quarta-feira, janeiro 31, 2007
terça-feira, janeiro 30, 2007
Mediterráneo / Mediterrània (34)
Raimon (Ramón Sanchis Pelejero) é o decano da cançó catalana, mas não é propriamente catalão, é valenciano. Nasceu em Xàtiva, no sul da província de Valencia. Convém saber que a área linguística catalã estende-se pelo litoral das terras valencianas até ao sul da província de Alicante. As localidades de Elx (Elche) e Crevillent, já próximas de Murcia, assinalam os seus limites meridionais. A forma valenciana de falar catalão (valencià) diferencia-se por uma fonética de vogais mais abertas e por um vocabulário com certas especificidades, uma boa parte das quais de origem árabe. Juntamente com um punhado de intelectuais valencianos, onde avulta Joan Fuster, Raimon foi, nos anos 60 e 70, intérprete de um ideal pan-catalanista que se traduzia no conceito Països Catalans - comunidade linguística entre Principat (Catalunya), Illes (Menorca, Mallorca, Eivissa) e País Valenciá. Tornou-se figura de proa do catalanismo. Mas, em boa verdade, foi mais do que isso, foi uma dos primeiros cantautores com projecção e nessa medida chegou a ter notoriedade em toda a Espanha, apesar de ter cantado sempre só em catalão. Alguns dos hinos antifranquistas dos anos 60 foram da sua lavra. Em qualquer lugar de Espanha os seus espectáculos transformavam-se em comícios. Porém, a sua música foi-se desenvolvendo para além das intervenção política. No início, a crua simplicidade da sua música, assente numa simples guitarra e em acordes lineares, fazia ressaltar uma voz poderosa e expressiva. Este trunfo sempre o manteve. Mas, já em 1966 havia sinais num outro sentido. Nesse ano saiu o álbum Cançons de la roda del temps, onde Raimon pôs em música poemas de Salvador Espriu e tinha uma capa da autoria de Joan Miró. Esta linha levá-lo-ia mais tarde aos poetas valencianos de finais da Idade Média, como Ausiàs March. Nos anos 80 e 90 estava já longe do panfletarismo, apostando por uma via mais valiosa de canção de texto.
Em 2000 é lançada uma reedição de toda a sua carreira discográfica em 10 volumes. No sexto consta Cançons de la roda del temps, não na versão original, mas numa outra, que havia sido entretanto gravada em 1981. A voz ainda poderosa e límpida de Raimon e o adusto lirismo de Espriu proporcionam uma experiência tão interessante como na versão original.
Em 2000 é lançada uma reedição de toda a sua carreira discográfica em 10 volumes. No sexto consta Cançons de la roda del temps, não na versão original, mas numa outra, que havia sido entretanto gravada em 1981. A voz ainda poderosa e límpida de Raimon e o adusto lirismo de Espriu proporcionam uma experiência tão interessante como na versão original.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Outro Brasil (2)
Este álbum foi gravado em Milão, em 1976, com produção de Sergio Bardotti. Temos aqui o melhor encontro entre a música italiana e a MPB. Uma benfazeja onda parece ter inspirado o empreendimento, que foi dos mais bem sucedidos de Bardotti como promotor da MPB em Itália.
Como noutras gravações de Toquinho e Vinicius, intui-se um certa descontração, escutando introduções em jeito de bate-papo, declamações e pequenos improvisos soltos com oportunidade. É notório que se sentem bem num ambiente italiano - Toquinho, como tantos paulistas, tem chegados ascendentes italianos e Vinicius, não nos esqueçamos, foi diplomata em Roma. Quanto a Ornella é notório que não está ali como intrusa. É, enfim, um grupo de amigos que se encontrou no estúdio. O poeta, religiosamente acompanhado pelo seu copo de whisky, em esplendorosa beatitude. Toquinho em óptima forma com o seu violão. Ornella, com a sua finura, no apogeu. Que encontro! Todo o disco não tem desperdício, mas se me é permitido destacar um tema, pois que seja o inesperado clássico napolitano Anema e Core (Alma e coração, em napolitano), que durante minuto e meio nos eleva até ao plano da perfeição melódica, mediante a voz sensível de Ornella, apenas acompanhada discretamente pelo violão de Toquinho. Ainda por cima, na sequência em que aparece, este tema é um suavíssimo interlúdio na toada de suave batucada. Ou seja, estabelece um ligeiro contraste, reforçando a harmonia do conjunto. É um flash napolitano, cujo nexo de oportunidade parece ser (como se deduz da introdução) o facto de ser predilecto de Vinicius.
