro assim. Trata-se, evidentemente, da Taça dos Campeões Europeus e da vigente herdeira Liga dos Campeões. Celebra os cinquenta anos da competição. O autor é inglês, o que não admira. A maior parte da bibliografia sobre a história e a sociologia do futebol é de origem inglesa. Comprei a versão espanhola. Tanto quanto sei, não há versão portuguesa. O texto corre ao longo da história com uma sóbria objectividade, que não impede que se saliente com o merecido tom épico muitos momentos marcantes. Por exemplo, a final de Glasgow, em que o mítico Real Madrid de Di Stefano venceu os destemidos amadores alemães do Eintracht de Frankfurt por 7-3. Ou aquela em que o mesmo Real Madrid de Di Stefano, já decadente, foi batido pelo Benfica de Eusébio por 5-3, em Amesterdão. E, já agora, indo ao encontro das minhas paixões clubísticas, aquela outra, muito mais tarde, em Viena, em que os arrogantes alemães do Bayern foram derreados pelo arreganho de João Pinto, pelas fintas de Futre e pelo... calcanhar de Madjer! Tantas e tantas emoções! Como se não bastasse a magnífica crónica, existe abundante ilustração fotográfica e iconográfica e depoimentos de algumas figuras marcantes: Di Stefano, Eusébio, Bobby Charlton, Beckenbauer...
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sábado, fevereiro 16, 2008

Tanguedia (2)

Clarin AM580, Montevideo
A Internet opera milagres. Neste caso o milagre é voltar ao passado. Melhor dizendo, em voltar ao passado, através do que se faz em lugares especiais. Com efeito, pode-se ouvir, directamente de Montevideo, República del Oriente del Uruguay, uma emissora de rádio retro, como já não se julgava possível poder existir... E, paradoxalmente, baseando-se na moderna fórmula de playlist, só que... de tango e mais tango (do puro e duro, ou seja, do clássico), temperado com música folclórica gaúcha. Na primeira metade das horas pares impera o sumo pontífice da tangocracia: Gardel. Religiosamente, assim, em cada cinco dias se passa em revista toda a sua obra gravada. A emissora é um templo consagrado ao culto gardeliano.
Sendo uma emissora uruguaia, vem a propósito esclarecer que o território natural do tango não se confina à Argentina. Este, em rigor, é
a bacia do Rio da Prata, que abrange também o Uruguai. Aliás, com a sua castiça e pomposa dicção (um atractivo adicional!), os locutores anunciam que emitem para toda la cuenca del Plata. Impõe-se a alusão à dicção, que é mesmo à maneira antiga (são verdadeiros locutores e não desconchavados animadores...), assim como aos anúncios (los avisos), que parecem vindos directamente dos anos 30 ou 40...
Eis a declaração de princípios da Clarin AM580:


Parafraseando um lema da emissora:
¡Qué lindo és ser oriental!
(Oriental é sinónimo de uruguaio).


Web
: Clarin AM580

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Tanguedia (1)


Carlos Gardel - Volver (1934)
Sublime! Carlos Gardel interpretando uma das mais belas músicas de sempre com aquela voz carismática que se soltava divinamente das espiras carcomidas de velhas gravações em vinil. Parece ser um trecho retirado do seu último filme e dir-se-ia, ignorando o argumento, que as águas só podem ser as do Rio da Prata e o volver só pode ser o voltar aos braços da amada que o esperaria em Buenos Aires...

domingo, fevereiro 10, 2008

La movida (19) (5 remake)

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Gabinete Caligari - Discografia básica: Héroes de los 80 (1981-1983) / Cuatro rosas (1984) / Que Dios reparta suerte (1983) /Al calor del amor en un bar (1986)
Gabinete Caligari foi um dos grupos mais carismáticos e originais de la movida. Foram os criadores do que então foi designado como rock torero, que consistiu numa infusão de casticismo nas iconoclastas modas da vanguarda madrilena. O seu tema mais identificador foi Que Dios reparta suerte (o título é, já por si, um lema castiço...), de 1983. Teve impacto, com a sua cadência de pasodoble e ressoar de castanholas no meio de parafernália eléctrica. Um outro tema, do ano seguinte, alcançou também impacto: Cuatro rosas. Já não estava tão alinhado com esse estilo, pois, se bem que inserido na vaga neo-romântica, situava-se, um pouco inesperadamente, na vertente mais melódica. Passados já mais de vinte anos, resplandece como um dos melhores temas de sempre do pop/rock espanhol e um dos hinos de la movida. Ambos constam desta compilação de três álbuns e singles, editados originalmente entre 1981 e 1986.

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Gabinete Caligari - Cuatro rosas (1984)

Espanha - 01/04/1985: #22 Top Álbuns (12 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Dancing days (21)

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ABBA - Voulez-Vous (1979)

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ABBA - Does your mother know in Voulez-Vous (1979)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Dancing days (20)

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ABBA - Waterloo (1974)
Em 1974 os ABBA deram-se a conhecer ao mundo, ganhando o Festival Eurovisão da Canção, com Waterloo. Instalaram-se no palco global por quase uma década, coleccionando êxitos atrás de êxitos. A sua universalidade fez-se de um pop dançável, musiquinhas simples e uma imagem juvenil que sugeria o hedonismo próprio desses tempos despreocupados que foram os anos 70. Mais escape que despreocupação, deve-se sublinhar, já que de instabilidade económica e política foram feitos esses anos... Seja como for, para todos os efeitos, os ABBA estavam no mainstream. Foram , como já alguém disse, o mais universal produto da Suécia (Hoje em dia, Ikea talvez se apresente como digno sucessor a esse nível). Instalaram-se em Londres e, evidentemente, cantavam em inglês. Contudo, nos seus primórdios, antes de almejar a universalidade, também chegaram a cantar na língua nativa. Mesmo quando se apresentaram na Eurovisão, apesar de terem cantado em inglês no palco, gravaram uma versão em sueco, como também fizeram em alemão e francês. Mais tarde tornar-se-ia uma rotina ver o grupo editar versões dos seus êxitos em espanhol. Tão aparatosa manifestação de versatilidade linguística pode indiciar capacidade de saber tirar partido de um certo complexo de inferioridade. Julgo que Vinicius de Moraes, ou algum outro brasileiro espirituoso, sentenciou um dia que, a haver uma língua oficial do inferno, seria o sueco. Tal boutade pode encontrar sustentação na aparente facilidade com que grupos pop suecos têm passado ao lado da sua língua (além dos ABBA, por exemplo, os Ace of Base...). Em boa verdade, não nos é fácil conceber virtualidades canoras no sueco ou a qualquer outro idioma nórdico. Mas aqui fica uma experiência iniciática, com, nem mais nem menos, Waterloo. Certo é que esta versão não transcendeu o terrunho escandinavo. O single que chegou a milhões de pessoas por todo mundo, era, claro está, a versão inglesa e o próprio álbum abria com essa mesma versão e era composto integralmente por temas cantados nessa língua. Em seu louvor do álbum, deve-se dizer que, ao contrário do que seria de esperar, e apesar de não sair de um nível de pop do mais frívolo, aguenta-se bastante bem para lá do consagrado hino festivaleiro. Já agora, recorde-se que Waterloo foi para o Festival da Eurovisão uma oportuna revolução e que, alguns dias depois, houve uma revolução a sério em Portugal, o 25 de Abril.
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ABBA - Waterloo (Swedish version) (1974)