segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Outro Brasil (4)

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Zizi Possi - Per amore (2000)
Zizi Possi (Maria Izildinha Possi - São Paulo, 1956) é um dos nomes mais importantes da MPB. É paulista de ascendência italiana. Nasceu e viveu no bairro do Brás, o mais característico lugar italiano de São Paulo. Nos finais dos anos 90 começou a explorar o filão italiano. Já tinha então consolidado uma imagem refinada, através de álbuns como Estrebucha baby (1989) e, especialmente, Sobre todas as coisas (1991) e Valsa brasileira (1993). Nesses álbuns era patente a sua formação musical numa marca de qualidade muito própria, identificada por um ambiente onde sobressaíam voz e piano - voz que, sendo delicada, foi adquirindo mais expressividade.
Note-se que a sua carreira nunca se limitou à edição discográfica. Foi incorporando espectáculos, aliás, muito bem acolhidos pela crítica. Eram louvados especialmente pela qualidade da
encenação, de seu irmão, José Possi Neto, a qual reforçava as qualidades interpretativas da artista, para além das estritamente musicais.
Per amore foi, assim, não só um álbum, mas também uma série de espectáculos. Este projecto, provavelmente dirigido à comunidade italo-descendente, constituiu o maior êxito comercial da sua carreira. O DVD aqui em apreço regista um dos espectáculos (em São Paulo) e acrescenta dois videoclips. Baseia-se num repertório tradicional napolitano, entremeado com alguns standards da música ligeira italiana dos anos 60 e 70, como Ho capito che ti amo, de Luigi Tenco. A interpretação e arranjos são do mais cool que se possa conceber para o género, com as vantagens e desvantagens inerentes (mais aquelas do que estas)...
Tenho para mim que, sendo um projecto de qualidade, como necessariamente decorre de uma artista deste nível, não alcança o nível mais alto da sua carreira genuinamente inserida na
MPB. Com efeito, não deixa de ser um pastiche, ainda que... de bom-gosto!

Web: Página oficial
Zizi Possi in Wikipedia

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Zizi Possi - Ho capito che ti amo in Per amore (1997)

domingo, fevereiro 04, 2007

Baúl de los recuerdos (15) (6 remake)

Nino Bravo - Te quiero, te quiero (1970)

Este foi um dos meus primeiros discos. Comprei-o em 1971. Por essa altura era fácil conhecer as novidades da música espanhola, quanto mais não fosse porque as nossas estações de rádio passavam-nas com uma frequência que hoje parece inverosímil. Não era raro que êxitos da música espanhola fossem também êxitos em Portugal. Esta canção foi um exemplo. Viviam-se ainda tempos de pré-massificação anglo-americana...
Nino Bravo foi uma das melhores vozes de sempre da música ligeira. Entrou na cena musical, quando já despontava o pop/rock, mas, impondo-se de imediato, graças ao poder da sua voz. É evidente que o seu género apontava noutro sentido, mais convencional - o da canção ligeira, embora num registo modernizado. Não é tanto o caso deste Te quiero, te quiero, o seu primeiro êxito, composto por Augusto Algueró e Rafael de León (um dos nomes consagrados da velha copla, componente da tríade León, Quintero y Quiroga...). É uma canção de corte tradicional, com refrão apropriado para exibição do seu virtuosismo vocal. Os êxitos sucederam-se em catadupa num curto espaço de tempo. Ninguém duvidava que lhe estava destinada uma carreira grandiosa, talvez de dimensão internacional (Algo que era, então, menos óbvio entrever em relação a Julio Iglesias...) Viviam-se, enfim, tempos de ninobravomania... Mas, em 16 de Abril de 1973 eis que surgiu uma trágica notícia: Nino Bravo falecia num desastre de automóvel. Entre a espantosa quantidade de desastres de automóvel que vitimaram artistas espanhóis, este foi o de maior impacto. Permaneceu um sentimento de perda e hoje, já completamente desfeitos na memória os inconsistentes candidatos a sucessores, percebe-se que o seu lugar ficou, definitivamente, vazio.
Nino Bravo era o pseudónimo artístico de Luis Manuel Ferri Llopis. Como os apelidos atestam, era valenciano. Vem a propósito referir que a região valenciana é uma terra musical que se caracteriza por ter em cada localidade, pelo menos, uma banda de música. Desta profícua cantera têm surgido muitos cantores, mas nenhum teve o impacto de Nino Bravo.

