domingo, abril 22, 2007

Sertão e Nordeste (1)

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Alceu Valença - Forró de todos os tempos (1998)
Alceu Valença conseguiu, desde o início dos anos 80, tornar-se o mais conhecido exemplo de fusão entre os ritmos populares nordestinos e o rock. O artista pernambucano conseguiu, assim, um lugar original na MPB. Se bem que, com múltiplas derivações em vários sentidos (no início, por roteiros mais genuinamente rock, nos tempos recentes por roteiros mais acústicos), a verdade é que pontualmente volta sempre ao estilo que lhe granjeou fama. Este álbum é, portanto, uma reiterada incursão no frenético forró. Contudo, aqui sobressaem temas tradicionais, nomeadamente do consagrado Luiz Gonzaga (Gonzagão), certo é que devidamente electrizadas, o que reforça o poder ritmico desta música eminentemente simples e popular. É um álbum de notável coerência e de um nível elevadíssimo pelo valor dos temas que o compõem. Na verdade, quase todos são muito bons! Eis um eco desse Brasil colonial e tropical, misto de índio, negro, português e... holandês (sim, os holandeses também deixaram a sua marca em Pernambuco...).

Alceu Valença - página oficial

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Alceu Valença - Vou pra Campinas in Forró de todos tempos (1998)

quinta-feira, abril 19, 2007

Euskal Herria (19) (9 remake)

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Kepa Junkera - Bilbao 00:00h (1998)
Este álbum duplo, apresentado em luxuosa edição com formato de livro, musicalmente é uma produção não menos luxuosa. Para quem imagina o carácter basco como fechado e pouco dado a cosmopolitismos, pode começar por aqui um processo de revisão de ideias. Na verdade, partindo da trikitixa (pequeno acordeão diatónico), opera-se aqui um exercício de transversalidade dentro da chamada world music. Participaram na gravação um vasto conjunto de artistas das mais variadas procedências, de um modo que visou mestiçagens em diferentes direcções. De notar que Dulce Pontes (cantando um tema em... basco) faz parte do elenco. Numa realização tão ambiciosa, com estas características, nem todos os temas podem brilhar à mesma altura. Destaca-se uma magnífica meia dúzia, dos quais saliento aqui Santimamiñeko Fandangoa & Ioaeoe, que, por sinal, é um dos que, sem deixar de ter um certo grau de mestiçagem (sobretudo na parte inicial), alardeia uma tonalidade genuinamente basca. O poder rítmico e melódico da triki ressalta de forma empolgante, favorecido pela rude sonoridade de fundo da txalaparta (primitivo instrumento de percussão).
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Kepa Junkera - Santimamiñeko fandangoa & ioaeoe in Bilbao 0:00h (1998)

Flamenco (21)

Manzanita / Ketama - Verde que te quiero verde in Carlos Saura - Flamenco (1995).

segunda-feira, abril 09, 2007

Baúl de los Recuerdos (16)



Alex y Christina - ¡Chas y aparezco a tu lado! (1988)
Esta musiquinha foi no seu tempo um êxito pop em Espanha. Foi um produto para adolescentes feita por adolescentes. É encantadora pela sua simplicidade e jovialidade. Todos estes factores foram reforçados pela beleza de Christina Rosenvinge, uma bonequinha nórdica... Com efeito, de ascendência dinamarquesa, foi nesse tempo uma imagem que conectou com a modernidade pija (betinha). Ao fim e ao cabo, uma boa parte da criatividade musical desatada pela movida madrilena desembocou, na segunda metade dos anos 80, em produtos deste tipo. Rapidamente desfeita a parceria com Alex de la Nuez, a bela loirinha encabeçou o grupo Christina y los Subterráneos e, posteriormente, enveredou por uma carreira a solo. A tendência da sua evolução foi sempre num sentido contrário à simplicidade aqui manifestada. Hoje em dia a música que faz está nos antípodas, já que parece ser pedante, um tanto densa, para não dizer um pouco neurótica... Seja como for, entre Madrid e Nova Iorque conseguiu um certo lugar - há, até, quem a compare a PJ Harvey... Quanto aos seus começos artísticos, a própria parece desqualificá-los como inanidades adolescentes. Mais do que nunca, portanto, ¡Chas y aparezco a tu lado! é uma saudade...