Como noutras gravações de Toquinho e Vinicius, intui-se um certa descontração, escutando introduções em jeito de bate-papo, declamações e pequenos improvisos soltos com oportunidade. É notório que se sentem bem num ambiente italiano - Toquinho, como tantos paulistas, tem chegados ascendentes italianos e Vinicius, não nos esqueçamos, foi diplomata em Roma. Quanto a Ornella é notório que não está ali como intrusa. É, enfim, um grupo de amigos que se encontrou no estúdio. O poeta, religiosamente acompanhado pelo seu copo de whisky, em esplendorosa beatitude. Toquinho em óptima forma com o seu violão. Ornella, com a sua finura, no apogeu. Que encontro! Todo o disco não tem desperdício, mas se me é permitido destacar um tema, pois que seja o inesperado clássico napolitano Anema e Core (Alma e coração, em napolitano), que durante minuto e meio nos eleva até ao plano da perfeição melódica, mediante a voz sensível de Ornella, apenas acompanhada discretamente pelo violão de Toquinho. Ainda por cima, na sequência em que aparece, este tema é um suavíssimo interlúdio na toada de suave batucada. Ou seja, estabelece um ligeiro contraste, reforçando a harmonia do conjunto. É um flash napolitano, cujo nexo de oportunidade parece ser (como se deduz da introdução) o facto de ser predilecto de Vinicius.
(Vai daqui um abraço para o meu amigo Paolo Driussi que me deu este CD, como muitos outros...)
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Ornella Vanoni / Toquinho - Anema e core in La voglia, la pazzia, l'incoscienza, l'allegria (1976)
sábado, janeiro 27, 2007
Complexo de Aljubarrota (11)

Rafael Valladares - A independência de Portugal: Guerra e Restauração 1640 - 1680 (1976) / La rebelión de Portugal 1640 - 1680 (1998)Este livro é um achado. O tema tem estado sempre ausente das preocupações historiográficas espanholas. Por cá o tema ficou assolado por uma visão nacionalista e, a avaliar pelo mercado editorial, não tem despertado interesse que sustente novidades. Rafael Valladares é um caso sui generis. Para além de um interesse avalizado por uma profunda investigação, demonstra uma rara percepção do como o assunto é visto e sentido por cá. Será, enfim, um dos poucos espanhóis que compreendem a natureza do tal complexo de Aljubarrota... Mas a sua percepção vai mais longe - avança com elementos para se entender esse lugar ausente que Portugal ocupa na cosmovisão espanhola. Com efeito, uma peça essencial na sua tese é a que a perda do império português para a monarquia hispânica foi algo, a todos os títulos doloroso e traumatizante, de tal modo que constituiu o ponto de partida para um processo de perda não superado - um luto que nunca chegou a ser feito e que, com o tempo, cristalizou em esquecimento e ignorância anormais.
A informação discorre pelos caminhos da pura história política. Percebe-se que a Restauração se tornou possível graças ao contexto da política europeia da segunda metade do século XVII. Dois factores tornaram-se decisivos para o seu êxito: o Brasil e os Jesuítas. O pano de fundo favorável é, evidentemente, a decadência do império hispânico dos Habsburgos, a posição ascendente da França (já moldada pela raison d'état de Richelieu), primeiro, e a Inglaterra empenhada em obter o domínio da navegação atlântica, depois. Tal contexto não o ignorava, mas desconhecia muitos dados concretos que os ilustra. Espanta a debilidade da monarquia restaurada dos Braganças, cuja sobrevivência só é compreensível pela ainda mais espantosa inanidade da máquina militar do valido Conde-Duque Olivares. Neste particular há, para mim uma novidade: a sua clarividência política é bem mais débil do que supunha. Via-o mais como vítima de circunstâncias adversas, mas agora parece-me que a sua acção demonstra demasiada obstinação e rigidez. Em todo o caso, a situação ficou por definir muito tempo para além do seu desaparecimento do cenário político. Até quase ao final do século a reintegração de Portugal na monarquia hispânica continuou a ser uma possibilidade muito viável. Uma vez mais, o que acabou por ser decisivo foram os factores da grande política europeia, que jogaram sempre no sentido do enfraquecimento do império espanhol.