Página web Inolvidable Nino Bravo



Nino Bravo - Te quiero, te quiero (1970)

Espanha - 04/01/1971: #01 Top Singles (16 semanas em lista)

Fonte: Fernando Salaverry - Sólo éxitos: Año a año (1959 - 2004)

sábado, fevereiro 03, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (38): Valencia

Valencia (actual)

Mediterráneo / Mediterrània (37): Valencia

Valencia (anos 50)

Mediterráneo / Mediterrània (36): Valencia (33 remake)

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Al Tall - Al Tall canta "Quan el mal ve d'Almansa" (1979)
O grupo Al Tall tem neste álbum um dos pontos mais altos de uma carreira dedicada à musica popular valenciana. Sucede que este trabalho desenvolve-se sob um conceito que se relaciona com as ocorrências da Guerra de Sucessão de Espanha, designadamente a batalha de Almansa (1707) (Um aparte para mencionar que Portugal teve uma destacada participação nesta guerra, ao lado, da Inglaterra, apoiando o Arquiduque Carlos de Áustria). Almansa, pela sua posição geográfica, era a tradicional porta de entrada na região valenciana para quem vinha da meseta castelhana. Aí se deu esta batalha que ganhou carga simbólica: a perda das liberdades forais do Reino de Valencia. Movimentos radicais pan-catalanistas têm-se esforçado por conferir um significado ainda mais profundo: o da perda de uma certa unidade e auto-governo de uma realidade que designam como Países Catalães. Al Tall está próximo desta perspectiva, mas deve-se sublinhar que é, hoje em dia, uma perspectiva minoritária na sociedade valenciana, onde o nacionalismo é inexpressivo e onde impera o regionalismo, que tem assumido uma feição anticatalanista. Nesta linha, os estereótipos da identidade valenciana têm acarinhado até à exaustão os elementos folclóricos, sublinhando neles aquilo que, segundo a sua interpretação voluntarista, os diferenciam do que é catalão. Em todo o caso, desta linha ideológica não veio jamais um trabalho sério dentro da música popular como o que Al Tall tem desenvolvido e, muito menos, alguma abordagem conceptual do calibre daquela que o álbum aqui em apreço demonstra. Deste e de outros álbuns do grupo ficamos com uma ideia de que a música popular valenciana está num lugar de intercepção entre a alegria da jota aragonesa, o virtuosismo instrumental catalão e o vigor telúrico de percussões berberes.
Um nota final para o que o cavalo da capa e contra-capa sugere: a estátua equestre do caudillo no centro da cidade de Valencia - a mais imponente de todas as que existiram em várias cidades espanholas. Em devido tempo foi retirada - precisamente por altura da edição do álbum. Há aqui uma analogia entre o primeiro rei da dinastia Bourbon, Filipe V, vencedor de Almansa, com o descavalgado caudillo - uma espécie de vingança da história...
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Al Tall - Albaes in Quan el mal ve d'Almansa... (1979)

Al Tall - Bolero in Quan el mal ve d'Almansa... (1979)

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Outro Brasil (3)

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Toquinho - Acquarello (1983)
Aquarela / Acquarello é a mais conhecida canção de Toquinho. É linda! Foi composta em parceria com Maurizio Fabrizio e Vinicius. Foi originalmente concebida em dupla versão bilingue, como, aliás, o álbum em que se insere. É também provável que haja uma versão em espanhol, já que alcançou grande popularidade em Espanha (há uma recente versão, do grupo Seguridad Social). Exímio tocador de violão, inesquecíquel companheiro de Vinicius, Toquinho caprichou em deixar este testemunho de sensibilidade que será para sempre um exemplo de simplicidade sublime. Que o resto do álbum seja pouco menos que banal, tem pouca importância depois de tal entrada....
Toquinho, de seu nome António Pecci Filho, é um retinto paulista, descendente de italianos. Em finais dos anos 60 teve com Chico Buarque um exílio italiano, que no seu caso foi oportunidade para um reforço das raízes culturais familiares. Desde então tem levado uma carreira dividida entre Itália e Brasil. Com Sergio Bardotti, Ornella Vanoni, Sergio Endrigo e Maurizio Fabrizio consolidou essa vertente italiana.
Em jeito de apoteose para esta jóia, aqui fica também a versão em português, através de um video com uns desenhos animados que se enquadram perfeitamente no espírito de
Aquarela / Acquarello. Melhor, impossível...

