quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Geografia íntima (22)

Lucília do Carmo (1920 - 1999)
Eis um dos melhores fados e uma das melhores fadistas de todos os tempos: Lucília do Carmo - Maria Madalena. A dimensão do vulto de Amália teve o inconveniente de obscurecer outros grandes nomes do fado, nomeadamente outras grandes fadistas, como Lucília do Carmo, mãe de Carlos do Carmo. Não que no seu tempo não tivesse tido projecção, só que não perdurou até ao dias de hoje como mereceria. Seja como for, a verdade, é que fadistas expressivas e carismáticas como esta, demonstram, por contraste, a anemia de algumas das jovens fadistas actuais... Cada fadista tinha, muitas vezes, um estilo próprio. O de Lucília do Carmo era inconfundível. Uma garra vibrante caracteriza esse seu estilo.
De alguma forma, a música, nos seus pormenores e detalhes é também credora de um tempo. Este fado é credor de um tempo em que as marcas de uma religiosidade popular e tradicional não se haviam diluído. Esta voz é credora de um tempo em que o enaltecimento da renúncia e do perdão constituíam ainda valores mobilizadores da alma de uma intérprete...



Lucília do Carmo - Maria Madalena

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (42): Mallorca

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Maria del Mar Bonet - Maria del Mar Bonet (Fora d'es sembrat) (1970)

A carreira de Maria del Mar Bonet tem sido uma demonstração de coerência. Pela temática, pelo estilo e pela opção linguística. Este é o seu primeiro álbum e é uma oportunidade para se poder comprovar como, desde o início, se desenharam as grandes linhas da sua orientação artística. É um facto que a presença da música popular maiorquina e menorquina tendeu, com o tempo, a não ser tão dominante como aqui, mas também é um facto de que nunca deixou de ter presença significativa. Além disso, apresenta composições próprias. Ou seja, desde o início a sua opção representou um ponto de confluência entre folk e canção de texto. Ainha hoje é assim, embora o folk se tivesse alargado a uma ampla extensão de culturas mediterrâneas.
O argumento artístico que por esta altura a colocou imediatamente acima da média no que diz respeito à nova cançó era, evidentemente, a sua voz. A produção valorizou devidamente este factor e preparou para este álbum uns arranjos musicais adequados. Alías, o que confere a este álbum um nível superior ao das gravações anteriores em single e EP é, precisamente, ter uma produção de superior qualidade. Como a editora era a mesma (Concentric), a melhoria deve ser creditada a recursos técnico-materiais acrescidos e à supervisão artística que, entretanto, passou a ser de Antoni Ros-Marbà. Algumas jóias marcam aqui presença: Fora d'es sembrat, Sa novia d'Algendar, Cançó d'es segar, Cançó d'esterrossar, Dona'm sa mà... Algumas são toadas de trabalho campestre entregues a um único e solitário instrumento: a voz!
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Web: Maria del Mar Bonet in Musics per la llengua


Maria del Mar Bonet - Fora d'es sembrat in Maria del Mar Bonet (Fora d'es sembrat) (1971)

domingo, fevereiro 25, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (41): Mallorca (21 remake)

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Maria del Mar Bonet - Saba de terrer (1979)
A produção discográfica de Maria del Mar Bonet alberga várias pérolas. Até meados dos anos 80, entre os discos dedicados à música popular maiorquina, este é, para mim, o melhor. Só por si, o tema de entrada, o romance tradicional, Sa des cavaller, é esplendoroso, sendo que o resto, porém, em nada desmerece... Nunca a sua voz soou tão etérea. A capa, reproduzindo uma velha foto de artesãs maiorquinas, sugere o ambiente tradicional de onde provem a música. Os arranjos e a concepção artistica global indicam uma cuidada prospecção pela música tradicional maiorquina. Mas, se os arranjos não estão longe do purismo tradicionalista é por uma via elaborada, pois não deixam de evidenciar formação erudita, algo que se nota particularmente no último tema - El cant de la sibil.la.
Temos também oportunidade de apreciar como o dialecto mallorquí, apresenta, comparativamente com o catalão padronizado, uma doçura fonética arcaizante que, provavelmente, o aproxima do provençal. Já agora, vem a propósito esclarecer que saba de terrer, significa sapato de terreiro, terreiro de festa, de baile. É, portanto, uma alusão às festas tradicionais.
Pena é que a 1ª edição em CD seja tão pobre em informações e grafismo, comparada com a edição original em LP.
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Maria del Mar Bonet - Sa des cavaller in Saba de terrer (1979)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (40): Mallorca

