segunda-feira, julho 03, 2006

Euskal Herria (16)


Julio Medem - La pelota vasca / Euskal pilota (2003)
Nem tudo é mau no zapaterismo. Há, pelo menos em relação à questão das autonomias uma política mais construtiva e desdramatizadora (nem tudo era bom no aznarismo...). É óbvio que é uma política não isenta de riscos. Tal é especialmente válido em relação à anunciada disposição para a negociação com a ETA. É sempre um risco anunciar disposição para negociar com grupos terroristas, porém, manda um elementar sentido de real politik que não se desaproveitem oportunidades como as que, apesar de tudo, agora se deparam. Infelizmente não é este o entendimento do PP, o qual levado por tentações ultramontanas e emotivas não tem demonstrado disposição para ajudar Zapatero nesta via. Se o PP não vier, de algum modo, a amparar minimamente esta política parece-me ainda mais complicado antever o fim da ETA.
Ao contrário do que alguns pretendem, há terrorismo e terrorismo. Todo o terrorismo é mau, mas a capacidade de efectivamente fazer mal, depende de muitos factores, a começar por factores objectivos. Nestes tempos de megatorrorismo fundamentalista islâmico, que se baseia em factores intrinsecamente irracionais de tipo nihilista, os terrorismos separatistas ocidentais encontram cada vez menos espaço de afirmação. Estes terrorismos "domésticos" respondem, apesar de tudo, a factores racionais, reconhecíveis em alguns elementos do quadro de valores civilizacionais que é o nosso (nacionalismo,
por exemplo). Nesta conjuntura, onde, ainda por cima, se beneficia dos sistemáticos êxitos do combate policial, a ETA pode estar, naturalmente, a caminho da inoperância...
Para entender melhor a questão basca, o monumental documentário La pelota vasca pode ser um instrumento utilíssimo. Mais do que nunca, é agora oportuno visioná-lo. Basicamente, trata-se de um extensa série de entrevistas a personagens-chave da política basca, montadas de modo criterioso. Sublinhe-se a perspectiva de objectividade no tratamento tão detalhado de um tema com a delicadeza deste. Julio Medem efectivamente consegue-o e, pena é, para que esta perspectiva pudesse ter sido mais favorecida, que alguns potenciais entrevistados ligados ao PP tivessem declinado participar. Depois de o ver, muitas coisas tornam-se evidentes. Sublinho duas: o terrível sofrimento das vítimas do terrorismo etarra; a efectiva especificidade histórico-cultural basca.

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domingo, julho 02, 2006

Guia hispânico (19)

Camilo José Cela - Rol de Cornudos (1976)

Eis uma obra estranha, que, na verdade, só poderia ter sido feita por um espírito provocatório, burlón, herdeiro do ânimo pícaro da mais legítima literatura castelhana como Don Camilo José Cela. Na senda de Charles Fourier, o nobelizado Marquês de Iria Flavia dedica-se a catalogar com exaustividade todas as espécies de cornudos... Reproduzo a dedicatória com que abre o livro:
in memoriam a Charles Fourier (1772-1835) tratadista que classificou os cornudos do seu tempo e ao meu amigo Exmo Sr Don Estanislao de La Sagra y Mascareque, aliás Pijo Péndulo, (1918-1976) cujas sucesivas duas esposas tanta e tão honesta consolação proporcionaram à minha carne e ao meu espírito por terem muito e bem cornificado em vida o defunto. Laus Deo.”
O tratado desenvolve-se em forma de dicionário. A elementar classificação discriminatória entre bravos e mansos empalidece perante tão aparatosa erudição. Não que, enfim, deixe de ser pertinente, só que se emaranha num sem-número de espécies e sub-espécies.
É uma demonstração de como Cela foi um fiel depositário de algumas das mais originais características literárias do génio castelhano. Que contraste com a enjoativa virtude zapateriana. Aliás, na linha de tanta legislação protectora de minorias, aguardam-se medidas protectoras do ultrajado colectivo dos maridos enganados…
Li a edição portuguesa. Ainda hei-de ler a edição original, quanto mais não seja para confrontar opções de tradução de expressões idiomáticas cerradas.

