sábado, fevereiro 10, 2007

Memória do futebol (4)

SL Benfica entre os clubes mais ricos

No post "Memória do futebol (2)", a propósito da patética campanha de afirmação do SL Benfica como "maior clube do mundo", com base na certificação do seu número de sócios, desmistifiquei tal intuito e apresentei como uma alternativa mais razoável a lista anual publicada pela Deloitte com os clubes mais ricos do mundo. Conclui esse post escrevendo o seguinte:
"No que diz respeito a clubes portugueses, só esteve próximo da lista o FC Porto. Passou, episodicamente pelos 5 lugares adicionais (ou seja, entre o 21º e o 25º lugar), por força da campanha que lhe deu o título europeu e os correspondentes prémios financeiros. Tal sucedeu em 2004. Não há perspectivas razoáveis que possa voltar a suceder a curto ou médio prazo com um clube português."

Ora, sucede que a lista recentemente publicada, referente a 2006, desmentiu a minha profecia. O SL Benfica atingiu o 20º lugar. Na verdade, excluindo uma dúzia de clubes da parte superior da tabela, cada vez mais, uma boa campanha na Liga dos Campeões é um factor decisivo para entrar nos restantes lugares da tabela. Este factor e o dos direitos televisivos são decisivos. Sob o ponto de vista conjuntural houve uma boa campanha na Liga dos Campeões. Sob o ponto de vista estrutural, pois se há algum clube em Portugal com capacidade para aparecer na lista é precisamente o SL Benfica, pela dimensão da sua base de apoio. Aliás, surpreende é que, desde 2002, só no ano passado a sua assistência média voltasse a ultrapassar as do FC Porto, com o magnífico número de 43.057 espectadores, que o situa entre os grandes da Europa e confirma uma tendência de subida, ano após ano.
Independentemente da grandeza estrutural do SL Benfica, há alguns factores a ter em conta para compreender a, ainda assim, algo inesperada promoção. Um factor decisivo é a crise do futebol italiano, a qual se traduz no desaparecimento da lista do SS Lazio e do AC Parma - o primeiro, note-se, até ao ano passado era um habitual dos primeiros lugares. Depois, há ainda a anotar a não qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões do CF Valencia e do Celtic, habituais da parte inferior da tabela.
Sublinhe-se, que a lista é um apuramento de receitas (receitas regulares, excluindo o valor das transferências), não de encargos. Ou seja, mais do que um retrato da saúde financeira, é um retrato (e bem fidedigno) das suas potencialidades financeiras.
Lista de 2006 (entre parêntesis a posição no ano anterior):
01 (01) Real Madrid - - - - - - - - - €292.2m
02 (06) Barcelona - - - - - - - - - - €259.1m
03 (04) Juventus - - - - - - - - - - - €251.2m
04 (02) Manchester Utd - - - - - - €242.6m
05 (03) AC Milan - - - - - - - - - - - €238.7m
06 (05) Chelsea - - - - - - - - - - - - €221.0m
07 (09) Inter - - - - - - - - - - - - - - €206.6m
08 (07) Bayern - - - - - - - - - - - - €204.7m
09 (10) Arsenal - - - - - - - - - - - - 192.4m
10 (08) Liverpool - - - - - - - - - - -€176m
11 (15) Olympique Lyon - - - - - -€127.7m
12 (11) AS Roma - - - - - - - - - - - 127m
13 (12) Newcastle Utd - - - - - - - 124.3m
14 (14) Schalke 04 - - - - - - - - - - €122.9m
15 (13) Tottenham Hotspur - - - €107.2m
16 (na) Hamburger SV - - - - - - - €101.8m
17 (17) Mancheter City - - - - - - -€89.4m
18 (na) Rangers - - - - - - - - - - - - €88.5m
19 (na) West Ham Utd - - - - - - - 60.1m
20 (na) Benfica - - - - - - - - - - - - -€58.8m

Ver relatório detalhado em: Deloitte Money League 2007

Il bel paese (11)

Amalfi
A cidade histórica de Amalfi está situada no Golfo di Salerno, na parte sul da peninsula de Amalfi / Sorrento, a cerca de 50 Km de Nápoles. A costa amalfitana é escarpada e de extraordinária beleza. Sucedem-se os lugares de referência, onde gente endinheirada e de bom-gosto tem o privilégio de possuir villas de estilo clássico ou fin de siécle.