Sa des cavaller

N'era lleuger de la cama,
tots los mals passos seguia
i el dimoni li eixia
conforme fos una dama.
- Senyora, què té, què té?
¿Què té de nou son marit,
que a altes hores de la nit,
vaia sola p'es carrer?
- Senyor meu, jo som anada
a una casa de joc,
i m'hi he estorbada
un poc i els meus criats m'han deixada.
- Senyora, vi soleu venir
a casa l'acoiré,
bon sopar que li daré
i un bon llit per dormir.
- Si vostè no em destapàs
i secreta me tengués,
que mon marit no ho sabés
poria ésser que hi anàs.
Los dos se'n varen anar
a casa del cavaller
i a lo punt ell li tyragué
coses bones per sopar.
- Cavaller, jo ja he sopat.
- Senyora, i jo també.
- Idò, que veja on té
es llit tan ben reguardat.
- Aquí dalt trobarà un llit
que hi jèia amb la meva esposa
i si em promet una cosa,
hi podrà romandre anit.
- Jo ho tendria per afronta
res haver- li de negar.
De tot quant demanarà
esta nit anirà a son compte.
Com ella se descordava,
el cavaller hi va pujar.
Tot d'una li demanà
si sabia ambe qui els hava.
Li contestà el cavaller:
- Senyoreta, no sé res,
però jo compt haver- lès
amb una dona de bé.
No vui fer cap cerimoni
a ningú d'aquest món nat:
sabrà vostè en veritat
que les ha amb el dimoni.


Josep Massot i Planes - Cançoner musical de Mallorca

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Complexo de Aljubarrota (15)

Portugal vs Espanha: Nível de vida - Índice de paridades de poder de compra / 2004
A evolução dos dados do Índice de paridades de poder de compra recentemente divulgados pelo Eurostat confirma uma tendência que se pode exprimir deste modo sensacionalista: Espanha dispara; Portugal afunda-se. Efectivamente, a tendência de lenta mas contínua aproximação em relação ao país vizinho, que se vinha verificando até, pelo menos, meados da década passada, deu lugar a esta consolidada tendência. No conjunto da Europa, aliás, enquanto a Espanha ganha posições relativas, Portugal perde-as...

Média EU27 = 100

251,0 Luxemburgo
141,4 Irlanda
130,0 Países Baixos
128,7 Áustria
124,5 Dinamarca
124,4 Bélgica
123,0 Reino Unido
120,3 Suécia
115,8 Alemanha
115,5 Finlândia
112,3 França
107,4 Itália
100,7 Espanha
91,4 Chipre
84,8 Grécia
83,3 Eslovénia
75,2 República Checa
74,8 Portugal
74,4 Malta
64,0 Hungria
56,7 Eslováquia
55,7 Estónia
51,1 Lituânia
50,7 Polónia
45,5 Letónia
34,0 Roménia
33,2 Bulgária

Em breve procederei à comparação entre os índices das regiões portuguesas e espanholas.

Fonte: Eurostat

Noites tropicais (15)

