segunda-feira, outubro 24, 2005

Baúl de los recuerdos (8)

Festival da Eurovisão 1969
Tem sido curiosa a repercussão do post sobre os 50 anos do Festival da Eurovisão. É mais uma prova de como, em tempos idos, o Festival era, de facto, um acontecimento. Eu, por exemplo, punha-me com a minha mãe e uma ou duas vizinhas (no prédio, nem toda a gente tinha televisão) a seguir activamente o espectáculo. Tomava nota num papel das minhas votações, das da minha mãe e das visitas. Essa afición deve ter durado entre os meus 8 e 17 anos, ou seja, entre 1965 e o 25 de Abril. Seguia apaixonadamente a disputa canora. Muitas vezes tomava arrebatado partido pelos representates de Espanha e Itália, assim como sofria pela inglórias representações nacionais. Pois, se há festival em que as emoções foram ao rubro foi, precisamente, o que foi realizado em Madrid, em 1969. A nossa Simone apresentava-se garbosa e confiante com a Desfolhada e regressou com uma paupérrima votação. Em Santa Apolónia foi recebida como heroína injustiçada. Portugal inteiro espumou de raiva e no ano seguinte, o amuo pátrio deu em deserção. Portugal não enviou ninguém a Amesterdão, onde se realizou o Eurofestival de 1970. Tamanha frustração deveu-se também ao estranhíssimo desenlace de Madrid: 4 vencedores! Ainda ninguém esqueceu que havia 4 estatuetas (ou lá o que era o galardão...) prontas a ser entregues a cada um dos componentes da tetrarquia vitoriosa. A suspeita de cambalacho ou, se quisermos, visto estarmos a falar de algo ocorrido em Espanha, a suspeita de amaño, ficou como um lastro agarrado à memória do ocorrido. A gentil Laurita Valenzuela, ex-chica yé-yé reconvertida em apresentadora televisiva, disparava um sorriso pepsodent entre gestos desembaraçados, talvez para disfarçar algum embaraço interior... Eis aqui o resultado final de tão insólito certame:
01 - Holanda - Lennie Kuhr - De troubadour - 18 votos;

"" - Espanha - Salomé - Vivo cantando - 18 votos;

"" - Reino Unido - Lulu Boom Bang a Bang - 18 votos;

"" - França - Frida Boccara - Un jour un enfant - 18 votos;

05 - Suíça - Paola del Medico - Bonjour Bonjour - 13 votos;

06 - Mónaco - Jean Jacques - Maman Maman - 11 votos;

07 - Bélgica - Louis Neefs - Jennifer Jennings - 10 votos;

08 - Irlanda - Muriel Day & The Lindsays - The wages of love - 11 votos;

09 - Alemanha - Siw Malmkvist - Primaballerina - 8 votos;

"" - Suécia - Tommy Korberg - Judy min vaen - 8 votos;

11 - Luxemburgo - Romuald - Catherine - 7 votos;

12 - Finlândia - Jarkko and Laura - Kuin Silloin Ennen - 6 votos;

13 - Itália - Iva Zanicchi - Due grosse lacrime bianche - 5 votos;

"" - Jugoslávia - Ivan Pozdrav svijetu - 5 votos;

15 - Portugal - Simone de Oliveira - Desfolhada - 4 votos;

16 - Noruega - Kirsti Sparboe - Oj, oj, oj, sa glad jeg skal bli - 1 voto.

