sexta-feira, outubro 05, 2007

Cuore matto (13)

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Mina - Italiana (1982)
Italiana foi originalmente editado como duplo LP, identificado cada um como Italiana Vol. 1 e Italiana Vol. 2. As sucessivas reedições em CD mantiveram o conceito. Contudo, há continuidade entre os dois volumes. Partilham a mesma sonoridade. Há variedade, mas indistintamente repartida por ambos. É um ponto de encontro de várias tendências do seu repertório, predominando uma sonoridade pop standard. A cuidada produção dá consistência ao projecto. É consensual entre os “minófilos” tratar-se de uma trabalho importante, embora sugerindo rumos duvidosos para os mais afeiçoados ao cançonetismo tradicional. Mina está aqui rodeada pela sua habitual equipa desta época, liderada por Vittorio Buffoli. A importância do seu filho Massimiliano Pani é já evidente e aparece Celso Valli como responsável de arranjos de alguns temas. Note-se que predominam originais de compositores italianos, o que não impede que existam três temas cantados em inglês.
No Vol 1, Magica follia abre da melhor forma. É um tema quente, bem à medida da cantora. Deve-se destacar ainda Per averti qui, Già visto e Sapori de civiltà. Há ainda a versão de um velho tema de Chico Buarque – Que Serà (O que será?).
O Vol 2 inicia-se com o melodioso Mi piace tanto la gente e acaba em força com Oggi è nero – peça de construção elaborada. Pelo meio, temos Sweet Transvestite - uma espécie de hino para drag queens, cuja insólita sonoridade é sublinhada por um registo andrógeno, demonstrativo da variada gama de virtuosismos da sua voz - e It’s your move, que é do mais elementar e puro disco.
Italiana
consagra uma nova fase na trajectória de Mina, iniciada em 1979 – definitivamente na vanguarda da canção italiana num ponto de cruzamento de influências diversas. Por fim, note-se que as capas são das mais conseguidas dentro da feição vanguardista característica de Mauro Baletti - aparece uma sugestiva Mina de feições clownescas, em fundo de azul veludo.
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Mina - Sapori di civiltà in Italiana Vol 1 (1982)

quinta-feira, outubro 04, 2007

Guía hispânico (26)

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Hugh Thomas - La conquista de México (1993)
Este historiador tem já uma obra que o credita como um nome importante na extensa lista de hispanistas britânicos. Há, contudo, dois factores que o distinguem nessa insigne galeria: 1) não tem incidido exclusivamente na história contemporânea; 2) tem ideias conservadoras. Com efeito, já na anterior monumental síntese, El imperio español, se tinha embrenhado na expansão castelhana, entre a viagem inicial de Colombo e a de Magalhães. Com outra síntese de fôlego, La guerra civil española, tinha feito como que o ponto da situação do estado da arte historiográfica sobre essa matéria, nos anos 90. Duas áreas muitas distintas, dir-se-ia, mas que assinalam traves mestras para a compreensão da Espanha moderna e contemporânea.
Em El imperio español, a conquista do México já merecia extenso destaque. Aqui temos um desenvolvimento minucioso da saga de Cortés. É matéria fascinante em si, como exemplo de choque de civilizações e ponto de partida de um processo de mestiçagem cultural. Mas há um fascínio adicional para os historiadores avisados: desfazer mitos que decorrem da visão anacrónica com que muitas vezes tal choque é apreciado. Foram mitos que constaram da visão tradicional do nacionalismo espanhol. São ainda outros mitos que continuam vigentes na visão hipercrítica racionalista, afim à sensibilidade das esquerdas, digamos, e que têm tido livre curso na percepção comum. São mitos opostos, mas nocivos à compreensão da história e, portanto, devem ser denunciados. Porém, não estamos perante uma obra articulada em torno da denúncia, nem de qualquer outro proselitismo. Nada disso! Temos um criterioso levantamento de factos, contrastados e acompanhados de perspectivas de enquadramento. É precisamente a sobriedade e o bom-senso que acabam por desencadear um posicionamento naturalmente alheio a tais mitos.
O México acabou por se tornar uma realidade mestiça de incomensurável riqueza e em poucos lugares do mundo encontraremos algo de tão fascinante a este nível! O fascínio desata-se imediatamente nas peripécias únicas da conquista, em que determinados detalhes podem adquirir um significado crucial. São páginas que se lêem como num romance fantástico ou como em certas parábolas bíblicas, seja pela trama de acontecimentos extraordinários, seja pelas abundantes lições de vida. Vejamos uma, bem conhecida e absolutamente sintomática: Perante os desafios de um Mundo Novo, frente a perigos desconhecidos, Cortés, contrariando as instruções que recebera, manda destruir os barcos que os conduziram até esse ponto - um ponto de não retorno. A ele e aos seus 500 homens só restariam duas opções: conquistar ou morrer!

