sexta-feira, outubro 28, 2005

La movida (13)

Semen Up - Los estás haciendo muy bien y otras canciones peligrosas [1996 (1985+1986)]
Este CD reúne quase toda a produção de Semen Up, que foi, portanto, escassa. Corresponde a dois mini LPs editados em 1985 e 1986. Foi uma produção escassa, mas de impacto, além de que ganhou ainda maior relevância pelo facto da figura central do grupo, Alberto Comesaña, ter tido, depois, uma projecção mediática nos anos 90, como membro do duo Amistades Peligrosas. Semen Up insere-se na tendência provocatória que sustentou uma boa parte da movida. Porém, ao contrário da maioria dos exemplos desta tendência, não deixou de apresentar cuidados musicais. Em parte, certamente, porque integrou uma vaga tardia dentro da movida. É o último grande testemunho musical do que se designou como movida viguesa, depois de Siniestro Total, Golpes Bajos e Os Resentidos. Há ainda um pormenor relevante: participou activamente neste grupo o portuense Sérgio Castro, de Trabalhadores do Comércio (é mais um exemplo da mútua atracção entre Porto e Vigo..). Em todo o caso a grande estrela foi sempre Alberto Comesaña - tudo girava em torno dele, da sua voz e do seu descaramento... Havia um programa de acção que era fazer um pop/rock para chocar espíritos púdicos, por via de mensagens sexualmente explícitas, ou quase... É uma espécie de bombástica teoria de pacotilha assente em proclamações contra a dictadura de los decentes e coisas assim... Lo estás haciendo muy bien é o tema estandarte, mas não se pode dizer que algum dos temas que figuram nesta compilação escape a esse "programa". Na verdade aquele tema, que lhes granjeou fama instantânea, se musicalmente não é desinteressante, está longe de ser uma obra-prima... Contudo, a letra é um achado e, assim, se projectou aquela bem pode ter sido uma das primeiras canções declaradamente dedicadas ao sexo oral... A imagem da capa reforça o efeito. Para lá desta curiosidade sociológica, o certo é que a proposta musical do grupo não era desprovida de interesse, sendo que, à medida que o tempo vai passando e o efeito escandaloso se vai desvanecendo, se pode melhor apreciar esse facto. A voz quente e insinuante de Alberto Comesaña é o ingrediente essencial - poderia ter dado um soberbo bolerista, se tal não estivesse nos antípodas das suas opções artísticas...
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quinta-feira, outubro 27, 2005

Tiro ao Alvo (4)


Que ganhe Cavaco Silva!
Sou radicalmente moderado, um pouco mais à direita do que à esquerda, entre a social-democracia e um liberalismo suave, mas não tenho grandes pretensões de definição ideológica. Como pano de fundo tenho um certo carinho pela monarquia, mas sem dar a este sentimento mais sustentação do que um pretensiosismo inócuo... Apoio Cavaco Silva. É necessário conter as esquerdas e todo o seu arsenal demagógico, refúgio para múltiplos interesses corporativos ameaçados. Não basta ganhar. É importante ganhar por goleada. Felizmente, há condições para isso, porque as classes médias, apesar de desorientadas e ameaçadas em extensos segmentos, tendem instintivamente para não dar confiança a opções facilitadoras do caos. Mais do que nunca, a imagem da esquerda, retalhada entre facciosismos partidários e narcisísticos, é a figuração do caos. Nisto, há como que uma espécie de parábola. A esquerda, construtora do regime em que vivemos, propõe-se enfrentar a crise que, em larga medida, é resultado das suas receitas, com intensificação radical da dose (mais do mesmo, ou seja, mais estado, ainda mais estado, sempre mais estado). Em alarde de cegueira facciosa, entretem-se em minudências de grau de doseamento, para se apresentar com 4 faces.
Não tenho ilusões quanto às possibilidades de Cavaco Silva como Presidente da República ter poderes e capacidades para operar milagres quanto à crise (a qual, desgraçadamente, tem certos contornos estruturais...), mas tem, pelo menos, virtudes preciosíssimas: prudência, sensatez, senso-comum. Talvez seja uma pequeno mas decisivo contributo para sermos poupados a desastres superlativos...