Uma nota final para sublinhar a qualidade gráfica desta edição - capa dura, sobrecapa, bom papel e boas gravuras.
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A informação discorre pelos caminhos da pura história política. Percebe-se que a Restauração se tornou possível graças ao contexto da política europeia da segunda metade do século XVII. Dois factores tornaram-se decisivos para o seu êxito: o Brasil e os Jesuítas. O pano de fundo favorável é, evidentemente, a decadência do império hispânico dos Habsburgos, a posição ascendente da França (já moldada pela raison d'état de Richelieu), primeiro, e a Inglaterra empenhada em obter o domínio da navegação atlântica, depois. Tal contexto não o ignorava, mas desconhecia muitos dados concretos que os ilustra. Espanta a debilidade da monarquia restaurada dos Braganças, cuja sobrevivência só é compreensível pela ainda mais espantosa inanidade da máquina militar do valido Conde-Duque Olivares. Neste particular há, para mim uma novidade: a sua clarividência política é bem mais débil do que supunha. Via-o mais como vítima de circunstâncias adversas, mas agora parece-me que a sua acção demonstra demasiada obstinação e rigidez. Em todo o caso, a situação ficou por definir muito tempo para além do seu desaparecimento do cenário político. Até quase ao final do século a reintegração de Portugal na monarquia hispânica continuou a ser uma possibilidade muito viável. Uma vez mais, o que acabou por ser decisivo foram os factores da grande política europeia, que jogaram sempre no sentido do enfraquecimento do império espanhol.
Uma nota final para sublinhar a qualidade gráfica desta edição - capa dura, sobrecapa, bom papel e boas gravuras.
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Complexo de Aljubarrota (10) (1 remake)
Sempre senti atracção por Espanha. Na verdade, Espanha e Itália por umas razões, Grã-Bretanha por razões de outro tipo, são os países que mais me atraem. Sempre viajei muito por Espanha e posso dizer que conheço Espanha e os espanhóis melhor que a maioria dos portugueses. Este conhecimento foi reforçado pelo facto de ter o meu filho a estudar no Instituto Espanhol e pelo seguimento que faço dos meios de comunicação do país vizinho. Sempre li muito sobre assuntos relacionados com Espanha, podendo dizer que conheço bastante da sua história e geografia.
É um dado conhecido, mas não devidamente tido em conta, o mútuo desconhecimento dos vizinhos ibéricos; melhor dizendo – ambos pensam que se conhecem bem e, na realidade, estão longe de se conhecer bem. O desconhecimento consegue ser ainda maior pelo lado de lá. Ora, sobre isto impõe-se a leitura de Reflexões de um espanhol em Portugal, de Federico González, o qual, com certeiro poder de observação, se deu conta da dimensão do equívoco. O livro é, aliás, delicioso e deveria ser de leitura obrigatória para portugueses e espanhóis que têm de se aturar mutuamente. Pena é que se centre só no âmbito das relações empresariais e laborais.
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É um dado conhecido, mas não devidamente tido em conta, o mútuo desconhecimento dos vizinhos ibéricos; melhor dizendo – ambos pensam que se conhecem bem e, na realidade, estão longe de se conhecer bem. O desconhecimento consegue ser ainda maior pelo lado de lá. Ora, sobre isto impõe-se a leitura de Reflexões de um espanhol em Portugal, de Federico González, o qual, com certeiro poder de observação, se deu conta da dimensão do equívoco. O livro é, aliás, delicioso e deveria ser de leitura obrigatória para portugueses e espanhóis que têm de se aturar mutuamente. Pena é que se centre só no âmbito das relações empresariais e laborais.
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terça-feira, janeiro 23, 2007
Napule e'... (4)
Eis a canção tradicional napolitana pura e dura, por um dos seus mais convencionais e populares intérpretes: Bruno Venturini. São cinco os volumes que compõem esta colectânea, que percorre todo o mais conhecido repertório napolitano. A consabida estridência tenorística do género tem aqui uma amostra adequada. Como não podia deixar de ser, há uma boa dose de hiperdramatismo na interpretação. Seja como for... é bonito, muito bonito, sobretudo se servido por melodias sublimes e letras comoventes como a célebre Lacreme napulitane presente neste volume, provavelmente a mais bela canção jamais alguma vez inspirada pela nostalgia imigrante...