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Camilo José Cela in Centro Virtual Cervantes

Camilo José Cela in Wikipedia

Fundación Camilo José Cela


domingo, junho 25, 2006

Viagens (35): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (2)

Viagem ao Norte de Itália (Julho/Agosto de 2001) - 1º Dia (tarde / noite)
Ecco! Eis-nos, alegremente, por estradas secundárias da Lombardia. Primeiro impacto: verde por todo lado, mas salpicado por vivendas de aspecto próspero. Em Sesto Calende, onde começa o Lago Maggiore, percebi subitamente que em Itália as placas verdes indicam auto-estrada e as azuis estradas comuns, o que evitou, por um triz, o abandono da estradinha que bordeja o lago.
Arona é um cenário de bilhete postal. Lindo! Na outra margem do lago, um castelo desafiava a cidadezinha. Desde logo observei particularidades do parque automóvel: predomínio de utilitários pequenos e de todo o tipo de motas. Sendo uma região que ostenta um dos primeiros lugares em nível de vida da Europa, este facto suscitou algumas reflexões acerca de diferenças de opções de vida. Não tardou a chegada a Stresa. Lá estavam as Ilhas Borromeas e a imponente mole alpina. O nosso hotel Eden estava mesmo em frente ao lago. Melhor ainda, o quarto dava para esse cenário. Era um edifício bem ao estilo italiano, de cor pastel e com aquelas persianas típicas. O segredo do seu preço ser tão baixo residia no facto de que parecia já ter conhecido melhores dias (há muito…), estando necessitado de amplas reformas. Na verdade, pagar só 15.000 escudos por noite era aqui algo de suspeito...
Depois de breve descanso, decidimos ir à Suíça, que estava apenas a 40 quilómetros. Tratava-se de fazer uma visita relâmpago à cidade de Locarno, no Cantão de Ticino. A marginal prometia paisagens espectaculares e… internacionalizávamo-nos um pouco mais. O problema foi que, no caminho, em Verbania, surgiu um enorme engarrafamento. Era um acidente. O tráfico foi desviado por acanhadas estradinhas que serpenteavam montanha acima, montanha abaixo numa paisagem de vivendas e de flora alpina. Tornou-se evidente que cada viatura seguia o rumo da que ia à frente, confiando que só poderia haver um único destino para toda aquela procissão. As bifurcações e entroncamentos não eram assim tão poucos e a ausência de placas direccionais era absoluta. A odisseia atingiu a gargalhada quando, perseguindo afincadamente o Audi que ia à frente e onde seguia uma sorridente família alemã, chegámos a um beco sem saída. Trocámos olhares divertidos, retrocedemos e experimentámos seguir outra proposta a partir de uma bifurcação que havia ficado para trás. Com êxito. Reencontrou-se a desorientada procissão e, vários quilómetros de curvas adiante, recuperou-se a marginal.
A Suíça apareceu, quando a noite já chegava. E o que trouxe de novo? Uma estrada mais larga, com mais sinalização e mais comércio. Curiosamente, o italiano não era a única língua presente nos letreiros, já que se notava por todo o lado a presença do alemão. Entramos em Locarno já noite e, por isso, não foi possível admirar bem a paisagem. Parámos junto ao Casino e fomos, por questão de prudência financeira, a uma pizzaria. Quando me esforçava com a minha melhor pronúncia italiana em comunicar o pedido, o garçon disparou à queima-roupa: são portugueses? Era um português (aliás, não era o único) que trabalhava ali há vinte e tal anos. Loquaz, familiar, disse que era de uma aldeia perto de Viseu e contou muita coisa da sua vida. Confidenciou que não gostava dos suíços e quando lhe perguntei se os dali, não seriam melhores, replicou que não, que até eram piores - por causa deles e dos de língua alemã, a Suíça não estava na União Europeia - eram xenófobos e não queriam dar direitos aos imigrantes. Nesta meteórica expedição suíça não tive oportunidade de comprovar que esta cidade é, juntamente com a vizinha Lugano, uma das mais ricas da Europa e refúgio de capitais italianos. Passámos de novo a fronteira (há mesmo fronteira a sério do lado suíço) e, desta vez, não houve nenhum desvio pelas montanhas – em breve estávamos de novo no hotel.

