quarta-feira, novembro 09, 2005

Para siempre boleros! (11)

Francisco Céspedes - Vida loca (1997)
Num território de confluência entre o jazz e a balada latina, encontra-se na voz e no estilo do cubano Pancho Céspedes uma via de modernização do bolero. O bolero nasceu em Cuba. Tem lógica que cubanos estejam na vanguarda do género. Este, no México, Gloria Estefan em Miami, Lucrecia em Barcelona podem ser diferentes possibilidades de modernização do bolero. Céspedes está radicado no México. Tem uma voz magnífica - enrouquecida mas ressonante. O seu estilo pode ser adjectivado como cool, envolvido por orquestrações sóbrias, assentes no piano. Do bolero conserva alguma cadência, a pose diletante e letras de paixões dilaceradas.
Este foi o seu primeiro álbum e foi uma entrada fulgurante, pois teve êxito comercial e não deixou de obter imediato reconhecimento da crítica. Temas como o que dá título ao álbum e Pensar en Ti tornaram-se quase clássicos modernos da música latina.
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segunda-feira, novembro 07, 2005

Baúl de los recuerdos (9)

La vida cotidiana en la España de los 60 (1990)
Este livro em formato de álbum de recordações faz parte de uma colecção, La Vida Cotidiana en la España de los..., organizada por decénios. Ignoro todas as décadas que abrange, pois em lugar algum deste volume, como do outro que tenho, referente aos anos 40, encontro informações sobre os restantes. Não é uma obra de carácter historiográfico ou sociológico. É um despretensioso catálogo ilustrado sobre alguns aspectos mais apelativos da memória colectiva, nomeadamente figuras mediáticas do espectáculo, desporto e outros acontecimentos de impacto. As análises aparecem em género de artigo de jornal ou revista e tudo decorre num plano evocativo. Sintomático é o destaque dado a canções marcantes, as quais aparecem sob a rubrica Las Canciones de una Época.
Comprei os dois volumes, em 1996, na Livraria Alcalá, no Chiado. Era então o único local dedicado ao livro espanhol em Lisboa. Nunca mais lá voltei e tampouco me lembro se havia outros volumes. Se assim foi, a minha escolha não foi isenta de critério. Da década de 50 recebi um manancial de informações sobre a vida em Espanha, através das histórias das muitas viagens que o meu pai fez. Apesar de conhecer Madrid e Barcelona, de antes da Guerra Civil, foi, sobretudo, nos anos 50 que, ao volante do seu garboso Studebaker, percorreu a pele do touro de lés a lés. Gozava então de um certo estatuto, alguma fama e desafogo financeiro. O arquitecto Edmundo Tavares podia assim permitir-se um privilégio que nem mesmo o posterior turismo massificado trivializou, o de se meter a conhecer, de facto, com profundidade, um país que o apaixonava tanto como a sua cidade de eleição, Paris, onde fizera estágio no início dos anos 20. Ser turista numa época em que o turismo era para uma elite, tem pouco a ver com a moderna e democrática noção de viajar. Não passava pela cabeça de um turista pôr-se a torrar ao sol de alguma praia. Havia, isso sim, ansiedades culturais e artísticas bem contrastantes com as que hoje em dia imperam entre a turistagem de meia tijela. O meu pai, nas suas narrativas, evocava aspectos pouco enquadráveis naquilo que hoje em dia parece ser merecedor de evocação de viagem. Entre muitas coisas, descreveu-me as llanuras castellanas e o carácter castellano de uma forma impressivamente contrastante com o modelo dominante entre nós. Fez-me viajar com ele desenhando trajectórias num mapa Michelin, detendo-se sempre em determinados lugares para repetir algumas histórias. A que mais recordo foi a da mula morta, perto de Medinaceli. A caminho de Madrid, vindo de Zaragoza, numa estrada em mau estado, após um curva, depara-se, no meio do pavimento, uma mula morta e no ar, voando em circulos, um par de abutres. Moscas e mau cheiro empestavam o ambiente. Era a imagem de um país ainda mais pobre que Portugal, mas dotado de uma grandeza dramática de carácter, onde não havia lugar para meias-tintas e havia, para o bem e para o mal, intensidade e cor. Da desolação dos páramos sorianos à imponência incipiente da Gran Via, sempre agitada, onde pontificava o Pasapoga, o meu pai pintou-me uma certa Espanha dos anos 50. Quando, enfim, por mim, me deitei a conhecê-la, já se estava na década de 70. Apesar de um cenário urbano onde pontificavam monocordicamente os pobres Seat, era uma sociedade visivilmente já mais desenvolvida que a portuguesa, mas, sobretudo, com a tal animação e intensidade que parece que lhe é inerente. Ficou-me, de algum modo, um hiato por preencher - o que estava no meio, nessa Espanha descrita pelo meu pai e aquela que eu encontrara. O hiato era a década de 60.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Noites tropicais (8)