Pagina web oficial - Christina Rosenvinge
Página web Christina Rosenvinge in Smells like records
Christina Rosenvinge: La ambigüedad y el equivoco in El camino - Reportajes


Espanha - 25/07/1988: #10 Top Singles (23 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

quarta-feira, abril 04, 2007

Cinecittà (3)

Gillo Pontecorvo - La battaglia di Argeli (1966)
Nos anos 50 e 60 a produção cinematográfica italiana era prolífica. Na Europa, os estúdios da Cinecittà eram os que mais filmes faziam. A variedade e a qualidade eram diversificadas. Abrangiam-se todos os géneros e públicos. Esse passado brilha com fulgor. Tanto, que qualquer história do cinema reserva lugar destacado para o neo-realismo italiano (anos 40 e 50), exalta o melhor do western spaghetti (anos 60 e 70), não ignora a melhor comédia (anos 50, 60 e 70) e regista o impacto comercial de variados géneros populares (anos 50 e 60). Contudo, existem filmes que podem não ser tão facilmente detectados, já que não são enquadráveis nesses géneros. É o caso deste.
O género é docudrama político-militar. O tema é a Guerra da Argélia. Não é um documentário, mas parece. Na verdade, é um exemplo de integração de uma trama ficcional num contexto histórico. Tem implicações políticas, pelo que esta guerra representou - o ponto mais dramático do processo de descolonização dos anos 50 e 60. Note-se que o realizador tinha um empenho político - era militante do PCI, à semelhança de outros realizadores italianos (incluindo alguns dos mais famosos) e que é uma co-produção italo-argelina. Dir-se-ia reunir todos os ingredientes para ser um instrumento propagandístico. Em boa verdade, não se pode dizer que não o seja, porque a realidade que retrata é favorável à causa da descolonização. Mas, há seriedade na abordagem. Cenas de guerra suja são-nos apresentadas com crueza e protagonizadas por ambas as partes. É particularmente arrepiante a frieza com que três mulheres árabes levam e colocam bombas em cafés para causar o maior número de vítimas entre civis. Não menos arrepiante é a inteligência cruel do Coronel Mathieu, chefe militar francês nessa Argel insurrecta. Corresponde ao Tenente-Coronel Jacques Massu, a quem a esquerda crismou como o "carrasco de Argel". Mas, o filme evita um retrato simplista deste personagem. Aliás, não escamoteia que a sua estratégia foi decisiva para uma viragem que desembocou numa vitória. Foi uma vitória fatalmente provisória, mas, dadas as circunstâncias, foi notável. O fatalmente prende-se com uma realidade que não podia ser ultrapassada, da qual fazia parte a empedernida cegueira dos pieds-noires (colonos), que teria que deitar tudo a perder, fosse como fosse... O que se pode entender através de algo que o filme atira à cara do espectador: a sociedade franco-argelina assentava numa profunda discriminação, num apartheid. Somos levados tanto ao interior da Kasbah como passamos pela mentalidade e forma de vida do pied-noir. O contraste é violento. É um cenário de tragédia sem solução. Na Argélia, como em muitas outras colónias ficaram todos as perder.
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quinta-feira, março 29, 2007

Complexo de Aljubarrota (16)

Portugal vs Espanha: Nível de vida - Índice de paridades de poder de compra / 2004
Prosseguindo a análise dos mais recentes dados do Índice de paridades de poder de compra divulgados pelo Eurostat, agora ao nível comparativo entre regiões, confirma-se o afundamento de Portugal. É particularmente notória a progressiva decadência da região Norte. A única região portuguesa que apresenta vantagem (mínima) sobre a vizinha região do outro lado da fronteira é agora o Alentejo em relação à Extremadura, dada a inversão de posição do Algarve em relação à Andalucía. Vejamos:

