quarta-feira, agosto 09, 2006

Viagens (40): Valladolid, Oviedo e Zamora / 2006 (3)







Valladolid
A capital de Castilla y León é uma cidade desconcertante. Alberga um punhado de jóias monumentais, mas a sua estrutura urbana não valoriza esse património. Assim, ao contrário de Burgos ou León, e, muito menos, de Salamanca, cresceu de costas voltadas para a sua história. E cresceu demais. Infelizmente, em Espanha, há muitos exemplos análogos, mas o que aconteceu com Santa María de la Antigua, em pleno centro de Valladolid, é inaudito. A igreja possui uma esbelta torre. Diz-se que é a mais bela torre de Castela. Pois sucede que se encontra rodeada por grandes prédios, construídos nos anos 50 e 60, o que além de lhe roubar espaço de presença, diminui a percepção da sua torre. Felizmente que, junto à ampla Plaza de San Pablo, quer a famosa igreja do mesmo nome, quer o Colegio de San Gregorio (onde está instalado o Museo Nacional de Escultura), com belas fachadas, tiveram melhor sorte com o enquadramento. Curiosamente, ambas estavam a ser alvo de trabalhos de conservação e havia tapumes artísticos e imaginativos que minimizavam os seus efeitos.
A
Plaza Mayor está longe de poder ombrear com outras mais conhecidas, mas é, sob o ponto de vista de funcionalidade urbana, um exemplo perfeito do que é uma plaza mayor castelhana. É o centro efectivo da urbe. Com os edifícios todos pintados com a mesma côr ocre (anteriormente era apenas a do Ayuntamiento), tem harmonia e carácter. A limitação quase total do tráfico automóvel reforçou o seu protagonismo. Aí vão ter várias artérias comerciais, quase todas exclusivamente pedonais, com um carácter bem espanhol. O mesmo carácter se pode aplicar a esse "passeio público" que é o Paseo de Zorrilla, cujo início está junto do parque do mesmo nome. Meia cidade sai a passear e a fazer compras ao fim da tarde e uma boa parte converge para o eixo que começa na Plaza Mayor, vai pela pedonal Santiago e desagua no referido Paseo. Ou seja, o eixo que vai da Plaza Mayor até ao maior centro do El Corte Inglés da cidade. Há muitos edifícios modernos de grande porte por todo lado e o mal, é que, mesmo o centro histórico está, como já referi, pejado deles. O problema não é que sejam edifícios feios - a maioria tem um aspecto digno, ainda que algo banal, num modelo mais ou menos comum à maioria das cidades espanholas; o problema é que descaracterizaram o centro histórico. Além disso, os edifícios mais imponentes não têm tanto interesse como é costume suceder nas maiores cidades espanholas. Só um ou outro banco assinalam a existência de uma meia dúzia de grandes edifícios interessantes.
O Rio Pisuerga, que uma dúzia de quilómetros mais abaixo desagua no Douro, passa discreto. Efectivamente, não são muitos os espaços ajardinados nas suas margens que o valorizem. A periferia é desinteressante. A avassaladora construção civil semeou bairros e mais bairros em monótona sucessão, que nem as simpáticas vivendas geminadas em série (
adosadas) conseguem quebrar. Na verdade, são cerca de 350.000 habitantes e esta foi a cidade que mais rapidamente cresceu em Castilla y León... Enfim, um certo desenvolvimentismo ignorou os vestígios históricos da antiga capital do império (antes de Madrid).
Fiquei num hotel a 10 Km do centro, em Arroyo de la Encomienda - AC Hotel Palacio de Santa Ana). Magnífico! Está instalado num velho convento, que desta forma foi recuperado com dignidade. Pena é que, se do lado do rio o enquadramento está à altura, do lado contrário vigora o império do cimento e um mar de gruas atesta os avanços da construção civil num processo que já ameaça devorar a vizinha localidade de Simancas. Já agora, termino por referir que é, precisamente no castelo de Simancas que está grande parte do Arquivo Histórico de Espanha (Archivo General de Simancas).

sábado, agosto 05, 2006

Viagens (39): Valladolid, Oviedo e Zamora / 2006 (2)