quarta-feira, outubro 26, 2005

Rádio (5)

Lorenzo Díaz - La radio en España / 1923 - 1993 (1993)
Uma das primeira ligações que tive com a Espanha foi através da rádio. Era fácil. Caída a noite, escutava algumas das mais potentes emissoras da onda média (Radio España, Madrid; Radio Intercontinental, Madrid; Radio Sevilla; RNE - Centro Emisor del Noroeste). Era miúdo e estava, assim, familiarizado com as vozes e músicas de Espanha. Era um complemento dos muitos mapas, postais ilustrados e livros de Espanha que o meu pai depositava em minha casa, assim como das histórias que contava das muitas viagens que fizera por lá, nos anos 50. A rádio espanhola trazia-me um mundo diferente. Era alegre a música de Espanha e a sua língua...
Nunca mais perdi esta atracção pela rádio espanhola. Nos anos 80, escutava com assiduidade invasões hertzianas de emissoras FM, na Primavera e Verão. Eram invasões insólitas que proporcionavam recepções temporárias de largas horas ou, até mesmo, dias, com qualidade estéreo. Dessa forma captava a Radio Minuto (Las Palmas); SER Huelva; Antena 3 Badajoz; SER Mérida; SER Cáceres; Radio Noroeste Vigo, ou seja abrangendo um largo espectro, desde as Canárias à Galiza. Tudo isso me parece já arcaico, pois desde há 12 anos que sintonizo por antena parabólica todo o pacote de emissoras do Canal Satelite Digital, com qualidade digital. É a Cadena Dial que normalmente me acompanha com fidelidade diária. Mas também sintonizo a Radiolé: aos sábados, início da noite, sempre que posso, escuto o Son de la tribu. Também, sempre que posso, sou ouvinte do programa desportivo El larguero (Cadena SER) e às vezes passo pela Catalunya Ràdio. Tenho pena de não aceder às tertúlias de Luís del Olmo, agora na recém-formada Punto Radio e tenho algumas saudades do estilo hiper-bombástico de José María García - péssimo jornalista e óptimo entertainer, apropriadamente apodado de Butano (bilha de gás). Enfim, para o bem e para o mal foi sempre uma rádio plena de vitalidade...
Pode-se perceber, portanto, como a monumental obra La radio en España foi para mim algo que me entusiasmou. Tudo o que eu sabia era, nesta matéria, apesar de tudo, fragmentário, e a partir da leitura deste livro ganhou um nexo integrador. Além do mais, percebe-se que foi uma obra feita com paixão por alguém que tem um vasto conhecimento sobre a matéria. Como se não bastasse, vem acompanhado por um CD que compendia alguns momentos importantes e representativos da evolução da rádio espanhola. Aí pude reencontrar um velho conhecido anúncio de sintonia: Aquí, Radio Intercontinental... Madrid!!!! Lástima que o pasodoble das 20:15 (ou 21:15) não apareça. Sucedia-se à informação da temperatura na Calle Modesto Lafuente, onde se situavam os estúdios. Tinha eu uns 11 ou 12 anos e aguardava muitas vezes por esse momento, para ouvir o tal pasodoble.

terça-feira, outubro 25, 2005

2 Esclarecimentos e 1 Pedido (-)

Aos amigos que têm feito comentários:
Quero agradecer os comentários que um número significativo de amigos leitores têm aqui deixado. Queria esclarecer o seguinte:
1) Infelizmente, em relação a uma grande parte das sugestões, não estou em condições de as adoptar por dizerem respeito a pesonagens e factos que desconheço ou conheço insuficientemente. Além disso, de momento, não tenho disponibilidade para procurar informações, como gostaria...;
2) A maior parte dos leitores são espanhóis e este blog é escrito em português. Bem gostaria de o escrever espanhol, mas o meu domínio da língua de Cervantes não é ainda suficientemente bom para que me abalance a tanto... Provavelmente, um dia, atrever-me-ei a fazê-lo, quem sabe... Seja como for, aceitaria com entusiasmo que, quem quisesse, me enviasse material para posts, escritos em espanhol.
Finalmente, um pedido: quem quiser obter alguma resposta concreta sobre sugestões ou outro tipo de observações pessoais contidas nos seus comentários que se me dirija directamente por e-mail (está bem visível no blog).
Saludos,
Edmundo