sábado, junho 24, 2006

La movida (14)

Miguel Bosè - XXX (1987)
Com este álbum, Miguel Bosè culmina a sua fase mais comercial, ainda não de todo desprendido da sua condição de ídolo de teenagers. É um trabalho produzido com ofício e técnica, plenamente integrado no mais avançado da indústria da música pop internacional. Aliás, a produção e gravação correm por conta do departamento londrino da WEA e teve uma edição dirigida ao mercado anglo-saxónico. Seja como for, a penetração nos mercados internacionais (com excepção do italiano) nunca foi significativa, ao contrário do que viria a suceder uma década depois com, por exemplo, Alejandro Sanz. Talvez este impasse tivesse contribuido para uma evolução da carreira de Miguel Bosè na direcção de um público mais maduro e exigente.
No seu género, este produto atesta um excelente compromisso entre salutares níveis de simplicidade próprios da música pop e um acabamento industrial esmerado - legeireza sem ser fútil ou indigente... É, enfim, um dos melhores exemplos da pop
espanhola mainstream, enriquecida depois da experiência criativa da movida.
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Web Miguel Bosè

quarta-feira, junho 21, 2006

Viagens (34)

Concluindo o inventário de lugares conhecidos com Extremadura, Castilla - La Mancha e Comunidad de Madrid.
1ª coluna: classificação - escala de 1 a 10; 2ª coluna: lugar; 3ª coluna: tipo de lugar; 4ª coluna: província.

Extremadura
07 Alburquerque (Localidade) Badajoz
06 Badajoz (Cidade) Badajoz
08 Jerez de los Caballeros (Localidade) Badajoz
07 Mérida (Cidade) Badajoz
06 Monesterio (Localidade) Badajoz
07 Oliva de la Frontera (Localidade) Badajoz
07 Olivença (Localidade) Badajoz
05 Vegas Bajas (Planície) Badajoz
07 Zafra (Localidade) Badajoz
08 Aldeanueva de la Vera (Localidade) Cáceres
08 Baños de Montemayor (Localidade) Cáceres
08 Cáceres (Cidade) Cáceres
07 Campo Arañuelo (Planície) Cáceres
08 Cuacos de Yuste (Localidade) Cáceres
08 Garganta la Olla (Localidade) Cáceres
08 Jaraiz de la Vera (Localidade) Cáceres
08 Jarandilla de la Vera (Localidade) Cáceres
08 La Vera (Vale) Cáceres
08 Losar de la Vera (Localidade) Cáceres
08 Monfragüe (Parque Natural) Cáceres
07 Navalmoral de la Mata (Localidade) Cáceres
Castilla - La Mancha
08 Campos de Toledo (Planalto) Toledo
09 Toledo (Cidade) Toledo
Comunidad de Madrid
07 Collado-Villalba (Localidade) Madrid
07 Colmenar Viejo (Localidade) Madrid
07 Galapagar (Localidade) Madrid
07 Lozoya (Localidade) Madrid
09 Madrid Cidade (Metrópole) Madrid
06 Pinto (Subúrbio) Madrid
09 San Lorenzo del Escorial (Localidade / Monumento) Madrid
07 Sierra de Madrid (Serra) Madrid


sábado, junho 17, 2006

Galícia (9)

Amancio Prada - De mar e terra: Coplas de tradición oral (1999)
É mais um álbum do berciano Amancio Prada dedicado à música tradicional galega. Não trás novidades, mas tudo é reconhecidamente muito bom, desde a matéria-prima à produção. Amancio Prada intercala projectos inovadores, normalmente em castelhano, com o reiterado regresso ao inesgotável filão da música popular galega. Uma vez mais se destaca o protagonismo da sanfona e sua arcaica sonoridade, mas há um outro protagonismo que convém não deixar de destacar sempre - a voz. Entre vários temas, destaque-se Teño un Amor na Montaña, que é, na verdade, uma colagem que inclui na parte final um trecho do sublime Alala das Mariñas. Este pequeno trecho não desmerece a magnífica versão que Uxía fez do mesmo tema, que evoca através da melancolia da emigração, As Mariñas - essa região costeira do nordeste da província de A Coruña e norte da província de Lugo.