Bruno Venturini in Artisti.it1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Bruno Venturini - Malafemmena in Antologia Napoletana: 'Simmo 'e Napule... paisà... (1987)
Napule e'... (3)
Malafemmena
É curioso, mas a verdade é que o autor da famosíssima canção napolitana Malafemmena (Má mulher) é... Totò. Efectivamente, essa canção amargurada foi composta por Antonio de Curtis.
Si avisse fatto a n'ato
chello ch'hê fatto a me,
st'ommo t'avesse acciso...
e vuó sapé pecché?
Pecché 'ncopp'a 'sta terra,
femmene comm'a te,
nun ce hann''a stá pe' n'ommo
onesto comm'a me...
Femmena,
tu si na malafemmena...
a st'uocchie hê fatto chiagnere,
lacreme 'e 'nfamitá...
Femmena,
tu si peggio 'e na vipera,
mm'hê 'ntussecato ll'ánema,
nun pòzzo cchiù campá...
Femmena,
si doce comm''o zzuccaro...
peró 'sta faccia d'angelo,
te serve pe' 'nganná!
Femmena,
tu si 'a cchiù bella femmena...
te voglio bene e t'odio:
nun te pòzzo scurdá...
Te voglio ancora bene,
ma tu nun saje pecché...
pecché ll'unico ammore
si' stato tu pe' me!...
E tu, pe' nu capriccio,
tutto hê distrutto oje né'...
Ma Dio nun t''o pperdona
chello ch'hê fatto a me...
Femmena,
chello ch'hê fatto a me,
st'ommo t'avesse acciso...
e vuó sapé pecché?
Pecché 'ncopp'a 'sta terra,
femmene comm'a te,
nun ce hann''a stá pe' n'ommo
onesto comm'a me...
Femmena,
tu si na malafemmena...
a st'uocchie hê fatto chiagnere,
lacreme 'e 'nfamitá...
Femmena,
tu si peggio 'e na vipera,
mm'hê 'ntussecato ll'ánema,
nun pòzzo cchiù campá...
Femmena,
si doce comm''o zzuccaro...
peró 'sta faccia d'angelo,
te serve pe' 'nganná!
Femmena,
tu si 'a cchiù bella femmena...
te voglio bene e t'odio:
nun te pòzzo scurdá...
Te voglio ancora bene,
ma tu nun saje pecché...
pecché ll'unico ammore
si' stato tu pe' me!...
E tu, pe' nu capriccio,
tutto hê distrutto oje né'...
Ma Dio nun t''o pperdona
chello ch'hê fatto a me...
Femmena,
Antonio de Curtis
Napule e'... (2)
Antonio de Curtis (Totò) (1898-1967)
É um pormenor quase tão grotesco como certas situações dos seus filmes, mas a verdade é que Totò viu oficialmente reconhecido, em 1946, o direito a nomear-se e intitular-se do seguinte modo: "Antonio Griffo Focas Flavio Dicas Commeno Porfirogenito Gagliardi De Curtis di Bisanzio, altezza imperiale, conte palatino, cavaliere del sacro Romano Impero, esarca di Ravenna, duca di Macedonia e di Illiria, principe di Costantinopoli, di Cicilia, di Tessaglia, di Ponte di Moldavia, di Dardania, del Peloponneso, conte di Cipro e di Epiro, conte e duca di Drivasto e Durazzo". Quem diria... Sucede que o cómico napolitano nasceu de uma relação amorosa clandestina entre sua mãe, uma plebeia, e o marquês Giuseppe de Curtis. Este só o reconheceu mais de trinta anos após o seu nascimento.
Poucas personagens foram tão marcadamente portadoras da alma napolitana como Totò - esse pobre diabo desenrascado, zombeteiro pateta, oscilando entre o megalómeno e o servil.
Poucas personagens foram tão marcadamente portadoras da alma napolitana como Totò - esse pobre diabo desenrascado, zombeteiro pateta, oscilando entre o megalómeno e o servil.
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