quinta-feira, novembro 08, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (48): Mallorca (23 remake)

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Maria del Mar Bonet - Jardí tancat (1981)
Com permissão do antecedente Saba de terrer, considero este o melhor álbum de Maria del Mar Bonet. É certo que não conheço os mais recentes, mas não imagino ser fácil reencontrar agora o encanto ímpar aqui alardeado. A sua voz atinge uma doçura e suavidade que, se bem que nunca perdida, dificilmente poderia voltar a alcançar tal esplendor. Como se não bastasse, tudo o mais em Jardí Tancat parece tocado por um estado de graça: os arranjos de orquestração; o repertório de poetas maiorquinos contemporâneos; as fotos nos Jardins de Raixa (em Maiorca); a foto da capa... Curiosamente é um álbum na linha da canção de texto e em que a presença folk é discreta, apenas indirectamente trazida através da temática dos poemas. Entre um punhado de jóias, cabe sublinhar que a forma como o álbum se despede, com Cançó de la sirena, é algo de invulgarmente belo: uma melodia encantatória vai-se desvanecendo gradualmente, deixando no ar um perfume melódico, diria, de genuína essência mediterrânica...
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Maria del Mar Bonet - Cançó de la sirena in Jardí tancat (1981)

domingo, outubro 28, 2007

Cuore matto (18)

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Ornella Vanoni - Ornella Vanoni (Hanno ammazzato il Mario (1961)
É o primeiro álbum de Ornella Vanoni, mas limita-se a ser uma compilação de singles previamente editados. Era o normal nessa época. O formato de longa duração ainda era encarado apenas com o verdadeiro significado do termo álbum: um repositório do que já havia sido feito. A carreira de Ornella tinha começado em meados dos anos 50 numa combinação de teatro e música, em ambiente intelectual. Com cerca de vinte anos integrava o elenco do Piccolo Teatro di Milano, sob a direcção de Giorgio Strehler. A jovem beldade ruiva, com um belo fio de voz e dotes interpretativos exercitados sobre temas de Berthold Brecht, tornou-se diva de uma espécie de sucursal transalpina da rive gauche...
Boa parte do repertório é composto por canções do espectáculo Canzoni della malavita, que glosa os meios da má vida milanesa. Veiculam uma visão romântica e social, com uma auréola de mistério propositadamente reforçada com insinuações de Giorgio Strehler sobre as supostas circunstâncias em que teriam sido encontrados os manuscritos onde constavam. Na verdade, tinham sido compostas por alguns dos mais destacados elementos do circulo desenvolvido em torno do Piccolo Teatro. Algumas têm a particularidade de ser cantadas em milanês. É o caso de
Sentii come la vosa la sirena, de Dario Fo. O idioma hoje em dia, está em forte recessão, mas nos anos 50 ainda era corrente nas ruas de Milão. É um dialecto do lombardo. Tem uma sonoridade suave, com vogais muito mais fechadas do que no italiano. De um modo simplista dir-se-ia estar situado a meio caminho do francês...
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Ornella Vanoni - Sentii come la vosa la sirena in Ornella Vanoni (Hanno ammazzato il Mario (1961)

sexta-feira, outubro 26, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (47): Mallorca (22 remake)

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Maria del Mar Bonet - Maria del Mar Bonet (L'águila negra) (1971)
Em 1971, em plena maré ascensional da nova cançó, Maria del Mar Bonet publica o seu segundo álbum. Um ano antes havia publicado o primeiro, Maria del Mar Bonet (Fora d’es sembrat), mas já em 1967 e 1968 havia publicado um single e dois EP’s, respectivamente. Tinha pouco mais de 20 anos, possuía um timbre de voz melodioso e dedicava-se, especialmente, a recriar temas populares maiorquinos. Nesta orientação convergiam duas linhas: a canção de intervenção e o folk. O álbum confirma a orientação, embora também inclua temas de pura canção de texto, de poetas e compositores reconhecidos, assim como temas da sua autoria. Aliás, Cançó per una bona mort e Mercé (este último uma homenagem à sua mãe) são ambos de sua autoria e são os melhores. Apesar de um pouco desigual, há neste álbum uma frescura e um lirismo encantadores. De notar que a reedição em CD é feita a partir da reedição em LP feita dez anos depois da primeira edição, incorporando um tema que não constava originalmente, embora tivesse sido editado na mesma época. Esse tema é L’águila negra - versão catalã de L’aigle noire, de Barbara - e acabou por ser utilizado como título das reedições, já que o original ostentava como título, apenas, o nome da cantora.
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Maria del Mar Bonet - Mercé in Maria del Mar Bonet (L'águila negra) (1971)