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Emílio Santiago - Bossa nova (2000)
A Bossa nova evoca os anos dourados do Brasil: os finais dos anos 50 e inícios dos anos 60. Parecia então que ninguém parava o Brasil... Foram anos de grande crescimento económico; da presidência de Juscelino Kubitschek de Oliveira; da primeira Copa do Mundo; da construção de Brasília... Anos em que crescia uma classe média à qual parecia destinado um futuro auspicioso. Hoje sabemos que foi, em larga medida, uma ilusão. Mas foi da classe média-alta citadina que brotou a bossa-nova. Como uma espécie de metáfora de bem-estar material e espiritual. É certo que teve abundantes fontes populares de inspiração, mas sem perder, de facto, o seu carácter elitista. A imagem aplica-se perfeitamente aos "pais fundadores": João Gilberto e Tom Jobim. O imediato êxito que tal produto obteve nos Estados Unidos consolidou ainda mais esse carácter. Tornou-se, assim, uma das imagens de marca da música popular brasileira e praticamente todos os seus grandes nomes não prescidem de, no mínimo, lhe prestar intermitentes homenagens. O que Emilío Santiago faz neste álbum está longe, portanto, de ser inovador, tanto mais que ao longo da sua série de álbuns Aquarela brasileira a bossa nova está bem representada. Porém, entre muitos clássicos e outros menos clássicos do género, este álbum demonstra melhor do que qualquer outro que as potencialidades da sua voz se coadunam como poucas à cadência suave e quente da bossa. A aveludada orquestração reforça ainda mais a suavidade e o calor.
Um dos melhores resultados deste dispostivo pode ser saboreado no tema
Doce viver, de Nelson Motta. Ainda por cima trata-se de um hino nostágico às delícias da juventude, daquela juventude privilegiada que frequentava as praias de Leblon e Ipanema. Nada melhor se ajusta à noção de anos dourados. É uma evocação biográfica e, sabendo como Nelson Motta, conviveu intimamente com o núcleo fundador da bossa, pode-se dizer que é um testemunho do ambiente em que ocorreu essa bem-aventurada criação.

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Emílio Santiago - Doce viver in Bossa nova (2000)

Noites tropicais (14) (7 remake)

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Emílio Santiago - Beija-flor (1998)
A música popular brasileira teve sempre ampla difusão em Portugal. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proprcional à da origem. Se assim fosse, Emílio Santiago seria cá mais conhecido. Sabe-se como as vozes negras têm muitas vezes um travo bem identificativo. Pois, esta voz é um bom exemplo. Encaixa-se perfeitamente no tópico de "negão" - quente e poderosa. Diga-se que tais qualidades são apropriadas para a bossa nova e para o samba-canção... Não surpreende, portanto, que no seu repertório haja frequentes incursões nestes géneros.
Este álbum é posterior à série de álbuns Aquarela Brasileira, ao longo da qual o cantor se espraiou por clássicos da bossa e, sobretudo, do samba-canção. Foi um prolongado exercício nostálgico, comercialmente compensador. Contudo, esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. Com efeito, a sistemástica utilização do medley e de arranjos convencionais caracterizam a série Aquarela. As suas qualidades de intérprete acabariam por ser melhor aproveitadas nos últimos álbuns, os quais reflectem conceitos de produção mais refinados. Beija-Flor está produzido por Mazzola e é um trabalho elaborado, bem acabado e coerente. Apesar da presença de canções de compositores mais jovens (Lulu Santos, Chico César), há algumas de compositores mais antigos (Ivan Lins), alguns temas clássicos da canção brasileira e, mesmo um dos meus boleros preferidos, Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero. Há grande variedade de interpretações deste famoso bolero, pois a que aqui se apresenta é excelente. Enfim, para este tipo de vozes o bolero vem mesmo a calhar... Contudo, o ponto mais alto deste álbum de elevado valor médio, está em temas genuinamente brasileiros, entre as quais destaco o clássico Brigas.
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Emílio Santiago - Brigas in Beija-flor (1998)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Complexo de Aljubarrota (14)

