terça-feira, fevereiro 20, 2007

Noites tropicais (14) (7 remake)

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Emílio Santiago - Beija-flor (1998)
A música popular brasileira teve sempre ampla difusão em Portugal. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proprcional à da origem. Se assim fosse, Emílio Santiago seria cá mais conhecido. Sabe-se como as vozes negras têm muitas vezes um travo bem identificativo. Pois, esta voz é um bom exemplo. Encaixa-se perfeitamente no tópico de "negão" - quente e poderosa. Diga-se que tais qualidades são apropriadas para a bossa nova e para o samba-canção... Não surpreende, portanto, que no seu repertório haja frequentes incursões nestes géneros.
Este álbum é posterior à série de álbuns Aquarela Brasileira, ao longo da qual o cantor se espraiou por clássicos da bossa e, sobretudo, do samba-canção. Foi um prolongado exercício nostálgico, comercialmente compensador. Contudo, esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. Com efeito, a sistemástica utilização do medley e de arranjos convencionais caracterizam a série Aquarela. As suas qualidades de intérprete acabariam por ser melhor aproveitadas nos últimos álbuns, os quais reflectem conceitos de produção mais refinados. Beija-Flor está produzido por Mazzola e é um trabalho elaborado, bem acabado e coerente. Apesar da presença de canções de compositores mais jovens (Lulu Santos, Chico César), há algumas de compositores mais antigos (Ivan Lins), alguns temas clássicos da canção brasileira e, mesmo um dos meus boleros preferidos, Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero. Há grande variedade de interpretações deste famoso bolero, pois a que aqui se apresenta é excelente. Enfim, para este tipo de vozes o bolero vem mesmo a calhar... Contudo, o ponto mais alto deste álbum de elevado valor médio, está em temas genuinamente brasileiros, entre as quais destaco o clássico Brigas.
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Emílio Santiago - Brigas in Beija-flor (1998)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Complexo de Aljubarrota (14)

