sexta-feira, março 09, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (44): Mallorca (29 remake)

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Maria del Mar Bonet - Maria del Mar Bonet (Sonet) (1974)

Este é o terceiro álbum de Maria del Mar Bonet. Foi o primeiro gravado para a editora Ariola, já que a Boccaccio não mostrara entusiasmo por um projecto que parecia não dar continuidade às potencialidades comerciais do álbum anterior. Apresenta um distintivo inconfundível: a capa, da autoria do pintor Joan Miró (A edição em CD é mais um exemplo de empobrecimento em relação às edições originais, em vinil). Os velhos LPs eram susceptíveis de complementos artísticos desta natureza - algo que nos anos 70 ocorreu com frequência. Contudo, o contributo de um pintor como Miró era, evidentemente, invulgar (também ocorreu num álbum do cantautor Raimon). Quanto ao conteúdo musical deve-se dizer que não desmerece. Não é um dos melhores álbuns de Maria del Mar Bonet, mas, tendo em conta o elevado nível da primeira metade da sua carreira, dizer que estará na média já é significativo.
É o primeiro álbum que não está dominado pelo folk maiorquino. Impera a canção ligeira de corte clássico, com arranjos cuidados, mas convencionais. Com excepção de um par de temas com letra da própria Maria del Mar Bonet (Vigila el mar e Jo viajava amb tu) todos os demais são construídos sobre poemas de autores maiorquinos da primeira metade do século XX, com destaque para Bartomeu Rosselló-Pòrcel. Notável é também a participação do cantautor madrileno Hilario Camacho que é o compositor de todas músicas, com excepção de Desolació. Este facto ainda é mais notável se se tiver em conta que nunca foi muito expressiva a colaboração de nomes estranhos à catalanofonia no universo da nova cançó. Há um tema dedicado a Sóller - uma melodia construída sobre um poema de Rosselló-Pòrcel que consegue sugerir impressivamente o ambiente do vale, impregnado de aroma de laranjais e de uma lânguida doçura de vida provinciana. O mais destacado é, porém, Vigila el mar, que foi, talvez, uma das canções cantadas em catalão que mais projecção teve em toda a Espanha.
Não deixa de ser uma melodia simples (embora bem construída e magnificamente arranjada), sobre uma pobre letra de lirismo ecológico vulgar... Na verdade, uma boa parte do segredo reside num elemento óbvio: a voz de Maria del Mar Bonet.

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Maria del Mar Bonet - Vigila el mar in Maria del Mar Bonet (Sonet) (1974)

terça-feira, março 06, 2007

Viagens (52): Mallorca / 2005 (3)

Sóller - A toponímia
Quando estive num quente dia de Agosto de 2005 em Sóller, não deixei de tirar muitas fotografias (desde que passei à tecnologia digital em matéria de fotografia, dexei de me preocupar com a quantidade...). Também, como de costume, procurei alguns lugares mais recônditos. A cidadezinha é pequena e o seu centro está abarrotado de turismo, porém as marcas rurais espreitam por todo o lado. Apenas cons uns metros de expedição achei testemunhos das tradições que lhe deram a fama e proveito como centro produtor de citrinos. Essa ancestral ruralidade é visível na toponímia local do modo que acima se pode constatar. Uma das principais praças ostenta o nome Plaça des Mercat (Praça do Mercado) e, muito mais significativo, não longe daí, encontrei uma artéria com o nome Camí de s'hort de ses ties (Caminho da horta das tias). Estes pormenores são também uma oportunidade para salientar que no dialecto maiorquino, ao contrário do catalão padrão, ainda há o artigo neutro (es) e o feminino é sa (singular) e ses (plural) e não la e les, respectivamente.

domingo, março 04, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (43): Mallorca

Barranc de Biniaraix, Mallorca

A parte ocidental de Mallorca é conhecida como Tramuntana. É constituida por uma cordilheira que acompanha o litoral na direcção Nordeste - Sudoeste. A foto abrange uma parte da área onde essa cordilheira tem os seus mais elevados cumes (Puig Maior - 1.445 m; Puig de Massanella - 1.348 m; Puig Tomir - 1.102; Puig de l'Ofre - 1.090; Puig dels Tossals - 1.047 m). Encaixada num barranco fica a pequena localidade de Biniaraix, muito próxima de Sóller. É um povoado muito antigo, mas implantado a uma altitude elevada e com acessos difíceis. Em Mallorca, como noutras ilhas do Mediterrâneo, é comum encontrarem-se os mais velhos assentamentos humanos no interior. Isto vale tanto para esta zona montanhosa como para a zona de planície central (Es Plá) e para a zona de orografia ligeiramente acidentada do leste (Llevant). Este facto deriva da necessidade das populações se protegerem dos ataques da pirataria, especialmente da praticada pelos berberes do Norte de África. Por isso se encontram velhos povoados, como o de Biniaraix, em sítios bravios, improváveis para o estabelecimento de comunicações e propiciadores de um enigmático isolamento. Só a partir de finais do século XVIII é que, para além da bem defendida Ciutat (Palma de Mallorca), começaram a desenvolver-se localidades costeiras. Em todo o caso, se se quiser ter uma noção da genuína cultura maiorquina é indispensável perceber que esta se desvenda mais facilmente no interior da ilha. Desde o começo do turismo de massas, nos inícios dos anos 60, esta orientação é muito mais pertinente, já que uma boa parte do litoral foi adquirindo um carácter alheio à cultura autóctone.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Geografia íntima (22)

