domingo, outubro 30, 2005

Complexo de Aljubarrota (4)

Oliveira Martins (1845 - 1894)
Mais coerente e mais programático é o iberismo de Oliveira Martins. De um modo geral as propostas iberistas têm surgido mais frequentemente de correntes ideológicas situadas à esquerda. O socialismo federalista iberista de Oliveira Martins é, neste contexto, ainda, a mais influente de todas as propostas iberistas que alguma vez a intelectualidade portuguesa produziu.

Complexo de Aljubarrota (3)

António Sardinha (1887 - 1925)
Se alguém dentro da intelectualidade portuguesa parece ter estado imune a um complexo de Aljubarrota foi António Sardinha. Contudo, o seu iberismo merece ser analisado com mais detalhe, na medida em que mais do que assente numa teoria de integração política ibérica, parece assente, isso sim, numa atracção pela história e cultura de Espanha, em particular de Castela. Parece que tal se desenvolveu na sequência da sua fuga para Espanha que lhe permitiu conhecer pessoalmente uma realidade que não deixou mais de exercer sobre ele poderosa atracção. Para além desta prevenção, há que ter em conta que o movimento político-cultural em que participou, o Integralismo Lusitano, pode ser considerado, em aspectos essenciais, contraditório com este sentimento iberista. Seja como for, as suas ideias sobre a História dos povos ibéricos de algum modo fazem parte de uma concepção que será, mais tarde desenvolvida por, entre outros, Ramiro de Maeztu.

American Dream (4)

CD: Bob Dylan - John Wesley Harding (1967)

Toda a crítica qualifica muito bem este álbum de Bob Dylan. Contudo, permanece como um dos mais ignorados em toda a sua vasta discografia. Compreende-se que não tivesse atingido a projecção dos três extraordinários que o antecedem e, sem discussão, os mais brilhantes (com permissão do posterior Blood on the Tracks...), mas não mereceria a penumbra em que acabou por estacionar. Depois ter atingindo, fulgurantemente, a fama com os três álbuns que correspondem ao período de apogeu de toda a sua carreira discográfica, Dylan tem um período de afastamento da ribalta. É também nesse período que sofre um acidente de mota. A fase parece ter sido algo turbulenta. Reaparece em 1967 com este álbum, de uma extraordinária simplicidade meios, que parece uma renúncia ao rock/folk e um retorno às origens, ao folk acústico. Dylan na guitarra e com a sua harmónica, mais um discretíssimo acompanhamento de bateria singela e baixo. Em dois temas há uma guitarra adicional. É tudo! É um trabalho melancólico e bucólico. Na capa aparece entre índios e as letras parecem parábolas bíblicas. Uma cabal demostração de como a simplicidade de meios pode ser eficaz. Três temas a destacar: All along the watchtower (será recriado de forma radicalmente eléctrica, em memorável versão, por Jimi Hendrix em Woodstock); The ballad of Frankie Lee and Judas Priest; I'll be your baby tonight.

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Geografia íntima (18)

A minha casa no Google Earth
Todos os que vivam em áreas para as quais o Google Earth tenha o mesmo elevado nível de detalhe podem fazer isto que eu fiz: detectar a minha casa... desde o espaço, aproximando-me progressivamente. Eis-me, portanto, no centro da Amadora, bem perto da linha de caminho-de-ferro.

sábado, outubro 29, 2005

Galicia (7)

Vigo no Google Earth
Foi a primeira cidade de Espanha que eu conheci e também a que mais vezes visitei (para aí mais de uma dúzia...). Vista do ar não dá para perceber imediatamente a sua orografia acidentada, mas dá para perceber o seu carácter portuário e o facto de estar virada a Norte. Quase no centro está uma mancha verde que é o Monte Castro. Daí tem-se uma panorâmica privilegiada sobre a cidade e a ria. Mas não é a única panorâmica possível, pois há mais um outro importante miradouro sobranceiro à cidade e outros mais afastados.
Vigo é capital de lugar nenhum, pois não é, nem nunca foi, sequer, capital de província. Contudo, é a maior cidade da Galiza, com os seus quase 300.00 habitantes e, de longe, o centro industrial mais importante de toda essa região. Pertence à categoria de cidades com El Corte Inglés e aí, desde a sua inauguração, é rotina tropeçarmos em compatriotas com a pronúncia do Norte. Mais do que qualquer outra coisa esse tem sido o pólo de atracção para os visitantes de aquém-Minho. Apesar de não possuir importante património monumental, essa peculiar obsessão prejudica que se aprecie coisas bem interessantes, como alguns exemplos de uma arquitectura imponente em edifícios centrais, uma extensa artéria para uso exclusivo de peões (Rúa do Principe) e, sobretudo, um magnífico enquadramento natural, onde pontificam a ria, as serranias vizinhas e as Ilhas Cíes. Também há outros aliciantes como a elevada possibilidade de se comer bem e relativamente barato (sobretudo mariscos) e a não de todo remota possibilidade de, em alguma taberna sobrevivente, se escutar um galego escorreito e um som de gaita galega...

