domingo, junho 25, 2006

Viagens (35): Norte de Itália / Julho - Agosto de 2001 (2)

Viagem ao Norte de Itália (Julho/Agosto de 2001) - 1º Dia (tarde / noite)
Ecco! Eis-nos, alegremente, por estradas secundárias da Lombardia. Primeiro impacto: verde por todo lado, mas salpicado por vivendas de aspecto próspero. Em Sesto Calende, onde começa o Lago Maggiore, percebi subitamente que em Itália as placas verdes indicam auto-estrada e as azuis estradas comuns, o que evitou, por um triz, o abandono da estradinha que bordeja o lago.
Arona é um cenário de bilhete postal. Lindo! Na outra margem do lago, um castelo desafiava a cidadezinha. Desde logo observei particularidades do parque automóvel: predomínio de utilitários pequenos e de todo o tipo de motas. Sendo uma região que ostenta um dos primeiros lugares em nível de vida da Europa, este facto suscitou algumas reflexões acerca de diferenças de opções de vida. Não tardou a chegada a Stresa. Lá estavam as Ilhas Borromeas e a imponente mole alpina. O nosso hotel Eden estava mesmo em frente ao lago. Melhor ainda, o quarto dava para esse cenário. Era um edifício bem ao estilo italiano, de cor pastel e com aquelas persianas típicas. O segredo do seu preço ser tão baixo residia no facto de que parecia já ter conhecido melhores dias (há muito…), estando necessitado de amplas reformas. Na verdade, pagar só 15.000 escudos por noite era aqui algo de suspeito...
Depois de breve descanso, decidimos ir à Suíça, que estava apenas a 40 quilómetros. Tratava-se de fazer uma visita relâmpago à cidade de Locarno, no Cantão de Ticino. A marginal prometia paisagens espectaculares e… internacionalizávamo-nos um pouco mais. O problema foi que, no caminho, em Verbania, surgiu um enorme engarrafamento. Era um acidente. O tráfico foi desviado por acanhadas estradinhas que serpenteavam montanha acima, montanha abaixo numa paisagem de vivendas e de flora alpina. Tornou-se evidente que cada viatura seguia o rumo da que ia à frente, confiando que só poderia haver um único destino para toda aquela procissão. As bifurcações e entroncamentos não eram assim tão poucos e a ausência de placas direccionais era absoluta. A odisseia atingiu a gargalhada quando, perseguindo afincadamente o Audi que ia à frente e onde seguia uma sorridente família alemã, chegámos a um beco sem saída. Trocámos olhares divertidos, retrocedemos e experimentámos seguir outra proposta a partir de uma bifurcação que havia ficado para trás. Com êxito. Reencontrou-se a desorientada procissão e, vários quilómetros de curvas adiante, recuperou-se a marginal.
A Suíça apareceu, quando a noite já chegava. E o que trouxe de novo? Uma estrada mais larga, com mais sinalização e mais comércio. Curiosamente, o italiano não era a única língua presente nos letreiros, já que se notava por todo o lado a presença do alemão. Entramos em Locarno já noite e, por isso, não foi possível admirar bem a paisagem. Parámos junto ao Casino e fomos, por questão de prudência financeira, a uma pizzaria. Quando me esforçava com a minha melhor pronúncia italiana em comunicar o pedido, o garçon disparou à queima-roupa: são portugueses? Era um português (aliás, não era o único) que trabalhava ali há vinte e tal anos. Loquaz, familiar, disse que era de uma aldeia perto de Viseu e contou muita coisa da sua vida. Confidenciou que não gostava dos suíços e quando lhe perguntei se os dali, não seriam melhores, replicou que não, que até eram piores - por causa deles e dos de língua alemã, a Suíça não estava na União Europeia - eram xenófobos e não queriam dar direitos aos imigrantes. Nesta meteórica expedição suíça não tive oportunidade de comprovar que esta cidade é, juntamente com a vizinha Lugano, uma das mais ricas da Europa e refúgio de capitais italianos. Passámos de novo a fronteira (há mesmo fronteira a sério do lado suíço) e, desta vez, não houve nenhum desvio pelas montanhas – em breve estávamos de novo no hotel.

sábado, junho 24, 2006

La movida (14)

