sexta-feira, dezembro 08, 2006

Tiro ao Alvo (14)

Vacas e automóveis
Li há alguns dias num jornal uma curiosa notícia, cujo sentido pode ser traduzido, sem grande exagero, da seguinte forma expressiva: Imagine-se um cenário campestre, bucólico, composto por vacas a pastar num verde prado. Imagine-se agora a hedionda IC19 num início de manhã de dia útil, algures entre Cacém e Queluz, atascada num costumeiro engarrafamento automóvel. Pois fique-se sabendo, que a primeira imagem corresponderá, provavelmente, a uma situação mais danosa para o chamado equilíbrio do meio ambiente e um contributo mais efectivo para o aquecimento global do planeta! Efectivamente, a libertação de metano produzida pelo gado, e particularmente por aquele que é mais dado a manifestações aerofágicas, como parece ser o caso do gado vacum, constitui uma ameaça maior que o CO2 libertado pelos tubos de escape. Assim, talvez se justifique mais um acto de contrição no momento em que se coma mais um iogurte do que no momento em que se gire a chave de ignição para arrancar com o automóvel… Parece que a fonte é uma revista científica e, parece, inclusivamente, que para os organismos internacionais dedicados ao estudo deste tipo de problemas, isto não é propriamente um segredo…. O que se passa é que por razões de ordem política e pela histeria sensacionalista em que os media vivem, constituiu-se um poderoso filtro, que não só selecciona a informação em função de uma percepção dominante, como, de algum modo, induz opções políticas (cada vez mais cativas da popularidade mediática) que forçam a adopção de prioridades erradas de investigação junto da comunidade científica. Algo, enfim, que o dinamarquês Bjørn Lomborg tem vindo a denunciar, em particular na sua obra The Skeptical Environmentalist (2001).
Não consegui encontrar on-line o artigo em questão, o qual, julgo, ter lido no Público. Contudo, uma simples pesquisa no Google conduziu-me a este artigo, Vacas contaminantes, o qual aborda o mesmo problema.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Guia hispânico (24)

Marina Mayoral - Tristes armas (2001)
A sociedade espanhola parece cada vez mais decidida a enfrentar os pesados fantasmas da Guerra Civil. O tabu vai quebrando-se. Algo que se nota na historiografia, mas também na literatura. A pequena novela aqui em apreço é um exemplo, tanto mais se se tiver em consideração que parece vocacionada para públicos juvenis. A história de duas pequenas irmãs, que na voragem dos acontecimentos acabam num orfanato soviético ilustra a triste trajectória de los niños de Rusia. O que tem de notável é a capacidade de transmitir realidades horríveis de um modo que não agride a sensibilidade, o que se nota no cuidado de fazer intervir vários personagens de bom carácter (de ambos os bandos!), que arriscam a sua segurança em nome dos elementares valores da humanidade. É, portanto, uma visão que supera completamente qualquer vestígio de maniqueísmo, acabando por ser uma pequena ajuda para o entendimento da psicologia humana em situações tão extremas como a de uma cruel guerra civil, com tudo o que envolve de proximidade familiar e mental entre os intervenientes dos dois bandos.
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terça-feira, dezembro 05, 2006

Complexo de Aljubarrota (9)

Rafael Valladares e a Restauração
Palavras sábias e avisadas a do historiador Rafael Valladares a propósito da Restauração da independência de Portugal, em 1640.
Ler entrevista em O Sol.

sábado, dezembro 02, 2006

Il bel paese (7)

Genova, Portofino, Paraggi, Camogli, Santa Margherita Ligure in L'Italia dal cielo (2005)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Il bel paese (6)

Lago Maggiore: Stresa / Isole Borromee in L'Italia dal cielo (2005)

Il bel paese (5)

L'Italia dal cielo (2005)
Desde que em meados dos anos 80 a RTVE produziu a monumental série A vista de pájaro, foram surgindo em Espanha sucessivas séries análogas, mas de âmbito ainda mais detalhado, focando especificamente diversas regiões. Têm vindo a ser realizadas por iniciativa, ou com a participação, de emissoras televisivas autonómicas. Hoje em dia, a Espanha é uma referência para esse tipo de documentários.
Sempre ambicionei encontrar documentários do mesmo género referentes a outros países, muito em particular, em relação à Itália. Que melhor matéria se poderia ter do que as paisagens italianas? Finalmente encontrei e acedi a esta série, editada em 3 DVDs. Note-se que é a versão italiana de uma produção originariamente norte-americana.
Depois de a ver, deixa-me sensações contraditórias. Como seria de esperar, as belas paisagens naturais e citadinas sustentam um produto notável. Sucede ainda que a qualidade técnica é excelente, com imagem de alta definição. Os textos cumprem adequadamente com a sua função. A locução e a música estão a um nível igualmente adequado. Contudo, fiquei com um sabor próprio de um magnífico aperitivo, mas como que privado do resto da refeição... O problema traduz-se simplesmente da seguinte maneira: Como meter a Itália toda em 3 horas e 45 minutos? Muita, muita coisa tem que ficar de fora e em quase todos os sítios por onde se passa a passagem é demasiado superficial. Dois exemplos: nada sobre Milão ou Turim! Habituado que estou ao detalhe das produções espanholas, aguardarei que um dia surjam produções de nível idêntico para a Itália. Para já saboreio este aperitivo.