D. Luis de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo Melhor (1636 - 1720)

O nacionalismo português desenvolveu-se de braço dado com um sentimento anti-espanhol, ou, pelo menos, anti-castelhano. Quando a história veiculava valores nacionalistas, havia uma galeria de heróis e de feitos exemplares que ilustravam tal sentimento. Imagino que a primeira lista do programa Os grandes portugueses albergaria alguns desses heróis, já que a educação nacionalista do Estado Novo (e da 1ª República...) foi assimilada em condições de conseguir não sossobrar de todo à cultura de massas vigente. Já agora, diga-se que a escola actual não inculca valores nacionalistas. Nem nacionalistas, nem outros, já que é um exagero apodar de valores a meia dúzia de insonsas banalidades cívico-democráticas ensopadas em molho de politicamente correcto com que os nossos alunos são hoje em dia servidos... Ora, vem isto a propósito para chamar a atenção que há um vulto que a educação nacionalista não contemplou. Trata-se de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo-Melhor. Provavelmente, entre portugueses, ninguém teve uma acção tão decisiva para Portugal ser independente.
A Restauração (1 de Dezembro de 1640) só se decidiu mais de vinte anos depois de ter sido proclamada. Durante todo esse tempo a situação foi de uma absoluta precaridade. Nem mesmo o declínio a pique da Monarquia Hispânica deixava na cena política europeia algum espaço de optimismo quanto às suas possibilidades de sobrevivência. Ocorrera como um efeito colateral do crescente poder da França de Richelieu, que foi usado de forma oportunista por essa e outras potências e, assim, se prolongara. O seu destino foi-se jogando num complicado xadrez que envolveu a França, Inglaterra e Províncias Unidas (Países Baixos). Ainda por cima, internamente, os actores que desencadearam o processo (nobreza provinciana e jesuítas) experimentaram ao longo desses anos vacilações e divisões que tornaram evidente a precaridade da situação.
Mas, ao fim de vinte anos parecia ter chegado o momento decisivo - a Monarquia Hispânia achava-se, finalmente, em condições de pôr fim à rebeldia. Era iminente a invasão. A única viabilidade para os Braganças parecia consistir em pôr-se nas mãos dos ingleses. O casamento de D. Catarina com Carlos II e o seu valioso dote (Tânger, Bombaim, dinheiro e facilidades comerciais) representou uma opção de realpolitk que se pode traduzir como ficar de cócoras... Foi essa a desesperada opção da regência de D. Filipa de Gusmão. Porém, tal estratégia foi corrigida pelo golpe palaciano do Conde de Castelo-Melhor. Sucede que, verificando tão comovente fraqueza, os ingleses acarinhavam a hipótese de não arriscar em demasia pelo débil aliado, assegurado que estava o valioso dote de D. Catarina. Estavam em condições de o fazer, de forma discreta e eficaz, já que eram mediadores entre Lisboa e Madrid. Em parte, pela indignação causada pelo dote, em parte pela percepção de que as diligências do embaixador inglês em Madrid apontavam em perigosa direcção, Castelo-Melhor fez girar a política de alianças na direcção do ambicioso Luís XIV.
A nova estratégia passou pelo casamento do lastimável D. Afonso VI com uma princesa francesa, Maria Francisca (após árduas negociações). Havia tudo a ganhar numa aproximação a França. Além de pôr a Monarquia Hispânica em guarda, pôs em guarda a própria Inglaterra e estabeleceu o melhor cenário para a guerra. Se a tudo isto acrescentarmos uma magnífica condução das operações militares, temos aqui o que representou a governação de Castelo Melhor. Foram poucos, mas decisivos anos. Só que sua força (e fraqueza) assentava num rei incapaz (D. Afonso VI), que manietava. Ganha a guerra, acabou por ser removido, como o próprio rei, aliás. Foi um golpe perpetrado pelo príncipe D. Pedro e, curiosamente, instigado pelos franceses. Implicou, também que a princesa Maria Francisca passasse de esposa do rei (provou-se que o casamento nunca fora consumado carnalmente e obteve-se dispensa papal) para esposa do irmão, novo homem forte e futuro rei D. Pedro II. Mas o essencial estava já alcançado. Derrotada e acossada por todos os lados, a Monarquia Hispânica ansiava pelo Tratado de Paz. Este chegaria em 1668.
A acção política de Castelo-Melhor não foi motivada por uma orientação francófila. Não por acaso o seu afastamento resultou de intriga francesa.
A sua orientação consistiu em aproveitar as rivalidades das potências europeias e tal implicou, num dado momento, a aproximação à França. Ganha a guerra, tal aliança deixou de ser crucial. Esta orientação teve continuidade na regência e reinado de D. Pedro II. O apoio francês à sua subida ao poder foi circunstancial, pois visava evitar a assinatura do Tratado de Paz com a Monarquia Hispânia. O facto de não o ter conseguido é demonstrativo dessa continuidade. Seja como for, na parte final do reinado de D. Pedro II haverá uma grande mudança: começará a inserção de Portugal na órbita do que viria a ser o Império Britânico.
Quanto a Castelo-Melhor, durante o exílio, esteve em França, Sabóia e Inglaterra, onde frequentou a corte (diz-se que providenciou o sacerdote católico que deu a extrema unção a Carlos II). No início do reinado de D. João V estará de volta, e durante a sua prolongada e respeitada velhice encontrar-se-á nos mais influentes círculos da corte.

Conde de Castelo-Melhor in Wikipedia


domingo, fevereiro 18, 2007

Memória do futebol (5)

A litania sobre o futebol português
Desde que Benfica e Sporting deixaram de dominar o futebol português, a comunicação social tem alimentado uma recorrente litania sobre o seu valor. São múltiplas as suas vertentes. A mais significativa incide na tentativa de descredibilização do mérito das vitórias do FC Porto. Em prol de uma cruzada sensacionalista são amplificadas sistematicamente todas as suspeitas que podem ir nesse sentido. Contudo, outras vertentes não deixam de ser exploradas, como, por exemplo, um suposto processo de crescente desinteresse do público português pelo futebol. Em boa verdade, em relação a estes argumentos deve-se dizer que existem dados objectivos. São números e estes, em larga medida, relativizam-nos ou, inclusivamente, desmentem-nos de modo devastador.
Todas os elementares dados demonstram, por exemplo, que a difusão de jornais desportivos aumentou dramaticamente nos últimos trinta anos (jornais que além do mais passaram a diários). O mesmo se diga das audiências televisivas do futebol (tendo como comparação apenas as que na actualidade correspondem às transmissões em sinal aberto), que, além do mais, se tornaram muito mais frequentes. O peso relativo dos espaços publicitários associados a estas transmissões, em relação ao bolo publicitário global, aumentou exponencialmente. Tudo isto significa que o futebol na televisão não só tem mais espectadores, como o impacto destas transmissões na sua vida é maior. A publicidade e o mercado publicitário conhecem bem este fenómeno de dependência futebolística, traduzindo-se este facto, por vezes, em saturação... Contudo, há uma ladainha com que constantemente nos matraqueiam: as pessoas já não vão aos estádios, dizem-nos repetidamente. Pelo menos, em comparação com o resto da Europa não se pode dizer isso. Mas, tampouco se pode dizer isso tendo em conta os valores médios dos últimos anos.
Em comparação com o resto da Europa, os índices relativos às nossas áreas metropolitanas só ficam aquém dos correspondentes às áreas metropolitanas da Escócia, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Na globalidade, não se pode dizer que sejam inferiores aos da Itália ou Espanha. São superiores aos da França e Bélgica. São muitíssimo superiores aos da Irlanda, Suiça, Áustria, Grécia, Turquia e todos os países do leste! Sobre isto, oportunamente, avançarei com dados concretos. Entretanto, avanço com os valores médios das assistências nos últimos anos do 1º escalão do futebol português:

Médias da 1º Liga:
1999-00: 8.637;
2000-01: 7.382;
2001-02: 8.098;
2002-03: 7.012;
2003-04: 9.468;
2004–05: 10.624;
2005–06: 10.600.

Médias do Benfica:
1999-00: 27.706 (3);
2000-01: 27.206 (1);
2001-02: 29.924 (1);
2002–03: 22.541 (2);
2003-04: 28.395 (3);
2004–05: 35.053 (2) (campeão);
2005–06: 43.057 (1).

Médias do FC Porto:
1999-00: 22.029 (3) (campeão);
2000-01: 17.776 (3);
2001–02: 21.159 (3);
2002–03: 28.248 (1) (campeão);
2003-04: 34.143 (1) (campeão);
2004–05: 36.038 (1);
2005–06: 38.679 (2) (campeão);

Médias do Sporting:
1999-00: 31.640 (1) (campeão);
2000-01: 29.887 (2);
2001–02: 30.958 (2) (campeão);
2002–03: 14.789 (3);
2003-04: 25.660 (2);
2004–05: 19.000 (3);
2005–06: 28.824 (3).

Digamos que numa interpretação pessimista, o máximo que se pode dizer é que os novos estádios inverteram uma eventual tendência de quebra. E que a evolução dos grandes compensa de sobra eventuais quebras dos demais clubes.
O que se deve discutir não é um hipotético desinteresse do público pelo futebol, mas sim a sua matriz de paixão clubista e o que tal significa em Portugal, onde existe uma concentração absolutamente hipertrofiada dessa paixão nos três grandes.

Fonte: http://www.european-football-statistics.co.uk/attn.htm

sábado, fevereiro 17, 2007

Andalucía (19)

Alpujarra Oriental in Andalucía es de cine (2002)

Alpujarra (ou Alpujarras) é uma região situada entre a Sierra Nevada e as montanhas do litoral, no sudeste da província de Granada. É montanhosa e o seu povoamento (pouco denso) dispersa-se por apertados vales. Alguns desses vales têm microclimas que determinam uma flora distinta da que predomina nesta parte da Peninsula. Com efeito, podem-se encontrar aqui, quase lado a lado, áreas de densa florestação e áreas desérticas.
Tem uma história densa e convulsa. Foi um dos mais importantes redutos da população mourisca que, após a queda do Reino de Granada, decidiu permanecer. Foi aqui que, em finais do século XVI e início do século XVII, ocorreu o mais grave levantamento mourisco. Foi implacavelmente afogado em sangue e determinou a expulsão do que restava desta comunidade para o norte de África. O seu vazio foi parcialmente ocupado por algumas vagas colonizadoras vindas do norte, nomeadamente da Galiza. Por essa razão são visíveis indícios de raízes galegas que podem parecer, à primeira vista, insólitos em bandas tão meridionais. Tais indícios vão desde apelidos familiares até à toponímia. Entremeados com dominantes vestígios mouriscos, ajudam a configurar uma peculiar identidade alpujarreña.