Média EU27 = 100

132.1 E - Madrid
126.7 E - Navarra
125.4 E - Euskadi / País Vasco
120.5 E - Catalunya / Cataluña
114.3 E - Illes Balears
109.4 E - La Rioja
107.4 E - Aragón
105.8 P - Lisboa
098.1 E - Cantabria
094.9 E - Castilla y León
093.9 E - Comunidad / Comunitat Valenciana
092.8 E - Canarias
090.8 P - Madeira
090.4 E - Ceuta
087.9 E - Melilla
087.0 E - Asturias
084.4 E - Murcia
081.0 E - Galicia
079.1 E - Castilla-La Mancha
077.6 E - Andalucía
077.1 P - Algarve
070.3 P - Alentejo
067.1 E - Extremadura
065.9 P - Açores
064.3 P - Centro
058.8 P - Norte


Fonte: Eurostat

segunda-feira, março 26, 2007

Cinecittà (2)

Dino Risi - I mostri (1963)
Entre meados dos anos 50 e meados dos anos 70 a comédia italiana conheceu um tempo de esplendor. Se bem que abrangendo filmes de tipos diferentes, há o que se pode designar como um estilo comum reconhecível entre os seus melhores produtos. A ironia amarga, às vezes mesmo cruel, a denúncia da hipocrisia e a atenção aos temas sociais são alguns dos seus atributos. Raras vezes o riso deixa de ter implicações sociais. Compreende-se que assim seja não só por razões culturais, mas também pelo facto da maioria dos realizadores terem preocupações de carácter político, já que eram de esquerda, e muitos tinham algum tipo de vinculação com o PCI.
Um tipo de filmes que a comédia italiana desenvolveu foi o de sketches ou segmentos independentes. Este agora editado em DVD é um dos mais conhecidos. Contudo, só agora o pude ver ao contrário daquele que se pode designar como o seu remake, Nuovi mostri, realizado mais de dez anos depois e que vi logo na altura. O termo remake deve aqui ser tomado em sentido amplo, já que as histórias, se bem que partilhando o mesmo espírito, são totalmente diferentes e a realização, que no primeiro está exclusivamente a cargo de Dino Risi, passa a ser partilhada entre Dini Risi, Mario Monicelli e Ettore Scola. Ao contrário da crítica, pois, tendo eu feito um percurso inverso, entendo que o original fica aquém do remake... Contudo, vale a pena ver.
Inevitavelmente segui um critério comparativo com Nuovi mostri. O espírito é o mesmo, a concretização é que é distinta. Assim, a ironia é mais subtil e em muitos dos seus 20 sketches é tão subtil que se torna desconcertante. Um bom exemplo é a do mini sketch que dá título ao filme: o monstro, a criatura aprisionada que acabara de matar os seus próprios filhos, é, para efeitos de foto, inverosímil enquanto tal, apertado entre dois polícias de expressão alarve e contentamento grotesco por usufruírem de algum protagonismo (ver foto em baixo). É neste registo de subtilezas que a maior parte das sequências se desenvolve. O riso é, portanto, sempre discreto e, sobretudo, amargo, profundamente amargo. Ao ver uma segunda vez fui-lhe tomando mais o gosto, na medida em que ao distanciar-me do maior grau de imediatismo de Nuovi mostri, fui ganhando capacidade para o desfrutar. Em todo o caso, há pelo menos três sketches que são brilhantes:
Come un padre, Che vitaccia! e L'oppio dei popoli. Há ainda que sublinhar a presença dominate de dois grandes actores: Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi.

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Cinecittà (1)

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Vittorio de Sica - Ladrões de Bicicletas (Ladri di biciclette) (1949)
Finalmente têm surgido edições em DVD de cinema italiano, incluindo grandes clássicos do neo-realismo. Este filme é, reconhecidamente, um dos maiores estandartes do neo-realismo. Os seus méritos têm sido abundantemente salientados. Contudo, há um aspecto que merece ser mais salientado: poucos filmes retrataram de modo tão intenso uma relação entre pai e filho. Também esta relação é apresentada de modo realista, mas, nem por isso, deixa de ser profundamente emotiva. Como já alguém comentou, A vida é bela - um dos ícones mais recentes do cinema italiano, da chancela de Roberto Benigni - demonstra, em comparação com esta filme, como o cinema se infantilizou...
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Tiro ao Alvo (17)