Peñafiel
No leste da província de Valladolid, junto ao Rio Duratón, muito próximo da sua confluência como o Duero (o nosso Douro) está Peñafiel. A sua presença anuncia-se ao longe pela silhueta do seu imponente castelo. Vindo de Cuéllar por uma estrada secundária, em obras, a aproximação acabou por ser demorada. Numa das retenções pude avistar o castelo quando ainda estava a cerca de dez quilómetros. Castela faz mesmo jus ao nome pela profusão de castelos que ostenta, mas este, o de Peñafiel, não é um castelo qualquer. Não é só pela sua grandeza, mas também pela sua traça longuilínea em forma de barco veleiro. Este seu carácter distinto foi reforçado pela instalação no interior de um Museu do Vinho. Na verdade, toda esta região da Ribera del Duero é terra de vinho. O curso do Douro parece que caprichou em proporcionar a grande parte das terras ribeirinhas as benesses de Baco... Se do lado português são por demais conhecidas as credenciais vinícolas, atestadas pelos melhores vinhos finos do mundo (o Vinho do Porto, é claro!) e por alguns dos melhores vinhos de mesa de Portugal, a verdade é que do lado castelhano temos alguns dos mais credenciados vinhos de mesa do mundo (Vega Sicilia, Rueda, etc...).
Não subi ao castelo. O calor era insuportável e, depois de ter almoçado em expedita modalidade de tapeo de barra (tapas ao balcão) cirandei por castiças ruelas desertas (hora de siesta com calor tórrido...) em busca do famoso Coso. Os cosos são praças com características peculiares. A sua configuração está especificamente adaptada a espectáculos taurinos, ou seja à função de arena de lide. Muitos são plazas mayores. Portanto, a adaptação ou concepção de raíz para arena fez-se muitas vezes em acumulação com as tradicionais funções de forum cívico. Contudo, vulgares plazas mayores não deixaram de cumprir episodicamente a função de arena, sem chegarem a ser formalmente cosos. Convém saber que esta prática não foi exclusivamente castelhana. Em Lisboa, por exemplo, o Terreiro do Paço cumpriu muitas vezes a função de arena para espectáculos tauromáquicos. Aliás, a grande maioria das praças de touros, propriamente ditas, só apareceram na segunda metade do século XIX. A partir de então os cosos perdem importância como arena, a ponto de muitos se transfigurarem. Mesmo assim, conservam-se bastantes, sobretudo em localidades pequenas. O coso de Peñafiel é, provavelmente o mais espectacular, com casas de arquitectura genuinamente castelhana, perfeitamente restauradas.

Viagens (38): Valladolid, Oviedo e Zamora / 2006 (1)




Portillo
Viajar no pino do Verão pela Meseta não é a melhor escolha. Por várias razões, a começar pela alta probabilidade de se sofrer calor tórrido. Foi o que aconteceu na jornada Valladolid - Portillo - Íscar - Cuéllar - Peñafiel - Valladolid. Nestas circunstâncias, abandonar o ar condicionado do carro ou evitar regresso antecipado ao conforto de um hotel de cinco estrelas, exigia espírito quase militante. Contudo, não deixei de apreciar com detença Portillo, a primeira escala.
A escolha de Portillo resultara, uma vez mais, das imagens e comentários de A vista de pájaro. O que encontrei excedeu as minhas expectativas, com excepção do castelo, que já não se apresentava em dignas ruínas. Pior, estava em obras e em seu torno havia material de construção de todo o tipo. Nestas coisas só há duas alternativas adequadas: ou se deixa o edifício cumprir naturalmente o seu ciclo de vida, sendo as ruínas um digno desenvolvimento desse ciclo; ou se leva a cabo um criterioso plano de reconstrução. Não pude aperceber-me se as obras em curso podem ser enquadradas na segunda opção, mas, a verdade é que, objectivamente, o cenário de estaleiro que encontrei atentava contra a natureza do lugar. A localidade é encantadora e o seu enquadramento, num outeiro que domina extensos campos, sublime. Só a visão destes campos de Castilla constitui um clamoroso desmentido da suposta monotonia das paisagens castelhanas. Mas neste particular, o trajecto entre Portillo e Íscar apresenta um espectacular exemplo. Refiro-me concretamente, à panorâmica que se disfruta quando a estrada começa a descer na direcção de Mogeces e Cogeces de Íscar, no vale do Rio Cega.
Em Íscar não parei. Em Cuéllar limitei-me a estacionar no terreiro junto ao imponente castelo. Contudo, em relação a esta última localidade (no extremo noroeste da província de Segovia), fiquei com a sensação de que merecerá posterior visita com detalhe. Segui rumo a Peñafiel, onde, aliás, fazia intenção de almoçar.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Viagens (37)