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domingo, setembro 30, 2007

Euskal Herria (23)

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Joseba Tapia / Koldo Izagirre - Apoaren edertasuna (1998)
O fascínio deste álbum passa pelo seu carácter impenetrável. É difícil imaginar algo tão pouco comercial, pelo menos fora da cultura basca. Desde logo, não há qualquer concessão idiomática. As letras não estão traduzidas, nem, tampouco, há qualquer indicação noutra língua que não a basca. Não há vestígios de palavras inteligíveis, constituindo este facto um bizarro desafio. Quanto ao conteúdo central, a música surge sem qualquer artifício de produção. Temos Joseba Tapia mais o seu acordeão diatónico (trikitixa) e com a sua voz singela, cantando em basco. Num ou noutro tema o ritmo é vigorosamente marcado por compassado bater de pés. E mais nada. É tudo simples. Dir-se-ia mesmo, de intrínseca feição rústica. Além disso, a música partilha protagonismo com a récita de textos, pois que, introduzindo cada tema, há uma narrativa feita, provavelmente, pelo escritor Koldo Izagirre (pelo menos, autor dos textos é).
É de notar que em ...Y la palabra se hizo música: La canción de autor en España, de Fernando González Lucini, esclarece-se que o título, Apoaren edertasuna, significa A beleza do sapo. O original desenho da capa confirma a informação. Tem um traço infantil, o que sugere historietas moralizadoras. Contudo, saiba-se que, tal como é explicado no referido livro, o título está de acordo com um elaborado propósito que atravessa todo o álbum intencionalmente: a pretensão de ajudar a descobrir a beleza onde, aparentemente, ela não está visível. Há, portanto, um objectivo político (em sentido amplo), que se louva em tempos de maciça estandardização de gostos. Enfim, o sapo também tem a sua beleza... E tem! Este "sapo musical" soa, assim, muito bem e suscita emoções que ultrapassam os limites do hermetismo idiomático, conferindo-lhe um certo fascínio acrescido. Finalmente, é de salientar que há aqui uma proposta de valorização da trikitixa e da música popular basca, num sentido contrário ao que segue, por exemplo, Kepa Junkera. Menos cosmopolita e despojado, mais próximo das raízes. Igualmente fascinante!

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Joseba Tapia - Igela ideari beha in Apoaren edertasuna (1998)

quarta-feira, setembro 26, 2007

Euskal Herria (22)

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Fermin Muguruza - Amodio eta gorrotozko kamiak / Canciones de amor y odio (1984 - 1998) (1999)
Sob a etiqueta El Europeo têm sido editados vários livros/CD. A série tem incidido mais em cantautores como Julio Bustamente, Luis Pastor, Luis Eduardo Aute, Amancio Prada, Martírio. Contudo, a edição aqui em apreço insere-se num género plenamente rock. Com efeito, é uma edição antológica dedicada ao nome mais sonante do rock radical basco, Fermin Muguruza. As propostas musicais abrangidas, se bem com algumas cambiantes, mantém-se sempre em sonoridades pesadas e agressivas e quase sempre sustentadas em batidas fortes. O conteúdo é correspondente: militantemente radical, de extrema esquerda e nacionalista. Passam em desfile os grupos pelos quais passou Muguruza (Kortatu, Negu Gorriak...) e prestações da sua intermitente carreira de solista. Estamos perante um privilegiado documento sobre o rock radical basco, que é, até certo ponto, a banda sonora da juventude que vive no caldo de cultura abertzale (extrema esquerda nacionalista). A luxuosa edição (é uma característica dos livros/CD de El Europeo) documenta exaustivamente este percurso. São 175 páginas de fotos, de letras de todas as canções de todos os álbuns da sua carreira e, sempre que estas estão em basco (a maioria), apresenta as respectivas traduções. É, enfim, um exemplo de como deve ser uma antologia.

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Negu Gorriak - BSO in Gure Jarrera (1991)

domingo, setembro 23, 2007

Flamenco (30)


El Bicho - Locura in El Bicho (2003)

Aqui segue mais um exemplo do carácter iconoclasta de El Bicho. Este clip foi feito para um tema do primeiro álbum, intitulado apenas com o nome do grupo.

sábado, setembro 22, 2007

Flamenco (29)


El Bicho - Los rokipankis in El Bicho VII (2007)

De regresso às heterodoxias, com um exemplo de manifesta impureza, ostentando reconhecidas contaminações: El Bicho - grupo de flamenco - fusión. Fusão com hip-hop, heavy e sabe-se lá que mais... É um projecto que parece ir além da dimensão estritamente musical, já que é uma espécie de trupe de performance em vários sentidos, com a música num lugar central. A página web oficial (versão mais completa - web de viaje, em construção; versão abreviada - web de prisa) confirma tendências ecléticas. É mais uma prova da vitalidade dos territórios periféricos do continente flamenco. O clip ilustra, através de animação de estética sinistra, mas bastante imaginativa, um tema do último álbum, El Bicho VII. A mensagem também é, digamos, um tanto sinistra, se bem que nada original. O curioso é o contexto em que aparece.