segunda-feira, outubro 24, 2005

Baúl de los recuerdos (8)

Festival da Eurovisão 1969
Tem sido curiosa a repercussão do post sobre os 50 anos do Festival da Eurovisão. É mais uma prova de como, em tempos idos, o Festival era, de facto, um acontecimento. Eu, por exemplo, punha-me com a minha mãe e uma ou duas vizinhas (no prédio, nem toda a gente tinha televisão) a seguir activamente o espectáculo. Tomava nota num papel das minhas votações, das da minha mãe e das visitas. Essa afición deve ter durado entre os meus 8 e 17 anos, ou seja, entre 1965 e o 25 de Abril. Seguia apaixonadamente a disputa canora. Muitas vezes tomava arrebatado partido pelos representates de Espanha e Itália, assim como sofria pela inglórias representações nacionais. Pois, se há festival em que as emoções foram ao rubro foi, precisamente, o que foi realizado em Madrid, em 1969. A nossa Simone apresentava-se garbosa e confiante com a Desfolhada e regressou com uma paupérrima votação. Em Santa Apolónia foi recebida como heroína injustiçada. Portugal inteiro espumou de raiva e no ano seguinte, o amuo pátrio deu em deserção. Portugal não enviou ninguém a Amesterdão, onde se realizou o Eurofestival de 1970. Tamanha frustração deveu-se também ao estranhíssimo desenlace de Madrid: 4 vencedores! Ainda ninguém esqueceu que havia 4 estatuetas (ou lá o que era o galardão...) prontas a ser entregues a cada um dos componentes da tetrarquia vitoriosa. A suspeita de cambalacho ou, se quisermos, visto estarmos a falar de algo ocorrido em Espanha, a suspeita de amaño, ficou como um lastro agarrado à memória do ocorrido. A gentil Laurita Valenzuela, ex-chica yé-yé reconvertida em apresentadora televisiva, disparava um sorriso pepsodent entre gestos desembaraçados, talvez para disfarçar algum embaraço interior... Eis aqui o resultado final de tão insólito certame:
01 - Holanda - Lennie Kuhr - De troubadour - 18 votos;

"" - Espanha - Salomé - Vivo cantando - 18 votos;

"" - Reino Unido - Lulu Boom Bang a Bang - 18 votos;

"" - França - Frida Boccara - Un jour un enfant - 18 votos;

05 - Suíça - Paola del Medico - Bonjour Bonjour - 13 votos;

06 - Mónaco - Jean Jacques - Maman Maman - 11 votos;

07 - Bélgica - Louis Neefs - Jennifer Jennings - 10 votos;

08 - Irlanda - Muriel Day & The Lindsays - The wages of love - 11 votos;

09 - Alemanha - Siw Malmkvist - Primaballerina - 8 votos;

"" - Suécia - Tommy Korberg - Judy min vaen - 8 votos;

11 - Luxemburgo - Romuald - Catherine - 7 votos;

12 - Finlândia - Jarkko and Laura - Kuin Silloin Ennen - 6 votos;

13 - Itália - Iva Zanicchi - Due grosse lacrime bianche - 5 votos;

"" - Jugoslávia - Ivan Pozdrav svijetu - 5 votos;

15 - Portugal - Simone de Oliveira - Desfolhada - 4 votos;

16 - Noruega - Kirsti Sparboe - Oj, oj, oj, sa glad jeg skal bli - 1 voto.