Concluída mais uma incursão por terras de Espanha é altura de actualizar o inventário de lugares conhecidos. Como sempre sucede, entre o planeado e o concretizado acabou por haver notáveis diferenças. Basicamente, sucedeu que a exploração do extremo Norte da província de Ávila foi trocada por Zamora e que a incursão asturiana se restringiu a Oviedo, devido à (quase) sempiterna chuva aí residente... Ao fim de uma semana de automóvel, essencialmente pelas províncias de Valladolid, Asturias e Zamora, é este o primeiro balanço:

Castilla y León
07 Valladolid (Cidade) Valladolid
09 Portillo (Localidade)
Valladolid
09 Portillo - Íscar (Planalto) Valladolid
07 Íscar (Localidade)
Valladolid
08 Cuéllar (Localidade) Segovia
09 Peñafiel (Localidade) Valladolid
08 Medina de Ríoseco (Localidade) Valladolid *
09 Tierra de Campos (Planalto) Valladolid *

Asturias

09 Oviedo (Cidade) *

Castilla y León
07 Benavente (Localidade) Zamora
09 Zamora (Cidade)
Zamora

* Lugares já visitados anteriormente

domingo, julho 23, 2006

Soulsville (7)


Isaac Hayes - ... To Be Continued (1970)

Este álbum é a continuidade do aclamado Hot Buttered Soul. É o desenvolvimento lógico do que a crítica acolheu como um novo estilo soul. Todos os grandes lemas isaachayesianos estão aqui presentes. Com a mesma receita anterior, mas administrada com um fôlego ainda mais megalómano, reforça-se a identificação do estilo e cria-se um sabor definitivamente reconhecível e especial, em torno do qual se cria um certo culto. Uma vez mais, Isaac Hayes pega em composições alheias, geralmente standards já consagrados, e recria-os de modo radical. Um exemplo perfeito é The Look of Love, de Bacharach & David. O que se ouve aqui é uma refinadíssima orquestração, que proporciona um longo solo de guitarra eléctrica em registo ultra-soft e uma poderosa secção de metais como elemento ambiental aveludado. A voz quente e sugestiva acentua o efeito. A sensualidade domina toda a peça, a qual, coerentemente, culmina de uma forma muito sugestiva e original. Todo o álbum, com excepção do último tema, não tem desperdício. É um catálogo completo de Isaac Hayes na plenitude. Significativamente, os monólogos rap (este é o primitivo, o genuíno rap) começam aqui a ser numerados. Temos assim o Ike's Rap I, muito embora, o primeiro, mesmo, fosse a primeira metade dos 20 minutos do By The Time I Get to Phoenix, do álbum anterior. Temos também uma sequência instrumental designada como Ike's Mood I, só que ao contrário dos sublimes monólogos, estes não tiveram posterior continuidade.
Pegue-se num very long drink, ponham-se as luzes em recatada discrição, espraie-se o corpo em confortável poltrona, abandone-se o espírito a lucubrações prazenteiras e saboreie-se ...To Be Continued.