Com tão ricos antecedentes, ainda por cima bem conservados pelo grande isolamento geográfico, a Alpujarra é um catálogo de história e geografia. Não por acaso, o hispanista inglês Gerald Brenan escolheu a região para viver.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

La copla (10) (5 remake)

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Carlos Cano - Cuaderno de coplas (1985)
Este álbum significou um salto qualitativo. Com melhores meios de produção e, sobretudo, com caminhos artísticos bem definidos, a partir daqui todos as suas gravações foram de nível elevado. Para mim este é o melhor de todos, apresentado uma notável homogeneidade de ambiente sonoro e de temas. Um excelente gosto nos arranjos instrumentais confere-lhe um valor geral que supera a soma das partes. O universo de Carlos Cano fica aqui definido como uma original conjugação de referências que se podem resumir em algo como andalucismo neo-tradicionalista. Este "caderno" é um compêndio ilustrado de tal universo através de coplas, romances, habaneras, murgas, pasodobles, peteneras... Neste desfile destaco Pasodoble torero para Gerald Brenan. É uma homenagem ao grande hispanista britânico (Gerald Brenan in Wikipedia) afincado na sua amada Andaluzia, numa aldeia escondida das granadinas Alpujarras. Canta Carlos Cano num refrão de inexcedível beleza: Ay Alpujarra, Alpujarra que grandes son las estrellas, más grandes los corazones. Olé y viva Gerald Brenan! Cierro los ojos y te siento, aunque de ti esté lejos. Ay Alpujarra, Alpujarra. Ay Alpujarra.
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Carlos Cano - Pasodoble torero a Gerald Brenan in Cuaderno de coplas (1985)

Espanha - 22/04/1985: #17 Top Álbuns (8 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

La copla (9)

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Carlos Cano - Quédate con la copla (1987)

Graças a María la Portuguesa este álbum tornou-se o mais emblemático de Carlos Cano. Contudo, no seu conjunto, é verdadeiramente importante porque representa o culminar de um trajecto de recuperação e revalorização do tipo de canção tradicional que é usual em Espanha designar como copla. Em rigor, não se trata só da copla, mas também de outros géneros tradicionais como pasodobles, habaneras e, mesmo, marchas procesionales. É um conceito que poderíamos qualificar como neo-tradicionalismo e que assenta no orgulho da afirmação dos valores culturais autóctones contra um mundo cada vez mais estandardizado. Na sequência do álbum anterior (Cuaderno de coplas), o artista apresenta uma proposta amadurecida em todos os domínios. Em rigor, nem sequer se pode dizer que a homenagem a Amália que abre o álbum está desfasada do resto. O que leva Carlos Cano a Amália é precisamente a mesmo sentimento que o leva a espraiar-se no revivalismo coplero.
A meu ver, sendo um bom álbum, vale, sobretudo, pelo conceito amadurecido que apresenta. O anterior, a meu ver, é superior, já que em termos estritamente musicais resultou de um assomo inspirador inigualável. Ainda assim, temos aqui o artista na plenitude e, além da incontornável María la Portuguesa, encontramos magníficos temas. Aprecie-se uma conhecida marcha procesional de Semana Santa, em honra da sevilhana Virgen de la Macarena, com que o álbum encerra.

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Carlos Cano - Pasan los campanilleros in Quédate con la copla (1987)

Espanha - 10/08/1987: #18 Top Álbuns (28 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Complexo de Aljubarrota (13) (La copla 1 remake)

Carlos Cano (1946 - 2000)
Este cantautor granadino esteve na primeira linha da recuperação da copla (canção tradicional espanhola). Contribuiu decisivamente para um movimento de homenagem e modernização deste género, procedendo a um cruzamento entre tradição e inovação. Espírito generoso e solidário, Carlos Cano foi coerente com os seus ideais, traduzindo-os em empenhamento político. Sentimento que foi, aliás, transposto para a música popular de outros povos deste nosso tão desconhecido mundo. A nossa Amália teve nele um fiel devoto - facto que se traduziu concretamente naquele que foi o maior êxito da sua carreira - María, la Portuguesa. Uma bonita canção com inevitáveis ecos fadistas, ou não estivessem presentes acordes de guitarra portuguesa através de António Chainho... É o tema que abre Quédate con la copla, álbum de 1987. Espanta, espanta verdadeiramente que pouquíssimos ecos desta arrebatada e inspirada declaração de amor pelas coisas portuguesas tivessem cá chegado, tanto mais que foi mesmo um êxito em Espanha! É, enfim, uma outra vertente do velho complexo...

domingo, fevereiro 11, 2007

Complexo de Aljubarrota (12)