D. Luis de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo Melhor (1636 - 1720)

O nacionalismo português desenvolveu-se de braço dado com um sentimento anti-espanhol, ou, pelo menos, anti-castelhano. Quando a história veiculava valores nacionalistas, havia uma galeria de heróis e de feitos exemplares que ilustravam tal sentimento. Imagino que a primeira lista do programa Os grandes portugueses albergaria alguns desses heróis, já que a educação nacionalista do Estado Novo (e da 1ª República...) foi assimilada em condições de conseguir não sossobrar de todo à cultura de massas vigente. Já agora, diga-se que a escola actual não inculca valores nacionalistas. Nem nacionalistas, nem outros, já que é um exagero apodar de valores a meia dúzia de insonsas banalidades cívico-democráticas ensopadas em molho de politicamente correcto com que os nossos alunos são hoje em dia servidos... Ora, vem isto a propósito para chamar a atenção que há um vulto que a educação nacionalista não contemplou. Trata-se de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo-Melhor. Provavelmente, entre portugueses, ninguém teve uma acção tão decisiva para Portugal ser independente.
A Restauração (1 de Dezembro de 1640) só se decidiu mais de vinte anos depois de ter sido proclamada. Durante todo esse tempo a situação foi de uma absoluta precaridade. Nem mesmo o declínio a pique da Monarquia Hispânica deixava na cena política europeia algum espaço de optimismo quanto às suas possibilidades de sobrevivência. Ocorrera como um efeito colateral do crescente poder da França de Richelieu, que foi usado de forma oportunista por essa e outras potências e, assim, se prolongara. O seu destino foi-se jogando num complicado xadrez que envolveu a França, Inglaterra e Províncias Unidas (Países Baixos). Ainda por cima, internamente, os actores que desencadearam o processo (nobreza provinciana e jesuítas) experimentaram ao longo desses anos vacilações e divisões que tornaram evidente a precaridade da situação.
Mas, ao fim de vinte anos parecia ter chegado o momento decisivo - a Monarquia Hispânia achava-se, finalmente, em condições de pôr fim à rebeldia. Era iminente a invasão. A única viabilidade para os Braganças parecia consistir em pôr-se nas mãos dos ingleses. O casamento de D. Catarina com Carlos II e o seu valioso dote (Tânger, Bombaim, dinheiro e facilidades comerciais) representou uma opção de realpolitk que se pode traduzir como ficar de cócoras... Foi essa a desesperada opção da regência de D. Filipa de Gusmão. Porém, tal estratégia foi corrigida pelo golpe palaciano do Conde de Castelo-Melhor. Sucede que, verificando tão comovente fraqueza, os ingleses acarinhavam a hipótese de não arriscar em demasia pelo débil aliado, assegurado que estava o valioso dote de D. Catarina. Estavam em condições de o fazer, de forma discreta e eficaz, já que eram mediadores entre Lisboa e Madrid. Em parte, pela indignação causada pelo dote, em parte pela percepção de que as diligências do embaixador inglês em Madrid apontavam em perigosa direcção, Castelo-Melhor fez girar a política de alianças na direcção do ambicioso Luís XIV.
A nova estratégia passou pelo casamento do lastimável D. Afonso VI com uma princesa francesa, Maria Francisca (após árduas negociações). Havia tudo a ganhar numa aproximação a França. Além de pôr a Monarquia Hispânica em guarda, pôs em guarda a própria Inglaterra e estabeleceu o melhor cenário para a guerra. Se a tudo isto acrescentarmos uma magnífica condução das operações militares, temos aqui o que representou a governação de Castelo Melhor. Foram poucos, mas decisivos anos. Só que sua força (e fraqueza) assentava num rei incapaz (D. Afonso VI), que manietava. Ganha a guerra, acabou por ser removido, como o próprio rei, aliás. Foi um golpe perpetrado pelo príncipe D. Pedro e, curiosamente, instigado pelos franceses. Implicou, também que a princesa Maria Francisca passasse de esposa do rei (provou-se que o casamento nunca fora consumado carnalmente e obteve-se dispensa papal) para esposa do irmão, novo homem forte e futuro rei D. Pedro II. Mas o essencial estava já alcançado. Derrotada e acossada por todos os lados, a Monarquia Hispânica ansiava pelo Tratado de Paz. Este chegaria em 1668.
A acção política de Castelo-Melhor não foi motivada por uma orientação francófila. Não por acaso o seu afastamento resultou de intriga francesa.
A sua orientação consistiu em aproveitar as rivalidades das potências europeias e tal implicou, num dado momento, a aproximação à França. Ganha a guerra, tal aliança deixou de ser crucial. Esta orientação teve continuidade na regência e reinado de D. Pedro II. O apoio francês à sua subida ao poder foi circunstancial, pois visava evitar a assinatura do Tratado de Paz com a Monarquia Hispânia. O facto de não o ter conseguido é demonstrativo dessa continuidade. Seja como for, na parte final do reinado de D. Pedro II haverá uma grande mudança: começará a inserção de Portugal na órbita do que viria a ser o Império Britânico.
Quanto a Castelo-Melhor, durante o exílio, esteve em França, Sabóia e Inglaterra, onde frequentou a corte (diz-se que providenciou o sacerdote católico que deu a extrema unção a Carlos II). No início do reinado de D. João V estará de volta, e durante a sua prolongada e respeitada velhice encontrar-se-á nos mais influentes círculos da corte.