Lucília do Carmo (1920 - 1999)
Eis um dos melhores fados e uma das melhores fadistas de todos os tempos: Lucília do Carmo - Maria Madalena. A dimensão do vulto de Amália teve o inconveniente de obscurecer outros grandes nomes do fado, nomeadamente outras grandes fadistas, como Lucília do Carmo, mãe de Carlos do Carmo. Não que no seu tempo não tivesse tido projecção, só que não perdurou até ao dias de hoje como mereceria. Seja como for, a verdade, é que fadistas expressivas e carismáticas como esta, demonstram, por contraste, a anemia de algumas das jovens fadistas actuais... Cada fadista tinha, muitas vezes, um estilo próprio. O de Lucília do Carmo era inconfundível. Uma garra vibrante caracteriza esse seu estilo.
De alguma forma, a música, nos seus pormenores e detalhes é também credora de um tempo. Este fado é credor de um tempo em que as marcas de uma religiosidade popular e tradicional não se haviam diluído. Esta voz é credora de um tempo em que o enaltecimento da renúncia e do perdão constituíam ainda valores mobilizadores da alma de uma intérprete...



Lucília do Carmo - Maria Madalena

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (42): Mallorca

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Maria del Mar Bonet - Maria del Mar Bonet (Fora d'es sembrat) (1970)

A carreira de Maria del Mar Bonet tem sido uma demonstração de coerência. Pela temática, pelo estilo e pela opção linguística. Este é o seu primeiro álbum e é uma oportunidade para se poder comprovar como, desde o início, se desenharam as grandes linhas da sua orientação artística. É um facto que a presença da música popular maiorquina e menorquina tendeu, com o tempo, a não ser tão dominante como aqui, mas também é um facto de que nunca deixou de ter presença significativa. Além disso, apresenta composições próprias. Ou seja, desde o início a sua opção representou um ponto de confluência entre folk e canção de texto. Ainha hoje é assim, embora o folk se tivesse alargado a uma ampla extensão de culturas mediterrâneas.
O argumento artístico que por esta altura a colocou imediatamente acima da média no que diz respeito à nova cançó era, evidentemente, a sua voz. A produção valorizou devidamente este factor e preparou para este álbum uns arranjos musicais adequados. Alías, o que confere a este álbum um nível superior ao das gravações anteriores em single e EP é, precisamente, ter uma produção de superior qualidade. Como a editora era a mesma (Concentric), a melhoria deve ser creditada a recursos técnico-materiais acrescidos e à supervisão artística que, entretanto, passou a ser de Antoni Ros-Marbà. Algumas jóias marcam aqui presença: Fora d'es sembrat, Sa novia d'Algendar, Cançó d'es segar, Cançó d'esterrossar, Dona'm sa mà... Algumas são toadas de trabalho campestre entregues a um único e solitário instrumento: a voz!
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Web: Maria del Mar Bonet in Musics per la llengua


Maria del Mar Bonet - Fora d'es sembrat in Maria del Mar Bonet (Fora d'es sembrat) (1971)

domingo, fevereiro 25, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (41): Mallorca (21 remake)

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Maria del Mar Bonet - Saba de terrer (1979)
A produção discográfica de Maria del Mar Bonet alberga várias pérolas. Até meados dos anos 80, entre os discos dedicados à música popular maiorquina, este é, para mim, o melhor. Só por si, o tema de entrada, o romance tradicional, Sa des cavaller, é esplendoroso, sendo que o resto, porém, em nada desmerece... Nunca a sua voz soou tão etérea. A capa, reproduzindo uma velha foto de artesãs maiorquinas, sugere o ambiente tradicional de onde provem a música. Os arranjos e a concepção artistica global indicam uma cuidada prospecção pela música tradicional maiorquina. Mas, se os arranjos não estão longe do purismo tradicionalista é por uma via elaborada, pois não deixam de evidenciar formação erudita, algo que se nota particularmente no último tema - El cant de la sibil.la.
Temos também oportunidade de apreciar como o dialecto mallorquí, apresenta, comparativamente com o catalão padronizado, uma doçura fonética arcaizante que, provavelmente, o aproxima do provençal. Já agora, vem a propósito esclarecer que saba de terrer, significa sapato de terreiro, terreiro de festa, de baile. É, portanto, uma alusão às festas tradicionais.
Pena é que a 1ª edição em CD seja tão pobre em informações e grafismo, comparada com a edição original em LP.
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Maria del Mar Bonet - Sa des cavaller in Saba de terrer (1979)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (40): Mallorca