Miguel Bosè - XXX (1987)
Com este álbum, Miguel Bosè culmina a sua fase mais comercial, ainda não de todo desprendido da sua condição de ídolo de teenagers. É um trabalho produzido com ofício e técnica, plenamente integrado no mais avançado da indústria da música pop internacional. Aliás, a produção e gravação correm por conta do departamento londrino da WEA e teve uma edição dirigida ao mercado anglo-saxónico. Seja como for, a penetração nos mercados internacionais (com excepção do italiano) nunca foi significativa, ao contrário do que viria a suceder uma década depois com, por exemplo, Alejandro Sanz. Talvez este impasse tivesse contribuido para uma evolução da carreira de Miguel Bosè na direcção de um público mais maduro e exigente.
No seu género, este produto atesta um excelente compromisso entre salutares níveis de simplicidade próprios da música pop e um acabamento industrial esmerado - legeireza sem ser fútil ou indigente... É, enfim, um dos melhores exemplos da pop
espanhola mainstream, enriquecida depois da experiência criativa da movida.
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Web Miguel Bosè

quarta-feira, junho 21, 2006

Viagens (34)

Concluindo o inventário de lugares conhecidos com Extremadura, Castilla - La Mancha e Comunidad de Madrid.
1ª coluna: classificação - escala de 1 a 10; 2ª coluna: lugar; 3ª coluna: tipo de lugar; 4ª coluna: província.

Extremadura
07 Alburquerque (Localidade) Badajoz
06 Badajoz (Cidade) Badajoz
08 Jerez de los Caballeros (Localidade) Badajoz
07 Mérida (Cidade) Badajoz
06 Monesterio (Localidade) Badajoz
07 Oliva de la Frontera (Localidade) Badajoz
07 Olivença (Localidade) Badajoz
05 Vegas Bajas (Planície) Badajoz
07 Zafra (Localidade) Badajoz
08 Aldeanueva de la Vera (Localidade) Cáceres
08 Baños de Montemayor (Localidade) Cáceres
08 Cáceres (Cidade) Cáceres
07 Campo Arañuelo (Planície) Cáceres
08 Cuacos de Yuste (Localidade) Cáceres
08 Garganta la Olla (Localidade) Cáceres
08 Jaraiz de la Vera (Localidade) Cáceres
08 Jarandilla de la Vera (Localidade) Cáceres
08 La Vera (Vale) Cáceres
08 Losar de la Vera (Localidade) Cáceres
08 Monfragüe (Parque Natural) Cáceres
07 Navalmoral de la Mata (Localidade) Cáceres
Castilla - La Mancha
08 Campos de Toledo (Planalto) Toledo
09 Toledo (Cidade) Toledo
Comunidad de Madrid
07 Collado-Villalba (Localidade) Madrid
07 Colmenar Viejo (Localidade) Madrid
07 Galapagar (Localidade) Madrid
07 Lozoya (Localidade) Madrid
09 Madrid Cidade (Metrópole) Madrid
06 Pinto (Subúrbio) Madrid
09 San Lorenzo del Escorial (Localidade / Monumento) Madrid
07 Sierra de Madrid (Serra) Madrid


sábado, junho 17, 2006

Galícia (9)

Amancio Prada - De mar e terra: Coplas de tradición oral (1999)
É mais um álbum do berciano Amancio Prada dedicado à música tradicional galega. Não trás novidades, mas tudo é reconhecidamente muito bom, desde a matéria-prima à produção. Amancio Prada intercala projectos inovadores, normalmente em castelhano, com o reiterado regresso ao inesgotável filão da música popular galega. Uma vez mais se destaca o protagonismo da sanfona e sua arcaica sonoridade, mas há um outro protagonismo que convém não deixar de destacar sempre - a voz. Entre vários temas, destaque-se Teño un Amor na Montaña, que é, na verdade, uma colagem que inclui na parte final um trecho do sublime Alala das Mariñas. Este pequeno trecho não desmerece a magnífica versão que Uxía fez do mesmo tema, que evoca através da melancolia da emigração, As Mariñas - essa região costeira do nordeste da província de A Coruña e norte da província de Lugo.

ALALA DAS MARIÑAS

Teño unha casiña branca na Mariña entre loureiros,

teño paz e teño amor e estou vivindo no ceo.

Ailalala, ailalala..

E adiós á miña casiña, portelo do meu quinteiro,

auga da miña fontiña, sombra do meu laranxeiro

Ailalala, ailalala...