Há pouco tempo revi a transmissão na íntegra desta edição. É curioso como o tempo muda as coisas... Começo pelas três canções que adoptara na altura. Desfolhada parece-me agora descabiamente antiga num contexto já então antigo. O petiz Jaen-Jacques, cantando uma proclamação a favor da sua mamã, parece-me um pouco enjoativo. A cantilena alemã, Prima Ballerina, parece-me demasiado delicodoce, mas, ainda assim, digna de indulgência. Mantenho a mesma fraca opinião sobre Vivo Cantando (um downgrade em relação a La, la, la). Mas, a canção holandesa, reconheço agora (uma ninharia, 36 anos depois...) era a melhor. É uma balada bonitinha, servida por uma voz original. Odiara esta canção naquele tempo. Noto também que estiveram presentes nomes importantes da canção francesa (Romuald; Frida Boccara) e da canção italiana (Iva Zanicchi). The last, but not the least: confirmo que toda a gente (incluindo os nórdicos) cantava ainda nos seus linguajares indígenas.

The Eurovision Database

Viagens (22)

Guía Viva Mallorca (2004)
Uma das coisas que aprecio quando viajo é fazer-me acompanhar por guias. Voltei a seguir este preceito na estadia de cinco dias em Mallorca, em meados do passado mês de Agosto. Levei alguns de cá, bastante interessantes, mas um pouco desactualizados. Este comprei-o em Palma de Mallorca.
Estou longe, muito longe, de pretender ser um coleccionador de guias de viagem, mas a verdade é que tenho uma quantidade que ultrapassa os lugares por onde viajei. Sucede que muitas vezes, mesmo quando não tenciono viajar para determinado lugar, me entretenho a consultar este tipo de informação - é, de algum modo, uma forma de viajar... Mais importante do que isso, só os mapas, os meus fiéis amigos mapas. Desde que me conheço que sou apreciador de mapas. As minhas referências espaciais estão localizadas na minha cabeça em forma de mapas. Já agora, a propósito, uma das vantagens deste guia é, precisamente, a qualidade e funcionalidade dos mapas urbanos ou plantas. Cada cidade é apresentada com duas plantas - uma para o dia; outra para a noite. A primeira com referências monumentais e comerciais; a segunda com referências sobre vida nocturna. O grafismo é funcional e apelativo. Compreende-se, é um guia para jovens... Nesta linha, o que mais seduz na colecção é o seu carácter prático e realista. A grande maioria dos turistas, sobretudo os mais jovens, são... pobres. A maioria dos guias de viagem parece concebida para turistas abastados. Daí, o valor acrescentado destes guias. Com todo o reverencial respeito pelo Guide Rouge Michelin, a verdade é que o comum dos mortais não se pode abalançar de ânimo leve para os restaurantes estrelados pelos senhores inspectores...

domingo, outubro 23, 2005

La Movida (12)