Sa des cavaller

N'era lleuger de la cama,
tots los mals passos seguia
i el dimoni li eixia
conforme fos una dama.
- Senyora, què té, què té?
¿Què té de nou son marit,
que a altes hores de la nit,
vaia sola p'es carrer?
- Senyor meu, jo som anada
a una casa de joc,
i m'hi he estorbada
un poc i els meus criats m'han deixada.
- Senyora, vi soleu venir
a casa l'acoiré,
bon sopar que li daré
i un bon llit per dormir.
- Si vostè no em destapàs
i secreta me tengués,
que mon marit no ho sabés
poria ésser que hi anàs.
Los dos se'n varen anar
a casa del cavaller
i a lo punt ell li tyragué
coses bones per sopar.
- Cavaller, jo ja he sopat.
- Senyora, i jo també.
- Idò, que veja on té
es llit tan ben reguardat.
- Aquí dalt trobarà un llit
que hi jèia amb la meva esposa
i si em promet una cosa,
hi podrà romandre anit.
- Jo ho tendria per afronta
res haver- li de negar.
De tot quant demanarà
esta nit anirà a son compte.
Com ella se descordava,
el cavaller hi va pujar.
Tot d'una li demanà
si sabia ambe qui els hava.
Li contestà el cavaller:
- Senyoreta, no sé res,
però jo compt haver- lès
amb una dona de bé.
No vui fer cap cerimoni
a ningú d'aquest món nat:
sabrà vostè en veritat
que les ha amb el dimoni.


Josep Massot i Planes - Cançoner musical de Mallorca

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Complexo de Aljubarrota (15)

Portugal vs Espanha: Nível de vida - Índice de paridades de poder de compra / 2004
A evolução dos dados do Índice de paridades de poder de compra recentemente divulgados pelo Eurostat confirma uma tendência que se pode exprimir deste modo sensacionalista: Espanha dispara; Portugal afunda-se. Efectivamente, a tendência de lenta mas contínua aproximação em relação ao país vizinho, que se vinha verificando até, pelo menos, meados da década passada, deu lugar a esta consolidada tendência. No conjunto da Europa, aliás, enquanto a Espanha ganha posições relativas, Portugal perde-as...

Média EU27 = 100

251,0 Luxemburgo
141,4 Irlanda
130,0 Países Baixos
128,7 Áustria
124,5 Dinamarca
124,4 Bélgica
123,0 Reino Unido
120,3 Suécia
115,8 Alemanha
115,5 Finlândia
112,3 França
107,4 Itália
100,7 Espanha
91,4 Chipre
84,8 Grécia
83,3 Eslovénia
75,2 República Checa
74,8 Portugal
74,4 Malta
64,0 Hungria
56,7 Eslováquia
55,7 Estónia
51,1 Lituânia
50,7 Polónia
45,5 Letónia
34,0 Roménia
33,2 Bulgária

Em breve procederei à comparação entre os índices das regiões portuguesas e espanholas.

Fonte: Eurostat

Noites tropicais (15)

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Emílio Santiago - Bossa nova (2000)
A Bossa nova evoca os anos dourados do Brasil: os finais dos anos 50 e inícios dos anos 60. Parecia então que ninguém parava o Brasil... Foram anos de grande crescimento económico; da presidência de Juscelino Kubitschek de Oliveira; da primeira Copa do Mundo; da construção de Brasília... Anos em que crescia uma classe média à qual parecia destinado um futuro auspicioso. Hoje sabemos que foi, em larga medida, uma ilusão. Mas foi da classe média-alta citadina que brotou a bossa-nova. Como uma espécie de metáfora de bem-estar material e espiritual. É certo que teve abundantes fontes populares de inspiração, mas sem perder, de facto, o seu carácter elitista. A imagem aplica-se perfeitamente aos "pais fundadores": João Gilberto e Tom Jobim. O imediato êxito que tal produto obteve nos Estados Unidos consolidou ainda mais esse carácter. Tornou-se, assim, uma das imagens de marca da música popular brasileira e praticamente todos os seus grandes nomes não prescidem de, no mínimo, lhe prestar intermitentes homenagens. O que Emilío Santiago faz neste álbum está longe, portanto, de ser inovador, tanto mais que ao longo da sua série de álbuns Aquarela brasileira a bossa nova está bem representada. Porém, entre muitos clássicos e outros menos clássicos do género, este álbum demonstra melhor do que qualquer outro que as potencialidades da sua voz se coadunam como poucas à cadência suave e quente da bossa. A aveludada orquestração reforça ainda mais a suavidade e o calor.
Um dos melhores resultados deste dispostivo pode ser saboreado no tema
Doce viver, de Nelson Motta. Ainda por cima trata-se de um hino nostágico às delícias da juventude, daquela juventude privilegiada que frequentava as praias de Leblon e Ipanema. Nada melhor se ajusta à noção de anos dourados. É uma evocação biográfica e, sabendo como Nelson Motta, conviveu intimamente com o núcleo fundador da bossa, pode-se dizer que é um testemunho do ambiente em que ocorreu essa bem-aventurada criação.

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Emílio Santiago - Doce viver in Bossa nova (2000)