Há pouco tempo revi a transmissão na íntegra desta edição. É curioso como o tempo muda as coisas... Começo pelas três canções que adoptara na altura. Desfolhada parece-me agora descabiamente antiga num contexto já então antigo. O petiz Jaen-Jacques, cantando uma proclamação a favor da sua mamã, parece-me um pouco enjoativo. A cantilena alemã, Prima Ballerina, parece-me demasiado delicodoce, mas, ainda assim, digna de indulgência. Mantenho a mesma fraca opinião sobre Vivo Cantando (um downgrade em relação a La, la, la). Mas, a canção holandesa, reconheço agora (uma ninharia, 36 anos depois...) era a melhor. É uma balada bonitinha, servida por uma voz original. Odiara esta canção naquele tempo. Noto também que estiveram presentes nomes importantes da canção francesa (Romuald; Frida Boccara) e da canção italiana (Iva Zanicchi). The last, but not the least: confirmo que toda a gente (incluindo os nórdicos) cantava ainda nos seus linguajares indígenas.

The Eurovision Database

Viagens (22)

Guía Viva Mallorca (2004)
Uma das coisas que aprecio quando viajo é fazer-me acompanhar por guias. Voltei a seguir este preceito na estadia de cinco dias em Mallorca, em meados do passado mês de Agosto. Levei alguns de cá, bastante interessantes, mas um pouco desactualizados. Este comprei-o em Palma de Mallorca.
Estou longe, muito longe, de pretender ser um coleccionador de guias de viagem, mas a verdade é que tenho uma quantidade que ultrapassa os lugares por onde viajei. Sucede que muitas vezes, mesmo quando não tenciono viajar para determinado lugar, me entretenho a consultar este tipo de informação - é, de algum modo, uma forma de viajar... Mais importante do que isso, só os mapas, os meus fiéis amigos mapas. Desde que me conheço que sou apreciador de mapas. As minhas referências espaciais estão localizadas na minha cabeça em forma de mapas. Já agora, a propósito, uma das vantagens deste guia é, precisamente, a qualidade e funcionalidade dos mapas urbanos ou plantas. Cada cidade é apresentada com duas plantas - uma para o dia; outra para a noite. A primeira com referências monumentais e comerciais; a segunda com referências sobre vida nocturna. O grafismo é funcional e apelativo. Compreende-se, é um guia para jovens... Nesta linha, o que mais seduz na colecção é o seu carácter prático e realista. A grande maioria dos turistas, sobretudo os mais jovens, são... pobres. A maioria dos guias de viagem parece concebida para turistas abastados. Daí, o valor acrescentado destes guias. Com todo o reverencial respeito pelo Guide Rouge Michelin, a verdade é que o comum dos mortais não se pode abalançar de ânimo leve para os restaurantes estrelados pelos senhores inspectores...

domingo, outubro 23, 2005

La Movida (12)