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quarta-feira, junho 14, 2006

Castilla (15): Castilla y León

Valladolid: Santa María de la Antígua

Castilla (14): Castilla y León

Madrigal de las Altas Torres
Para o Verão que se avizinha, o meu plano de viagem de uma semana passa por esta perdida localidade castelhana, no extremo norte da província de Ávila, berço de Isabel a Católica e detentora do fantástico nome de Madrigal de las Altas Torres. Intuo por estas paragens a assombrada permanência da quintessência da alma castelhana... Desenhando uma hipótese de roteiro, vejamos... De carro até Salamanca e Alba de Tormes. Talvez, nesta localidade onde morreu Santa Teresa de Jesús, me decida por dormida em modesto estabelecimento hoteleiro; depois, ainda de carro, Peñaranda de Bracamonte, Madrigal de las Altas Torres, Medina del Campo, Olmedo, Íscar, Cuéllar, Portillo, Valladolid. Estacionando um dia na capital castelhano-leonesa, num bom hotel de 5 estrelas. Depois de comboio rumo às Astúrias, atravessando a Tierra de Campos (Palencia, Becerril, Paredes de Nava), Sahagún, León... Dois dias na verde Astúrias, com o centro de operações bem no centro de Oviedo, também num bom hotel. Regresso a Valladolid de encontro ao carro aí deixando em sossego. Depois, rumo a casa, com poiso intermédio algures. A ver...

Diputación Provincial de Ávila - Archivo Fotográfico de 1929

quinta-feira, junho 01, 2006

La copla (8)

Rocío Jurado (1944 - 2006)

Rocío, La más grande! Morreu Rocío Jurado. Infelizmente a notícia era esperada. Tratava-se, na actualidade, da maior das copleras. Representava bem aquela estirpe salerosa que sempre configurou o estereótipo da mulher espanhola, ou, pelo menos, da mulher andaluza. Aquela alma, raça e arrebatamento que as suas qualidades interpretativas sempre personificaram. Em todos os aspectos, Rocío reunia todas as condições para desempenhar esse papel e pairava agora bem acima de qualquer outra coplera contemporânea. O impacto que o seu desaparecimento teve agora na sociedade espanhola pode, justamente, sugerir o impacto que o desaparecimento de Amália teve entre nós. Porém, eventuais comparações com a nossa Amália podem fazer iludir que, apesar de tudo, quer entre antecessoras, quer entre candidatas a sucessoras, há, em quantidade e qualidade, uma contrastante diferença entre as duas. Amália não teve, antes e depois, rivais à altura. De Rocío, evidentemente, é de todo impossível dizer o mesmo. Sucede que as duas emergiram de universos de grandeza muito diferentes. Infelizmente, o último impacto que o fado provocou na sociedade portuguesa foi, precisamente, o da comoção provocada pela morte de Amália. Para além disso, o seu impacto quotidiano como algo vivo é praticamente nulo. O fado está longe de poder gozar do efectivo amor praticante que Espanha proporciona ao que é genuinamente seu. A comoção provocada pela morte de Rocío é, como o de Amália, uma celebração ritual, mas o universo artístico de que emana está muito mais vivo. Insisto: em Espanha existe uma amor praticante e natural em relação ao autóctone que incuba com continuado desvelo os vários géneros musicais que vão desembocar na copla e universos afins...
Páginas Especiais:
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domingo, maio 28, 2006

Tiro ao Alvo (10)

