terça-feira, janeiro 23, 2007

Napule e'... (2)

Antonio de Curtis (Totò) (1898-1967)
É um pormenor quase tão grotesco como certas situações dos seus filmes, mas a verdade é que Totò viu oficialmente reconhecido, em 1946, o direito a nomear-se e intitular-se do seguinte modo: "Antonio Griffo Focas Flavio Dicas Commeno Porfirogenito Gagliardi De Curtis di Bisanzio, altezza imperiale, conte palatino, cavaliere del sacro Romano Impero, esarca di Ravenna, duca di Macedonia e di Illiria, principe di Costantinopoli, di Cicilia, di Tessaglia, di Ponte di Moldavia, di Dardania, del Peloponneso, conte di Cipro e di Epiro, conte e duca di Drivasto e Durazzo". Quem diria... Sucede que o cómico napolitano nasceu de uma relação amorosa clandestina entre sua mãe, uma plebeia, e o marquês Giuseppe de Curtis. Este só o reconheceu mais de trinta anos após o seu nascimento.
Poucas personagens foram tão marcadamente portadoras da alma napolitana como Totò - esse pobre diabo desenrascado, zombeteiro pateta, oscilando entre o megalómeno e o servil.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Napule e'... (1)

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Pino Daniele - Napule e' (2000)
A música popular italiana, como, aliás, sucedeu com a francesa, ressentiu-se com a expansão dos modelos do pop/rock - algo que não ocorreu tanto com a música popular espanhola. Deste modo, em França e Itália as modalidades de fusão entre o cançonetismo e o pop/rock foram menos enriquecdoras. Este facto, contudo, não nos deve levar a ignorar propostas artísticas situadas nessa área e que trouxeram algo de original - um exemplo é Pino Daniele. Trata-se de um cantautor que vai buscar grande parte da sua inspiração à riquíssima tradição musical napolitana, conseguindo uma interessante simbiose com a sua matriz de baladeiro rock... Se a isto acrescentarmos uma voz quase de falsete, mas expressiva, temos um resultado original.
Este duplo CD é uma colectânea, podendo ser uma introdução a este artista. Destacam-se uma meia dúzia de temas soberbos - são baladas melodiosas, algumas com o sabor especial que advem do facto de serem cantadas em napolitano. Uma vez mais, tal como no seu tempo o veterano Roberto Murolo provou, é bom experimentar esse doce idioma liberto dos trejeitos de gerações e gerações de tenores, que popularizaram um estereótipo estridente da canção napolitana...

Schizzechea.it

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Pino Daniele - 'O ssaje comme fa 'o core in Sotto o' sole (1992)

Viagens (51)

Atlas de estradas Michelin - Portugal & Espanha 2007
Cada ano, por esta altura, compro o atlas de estradas Michelin de Portugal e Espanha. Para o conjunto dos dois países é o mais actualizado mapa de estradas que existe. Além do mais é uma cartografia apelativa e eficaz. Este ano apresenta um atractivo suplementar: tem uma escala maior (passou de 1:400.000 para 1:350.000). Para quem é adito a mapas, como é o meu caso, é uma novidade de monta. Continuo, porém, pouco agradado com o formato desdobrável que se vem repetindo nos últimos anos. Apreciava mais o formato tipo álbum de edições mais antigas. Ignoro se continua a ser editado nesse formato, mas nos últimos três anos só tenho encontrado edições desdobráveis.
Para mim os mapas são também, em si, um veículo para viajar sem sair de casa. É algo que não precisa de detalhada explicação para quem tem sensibilidade e educação geográfica, se bem que seja uma cartografia de outro tipo a que melhor corresponde a tais emoções. Em todo o caso, é o instrumento ideal
para preparar e orientar viagens de automóvel, assim como uma rica e variada fonte de informações adjacentes. Um exemplo: verifica-se que de ano para ano a rede de auto-estradas e vias rápidas portuguesas não cessa de se expandir. Aparentemente, a densidade desta rede deve ser já superior à espanhola. Mas, até mesmo os bons mapas têm os seus limites... Assim, a experiência real diz que a qualidade da rede primária e, sobretudo, da rede secundária é inferior à espanhola. Em quase todos os aspectos: da qualidade do pavimento à sinalização. Pode-se dizer que a qualidade da rede de autovías (estradas com faixas de rodagem separadas) espanholas é pouco inferior à das auto-estradas portuguesas, com a óbvia vantagem de não ter portagens. As autopistas (auto-estradas) têm um nível idêntico às nossas, com portagens ligeiramente mais caras. As áreas de serviço convencionais são em Espanha de qualidade muito variada. Em Portugal são de qualidade mais homogénea e a média será um pouco superior. Contudo, toda a rede de estradas em Espanha tem um conjunto de serviços de apoio muito mais extenso e variado (restaurantes, motéis, hotéis, restaurantes, bares). Em síntese, devo dizer que as estruturas para viajar de automóvel em Espanha são superiores. The last but not the last: se em Espanha se conduz mal, em Portugal conduz-se muitíssimo pior, de forma agressivamente suicida...
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domingo, janeiro 21, 2007