Il bel paese (10)


Zizi Possi - Per amore (1997)
Para quem retém num lugar privilegiado do seu espírito uma ideia de Itália romântica, este videoclip poderá ser um objecto de culto. Com um pano de fundo de melodia e voz dulcíssimas, aqui se congregam todos os correspondentes sinais desse lugar-comum, diríamos que... em excesso. Há uma desmesurada teatralidade e até o cenário, se, porventura, real, parece intrinsecamente cénico. Seja cenário ou seja real, a luxuosa villa e a paisagem de Positano (ou algum outro abençoado recanto da costa amalfitana) são o vislumbre do que pode ser o paraíso. Com tal música e paisagem, a realidade é, aliás... dispensável.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (39)

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Joan Manuel Serrat - Mediterráneo (1971)

Eis um artista e um álbum dos mais importantes da música espanhola. Foi no seu tempo um exemplo de convergência da crítica com o sucesso comercial, assim como um dos símbolos de uma nova Espanha que começava a tentar libertar-se das amarras do franquismo. O tema que dá nome ao álbum adquiriu um tal impacto que, pelo menos para o público espanhol, não ficou jamais confinado ao simpático baúl de los recuerdos. Efectivamente, tem sido desde então tocado na rádio com assiduidade e o álbum continua a vender ano após ano.
Serrat conquistou uma posição privilegiada na cena musical espanhola, como cantautor de referência. Compreende-se esse lugar privilegiado, sobretudo pela grande valia do que fez nos primeiros vinte anos da sua carreira. Quer em catalão, (sua língua paterna), quer, em castelhano (sua língua materna), construiu uma importantíssima obra, em quantidade e qualidade. Foi um dos mais inspirados impulsionadores da nova cançó. Além disso, musicou grandes poetas castelhanos (Miguel Hernández, Antonio Machado...). A partir dos anos 80 começou a perder algum fulgor criativo, mas manteve-se sempre no primeiro plano através de digressões e edições discográficas assíduas, alternando álbuns em catalão e castelhano.
Recorde-se este momento alto da carreira deste barcelonês de Poble Sec, cantando um Mediterrâneo inspirador...

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Web: Joan Manuel Serrat - Página oficial

Web: Joan Manuel Serrat - Un temps de cançons

Web: Joan Manuel Serrat in Wikipedia



Joan Manuel Serrat - Mediterráneo in Mediterráneo (1971)

Espanha - 03/01/1972: #01 Top Álbuns (52 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Outro Brasil (4)

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Zizi Possi - Per amore (2000)
Zizi Possi (Maria Izildinha Possi - São Paulo, 1956) é um dos nomes mais importantes da MPB. É paulista de ascendência italiana. Nasceu e viveu no bairro do Brás, o mais característico lugar italiano de São Paulo. Nos finais dos anos 90 começou a explorar o filão italiano. Já tinha então consolidado uma imagem refinada, através de álbuns como Estrebucha baby (1989) e, especialmente, Sobre todas as coisas (1991) e Valsa brasileira (1993). Nesses álbuns era patente a sua formação musical numa marca de qualidade muito própria, identificada por um ambiente onde sobressaíam voz e piano - voz que, sendo delicada, foi adquirindo mais expressividade.
Note-se que a sua carreira nunca se limitou à edição discográfica. Foi incorporando espectáculos, aliás, muito bem acolhidos pela crítica. Eram louvados especialmente pela qualidade da
encenação, de seu irmão, José Possi Neto, a qual reforçava as qualidades interpretativas da artista, para além das estritamente musicais.
Per amore foi, assim, não só um álbum, mas também uma série de espectáculos. Este projecto, provavelmente dirigido à comunidade italo-descendente, constituiu o maior êxito comercial da sua carreira. O DVD aqui em apreço regista um dos espectáculos (em São Paulo) e acrescenta dois videoclips. Baseia-se num repertório tradicional napolitano, entremeado com alguns standards da música ligeira italiana dos anos 60 e 70, como Ho capito che ti amo, de Luigi Tenco. A interpretação e arranjos são do mais cool que se possa conceber para o género, com as vantagens e desvantagens inerentes (mais aquelas do que estas)...
Tenho para mim que, sendo um projecto de qualidade, como necessariamente decorre de uma artista deste nível, não alcança o nível mais alto da sua carreira genuinamente inserida na
MPB. Com efeito, não deixa de ser um pastiche, ainda que... de bom-gosto!