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Toquinho e o seu violão

Toquinho - Acquarello in Acquarello (1983)

Mediterráneo / Mediterrània (35)

Raimon - Cançons de la roda del temps (1966)

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terça-feira, janeiro 30, 2007

Mediterráneo / Mediterrània (34)

Raimon - Nova integral Edició 2000 (2000)
Raimon (Ramón Sanchis Pelejero) é o decano da cançó catalana, mas não é propriamente catalão, é valenciano. Nasceu em Xàtiva, no sul da província de Valencia. Convém saber que a área linguística catalã estende-se pelo litoral das terras valencianas até ao sul da província de Alicante. As localidades de Elx (Elche) e Crevillent, já próximas de Murcia, assinalam os seus limites meridionais. A forma valenciana de falar catalão (valencià) diferencia-se por uma fonética de vogais mais abertas e por um vocabulário com certas especificidades, uma boa parte das quais de origem árabe. Juntamente com um punhado de intelectuais valencianos, onde avulta Joan Fuster, Raimon foi, nos anos 60 e 70, intérprete de um ideal pan-catalanista que se traduzia no conceito Països Catalans - comunidade linguística entre Principat (Catalunya), Illes (Menorca, Mallorca, Eivissa) e País Valenciá. Tornou-se figura de proa do catalanismo. Mas, em boa verdade, foi mais do que isso, foi uma dos primeiros cantautores com projecção e nessa medida chegou a ter notoriedade em toda a Espanha, apesar de ter cantado sempre só em catalão. Alguns dos hinos antifranquistas dos anos 60 foram da sua lavra. Em qualquer lugar de Espanha os seus espectáculos transformavam-se em comícios. Porém, a sua música foi-se desenvolvendo para além das intervenção política. No início, a crua simplicidade da sua música, assente numa simples guitarra e em acordes lineares, fazia ressaltar uma voz poderosa e expressiva. Este trunfo sempre o manteve. Mas, já em 1966 havia sinais num outro sentido. Nesse ano saiu o álbum Cançons de la roda del temps, onde Raimon pôs em música poemas de Salvador Espriu e tinha uma capa da autoria de Joan Miró. Esta linha levá-lo-ia mais tarde aos poetas valencianos de finais da Idade Média, como Ausiàs March. Nos anos 80 e 90 estava já longe do panfletarismo, apostando por uma via mais valiosa de canção de texto.
Em 2000 é lançada uma reedição de toda a sua carreira discográfica em 10 volumes. No sexto consta Cançons de la roda del temps, não na versão original, mas numa outra, que havia sido entretanto gravada em 1981. A voz ainda poderosa e límpida de Raimon e o adusto lirismo de Espriu proporcionam uma experiência tão interessante como na versão original.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Outro Brasil (2)

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Ornella Vanoni, Vinicius, Toquinho - La voglia, la pazzia, l'incoscienza, l'allegria (1976)
Este álbum foi gravado em Milão, em 1976, com produção de Sergio Bardotti. Temos aqui o melhor encontro entre a música italiana e a MPB. Uma benfazeja onda parece ter inspirado o empreendimento, que foi dos mais bem sucedidos de Bardotti como promotor da MPB em Itália.
Como noutras gravações de Toquinho e Vinicius, intui-se um certa descontração, escutando introduções em jeito de bate-papo, declamações e pequenos improvisos soltos com oportunidade. É notório que se sentem bem num ambiente italiano - Toquinho, como tantos paulistas, tem chegados ascendentes italianos e Vinicius, não nos esqueçamos, foi diplomata em Roma. Quanto a Ornella é notório que não está ali como intrusa. É, enfim, um grupo de amigos que se encontrou no estúdio. O poeta, religiosamente acompanhado pelo seu copo de whisky, em esplendorosa beatitude. Toquinho em óptima forma com o seu violão. Ornella, com a sua finura, no apogeu. Que encontro! Todo o disco não tem desperdício, mas se me é permitido destacar um tema, pois que seja o inesperado clássico napolitano Anema e Core (Alma e coração, em napolitano), que durante minuto e meio nos eleva até ao plano da perfeição melódica, mediante a voz sensível de Ornella, apenas acompanhada discretamente pelo violão de Toquinho. Ainda por cima, na sequência em que aparece, este tema é um suavíssimo interlúdio na toada de suave batucada. Ou seja, estabelece um ligeiro contraste, reforçando a harmonia do conjunto. É um flash napolitano, cujo nexo de oportunidade parece ser (como se deduz da introdução) o facto de ser predilecto de Vinicius.
(Vai daqui um abraço para o meu amigo Paolo Driussi que me deu este CD, como muitos outros...)
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Ornella Vanoni / Toquinho - Anema e core in La voglia, la pazzia, l'incoscienza, l'allegria (1976)