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quinta-feira, julho 20, 2006

Outro Brasil (1)

Erico Veríssimo - O Tempo e o Vento (1949)
Creio que em finais dos anos 80 vi a série da TV Globo feita sobre este romance. Gostei tanto que procurei rapidamente o romance e li-o. É a mais conhecida obra de Erico Veríssimo - uma história que se desenrola ao longo de gerações, desde finais do século XVIII a meados do século XX. A matéria é a construção da sociedade gaúcha, no interior montanhoso do estado mais meridional do Brasil, Rio Grande do Sul. Este é um Brasil menos conhecido - tem pouca relação com o Brasil do Rio de Janeiro e menos ainda com o do Nordeste. O Brasil tropical e colonial é uma realidade distante desta zona de fronteira. Não por acaso foi por aqui que se desenvolveu a mais séria tentativa separatista - a Guerra do Farroupilha, na qual participou com destaque Garibaldi, herói do Rissorgimento da Itália. É uma terra com afinidades com o Uruguai e Argentina, mas com algumas especificidades importantes. Juntamente com o vizinho estado de Santa Catarina e com o Paraná são os estados mais europeus do Brasil. A componente imigratória veio em grande número da Itália e Alemanha. Se excepturamos as zonas litorais (Canoas, por exemplo), a componenente imigratória portuguesa é relativamente menor do que no restante Brasil e maioritariamente composta por açorianos.
O romance dá-nos bem a ideia do que é a cultura gaúcha. É uma terra violenta, em que tudo se construiu com base na luta individual contra circunstâncias adversas, nomeadamente as guerras fronteiriças entre o poder colonial espanhol e o poder colonial português. O gado foi o pilar da construção dessa sociedade. Em muitos sentidos faz lembrar o Far West. À rudeza característica dessa forma de vida acresce uma bizarra mestiçagem de culturas diversas. Este romance é, assim, a melhor forma para se conhecer esse outro Brasil, que, geralmente só chega até nós por via dos popularizados restaurantes de rodízio. Já agora, chimarrão é o nome de uma bebida genuinamente gaúcha, talvez o seu ex-libris mais identificador.
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Erico Veríssimo in Releituras

quarta-feira, julho 19, 2006

Tiro ao Alvo (11)

Israel vs Hezbollah
Acabou o Mundial de Futebol. Parece que os homens do Hezbollah intercalavam as suas orações com um empenhado seguimento das gestas futebolísticas em curso nos relvados alemães. Nem a precoce eliminação da selecção dos seus líderes espirituais, o Irão, fez diminuir demasiado tal empenho. Chega a final, a cabeçada de Zidane, a taça para a squadra azzurra. Acaba o Mundial. Subitamente desapossados destes entretenimentos, resolvem, talvez para matar o tédio, proceder a alguma bravata solidária com os seus amigos do Hamas, os quais, aliás, estiveram sempre menos atentos ao Mundial...
Enfim, o assunto é desgraçadamente mais sério para poder sustentar frivolidades. A verdade é que estes terroristas (não esquecer a sua essência!) praticaram actos de guerra contra um país de dimensões mínimas e acossado desde a sua origem, cuja viabilidade só é possível com a disposição incondicional e imediata para responder a desafios desta natureza. Há quem refira a soberania de um país, o Líbano, a existência de um governo que, aliás, estava agora em processo de se libertar da degradante tutela síria. Mas que raio de país soberano é esse que permite e ampara a existência de um autêntico estado independente dentro do seu seio, cuja essência é, precisamente, constituir-se em ameaça à existência de um estado vizinho? O vigor da resposta israelita é resposta legítima a actos de guerra e é, sobretudo, condição essencial para fazer valer o seu direito à existência através do exercício do elementar da auto-defesa.

segunda-feira, julho 17, 2006

Guia hispânico (21)

Don Miguel de Unamuno (1864-1936)