sexta-feira, outubro 28, 2005

La movida (13)

Semen Up - Los estás haciendo muy bien y otras canciones peligrosas [1996 (1985+1986)]
Este CD reúne quase toda a produção de Semen Up, que foi, portanto, escassa. Corresponde a dois mini LPs editados em 1985 e 1986. Foi uma produção escassa, mas de impacto, além de que ganhou ainda maior relevância pelo facto da figura central do grupo, Alberto Comesaña, ter tido, depois, uma projecção mediática nos anos 90, como membro do duo Amistades Peligrosas. Semen Up insere-se na tendência provocatória que sustentou uma boa parte da movida. Porém, ao contrário da maioria dos exemplos desta tendência, não deixou de apresentar cuidados musicais. Em parte, certamente, porque integrou uma vaga tardia dentro da movida. É o último grande testemunho musical do que se designou como movida viguesa, depois de Siniestro Total, Golpes Bajos e Os Resentidos. Há ainda um pormenor relevante: participou activamente neste grupo o portuense Sérgio Castro, de Trabalhadores do Comércio (é mais um exemplo da mútua atracção entre Porto e Vigo..). Em todo o caso a grande estrela foi sempre Alberto Comesaña - tudo girava em torno dele, da sua voz e do seu descaramento... Havia um programa de acção que era fazer um pop/rock para chocar espíritos púdicos, por via de mensagens sexualmente explícitas, ou quase... É uma espécie de bombástica teoria de pacotilha assente em proclamações contra a dictadura de los decentes e coisas assim... Lo estás haciendo muy bien é o tema estandarte, mas não se pode dizer que algum dos temas que figuram nesta compilação escape a esse "programa". Na verdade aquele tema, que lhes granjeou fama instantânea, se musicalmente não é desinteressante, está longe de ser uma obra-prima... Contudo, a letra é um achado e, assim, se projectou aquela bem pode ter sido uma das primeiras canções declaradamente dedicadas ao sexo oral... A imagem da capa reforça o efeito. Para lá desta curiosidade sociológica, o certo é que a proposta musical do grupo não era desprovida de interesse, sendo que, à medida que o tempo vai passando e o efeito escandaloso se vai desvanecendo, se pode melhor apreciar esse facto. A voz quente e insinuante de Alberto Comesaña é o ingrediente essencial - poderia ter dado um soberbo bolerista, se tal não estivesse nos antípodas das suas opções artísticas...
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quinta-feira, outubro 27, 2005

Tiro ao Alvo (4)


Que ganhe Cavaco Silva!
Sou radicalmente moderado, um pouco mais à direita do que à esquerda, entre a social-democracia e um liberalismo suave, mas não tenho grandes pretensões de definição ideológica. Como pano de fundo tenho um certo carinho pela monarquia, mas sem dar a este sentimento mais sustentação do que um pretensiosismo inócuo... Apoio Cavaco Silva. É necessário conter as esquerdas e todo o seu arsenal demagógico, refúgio para múltiplos interesses corporativos ameaçados. Não basta ganhar. É importante ganhar por goleada. Felizmente, há condições para isso, porque as classes médias, apesar de desorientadas e ameaçadas em extensos segmentos, tendem instintivamente para não dar confiança a opções facilitadoras do caos. Mais do que nunca, a imagem da esquerda, retalhada entre facciosismos partidários e narcisísticos, é a figuração do caos. Nisto, há como que uma espécie de parábola. A esquerda, construtora do regime em que vivemos, propõe-se enfrentar a crise que, em larga medida, é resultado das suas receitas, com intensificação radical da dose (mais do mesmo, ou seja, mais estado, ainda mais estado, sempre mais estado). Em alarde de cegueira facciosa, entretem-se em minudências de grau de doseamento, para se apresentar com 4 faces.
Não tenho ilusões quanto às possibilidades de Cavaco Silva como Presidente da República ter poderes e capacidades para operar milagres quanto à crise (a qual, desgraçadamente, tem certos contornos estruturais...), mas tem, pelo menos, virtudes preciosíssimas: prudência, sensatez, senso-comum. Talvez seja uma pequeno mas decisivo contributo para sermos poupados a desastres superlativos...