ALALA DAS MARIÑAS

Teño unha casiña branca na Mariña entre loureiros,

teño paz e teño amor e estou vivindo no ceo.

Ailalala, ailalala..

E adiós á miña casiña, portelo do meu quinteiro,

auga da miña fontiña, sombra do meu laranxeiro

Ailalala, ailalala...


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quarta-feira, junho 14, 2006

Castilla (15): Castilla y León

Valladolid: Santa María de la Antígua

Castilla (14): Castilla y León

Madrigal de las Altas Torres
Para o Verão que se avizinha, o meu plano de viagem de uma semana passa por esta perdida localidade castelhana, no extremo norte da província de Ávila, berço de Isabel a Católica e detentora do fantástico nome de Madrigal de las Altas Torres. Intuo por estas paragens a assombrada permanência da quintessência da alma castelhana... Desenhando uma hipótese de roteiro, vejamos... De carro até Salamanca e Alba de Tormes. Talvez, nesta localidade onde morreu Santa Teresa de Jesús, me decida por dormida em modesto estabelecimento hoteleiro; depois, ainda de carro, Peñaranda de Bracamonte, Madrigal de las Altas Torres, Medina del Campo, Olmedo, Íscar, Cuéllar, Portillo, Valladolid. Estacionando um dia na capital castelhano-leonesa, num bom hotel de 5 estrelas. Depois de comboio rumo às Astúrias, atravessando a Tierra de Campos (Palencia, Becerril, Paredes de Nava), Sahagún, León... Dois dias na verde Astúrias, com o centro de operações bem no centro de Oviedo, também num bom hotel. Regresso a Valladolid de encontro ao carro aí deixando em sossego. Depois, rumo a casa, com poiso intermédio algures. A ver...

Diputación Provincial de Ávila - Archivo Fotográfico de 1929

quinta-feira, junho 01, 2006

La copla (8)

Rocío Jurado (1944 - 2006)

Rocío, La más grande! Morreu Rocío Jurado. Infelizmente a notícia era esperada. Tratava-se, na actualidade, da maior das copleras. Representava bem aquela estirpe salerosa que sempre configurou o estereótipo da mulher espanhola, ou, pelo menos, da mulher andaluza. Aquela alma, raça e arrebatamento que as suas qualidades interpretativas sempre personificaram. Em todos os aspectos, Rocío reunia todas as condições para desempenhar esse papel e pairava agora bem acima de qualquer outra coplera contemporânea. O impacto que o seu desaparecimento teve agora na sociedade espanhola pode, justamente, sugerir o impacto que o desaparecimento de Amália teve entre nós. Porém, eventuais comparações com a nossa Amália podem fazer iludir que, apesar de tudo, quer entre antecessoras, quer entre candidatas a sucessoras, há, em quantidade e qualidade, uma contrastante diferença entre as duas. Amália não teve, antes e depois, rivais à altura. De Rocío, evidentemente, é de todo impossível dizer o mesmo. Sucede que as duas emergiram de universos de grandeza muito diferentes. Infelizmente, o último impacto que o fado provocou na sociedade portuguesa foi, precisamente, o da comoção provocada pela morte de Amália. Para além disso, o seu impacto quotidiano como algo vivo é praticamente nulo. O fado está longe de poder gozar do efectivo amor praticante que Espanha proporciona ao que é genuinamente seu. A comoção provocada pela morte de Rocío é, como o de Amália, uma celebração ritual, mas o universo artístico de que emana está muito mais vivo. Insisto: em Espanha existe uma amor praticante e natural em relação ao autóctone que incuba com continuado desvelo os vários géneros musicais que vão desembocar na copla e universos afins...
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