Vademecum (4)

Peter Burke - Lenguas y comunidades en la Europa moderna (Languages and Communities in Early Modern Europe) 2006 (2006)

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quarta-feira, janeiro 17, 2007

Mariachi y tequila (35)

Verdad y fama: Paquita la del Barrio (1)

Verdad y fama: Paquita la del Barrio (2)

Verdad y fama: Paquita la del Barrio (3)

Verdad y fama: Paquita la del Barrio (4)

Verdad y fama: Paquita la del Barrio (5)

Verdad y fama: Paquita la del Barrio (6)

terça-feira, janeiro 16, 2007

Memória do futebol (3)

Liga espanhola 1964 -65

Campeão: Real Madrid CF (Araquistain; Isidro, Santamaría, Miera; Muller, Zoco; Amancio, Ruiz, Grosso, Puskas, Gento).

01 Real Madrid CF - 47
02 Atlético Madrid - 43
03 Real Zaragoza CD - 40
04 Valencia CF - 38
05 Córdoba CF - 35
06 CF Barcelona - 32
07 Atlético Bilbao - 32
08 Elche CF - 31
09 UD Las Palmas - 29
10 Sevilla CF - 26
11 Real CD Español - 25
12 Real Bétis Balonpié - 23
13 Real Murcia CF - 23
14 Levante UD - 21
15 Real Oviedo CF 20
16 Real Deportivo La Coruña - 15

sábado, janeiro 13, 2007

Andalucía (18)

Sevilla (I) in Andalucía es de Cine (2002)



Falete - Sevilla in Puta mentira (2006)


Rocío Jurado - Sevilla in Sevilla (1991)

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Il bel paese (9)

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Riccardo Tesi / Maurizio Geri - Acqua, foco e vento (2003)
Sob vários critérios a Toscana é o epicentro da Itália. A língua oficial da Itália (o italiano) resultou da adopção do toscano como língua oficial de estado, o qual, recorde-se, foi tardiamente criado (último terço do século XIX). Era o idioma dos florentinos, reconhecido como o prestigiado idioma de Dante e Petrarca, que desde finais da Idade Média fora adoptado pelas elites transalpinas. Sucede que, além do mais, era inteligível quer pelas populações que falavam dialectos do norte, quer por aquelas que falavam dialectos do sul. Este facto é demonstrativo de como a Toscana pode ser considerado o lugar da mais genuína italianidade. Ora, este álbum demonstra um outro aspecto dessa centralidade: a música popular tradicional. Ao ouvi-lo encontramos elementos do norte e do sul. A sonoridade do organetto diatonico sugere algo do Norte. Os ritmos, muitos deles dançantes, deixam-nos um sabor meridional. O jogo de vozes sublinha o carácter mediterrânico.
Já tinha notícia de que Riccardo Tesi era um virtuoso do acordeão tradicional (organetto diatonico). Com o irlandês Kirkpatrick e o basco Kepa Junkera participara no projecto Trans Europe diatonique. Por outro lado, não ignorava a importância da fisarmonica (acordeão comum) na música italiana em geral, nem, tampouco, a sua popularidade. Em Amarcord, de Fellini, vê-se como em Rimini estava presente nas romarias de rua. Riccardo Tesi é de Pistoia, cidade de pergaminhos históricos, situada no norte da Toscana. Tem um longo trabalho de recuperação e divulgação do organetto. Pois este álbum, feito em parceria com Maurizio Geri, é um comprovativo do seu virtuosismo. Mas é mais do que isso. É, em riqueza instrumental, uma das mais notáveis gravações que conheço na música popular tradicional. Nele participam vários músicos de grande qualidade, nomeadamente a vocalista Anna Granata. Acqua Foco e Vento é obrigatório para quem queira introduzir-se na música popular tradicional italiana. Ouça-se, por exemplo, La ballata del carbonaro que bem se pode considerar uma síntese das suas qualidades.
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Riccardo Tesi / Maurizio Geri - La ballata del carbonaro in Acqua, foco e vento (1968)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Viagens (50): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (6)

