Da região valenciana conheço a sua capital e a região costeira da Província de Castelló. Estive duas vezes em Valencia - a primeira em 1986, durante três dias; a segunda em 1991, de passagem. Embora longe de ser desprovida de atractivos, não me apaixonou. Valencia, capital, é uma cidade simpática e alegre, mas de dimensão superior à que à primeira vista se possa pensar. O ar camponês patente nas descrições de um romance de Blasco Ibañez, La Barraca, já não tem, como é evidente, a mesma validade. Esse romance foi o meu primeiro contacto com a realidade valenciana, que me fez saber em que consistia a sociedade camponesa da Horta, assim como me fez aperceber a existência do idioma valenciano. Ainda hoje a comarca em que está inserida a cidade se conhece como L'Horta e, não obstante a mancha urbana abranger mais de 1.000.000 de habitantes, os campos de laranjais penetram ainda pela sua periferia.
Quanto à questão idiomática, pois aí aflora um típico radicalismo espanhol... Qualificar o valenciano como dialecto catalão, algo evidente para qualquer descomprometido observador, pode ser fonte de discussões, dado o regionalismo ultramontano que muitos valencianos alardeiam, ciosos dos seus particularismos. Mas, na prática, trata-se de catalão pronunciado com fonética castelhana, o que é lógico, dado que a maior parte da região foi povoada por catalães após a Reconquista. Deste facto têm orgulhosa consciência outros valencianos... Grupos folk locais como Al Tall e Urbàlia Rurana dão conta desta matriz histórico-cultural de origem catalã, a qual se apresenta mesclada, de forma original, com influências muçulmanas. As famosas Fallas, em Março, fazem parte desta identidade. É uma festa de fogo e petardos que, tanto quanto, a paella, constitui um dos seus mais visíveis traços de identidade. Outros existem, menos conhecidos, mas igualmente curiosos, como a afición pela música, que faz com que floresçam por todo o lado bandas sinfónicas. Não admira, por isso, que seja terra de pasodobles e cantores (Conchita Piquer, Nino Bravo...) - Um aparte para referir que o hino de Valencia é tão bonito como a sua bandeira. Noutro plano, é também a terra do bakalao - estranha designação que em Espanha é dada à música de discoteca. Aqui proliferam discotecas e estão estabelecidos alguns dos mais famosos DJs.
Outras coisas existem, bem menos edificantes e a menor das quais não será a destruição de parte das belezas naturais do litoral por empreendimentos urbanísticos de gosto duvidoso. Benidorm é o mais lamentável exemplo. Essa, enfim, é a Espanha que nunca me interessou...