Salazar e os grandes portugueses
Acabou o programa Os grandes portugueses, da RTP. Como se esperava ganhou Salazar. Não há que exagerar, mas tampouco há que minimizar o significado do desenlace. Reflecte dois factores: tendência natural para um certo revisionismo favorecido pelo distanciamento temporal; protesto contra a situação actual. Seja como for, é significativo que se amplifique a onda de preplexidade e indignação... Estremecem as esquerdas e, em particular, as suas elites intelectuais. Na verdade, grande parte das esquerdas é credora de uma matriz jacobina (ampliada no caso dos comunistas e extrema-esquerda). É intolerante e tem em relação à realidade dificuldade para a entender. Pretende resolver a interpretação da teimosa realidade, aplicando os seus velhos esquemas teóricos.
Vejamos serenamente esta questão. Foi ou não Salazar um grande português? Evidentemente que foi. Resolver a questão do que é ser um "grande português" endereça para valores nacionais. Pode-se concordar ou discordar dos valores do ditador, mas ninguém, de boa fé, pode ignorar que os valores nacionalistas ocupavam o centro do seu ideário. A sua acção política foi, pelo menos até à década de 50, benéfica para o posicionamento de Portugal no mundo, ainda por cima, num período tremendo, marcado pela Guerra Civil de Espanha e pela II Guerra Mundial. Com habilidade, jogando um complicado jogo de equilíbrios, num cenário de fundo explosivo, conseguiu poupar directamente o país às convulsões europeias, ainda por cima, sem perdas. Só isto (acaso foi pouco?) seria suficiente para o colocar numa galeria de ilustres da nossa história. É claro que era um ditador (que não fascista...), mas nos anos trinta, tal não só não era anacrónico, como natural. Foi até, diriamos, comparativamente com as demais ditaduras (a começar com a da Espanha franquista), um ditadura branda. O estado nunca assumiu um carácter totalitário e a repressão foi, geralmente, selectiva, incidindo sobre os comunistas. Estes, é necessário não esquecer, apesar do seu heroísmo, sempre tiveram um projecto político que desemboca, esse sim, em ditadura feroz... Porém, os fundamentos do pensamento salazarista não consistiam só no nacionalismo e no anti-comunismo. A argamassa era o conservadorismo católico. Tal contribuiu para moderar efectivamente as tendências extremistas. Depois, o que é fundamental, impôs um modelo sóbrio de governação, assente no espírito de serviço público, que teve, durante muito tempo, importantes benefícios internos, traduzidos em estabilidade, segurança e fiabilidade das instituições. Com todos os seus defeitos e qualidades o salazarismo sintonizava com a realidade social e mental de um país periférico e rural; emanava naturalmente de um Portugal profundo...
É claro que à medida que o tempo foi passando o pensamento de Salazar passou a ter consequências muito mais
negativas que positivas. Nos anos 60 era já, sob todos os pontos de vista, um pesado anacronismo que, entre outros aspectos conduziu o país a um beco sem saída na questão colonial. E sob o ponto de vista económico perderam-se muitas oportunidades. O necessário impulso democratizador jamais foi encarado, é claro. Faltou um mínimo de realismo. O que fora adequado até inícios dos anos 50 tornou-se um lastro sem solução de continuidade. A força ideológica do salazarismo tinha em si uma tremenda fragilidade - a rigidez dos seus princípios conduziu à inevitável auto-destruição num mundo em grande mudança. O 25 de Abril acabou por ser o resultado último desse desajustamento. Contudo, o processo democratizador só alcançará verdadeiramente a maturidade quando a nossa democracia souber encarar Salazar e o salazarismo no seu contexto; quando, enfim, tiver capacidade de valorizar o que fez de positivo e, inclusivamente, capacidade de incorporar alguns valores conservadores. Para além do seu carácter de conjuntural protesto, este concurso televisivo pode ser uma bofetada na cegueira dogmática das esquerdas sem remédio que desbloqueie um pouco o caminho nesse sentido.