Elis Regina / Tom Jobim - Elis & Tom (1974)
Que dizer de um álbum destes? Quem não o conhece vive nas trevas. Dois génios juntam-se e dá nisto... Ontem, um amigo meu sugeriu-me que seria adequado dedicar um post a este que ele crisma como "o álbum dos álbuns" e dei por mim a dar-me conta como é bom reouvi-lo com regularidade para exercitar a sensibilidade e a emoção... Muito se pode dizer sobre Elis e Tom Jobim. Vou limitar-me a levantar algumas pontas marginais: 1 - Há algo de canalha na voz de Elis; 2 - Há uma encantatória cadência melódica na inspiração jobiniana, digamos, uma intrínseca brasilidade; 3 - Há, no final de Águas de Março uma displicente e cúmplice risada que traduz um espírito de arte pelo prazer, ao qual os espíritos finos e tocados pela graça acedem com naturalidade; 4 - Há ainda a voz de Tom, frágil e sempre no fio da desafinação, que soa aqui e ali de forma oportuna numa demonstração de como a perfeição não dispensa adoráveis imperfeições...; 5 - Há, enfim, Inútil Paisagem, que encerra a função, e é entre tantas jóias, a minha jóia preferida, a mais eloquente tradução musical do abandono e da solidão amorosa...
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terça-feira, novembro 01, 2005

Guia hispânico (15)

Tendo como fonte os dados do Anuario Económico de España (La Caixa) estas são, entre as cidades com mais de 50.000 habitantes, as 25, com, respectivamente, melhor e pior nível de vida (escala de 1 a 10):

10 Barcelona
10 Bilbao (Vizcaya)
10 Pamplona/Iruña (Navarra)
10 Donostia-San Sebastián (Guipúzcoa)
10 Lleida
10 Alcobendas (Madrid)
10 Getxo (Vizcaya)
10 Girona
10 Pozuelo de Alarcón (Madrid)
10 Las Rozas de Madrid (Madrid)
10 Sant Cugat del Vallès (Barcelona)
10 Majadahonda (Madrid)
09 Madrid
09 Vitoria-Gasteiz (Álava)
09 Burgos
09 Tarragona
09 Irún (Guipúzcoa)
09 Segovia
08 Valencia
08 Zaragoza
08 Palma de Mallorca (Illes Balears)
08 Valladolid
08 Oviedo (Asturias)
08 Santander (Cantabria)
08 Castellón de la Plana/Castelló
(...)
05 Torrelavega (Cantabria)
05 Fuengirola (Málaga)
05 Puertollano (Ciudad Real)
04 Málaga
04 Elche/Elx (Alicante/Alacant)
04 Badajoz
04 Cádiz
04 Dos Hermanas (Sevilla)
04 Parla (Madrid)
04 Lorca (Murcia)
04 El Puerto de Santa María (Cádiz)
04 Chiclana de la Frontera (Cádiz)
04 Orihuela (Orihuela)
04 Alcoy/Alcoi (Alicante/Alacant)
04 Alcalá de Guadaira (Sevilla)
04 Elda (Alicante/Alacant)
04 Mérida (Badajoz)
03 Santa Lucía de Tirajana (Las Palmas de Gran Canaria)
03 Jerez de la Frontera (Cádiz)
03 Algeciras (Cádiz)
03 San Fernando (Cádiz)
03 La Línea de la Concepción (Cádiz)
03 Vélez-Málaga (Málaga)
03 Motril (Granada)
02 Sanlúcar de Barrameda (Cádiz)

domingo, outubro 30, 2005

Complexo de Aljubarrota (4)

Oliveira Martins (1845 - 1894)
Mais coerente e mais programático é o iberismo de Oliveira Martins. De um modo geral as propostas iberistas têm surgido mais frequentemente de correntes ideológicas situadas à esquerda. O socialismo federalista iberista de Oliveira Martins é, neste contexto, ainda, a mais influente de todas as propostas iberistas que alguma vez a intelectualidade portuguesa produziu.