Estatuto da Carreira Docente
A ministra da educação tem-se tornado o alvo preferido de muitos professores pelas medidas que desde há um ano para cá têm vindo a ser tomadas. Entre estas destacam-se as tão vilipendiadas “aulas de substituição” – algo que não passa de uma obrigação elementar já há anos consagrada pela lei, prática rotineira noutros países e, inclusivamente, em algumas das nossas escolas. Contudo, para um observador atento, tornava-se evidente que isto era apenas o início de um duro trajecto correctivo que decorria da necessidade de se atalhar em dois domínios: o desastre educativo e o desastre das finanças públicas. Muitas novidades teriam de chegar e, entre elas, avultaria o novo estatuto da carreira docente, que seria a pedra de toque decisiva. O anúncio agora efectuado parece confirmá-lo.
A generalidade dos professores portugueses vive numa inusitada situação de relativos privilégios. É indispensável que estes deixem de contemplar o umbigo dos "direitos adquiridos" e encarem a nova realidade. Se assim não for, será pior para todos. Mesmo numa lógica de interesses corporativos há muito mais a perder para além do que parece já certo, com maior ou menor espernear politico-sindicalmente induzido... Uma progessão minimamente suada e o rastreio de vocações erradas são trivialidades em qualquer profissão digna desse nome. Estabelecer uma mínima diferenciação entre os melhores e os demais, também. Cercear o acesso ao topo através de uma espécie de numerus clausus também se entende, atendendo ao estado das finanças. Vai certamente doer, mas não há alternativa.
Contudo, também não se deve deixar de sublinhar que os privilégios que têm bafejado os professores são comuns à generalidade dos cargos superiores da “função pública”, havendo outras situações mais sintomáticas. O sindicalismo arrancou sem grande esforço
esses privilégios e ainda com menor esforço blindou-os. O oportunismo e incompetência de sucessivos governos pactuou com eles e consagrou-os. São privilégios quantificáveis e não quantificáveis – estes últimos passam pelo clima de relação pouco exigente que se estabelece entre colegas, (o “porreirismo”). O que se anuncia é a intenção de fazer entrar os professores numa situação de normalidade desconhecida. Só que, atenção, o mesmo, provavelmente, será necessário fazer com professores universitários, militares de carreira, médicos... É o inevitável caminho para evitar a bancarrota. No caso dos professores é também o caminho para tentar minimizar o desastre educacional. Contudo, em relação a este desastre, é importante que se tenha em conta que não basta uma maior exigência profissional - é preciso também inverter política e filosofia educativas, o que é complicado, pois os relativismos culturais e visões afins, que tantos danos têm causado à educação, pontificam ainda no mundo em que estamos inseridos. Precisamente, a área política de onde emana o governo é das que mais têm cultivado tais visões... Há ainda um outro aspecto: intenções, por mais bem intencionadas que sejam, não chegam. Tem-se observado na prática deste ministério um certo despiste e voluntarismo que, em vários domínios, têm criado novos problemas. É espantoso que, aparentemente, não se tenha ainda percebido que o essencial passa pela gestão escolar, a qual está muito longe de ter meios e condições de legitimidade para ser o braço executor das orientações ministeriais. Em todo o caso, o ministério navega no rumo certo. Que a nave não naufrague entre as violentas tempestades que se avizinham!

segunda-feira, maio 22, 2006

Mediterráneo / Mediterrània (30)

Lluís Llach - Ara i aqui (1970)
Tinha dezoito anos e viviam-se os conturbados tempos do pós 25 de Abril, quando, através de uma colega de faculdade, consegui um álbum que cá em Portugal era impossível comprar. Essa mesma colega já o tinha e emprestara-mo. Gostei tanto que pedi-lhe que, assim que fosse a Espanha, mo comprasse. Há coisas, evidentemente, que só têm condições para ser apreciadas num determinado contexto. Naquela altura, Ara i Aqui, pareceu-me o máximo, em larga medida porque, desde um empenhamento esquerdista (que era desgraçadamente o meu, nessa altura) era uma lufada de lirismo cançonetista que entroncava com uma visão mais ou menos idílica da cidade de Barcelona e do catalanismo. Além disso, o então jovem cantautor Lluís Llach tinha qualidades superiores a muitos dos seus congéneres - estava longe de ser um mero baladeiro, pois tinha uma voz melodiosa, tocava piano e alternava o registo acústico com acompanhamento orquestral. O álbum era uma gravação ao vivo de um espectáculo no emblemático Palau de la Música Catalana, num ambiente de resistência antifascista, patente nos arrebatados aplausos - algo que atingiu o climax no tema L'Estaca, que, provavelmente por causa da censura, foi apresentado em versão instrumental. A verdade é que se trata de uma gravação não só interessante pelo seu carácter de testemunho de uma época, como também pelo sua vertente artística. Paradoxalmente, não conheço nenhuma tentativa tão bem conseguida de exploração de uma via melódica potencialmente comercial para a nova cançó. Carácter militante aparte, o certo é que a maioria das canções do jovem Lluís Llach no início da sua carreira inscreviam-se num modelo de cançonetismo tradicional - eram simples canções de amor e, ainda por cima, de excelente corte melódico. Algo que contrasta com o carácter pesado, monótono, irremediavelmente marcado por uma pulsão amarga de denúncia ideologicamente condicionada, que domina a sua carreira a partir de meados dos anos 80. Há muito que parece ter-se-lhe esvaído a inspiração e a frescura, de modo que ouvir Ara i Aqui, como outros brilhantes álbuns dos anos 70, é uma oportunidade para relembrar outras fases mais proveitosas.
Infelizmente, as edições em
CD de Ara i Aqui têm graves defeitos em relação ao álbum original: os aplausos desapareceram de todo e o ambiente apercebe-se como de estúdio (provavelmente as gravações originais eram um falso "ao vivo"); faltam dois dos melhores temas (Respon-me e Irene), assim como falta o tema mais significativo (L'Estaca - versão instrumental).
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