Web: El Bicho - Página oficial

terça-feira, setembro 18, 2007

Flamenco (28)

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Antonio Mairena - Esquema historico del cante por seguiriyas y soleares (1976)
Da mais afastada periferia do continente flamenco para o seu âmago. Se se pretende conhecer o que é o flamenco puro e duro, este disco é indicado. Foi originalmente editado em duplo LP e posteriormente reeditado em CD. Contudo, a reedição que conheço, está amputada no repertório e na informação, de tal modo que é indigna em relação ao original e à intrínseca valia do seu conteúdo.
Antonio Mairena foi um dos últimos patriarcas do cante. Fez um trabalho de compilação e apuramento que, em parte, foi apresentado nesta gravação. Dedicado aos palos (géneros) mais jondos (profundos), que são as seguiriyas e os soleares, é um trabalho quase académico, de todo alheio a modas e facilidades. Assim se cimentou o conceito mairenismo, que traduz a afirmação da ortodoxia e da tradição. Mas, mais do que isso... Mairena, gitano plebeu, foi um flamencólogo. Imerso em prática e teoria. Fez escola e teceu doutrina. Severa e intransigentemente.
Estamos a anos-luz das experiências fusionistas, que a partir dos anos 70 tanto dinamizaram o flamenco. Porém, não é necessário entender o mairenismo como uma tendência hostil à modernidade, mas antes complementar. Ao fim e ao cabo, não faz sentido ignorar o modelo de referência. Impõe-se preservá-lo, desde qualquer perspectiva.
Mairena tinha uma voz poderosa e rude e uma interpretação arrebatada. À força de pulmão e, sobretudo, de garra, remetia, naturalmente, as guitarras para o plano marginal em que a tradição sempre as confinara. Deixou um conjunto de gravações que constituem um acervo privilegiado do cante jondo, na medida em que, os grandes patriarcas que o antecederam jamais gravaram, ou fizeram-no muito parcialmente e em condições precárias. Consciente deste papel de portador de testemunho, condescendeu em gravar frequentemente em frios estúdios. Foi uma das suas raras concessões, mas deliberada...
Não é fácil entrar no cante jondo. Mesmo para os amantes, há momentos em que não dá... e outros
em que se torna uma necessidade purificadora. Esta música tem uma força e rudeza telúrica que a tornam uma provocação à vigente futilidade destes tempos que vivemos. É, de certo modo, uma experiência de religiosidade mística inacessível ao vulgo...

Antonio Mairena - Ovejitas (Seguiriyas tradicionales) in Esquema historico del cante por seguiriyas y soleares (1976)

sábado, setembro 15, 2007

Flamenco (27) (14 remake)

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Antonio Flores - Cosas mias (1994)
Eis Antonio Flores. Filho de Lola Flores, La Faraona, a célebre rainha do folclorismo flamenco e de Antonio, El Pescailla, famoso rumbero. Irmão de Lolita e Rosario - ambas, artistas destacadas da cena espanhola. Estava fatalmente destinado a ser artista. Porém, teve uma carreira fugaz... Com efeito, este álbum foi editado cerca de um ano antes da sua morte. Aparentemente, dir-se-ia, que foi produzido sob o signo celebrante da vida, exemplificado quer através da evocação do nascimento da filha do artista, em Alba, quer através da vitalidade de Arriba los corazones. Este facto não deixa de ser uma ironia, pois por essa altura o artista afundava-se na dependência da heroína, que o conduziria à morte, por overdose, poucos dias, aliás, após a morte da sua mãe.
Dizer que este álbum está enquadrado no flamenco é abusivo. Na realidade, é um álbum de rock com tonalidades flamencas. Estas encontram-se num ou noutro elemento dos arranjos, mas, sobretudo, na voz. Contudo, são detalhes suficientes para lhe dar um valor acrescido, tanto mais que a voz é expressiva no agreste timbre gitano... Se, além disso, tivermos em conta a atinada inspiração como compositor, patenteado em Isla de Palma, Cuerpo de mujer, Arriba los corazones e Alba, concluiremos que é um produto cujos méritos transcendem o de legado testamentário de uma vida precocemente interrompida.
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Antonio Flores - Arriba los corazones in Cosas mias (1994)

sábado, setembro 01, 2007

Napule e'... (8)


Nino Ferrer / Nino Taranto - Agata (1970)
Nino Ferrer, com Agata, em versão francesa, teve sucesso em França e a nível internacional. Na versão italiana teve um sucesso ainda maior em Itália. Neste clip, que se reporta a um daqueles magníficos espectáculos musicais da RAI dos anos 60 e 70, fica-se a saber que a versão original era um clássico popular napolitano dos anos 30. No palco, juntamente com Nino Taranto, o artista rende homenagem às origens da canção, ao ceder, a meio, o protagonismo ao artista napolitano, que arranca com a versão à maneira original.

Nino Ferrer - Agata (versão italiana) (1969)