Mediterráneo / Mediterrània (46): Mallorca

Um documento notável: Maria del Mar Bonet - Mercé in You Tube. É um extracto de uma gravação filmada de um espectáculo de Maria del Mar Bonet, realizado nos idos de 1970, 1971, na presença da sua mãe - a quem o tema era, aliás, dedicado. Este documento está integrado num episódio da recente série da TV3, da Catalunha, Totes aquelles cançons e é seguido por um comentário actual da cantora e pela parte final de um velho videoclip original (uma preciosidade!) da mesma canção, o qual, tanto quanto é dado ver, foi rodado na Peninsula de Formentor, no extremo norte de Mallorca.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Viagens (56): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (8)


5º Dia (4ª Feira)(noite)

Tinha combinado encontrar-me no bar da FNAC de Milão com um participante do Forum na Internet sobre Mina. Era um dos participantes que menos se dava a conhecer, a ponto de não saber ao certo o fazia, nem a sua idade. No terceiro piso da FNAC, em pleno bar, não tive, contudo, dificuldade em o identificar num vulto de quarentão, com óculos muito graduados, que avançava na minha direcção. Para além dos naturais problemas idiomáticos, os problemas de comunicação foram acrescidos pela sua timidez. Imediatamente, de um saco a tiracolo retirou um magote de velhos singles de Mina, editados por esse mundo fora, nos idos de 60 e 70. Havia edições japonesas e até uma de Angola. Eram preciosidades para um coleccionador. Depois mostrou-me alguns CD’s promo (promoções para rádio) e entendi que os estava a oferecer-mos. Só perante o seu ar aflito me apercebi que, afinal, não era isso - estava a propor que eu os comprasse. Rejeitei atarantadamente a proposta. Senti-me sem jeito e ficou no ar uma pesada sensação de gaffe... Tanto que, quando o convidei para jantar, esperava que não aceitasse. Mas não só aceitou, como, simpaticamente, se prestou a desempenhar papel de guia. Mostrou com entusiasmo os vestígios romanos de Mediolanum ali bem perto e forneceu informações que nenhum guia de papel pode dar. Mas era, definitivamente, uma pessoa estranha, tão afastada quanto se possa imaginar do estereotipo italiano. Verifiquei que, numa cidade em que, normalmente, se é furiosamente nerazzurro (Inter) ou rossonero (AC Milan), tinha perante mim um exemplar neutro… que odiava futebol. O seu passatempo preferido era, disse enfaticamente, deambular solitário pelas montanhas... Conduziu-me a um restaurante, onde se comeu bem e a preço razoável. No final, queria pagar a sua parte da conta..! Não consegui deixar de me espantar com tal alarde de mesquinhez, que resolutamente rejeitei. Fosse como fosse, apesar das situações constrangedoras, houve uma agradável e interessante troca de impressões, que, entre outras coisas, me permitiu concluir que o salário de um professor italiano é em termos absolutos inferior ao nosso e em termos relativos ainda mais baixo. Era anti-berlusconiano e também não gostava de Umberto Bossi, líder da Lega Nord. A propósito perguntei-lhe se ainda se falava dialecto milanês, ao que me respondeu que nas cidades já não, mas que nos campos ainda era falado por idosos. Lembrava-se que na sua juventude ainda era corrente escutá-lo pelas ruas de Milão. Adorava a sua cidade, a qual, dizia, não trocava por nenhuma outra. De Portugal não sabia nada, nem os superficiais lugares-comuns. Parecia não ter interesse nenhum em conhecer Portugal ou Espanha. O único grande interesse que tinha por terras estrangeiras era por Paris. A minha afinidade com ele limitava-se a gostos musicais, desde Mina a Nino Ferrer. Despediu-se inopinadamente em pleno Duomo e, depois de tudo, acabei por não estranhar o modo desconcertante como desapareceu.
O Duomo é sensacional, pela fachada da catedral, pela amplitude da praça, pela Galleria Vittorio Emanuelle. Esta é composta por um cobertura sobre duas ruas e uma ampla abóbada no seu cruzamento. A estrutura é de vidro e ferro e os edifícios têm a traça da melhor arquitectura da segunda metade do século XIX. Aí, o comércio é do mais refinado. A livraria Feltrinelli, por exemplo, é majestosa. Aqui, como em Espanha, traduz-se tudo e a oferta abrange uma variedade por cá inimaginável. Regressei ao hotel atormentado pelo calor. Na ida e na vinda utilizei o metro, que cobre quase toda a cidade. Como o de Madrid, Barcelona ou Nova Iorque é mais feio que o de Lisboa, mas mais funcional.