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sábado, novembro 25, 2006

Galícia (15)

Uxía - Estou vivindo no ceo (1995)
Há uma deriva na música galega, que se transformou numa corrente dominante desde há muito tempo. É a da influência irlandesa. Resulta da consciência do carácter céltico da cultura popular galega, o qual, se bem que legitimado por muitos elementos objectivos, não deixa de ter uma certa dose de mito. Independentemente do grau de autenticidade, a verdade é que os frutos dessa deriva têm produzido resultados interessantes. Contudo, o álbum em apreço representa uma outra deriva, a qual, em proporções muito mais modestas não deixa de ter os seus representantes. É a da influência portuguesa. Note-se que é uma corrente modesta em termos musicais, mas, verdade se diga, que existe no galeguismo intelectual uma corrente com peso, cuja expressão em termos de doutrina linguística é o reintegracionismo, ou seja, a defesa da reintegração do idioma galego nas normas ortográficas e fonéticas da língua portuguesa. Por este exemplo se pode aperceber o romantismo utópico que grassa nessas hostes... Seja como for, existe entre essa gente, de forte empenhamento político (geralmente alinhado com o Bloque Nacionalista Galego), uma natural simpatia pelas coisas portuguesas.
Uxía Senlle, ex-integrante do grupo Na lúa, enquadra-se nestes meios. Meios onde, por exemplo, a figura de José Afonso foi uma referência. Este álbum é uma cabal demonstração do peso dessa referência, ou não se desse o facto de incluir três versões de famosos temas dele: Verdes são os campos (soneto de Camões),
Milho verde (tradicional) e Senhora do Almortão (tradicional). Significativamente, a produção artística é de Júlio Pereira. Contudo, não deixaria de ser um álbum banal se se limitasse a estas recriações de sabor requentado e sem inovações de registo. Na verdade, e em contra-tendência com o tributo lusitano, abre com uma jóia de valor excepcional, que é genuinamente galega: Alala das Mariñas, um tradicional da região do mesmo nome, no nordeste da província da Coruña e noroeste da província de Lugo. Que belo fulgor de espessa melancolia passa por este canto de nostalgia emigrante! Sublime!
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Página web sobre Uxía in Nubenegra
Página web sobre Uxía in At-Tambur

Uxía: Alala das Mariñas in Estou vivindo no ceo (1995)

Galícia (14)

Betanzos / Pontedeume in A vista de pájaro - A Coruña
Betanzos e Pontedeume são duas localidades situadas no norte da província de A Coruña, próximas da capital, na região de As Mariñas.
Betanzos ou Betanzos dos Cabaleiros (como em tempos idos era designada) é uma cidadezinha histórica, situada na confluência de dois rios (Mendo e Mandeo), pouco antes das suas águas se juntarem com as do mar, formando uma ria. É também sede da comarca do mesmo nome.
Pontedeume é uma vila antiga, cujo nome advem da extensa ponte que atravessa o rio Eume, aí já praticamente ria. É sede da comarca de Eume.
Estas duas localidades têm uma insuspeita ligação a Portugal, ou melhor, às mais ancestrais raízes de Portugal. Vimara Peres, que conquistou Portucale (Porto) aos mouros, em 868, e fundou Vimaranis (Guimarães), seria provavelmente oriundo dessa região. Daí teria trazido os povoadores da Terra Portugalensis (Entre o Douro e Minho), carenciadas de gente, após o despovoamento causado pelos avanços e recuos da fronteira entre mouros e cristãos. Os indícios vêm dos nomes de lugares e gentes, nomeadamente das nobiliárquicas estirpes Mendo (...e, consequentemente, Mendes, ou seja, filho de Mendo) e Andrade, tão destacadas nos tempos do e 2º Condados Portucalenses. Ambos os apelidos evocam Betanzos e Pontedeume.

terça-feira, novembro 21, 2006

Cuore matto (11)


Mina - Ancora, ancora, ancora
(1978)
Este vídeo ilustra, ao que parece, a última aparição televisiva de Mina, algures nos finais dos anos 70. É uma transbordante manifestação de sensualidade e poderio interpretativo. Apesar da amostra aqui presente estar truncada (pela duração abruptamente encurtada e pelo desfilar do genérico), é um testemunho incrível - um autêntico desplante da artista, que dir-se-ia estar no limiar do descontrolo. Veja-se como, num arrebatamento de impetuosa gestualidade (que lhe era, aliás, comum), a páginas tantas enceta uma desconexa batalha com o cabelo, que resulta num desenlace sem solução de continudade. Nesse impasse, expeditamente retoma a desenvoltura com um sorriso trocista... É um vulcão de eruptiva sensualidade. Comparado com isto, os exibicionismos de madonnas e outras divas de pacotilha do actual pop mainstream, mais não são do que insonsas imposturas pronto-a-vestir de marketing para o povinho...
Para ser visto (e idolatrado!) ancora, ancora, ancora... sempre ancora.