Entre as tragédias da Guerra Civil de Espanha encontramos inúmeros testemunhos de cobardia e de coragem. Vejamos este conhecido episódio protagonizado por D Miguel de Unamuno na sessão solene do dia da Hispanidade de 1936 na Universidade de Salamanca, de que era então reitor. Passo a citar Antony Beevor em La Guerra Civil Española:
“Mientras tanto, de los altavoces en las calles surgían las notas del himno de la Legión El novio de la muerte y en las emisoras de radio cada tarde sonaba un cornetín para anunciar el “parte” desde el cuartel del Generalísimo. En este ambiente cuartelero iba a tener lugar un notable acto de coraje moral, un incidente jaleado por el énfasis que se dio en él al valor puramente físico de la guerra. El 12 de octubre, aniversario del descubrimiento de América, “Día de la Raza”, tuvo lugar un acto ceremonial en el Paraninfo de la Universidad de Salamanca. La audiencia estaba integrada por notables del Movimiento, incluido un fuerte contingente de la Falange local. En el estrado tomaron asiento Carmen Polo, esposa de Franco, Pla y Deniel, obispo de Salamanca, el general Millán Astray, fundador del Tercio de Extranjeros (que llegó acompañado de sus legionarios), y Miguel de Unamuno, rector de la Universidad. Unamuno, irritado contra los gobernantes de la República, había apoyado al principio el “alzamiento” que debía “salvar la civilización occidental, la civilización cristiana que se ve amenazada”, pero no podía pasar por alto la matanza que se había llevado a cabo en la ciudad bajo las órdenes del comandante Doval, (…) ni los asesinatos de sus amigos Castro Prieto, alcalde de Salamanca, Salvador Vila, catedrático de árabe y hebreo de la Universidad de Granada, o García Lorca.
Los discursos iniciales corrieron a cargo de Vicente Beltrán de Heredia y de José María Pemán. Acto seguido el profesor Francisco Maldonado lanzó una tremenda diatriba contra los nacionalismos catalán y vasco, “cánceres de la nación” que había de curar el implacable bisturí del fascismo. Al fondo de la sala alguien lanzó el grito legionario “¡Viva la muerte!” y el general Millán Astray, que parecia el auténtico espectro de la guerra, manco, tuerto y cubierto de cicatrices, dio los “¡Vivas!” de rigor, mientras los falangistas saludaban a la romana hacia el retrato de Franco, que colgaba sobre el sitial de su esposa. El alboroto se desvaneció cuando Unamuno tomó la palabra:
Estáis esperando mis palabras. Me conocéis bien y sabéis que soy incapaz de permanecer en silencio. A veces, quedarse callado equivale a mentir. Porque el silencio puede ser interpretado como aquiescencia. Quiero hacer algunos comentarios al discurso, por llamarlo de algún modo, del profesor Maldonado. Dejaré de lado la ofensa personal que supone su repentina explosión contra vascos y catalanes. Yo mismo, como sabéis, nací en Bilbao. El obispo, lo quiera o no lo quiera, es catalán nacido en Barcelona.
Pla y Deniel se removió a disgusto por la alusión de Unamuno a su lugar de origen, que era casi en si mismo una implicación de deslealtad a la cruzada nacional. Entre el silencio, Unamuno prosiguió:
Pero ahora acabo de oír el necrófilo e insensato grito: “¡Viva la muerte!”. Y yo, que he pasado mi vida componiendo paradojas que excitaban la ira de algunos que no las comprendían, he de deciros, como experto en la materia, que esta ridícula paradoja me parece repelente. El general Millán Astral es un inválido. No es preciso que digamos esto con un tono más bajo. Es un inválido de guerra. También lo fue Cervantes. Pero, desgraciadamente, en España hay actualmente demasiados mutilados. Y, si Dios no nos ayuda, pronto habrá muchísimos más. Me atormenta pensar que el general Millán Astral pudiera dictar las normas de la psicología de la masa. Un mutilado que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, es de esperar que encuentre un terrible alivio viendo cómo se multiplican los mutilados a su alrededor.
Llegado Unamuno a este punto, Millán Astray ya no pudo contener su ira por más tiempo. “¡Muera la inteligência! ¡Viva la muerte!” gritó a pleno pulmón. Falangistas y militares echaron mano a sus pistolas y hasta el escolta del general apuntó su subfusil a la cabeza de Unamuno, lo que no impidió que éste terminara su intervención en tono desafiante:
Este es el templo de la inteligencia. Y yo soy su sumo sacerdote. Estáis profanando su sagrado recinto. Venceréis, porque tenéis sobrada fuerza bruta. Pero no convenceréis. Para convencer hay que persuadir. Y para persuadir necesitaríais algo que os falta: razón y derecho en la lucha. Me parece inútil el pediros que penséis en España.
Hizo una pausa y dejando caer, sin fuerza, los brazos, concluyó en tono resignado: “He dicho”. Se dice que la presencia de Carmen Polo le libró de ser asesinado allí mismo y que cuando Franco se enteró de lo que había ocurrido lamentó que no hubiese sido así. Seguramente los nacionales no asesinaron a Unamuno por la fama internacional del filósofo y por la reacción que había causado ya en el exterior el asesinato de García Lorca. Pero Unamuno, destituido como rector y confinado en su domicilio, murió el día de fin de año consternado y tachado de “rojo” y traidor – aunque su funeral fuera manipulado por los falangistas – por aquellos a quienes él había creído amigos.
(Pág 149 – 152)