Pasión Vega - Lejos de Lisboa (2003)
Apesar de Portugal ser em Espanha um vazio, existe uma minoria informada, que não só se interessa, como aprecia o ignorado vizinho. Para alguma elite é mesmo um distintivo de bom gosto. Na cultura portuguesa encontram figuras e ambientes que promovem nos media e alguns encontram fontes de inspiração artística. É o caso de Pasión Vega que, no seu álbum Banderas de nadie, apresenta esta tema alusivo a Lisboa, com laivos de toada fadista. Em boa hora alguém fez esta montagem, que junta imagens de Lisboa com essse tema de Pasión Vega. É um simpático exercício doméstico que denota grande apreço pelo imaginário lisboeta.

sábado, fevereiro 10, 2007

Memória do futebol (4)

SL Benfica entre os clubes mais ricos

No post "Memória do futebol (2)", a propósito da patética campanha de afirmação do SL Benfica como "maior clube do mundo", com base na certificação do seu número de sócios, desmistifiquei tal intuito e apresentei como uma alternativa mais razoável a lista anual publicada pela Deloitte com os clubes mais ricos do mundo. Conclui esse post escrevendo o seguinte:
"No que diz respeito a clubes portugueses, só esteve próximo da lista o FC Porto. Passou, episodicamente pelos 5 lugares adicionais (ou seja, entre o 21º e o 25º lugar), por força da campanha que lhe deu o título europeu e os correspondentes prémios financeiros. Tal sucedeu em 2004. Não há perspectivas razoáveis que possa voltar a suceder a curto ou médio prazo com um clube português."

Ora, sucede que a lista recentemente publicada, referente a 2006, desmentiu a minha profecia. O SL Benfica atingiu o 20º lugar. Na verdade, excluindo uma dúzia de clubes da parte superior da tabela, cada vez mais, uma boa campanha na Liga dos Campeões é um factor decisivo para entrar nos restantes lugares da tabela. Este factor e o dos direitos televisivos são decisivos. Sob o ponto de vista conjuntural houve uma boa campanha na Liga dos Campeões. Sob o ponto de vista estrutural, pois se há algum clube em Portugal com capacidade para aparecer na lista é precisamente o SL Benfica, pela dimensão da sua base de apoio. Aliás, surpreende é que, desde 2002, só no ano passado a sua assistência média voltasse a ultrapassar as do FC Porto, com o magnífico número de 43.057 espectadores, que o situa entre os grandes da Europa e confirma uma tendência de subida, ano após ano.
Independentemente da grandeza estrutural do SL Benfica, há alguns factores a ter em conta para compreender a, ainda assim, algo inesperada promoção. Um factor decisivo é a crise do futebol italiano, a qual se traduz no desaparecimento da lista do SS Lazio e do AC Parma - o primeiro, note-se, até ao ano passado era um habitual dos primeiros lugares. Depois, há ainda a anotar a não qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões do CF Valencia e do Celtic, habituais da parte inferior da tabela.
Sublinhe-se, que a lista é um apuramento de receitas (receitas regulares, excluindo o valor das transferências), não de encargos. Ou seja, mais do que um retrato da saúde financeira, é um retrato (e bem fidedigno) das suas potencialidades financeiras.
Lista de 2006 (entre parêntesis a posição no ano anterior):
01 (01) Real Madrid - - - - - - - - - €292.2m
02 (06) Barcelona - - - - - - - - - - €259.1m
03 (04) Juventus - - - - - - - - - - - €251.2m
04 (02) Manchester Utd - - - - - - €242.6m
05 (03) AC Milan - - - - - - - - - - - €238.7m
06 (05) Chelsea - - - - - - - - - - - - €221.0m
07 (09) Inter - - - - - - - - - - - - - - €206.6m
08 (07) Bayern - - - - - - - - - - - - €204.7m
09 (10) Arsenal - - - - - - - - - - - - 192.4m
10 (08) Liverpool - - - - - - - - - - -€176m
11 (15) Olympique Lyon - - - - - -€127.7m
12 (11) AS Roma - - - - - - - - - - - 127m
13 (12) Newcastle Utd - - - - - - - 124.3m
14 (14) Schalke 04 - - - - - - - - - - €122.9m
15 (13) Tottenham Hotspur - - - €107.2m
16 (na) Hamburger SV - - - - - - - €101.8m
17 (17) Mancheter City - - - - - - -€89.4m
18 (na) Rangers - - - - - - - - - - - - €88.5m
19 (na) West Ham Utd - - - - - - - 60.1m
20 (na) Benfica - - - - - - - - - - - - -€58.8m

Ver relatório detalhado em: Deloitte Money League 2007