quarta-feira, outubro 26, 2005

Rádio (5)

Lorenzo Díaz - La radio en España / 1923 - 1993 (1993)
Uma das primeira ligações que tive com a Espanha foi através da rádio. Era fácil. Caída a noite, escutava algumas das mais potentes emissoras da onda média (Radio España, Madrid; Radio Intercontinental, Madrid; Radio Sevilla; RNE - Centro Emisor del Noroeste). Era miúdo e estava, assim, familiarizado com as vozes e músicas de Espanha. Era um complemento dos muitos mapas, postais ilustrados e livros de Espanha que o meu pai depositava em minha casa, assim como das histórias que contava das muitas viagens que fizera por lá, nos anos 50. A rádio espanhola trazia-me um mundo diferente. Era alegre a música de Espanha e a sua língua...
Nunca mais perdi esta atracção pela rádio espanhola. Nos anos 80, escutava com assiduidade invasões hertzianas de emissoras FM, na Primavera e Verão. Eram invasões insólitas que proporcionavam recepções temporárias de largas horas ou, até mesmo, dias, com qualidade estéreo. Dessa forma captava a Radio Minuto (Las Palmas); SER Huelva; Antena 3 Badajoz; SER Mérida; SER Cáceres; Radio Noroeste Vigo, ou seja abrangendo um largo espectro, desde as Canárias à Galiza. Tudo isso me parece já arcaico, pois desde há 12 anos que sintonizo por antena parabólica todo o pacote de emissoras do Canal Satelite Digital, com qualidade digital. É a Cadena Dial que normalmente me acompanha com fidelidade diária. Mas também sintonizo a Radiolé: aos sábados, início da noite, sempre que posso, escuto o Son de la tribu. Também, sempre que posso, sou ouvinte do programa desportivo El larguero (Cadena SER) e às vezes passo pela Catalunya Ràdio. Tenho pena de não aceder às tertúlias de Luís del Olmo, agora na recém-formada Punto Radio e tenho algumas saudades do estilo hiper-bombástico de José María García - péssimo jornalista e óptimo entertainer, apropriadamente apodado de Butano (bilha de gás). Enfim, para o bem e para o mal foi sempre uma rádio plena de vitalidade...
Pode-se perceber, portanto, como a monumental obra La radio en España foi para mim algo que me entusiasmou. Tudo o que eu sabia era, nesta matéria, apesar de tudo, fragmentário, e a partir da leitura deste livro ganhou um nexo integrador. Além do mais, percebe-se que foi uma obra feita com paixão por alguém que tem um vasto conhecimento sobre a matéria. Como se não bastasse, vem acompanhado por um CD que compendia alguns momentos importantes e representativos da evolução da rádio espanhola. Aí pude reencontrar um velho conhecido anúncio de sintonia: Aquí, Radio Intercontinental... Madrid!!!! Lástima que o pasodoble das 20:15 (ou 21:15) não apareça. Sucedia-se à informação da temperatura na Calle Modesto Lafuente, onde se situavam os estúdios. Tinha eu uns 11 ou 12 anos e aguardava muitas vezes por esse momento, para ouvir o tal pasodoble.

terça-feira, outubro 25, 2005

2 Esclarecimentos e 1 Pedido (-)

Aos amigos que têm feito comentários:
Quero agradecer os comentários que um número significativo de amigos leitores têm aqui deixado. Queria esclarecer o seguinte:
1) Infelizmente, em relação a uma grande parte das sugestões, não estou em condições de as adoptar por dizerem respeito a pesonagens e factos que desconheço ou conheço insuficientemente. Além disso, de momento, não tenho disponibilidade para procurar informações, como gostaria...;
2) A maior parte dos leitores são espanhóis e este blog é escrito em português. Bem gostaria de o escrever espanhol, mas o meu domínio da língua de Cervantes não é ainda suficientemente bom para que me abalance a tanto... Provavelmente, um dia, atrever-me-ei a fazê-lo, quem sabe... Seja como for, aceitaria com entusiasmo que, quem quisesse, me enviasse material para posts, escritos em espanhol.
Finalmente, um pedido: quem quiser obter alguma resposta concreta sobre sugestões ou outro tipo de observações pessoais contidas nos seus comentários que se me dirija directamente por e-mail (está bem visível no blog).
Saludos,
Edmundo