sábado, julho 15, 2006

Guia hispânico (20)

Antony Beevor - The Battle for Spain (La Guerra Civil Española) (2005)

Está quase a cumprir-se o 70º aniversário da eclosão da Guerra Civil de Espanha. Há um surto de edições dedicada ao tema. Uma delas é precisamente esta síntese de mais um historiador britânico - Antony Beevor. Deste autor já havia lido duas obras: A Batalha de Stalinegrado e A Batalha de Berlim. Estou agora a começar esta e, para já, confirma-se a excelente escrita e o anunciado propósito de incorporar novas fontes documentais e monografias.
Uma recente historiografia, que qualificarei como "revisionista", tenta num afã de proselitismo ideológico, pôr em causa algumas ideias feitas sobre esta guerra. Em certos aspectos entende-se a pertinência, noutros evidenciam-se propósitos mistificadores. Tal "revisionismo", protagonizado por historiadores próximos do Partido Popular, acaba assim por deitar a perder muito do que de positivo pudesse ter trazido. Vejamos: É, de facto, uma falácia pretender que a República era uma democracia. Se entendermos que democracia é muito mais do que votar livremente de tantos em tantos anos, estava mesmo muito longe de o ser! Concordo, até, que vivendo-se, como se vivia, uma situação proto-insurreccional, de diluição da autoridade do estado e de
ataque mais ou menos generalizado a valores e instituições tradicionais, um golpe de estado poderia ser legítimo. Contudo, aquele golpe de estado, com a situação que imediatamente foi criada nas áreas em que se impôs, retirou-lhe qualquer vestígio de legitimidade. O radicalismo sanguinolento, em muitos e muitos casos absolutamente além do necessário (em termos de lógica de guerra) confere-lhe tal carácter. Inclusivamente, aqui e ali, a brutalidade implicou opções militarmente ineficazes. No campo nacionalista institucionalizou-se uma pulsão de violência gratuita que, na esteira da mente paranóica do caudillo, se acaba por se tornar num elemento identitário do estado. Assim, num longo pós-guerra a brutalidade não cessou, o que reforça sobremaneira o absurdo do relativismo "revisionista". Não se argumente que no campo republicano se cometeram mutíssimos actos de violência que têm sido subvalorizados pela historiografia tradicional. Tal subalorização, em termos quantitativos, tem efectivamente ocorrido e, se alguma vantagem tem tido o "revisionismo" é considerá-la, finalmente, na sua verdadeira extensão. Contudo, em termos qualitativos, o terror exercido em ambos os bandos não é equivalente! A utilização do terror foi, no bando nacionalista, uma estratégia consciente, sempre sustentada e sistematizada pelo poder. No bando republicano não se pode afirmar o mesmo - o terror teve uma outra natureza, muito mais impulsiva e carente de organização e sistematização. Esta é a minha visão, a partir de uma perspectiva moderadamente conservadora, de inspiração católica e sustentada por muitas leituras sobre este tema. Estou, portanto, a milhas de simpatizar com as esquerdas e, em concreto, com a desgraçada experiência da II República Espanhola. A título de exemplo, considero a ditadura de Primo de Rivera, nos anos 20, um regime, objectivamente, mais adequado à realidade espanhola do seu tempo do que a II República. Este livro está a reforçar ainda mais a minha visão da Guerra Civil de Espanha.