Alaska y Dinarama - Deseo carnal (1984)
Em anteriores posts sobre álbuns editados em 1984, salientei que foi um ano especial para a música espanhola. Contudo, compete esclarecer que sob o ponto de vista comercial, o álbum editado nesse ano mais bem sucedido foi este: Deseo carnal. Sob o ponto de vista comercial e não só... Na verdade se a movida teve alguma imagem identificadora, para além da de Almodóvar, foi a de Alaska. O seu estilo modernista hiper-barroco foi uma imagem-marca.
De seu verdadeiro nome Olvido Gara, Alaska é uma mexicana radicada em Madrid que esteve nos primórdios da movida - integrou em 1978 o efémero grupo Kaka de Luxe, que foi embrião de projectos artísticos que viriam a tornar-se decisivos. Depois, com os Pegamoides, esmerou a sua imagem. É ainda com este grupo que em 1982 interpreta um tema, Bailando, que seria um bombazo. Num tempo em que o Disco estava já em decadência, estoira na periferia hispânica um tema que não desmerece figurar em qualquer selectiva colectânea do género. Ouvida ainda hoje, Bailando apresenta-se plena de força e modernidade.
Deseo Carnal é outra coisa... É pop/rock, que, não renunciando os ritmos da pista de dança, discorre por uma lógica alheia à simplicidade Disco. Corresponde a uma fase em que a cantora era acompanhada pelo duo Dinarama (Nacho Canut e Carlos Berlanga). É um produto à altura da opinião e gosto dominantes entre a vanguarda blasé e hedonista da fervilhante Madrid de então. Além disso, funcionou comercialmente, e de que maneira! É um trabalho elaborado, mas que se destinava a ter impacto. Este começa, desde logo, com a foto da capa (de Javier Vallhonrat) - bela, sugestiva, ousada... O impacto reforça-se com o tema de entrada, Como pudiste hacerme esto a mi, que deve ser um dos mais fortes alguma vez dedicados ao adultério. Canta a violência do ciúme com uma crueza sinistra (o adúltero é deliberadamente atropelado pela traída, que ao volante de seu automóvel sem luzes numa noite sem luar, assim dá vazão ao seu desejo de vingança). Musicalmente é imponente, com uma orquestração de grande aparato e ritmo forte. Nesse cenário sonoro, a voz de Alaska impõe-se grave, não deixando de ser sensual. É, enfim, adequada a uma raiva assassina de mulher de armas. Este clima, marcado por temperamento de fêmea dominadora, volta a encontrar-se em Ni tú ni nadie e em Un hombre de verdad.
O problema deste álbum é que tem um tema extraordinário, outro muito bom, outro bom, há ainda um interessante (Isis), mas os demais são vulgares e há dois bastante fracos. Ou seja, é desigual. Em todo o caso, é um marco que pode justamente ser considerado como emblemático do apogeu musical da movida.
Hoje em dia Alaska está longe do protagonismo de então, mas continua a ter um peso significativo no cenário musical. Juntamente com Nacho Canut tem desenvolvido o projecto Fangoria, em terrenos de música electrónica. A sua voz cada vez mais andrógena casa-se bem com esse tipo de música.
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sábado, outubro 22, 2005

Baúl de los recuerdos (7)

Acabei de assistir há pouco a gala comemorativa do 50º aniversário Festival da Eurovisão na RTP 1 (já agora, um aparte para a excelente locução de Eládio Clímaco, que parece fadado para este tipo de funções). Na escolha da melhor canção de sempre ganhou, sem surpresa e com mérito, Waterloo, dos Abba. Em relação à Espanha deve-se assinalar um facto curioso: foi mais destacada Eres Tú, de Mocedades (1973) do que qualquer das duas canções vencedoras - La, la, la, de Massiel (1968) e Vivo Cantando, de Salomé (1969). Com efeito, ao contrário daquela, estas duas não figuraram nas 14 seleccionadas. Foi como que num gesto de reparação a posteriori. Ao palco subiram alguns dos elementos de Mocedades, nomeadamente Isaskum e Amaya Uranga. O facto revestiu ainda uma adicional emotividade, pelo facto do seu irmão e componente do grupo, Roberto Uranga, ter falecido há poucos dias...
Eres Tú ficou em 2º lugar em 1973, atrás de Tu te reconnaitras, cantada pela francesa Anne-Marie David, representante do Luxemburgo. Contudo esta classificação não se corresponde com o valor de cada uma. O que sucedeu foi corrigido pelo mercado. A canção espanhola acabou por se tornar uma das mais vendidas de sempre do Festival da Eurovisão. Além disso, através da sua versão em inglês para o mercado norte-americano, tornou-se a canção eurovisiva que mais sucesso alguma vez obteve do outro lado do Atlântico, a seguir a Waterloo.
Mocedades foi um grupo bilbaíno que nos anos 70 atingiu enorme popularidade. Formou-se e desenvolveu-se em tornos dos irmãos Uranga, mas, ao longo do tempo, foi variando bastante na sua composição. Assentava o seu repertório no cançonestismo ligeiro, aproveitando da melhor maneira uma excelente harmonia de vozes. Deles saiu também o dúo Sérgio y Estibaliz e, muito mais tarde, o grupo Consorcio com vovação revivalista.
Voltando ao espectáculo desta noite. Para mim, Eres tú mereceria estar entre as três mais destacadas e admitiria ainda que saísse vitoriosa. Já agora, fica aqui a minha lista das 25 melhores vde sempre (até 1985):