Conde de Castelo-Melhor in Wikipedia


domingo, fevereiro 18, 2007

Memória do futebol (5)

A litania sobre o futebol português
Desde que Benfica e Sporting deixaram de dominar o futebol português, a comunicação social tem alimentado uma recorrente litania sobre o seu valor. São múltiplas as suas vertentes. A mais significativa incide na tentativa de descredibilização do mérito das vitórias do FC Porto. Em prol de uma cruzada sensacionalista são amplificadas sistematicamente todas as suspeitas que podem ir nesse sentido. Contudo, outras vertentes não deixam de ser exploradas, como, por exemplo, um suposto processo de crescente desinteresse do público português pelo futebol. Em boa verdade, em relação a estes argumentos deve-se dizer que existem dados objectivos. São números e estes, em larga medida, relativizam-nos ou, inclusivamente, desmentem-nos de modo devastador.
Todas os elementares dados demonstram, por exemplo, que a difusão de jornais desportivos aumentou dramaticamente nos últimos trinta anos (jornais que além do mais passaram a diários). O mesmo se diga das audiências televisivas do futebol (tendo como comparação apenas as que na actualidade correspondem às transmissões em sinal aberto), que, além do mais, se tornaram muito mais frequentes. O peso relativo dos espaços publicitários associados a estas transmissões, em relação ao bolo publicitário global, aumentou exponencialmente. Tudo isto significa que o futebol na televisão não só tem mais espectadores, como o impacto destas transmissões na sua vida é maior. A publicidade e o mercado publicitário conhecem bem este fenómeno de dependência futebolística, traduzindo-se este facto, por vezes, em saturação... Contudo, há uma ladainha com que constantemente nos matraqueiam: as pessoas já não vão aos estádios, dizem-nos repetidamente. Pelo menos, em comparação com o resto da Europa não se pode dizer isso. Mas, tampouco se pode dizer isso tendo em conta os valores médios dos últimos anos.
Em comparação com o resto da Europa, os índices relativos às nossas áreas metropolitanas só ficam aquém dos correspondentes às áreas metropolitanas da Escócia, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Na globalidade, não se pode dizer que sejam inferiores aos da Itália ou Espanha. São superiores aos da França e Bélgica. São muitíssimo superiores aos da Irlanda, Suiça, Áustria, Grécia, Turquia e todos os países do leste! Sobre isto, oportunamente, avançarei com dados concretos. Entretanto, avanço com os valores médios das assistências nos últimos anos do 1º escalão do futebol português:

Médias da 1º Liga:
1999-00: 8.637;
2000-01: 7.382;
2001-02: 8.098;
2002-03: 7.012;
2003-04: 9.468;
2004–05: 10.624;
2005–06: 10.600.

Médias do Benfica:
1999-00: 27.706 (3);
2000-01: 27.206 (1);
2001-02: 29.924 (1);
2002–03: 22.541 (2);
2003-04: 28.395 (3);
2004–05: 35.053 (2) (campeão);
2005–06: 43.057 (1).

Médias do FC Porto:
1999-00: 22.029 (3) (campeão);
2000-01: 17.776 (3);
2001–02: 21.159 (3);
2002–03: 28.248 (1) (campeão);
2003-04: 34.143 (1) (campeão);
2004–05: 36.038 (1);
2005–06: 38.679 (2) (campeão);

Médias do Sporting:
1999-00: 31.640 (1) (campeão);
2000-01: 29.887 (2);
2001–02: 30.958 (2) (campeão);
2002–03: 14.789 (3);
2003-04: 25.660 (2);
2004–05: 19.000 (3);
2005–06: 28.824 (3).

Digamos que numa interpretação pessimista, o máximo que se pode dizer é que os novos estádios inverteram uma eventual tendência de quebra. E que a evolução dos grandes compensa de sobra eventuais quebras dos demais clubes.
O que se deve discutir não é um hipotético desinteresse do público pelo futebol, mas sim a sua matriz de paixão clubista e o que tal significa em Portugal, onde existe uma concentração absolutamente hipertrofiada dessa paixão nos três grandes.

Fonte: http://www.european-football-statistics.co.uk/attn.htm