Complexo de Aljubarrota (3)

António Sardinha (1887 - 1925)
Se alguém dentro da intelectualidade portuguesa parece ter estado imune a um complexo de Aljubarrota foi António Sardinha. Contudo, o seu iberismo merece ser analisado com mais detalhe, na medida em que mais do que assente numa teoria de integração política ibérica, parece assente, isso sim, numa atracção pela história e cultura de Espanha, em particular de Castela. Parece que tal se desenvolveu na sequência da sua fuga para Espanha que lhe permitiu conhecer pessoalmente uma realidade que não deixou mais de exercer sobre ele poderosa atracção. Para além desta prevenção, há que ter em conta que o movimento político-cultural em que participou, o Integralismo Lusitano, pode ser considerado, em aspectos essenciais, contraditório com este sentimento iberista. Seja como for, as suas ideias sobre a História dos povos ibéricos de algum modo fazem parte de uma concepção que será, mais tarde desenvolvida por, entre outros, Ramiro de Maeztu.

American Dream (4)

CD: Bob Dylan - John Wesley Harding (1967)

Toda a crítica qualifica muito bem este álbum de Bob Dylan. Contudo, permanece como um dos mais ignorados em toda a sua vasta discografia. Compreende-se que não tivesse atingido a projecção dos três extraordinários que o antecedem e, sem discussão, os mais brilhantes (com permissão do posterior Blood on the Tracks...), mas não mereceria a penumbra em que acabou por estacionar. Depois ter atingindo, fulgurantemente, a fama com os três álbuns que correspondem ao período de apogeu de toda a sua carreira discográfica, Dylan tem um período de afastamento da ribalta. É também nesse período que sofre um acidente de mota. A fase parece ter sido algo turbulenta. Reaparece em 1967 com este álbum, de uma extraordinária simplicidade meios, que parece uma renúncia ao rock/folk e um retorno às origens, ao folk acústico. Dylan na guitarra e com a sua harmónica, mais um discretíssimo acompanhamento de bateria singela e baixo. Em dois temas há uma guitarra adicional. É tudo! É um trabalho melancólico e bucólico. Na capa aparece entre índios e as letras parecem parábolas bíblicas. Uma cabal demostração de como a simplicidade de meios pode ser eficaz. Três temas a destacar: All along the watchtower (será recriado de forma radicalmente eléctrica, em memorável versão, por Jimi Hendrix em Woodstock); The ballad of Frankie Lee and Judas Priest; I'll be your baby tonight.

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Geografia íntima (18)

A minha casa no Google Earth
Todos os que vivam em áreas para as quais o Google Earth tenha o mesmo elevado nível de detalhe podem fazer isto que eu fiz: detectar a minha casa... desde o espaço, aproximando-me progressivamente. Eis-me, portanto, no centro da Amadora, bem perto da linha de caminho-de-ferro.

sábado, outubro 29, 2005

Galicia (7)

Vigo no Google Earth
Foi a primeira cidade de Espanha que eu conheci e também a que mais vezes visitei (para aí mais de uma dúzia...). Vista do ar não dá para perceber imediatamente a sua orografia acidentada, mas dá para perceber o seu carácter portuário e o facto de estar virada a Norte. Quase no centro está uma mancha verde que é o Monte Castro. Daí tem-se uma panorâmica privilegiada sobre a cidade e a ria. Mas não é a única panorâmica possível, pois há mais um outro importante miradouro sobranceiro à cidade e outros mais afastados.
Vigo é capital de lugar nenhum, pois não é, nem nunca foi, sequer, capital de província. Contudo, é a maior cidade da Galiza, com os seus quase 300.00 habitantes e, de longe, o centro industrial mais importante de toda essa região. Pertence à categoria de cidades com El Corte Inglés e aí, desde a sua inauguração, é rotina tropeçarmos em compatriotas com a pronúncia do Norte. Mais do que qualquer outra coisa esse tem sido o pólo de atracção para os visitantes de aquém-Minho. Apesar de não possuir importante património monumental, essa peculiar obsessão prejudica que se aprecie coisas bem interessantes, como alguns exemplos de uma arquitectura imponente em edifícios centrais, uma extensa artéria para uso exclusivo de peões (Rúa do Principe) e, sobretudo, um magnífico enquadramento natural, onde pontificam a ria, as serranias vizinhas e as Ilhas Cíes. Também há outros aliciantes como a elevada possibilidade de se comer bem e relativamente barato (sobretudo mariscos) e a não de todo remota possibilidade de, em alguma taberna sobrevivente, se escutar um galego escorreito e um som de gaita galega...