4º Dia (3ª Feira / tarde)
A chegada a Siena não proporcionou uma vista panorâmica, pois a cidade estende-se por uma encosta em sentido oposto àquele por onde tinha entrado. É amuralhada. Detém um património riquíssimo. Perdeu importância desde finais da Idade Média, mas não se pode dizer que ficou à margem do tempo. Tem cerca de 50.000 habitantes e é capital de província.
Desgraçadamente, o calor era ainda mais intenso. Entrar no centro da cidade com o carro era impossível. Mas, tal como tinha verificado na planta, do local onde estava até ao centro era mais de um quilómetro, por ruas muito estreitas. Estacionado o carro num terreiro do lado exterior das muralhas, decidi tomar um transporte urbano - um dos mini autocarros que já tinha visto passar. Em menos de um quarto de hora, surgiu um que me levou até à praça da catedral. A fachada é mais exuberante que a de Florença e de grande beleza. O interior é, provavelmente, mais valioso, quanto mais não seja pela decoração do pavimento. Além disso, mais prosaicamente, era um refúgio para o calor... Infelizmente, assim sentia também a multidão de turistas que a abarrotava... Era demasiada gente. Em face da situação, tornou-se pertinente procurar a famosa Piazza del Campo.
Sempre a descer cheguei à mais bela praça alguma vez vista. A torre do Palazzo Comunale domina um vasto terreiro em semi-circulo. As casas de tonalidade rosada reforçavam a luminosidade, de modo que, vindo da semi-obscuridade das ruelas, foi grande o impacto. Nesta praça realiza-se, duas vezes por ano, o Palio – corrida de cavalos realizada com todo o aparato medieval. Cada cavalo representa uma contrasta (bairro).
Siena tem uma antiga e prestigiada universidade, o que reforça ainda mais o seu valor. Segundo o meu conceito de cidade, é um exemplo de perfeição (sem o atroz calor que assolava...). À primeira vista viver lá é um privilégio. Não me esqueci, precisamente, que devido às suas funções docentes na universidade, aí vive Antonio Tabucchi, o mais destacado lusófilo da intelectualidade europeia. Vi-o uma vez, numa noite de verão, na mesma bicha em que eu estava para jantar, num restaurante de Santa Luzia (Tavira), em situação vulgaríssima de férias familares. Tabucchi será duplamente privilegiado, pois, parece, que vive metade do ano neste paraíso e a outra metade na parte antiga de Lisboa, o que, sob certas condições, não deixa de ser também um privilégio.
No regresso a Florença quis entrar pela estrada que passa junto ao Belvedere de Piazzale Michelangelo. É um miradouro que está em Oltrarno, ou seja, do outro lado do Rio Arno. Parei e apreciei a vista panorâmica. Lá está também outra réplica de Davide. É por aqui que se deve entrar na cidade, pois é uma apresentação digna de bilhete postal.
Depois, andei por zonas periféricas para conseguir encontrar a garagem onde teria de devolver o carro alugado. Não foi fácil. Nessa busca passei junto ao Stadio Artemio Franchi onde joga a Fiorentina e onde, até poucos dias antes, Rui Costa exercera de ídolo. Eram vários os cartazes publicitários onde estava presente. Nas páginas do diário local La Nazione, a comoção pela perda do jogador para o AC Milan era testemunhada em vários artigos – o acontecimento era apresentado como o símbolo da falência da societá viola, que se via, assim constrangida à lógica de “vão-se os anéis, ficam os dedos...”.