Web: Página oficial
Zizi Possi in Wikipedia

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Zizi Possi - Ho capito che ti amo in Per amore (1997)

domingo, fevereiro 04, 2007

Baúl de los recuerdos (15) (6 remake)

Nino Bravo - Te quiero, te quiero (1970)

Este foi um dos meus primeiros discos. Comprei-o em 1971. Por essa altura era fácil conhecer as novidades da música espanhola, quanto mais não fosse porque as nossas estações de rádio passavam-nas com uma frequência que hoje parece inverosímil. Não era raro que êxitos da música espanhola fossem também êxitos em Portugal. Esta canção foi um exemplo. Viviam-se ainda tempos de pré-massificação anglo-americana...
Nino Bravo foi uma das melhores vozes de sempre da música ligeira. Entrou na cena musical, quando já despontava o pop/rock, mas, impondo-se de imediato, graças ao poder da sua voz. É evidente que o seu género apontava noutro sentido, mais convencional - o da canção ligeira, embora num registo modernizado. Não é tanto o caso deste Te quiero, te quiero, o seu primeiro êxito, composto por Augusto Algueró e Rafael de León (um dos nomes consagrados da velha copla, componente da tríade León, Quintero y Quiroga...). É uma canção de corte tradicional, com refrão apropriado para exibição do seu virtuosismo vocal. Os êxitos sucederam-se em catadupa num curto espaço de tempo. Ninguém duvidava que lhe estava destinada uma carreira grandiosa, talvez de dimensão internacional (Algo que era, então, menos óbvio entrever em relação a Julio Iglesias...) Viviam-se, enfim, tempos de ninobravomania... Mas, em 16 de Abril de 1973 eis que surgiu uma trágica notícia: Nino Bravo falecia num desastre de automóvel. Entre a espantosa quantidade de desastres de automóvel que vitimaram artistas espanhóis, este foi o de maior impacto. Permaneceu um sentimento de perda e hoje, já completamente desfeitos na memória os inconsistentes candidatos a sucessores, percebe-se que o seu lugar ficou, definitivamente, vazio.
Nino Bravo era o pseudónimo artístico de Luis Manuel Ferri Llopis. Como os apelidos atestam, era valenciano. Vem a propósito referir que a região valenciana é uma terra musical que se caracteriza por ter em cada localidade, pelo menos, uma banda de música. Desta profícua cantera têm surgido muitos cantores, mas nenhum teve o impacto de Nino Bravo.

Página web Inolvidable Nino Bravo



Nino Bravo - Te quiero, te quiero (1970)

Espanha - 04/01/1971: #01 Top Singles (16 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

sábado, fevereiro 03, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (38): Valencia

Valencia (actual)

Mediterráneo / Mediterrània (37): Valencia

Valencia (anos 50)

Mediterráneo / Mediterrània (36): Valencia (33 remake)

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Al Tall - Al Tall canta "Quan el mal ve d'Almansa" (1979)
O grupo Al Tall tem neste álbum um dos pontos mais altos de uma carreira dedicada à musica popular valenciana. Sucede que este trabalho desenvolve-se sob um conceito que se relaciona com as ocorrências da Guerra de Sucessão de Espanha, designadamente a batalha de Almansa (1707) (Um aparte para mencionar que Portugal teve uma destacada participação nesta guerra, ao lado, da Inglaterra, apoiando o Arquiduque Carlos de Áustria). Almansa, pela sua posição geográfica, era a tradicional porta de entrada na região valenciana para quem vinha da meseta castelhana. Aí se deu esta batalha que ganhou carga simbólica: a perda das liberdades forais do Reino de Valencia. Movimentos radicais pan-catalanistas têm-se esforçado por conferir um significado ainda mais profundo: o da perda de uma certa unidade e auto-governo de uma realidade que designam como Países Catalães. Al Tall está próximo desta perspectiva, mas deve-se sublinhar que é, hoje em dia, uma perspectiva minoritária na sociedade valenciana, onde o nacionalismo é inexpressivo e onde impera o regionalismo, que tem assumido uma feição anticatalanista. Nesta linha, os estereótipos da identidade valenciana têm acarinhado até à exaustão os elementos folclóricos, sublinhando neles aquilo que, segundo a sua interpretação voluntarista, os diferenciam do que é catalão. Em todo o caso, desta linha ideológica não veio jamais um trabalho sério dentro da música popular como o que Al Tall tem desenvolvido e, muito menos, alguma abordagem conceptual do calibre daquela que o álbum aqui em apreço demonstra. Deste e de outros álbuns do grupo ficamos com uma ideia de que a música popular valenciana está num lugar de intercepção entre a alegria da jota aragonesa, o virtuosismo instrumental catalão e o vigor telúrico de percussões berberes.
Um nota final para o que o cavalo da capa e contra-capa sugere: a estátua equestre do caudillo no centro da cidade de Valencia - a mais imponente de todas as que existiram em várias cidades espanholas. Em devido tempo foi retirada - precisamente por altura da edição do álbum. Há aqui uma analogia entre o primeiro rei da dinastia Bourbon, Filipe V, vencedor de Almansa, com o descavalgado caudillo - uma espécie de vingança da história...
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Al Tall - Albaes in Quan el mal ve d'Almansa... (1979)

Al Tall - Bolero in Quan el mal ve d'Almansa... (1979)