1958 03 Itália Domenico Modugno Nel blù dipinto di blù
1964 01 Itália Gigliola Cinquetti Non ho l'età
1965 01 Luxemburgo France Gall Poupée de cire, poupée son
1966 01 Áustria Udo Jürgens Merci Chérie
1966 13 Portugal Madalena Iglésias Ele e ela
1966 17 Itália Domenico Modugno Dio come ti amo
1967 01 Reino Unido Sandie Shaw Puppet on a string
1967 04 Luxemburgo Vicky Leandros L'amour est bleu
1967 06 Espanha Raphael Hablemos del amor
1970 01 Irlanda Dana All kinds of everything
1972 01 Luxemburgo Vicky Leandros Aprés toi
1972 06 Itália Nicola di Bari I giorni dell' arcobaleno
1973 02 Espanha Mocedades Eres Tú
1974 01 Suécia Abba Waterloo
1978 07 Luxemburgo Baccara Parlez-Vous Français
1980 01 Irlanda Johnny Logan What's another year
1981 04 Suiça Peter, Sue and Marc Io senza te
1982 01 Alemanha Nicole Ein bisschen frieden
1983 19 Espanha Remédios Amaya Quién maneja mi barca
1984 05 Itália Alice & Franco Battiato I treni di Tozeur

quinta-feira, outubro 20, 2005

Tiro ao Alvo (3)

Fernando Meirelles - Cidade de Deus (2002)
Vários filmes me impressionaram. Este foi o último. O verbo mais adequado será chocar... A brutal realidade social da Cidade de Deus, a maior favela do Rio de Janeiro e, parece, que de toda a América do Sul, é atirada aos olhos do espectador sem contemplações. É um panfleto de denúncia que sintetiza os velhos enunciados do neo-realismo num concentrado explosivo de imagens-choque. É um discurso que pulveriza toda a velha literatura enquanto panfleto de denúncia. É um neo-neorealismo...
A cinematografia brasileira tem, na verdade, tradições na matéria. Lembro-me de Pixote, o filme que mais se aproxima deste Cidade de Deus. Os brasileiros, no cinema e na TV são exímios em aproveitar as sensações do mundo violento em que vivem. Da melhor e da pior forma... Cidade de Deus é um filme muito bom, mas algo demagógico, sensacionalista. É certo que o Brasil está longe de ser aquele paraíso tropical com que meia humanidade sonha, mas o que parece entender-se do filme é que nem sequer pode haver algum lugar para a esperança e, sobretudo, que a haver alguma, virá de qualquer intervenção de natureza político-social. Só que o que nos é transmitido é tão forte que acaba por fazer diminuir o discurso social que está subjacente ao filme. Remete para a condição humana, ou seja para o domínio espiritual. Ironicamente, há um momento no filme bastante significativo: os bandidos, antes de se lançarem, nas suas operações, fazem as suas preces. Explica-nos o autor que o staff de realização ficou surpreendido por um dos figurantes, ele mesmo um favelado do mundo do crime, ter sugerido fazer-se no isso no filme, que era o que se fazia na realidade. Decidiram adoptar a sugestão. Parece o realizador não se ter dado conta que este pequeno fait-divers pode encerrar um significado profundo: o mal não estará tanto nas condições materiais de existência, mas nas condições espirituais. O cerne da questão não incide em qualquer dicotomia entre o mundo dos ricos e o mundo dos pobres, ou, utilizando os termos caros à litania marxista, entre oprimidos ou opressores. O cerne é muito mais simples e substantivo: O Bem e o Mal!
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