domingo, outubro 21, 2007

Salsa y merengue (26) (1 remake)

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Aldo Matta -
Soy del Caribe (1993)
Aldo Matta é um cantor porto-riquenho cuja maior notoriedade coincidiu com um terceiro lugar obtido num qualquer dos desqualificados festivais da OTI. A sua carreira tem-se desenvolvido de modo discreto e oscilante, mais pelos terrenos do cançonetismo. No que diz respeito à salsa tem feito algumas incursões. Nos inícios dos anos 90 uma dessas incursões rendeu uma canção notável e um álbum magnífico. A canção é Derroche e o álbum é Soy del Caribe. Esta fase proveitosa foi dirigida pelo produtor Frank Torres. Não teve, porém, continuidade. É pena. O álbum aqui em apreço é um dos melhores da salsa romántica, género surgido em meados dos anos 80 entre Nova York e Porto Rico. Desfila um conjunto de temas que são um instintivo convite à dança, ao mesmo tempo que possuem encanto melódico - é o caso de Para tenerte siempre, Una tempestad de besos e Me encanta verte así. Quanto ao tema Derroche, incluído na edição espanhola deste álbum, tinha aparecido no álbum anterior, de 1991, com o mesmo título, mas a sua distribuição limitara-se às Américas. Se é um facto que o erotismo atravessa quase todos os temas, neste atinge-se o clímax, o que sucede através da conjugação da letra com um tórrido ambiente sonoro. Pouco tempo depois a cantora espanhola Ana Belén interpretou uma versão que teve impacto. Também Julio Iglesias acabou por vir a interpretar a sua versão com aquele inexpressivo artificialismo delicodoce que constitui marca pessoal...
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Aldo Matta - Me encanta verte así in Soy del Caribe (1993)

Salsa y merengue (25)

Derroche

El reloj de cuerda suspendido,
el teléfono desconectado,
una mesa dos copas de vino,
y a la noche se le fue la mano.
Una luz rosada imaginamos
comenzamos por probar el vino,
con mirarnos todo lo dijimos,
y a la noche se le fue la mano
Si supiera contar
todo lo que sentí
no quedó ni un lugar
que no anduviera de ti.
Besos, ternura
qué derroche de amor
cuánta locura
besos, ternura
qué derroche de amor
cuánta locura.
Que no acabe esta noche
ni esta luna de abril
para entrar en el cielo
no es preciso morir.
Besos, ternura
qué derroche de amor
cuánta locura
besos, ternura
qué derroche de amor
cuánta locura.

Derrochamos no importaba nada
las reservas de los manantiales
parecíamos dos irracionales
que se iban a morir mañana.
Si supiera contar
todo lo que sentí
no quedó ni un lugar
que no anduviera de ti.

Besos, ternura...


Manuel Giménez



Aldo Matta - Derroche in Derroche (1991)

sábado, outubro 20, 2007

Salsa y merengue (24) (6 remake)

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India - Dicen que soy (1994)
Na origem da salsa foram decisivos artistas como a cubana Célia Cruz, o porto-riquenho Tito Puente, o panamenho Rubén Blades e produtores como Ralph Mercado. Todos convergiram nos meados de 70, em Nova Iorque, tecendo inovadores cruzamentos de son, mambo, jazz e rock... A cubana estabeleceu-se como la reina de la salsa e nesse indisputado trono permaneceu até ao fim da vida. Porém, deixou uma sucessora, à qual consentiu o apodo de princesa de la salsa. Trata-se de India. Lançada por Ralph Mercado - produtor hegemónico no universo salsero - e apoiada por tão fortes credenciais, a jovem teve oportunidade de demonstrar as suas qualidades. Entre estas destacam-se a garra interpretativa e a voz poderosa. Parcialmente limadas certas arestas (a saber, alguma estridência), chega a este seu segundo álbum. Apoiada por adequados meios de produção, India vê-se consolidada como princesa de la salsa - algo que foi reforçado por uma imagem de mulher agressiva e descomplexada. Ora, importa salientar que este álbum torna-se incontornável por Ese hombre (música de Manuel Alejandro; letra de uma tal Ana Magdalena). Originalmente interpretada por Rocío Jurado, dir-se-ia (sem nenhum desprimor para a andaluza) que a canção encontra finalmente a voz e o estilo a que estava destinada... É um explosivo concentrado de despeito feminino em forma de insulto, disparado com toda a fúria salsera. É insólito e grandioso! Por alturas de 1994-95 ouvia-se assiduamente em Espanha através das ondas da Cadena Dial...
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India - Ese hombre in Dícen que soy (1994)

Salsa y merengue (23)


India - Ese hombre (1994)