Alaska y Dinarama - Deseo carnal (1984)
Em anteriores posts sobre álbuns editados em 1984, salientei que foi um ano especial para a música espanhola. Contudo, compete esclarecer que sob o ponto de vista comercial, o álbum editado nesse ano mais bem sucedido foi este: Deseo carnal. Sob o ponto de vista comercial e não só... Na verdade se a movida teve alguma imagem identificadora, para além da de Almodóvar, foi a de Alaska. O seu estilo modernista hiper-barroco foi uma imagem-marca.
De seu verdadeiro nome Olvido Gara, Alaska é uma mexicana radicada em Madrid que esteve nos primórdios da movida - integrou em 1978 o efémero grupo Kaka de Luxe, que foi embrião de projectos artísticos que viriam a tornar-se decisivos. Depois, com os Pegamoides, esmerou a sua imagem. É ainda com este grupo que em 1982 interpreta um tema, Bailando, que seria um bombazo. Num tempo em que o Disco estava já em decadência, estoira na periferia hispânica um tema que não desmerece figurar em qualquer selectiva colectânea do género. Ouvida ainda hoje, Bailando apresenta-se plena de força e modernidade.
Deseo Carnal é outra coisa... É pop/rock, que, não renunciando os ritmos da pista de dança, discorre por uma lógica alheia à simplicidade Disco. Corresponde a uma fase em que a cantora era acompanhada pelo duo Dinarama (Nacho Canut e Carlos Berlanga). É um produto à altura da opinião e gosto dominantes entre a vanguarda blasé e hedonista da fervilhante Madrid de então. Além disso, funcionou comercialmente, e de que maneira! É um trabalho elaborado, mas que se destinava a ter impacto. Este começa, desde logo, com a foto da capa (de Javier Vallhonrat) - bela, sugestiva, ousada... O impacto reforça-se com o tema de entrada, Como pudiste hacerme esto a mi, que deve ser um dos mais fortes alguma vez dedicados ao adultério. Canta a violência do ciúme com uma crueza sinistra (o adúltero é deliberadamente atropelado pela traída, que ao volante de seu automóvel sem luzes numa noite sem luar, assim dá vazão ao seu desejo de vingança). Musicalmente é imponente, com uma orquestração de grande aparato e ritmo forte. Nesse cenário sonoro, a voz de Alaska impõe-se grave, não deixando de ser sensual. É, enfim, adequada a uma raiva assassina de mulher de armas. Este clima, marcado por temperamento de fêmea dominadora, volta a encontrar-se em Ni tú ni nadie e em Un hombre de verdad.
O problema deste álbum é que tem um tema extraordinário, outro muito bom, outro bom, há ainda um interessante (Isis), mas os demais são vulgares e há dois bastante fracos. Ou seja, é desigual. Em todo o caso, é um marco que pode justamente ser considerado como emblemático do apogeu musical da movida.
Hoje em dia Alaska está longe do protagonismo de então, mas continua a ter um peso significativo no cenário musical. Juntamente com Nacho Canut tem desenvolvido o projecto Fangoria, em terrenos de música electrónica. A sua voz cada vez mais andrógena casa-se bem com esse tipo de música.
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sábado, outubro 22, 2005

Baúl de los recuerdos (7)

Acabei de assistir há pouco a gala comemorativa do 50º aniversário Festival da Eurovisão na RTP 1 (já agora, um aparte para a excelente locução de Eládio Clímaco, que parece fadado para este tipo de funções). Na escolha da melhor canção de sempre ganhou, sem surpresa e com mérito, Waterloo, dos Abba. Em relação à Espanha deve-se assinalar um facto curioso: foi mais destacada Eres Tú, de Mocedades (1973) do que qualquer das duas canções vencedoras - La, la, la, de Massiel (1968) e Vivo Cantando, de Salomé (1969). Com efeito, ao contrário daquela, estas duas não figuraram nas 14 seleccionadas. Foi como que num gesto de reparação a posteriori. Ao palco subiram alguns dos elementos de Mocedades, nomeadamente Isaskum e Amaya Uranga. O facto revestiu ainda uma adicional emotividade, pelo facto do seu irmão e componente do grupo, Roberto Uranga, ter falecido há poucos dias...
Eres Tú ficou em 2º lugar em 1973, atrás de Tu te reconnaitras, cantada pela francesa Anne-Marie David, representante do Luxemburgo. Contudo esta classificação não se corresponde com o valor de cada uma. O que sucedeu foi corrigido pelo mercado. A canção espanhola acabou por se tornar uma das mais vendidas de sempre do Festival da Eurovisão. Além disso, através da sua versão em inglês para o mercado norte-americano, tornou-se a canção eurovisiva que mais sucesso alguma vez obteve do outro lado do Atlântico, a seguir a Waterloo.
Mocedades foi um grupo bilbaíno que nos anos 70 atingiu enorme popularidade. Formou-se e desenvolveu-se em tornos dos irmãos Uranga, mas, ao longo do tempo, foi variando bastante na sua composição. Assentava o seu repertório no cançonestismo ligeiro, aproveitando da melhor maneira uma excelente harmonia de vozes. Deles saiu também o dúo Sérgio y Estibaliz e, muito mais tarde, o grupo Consorcio com vovação revivalista.
Voltando ao espectáculo desta noite. Para mim, Eres tú mereceria estar entre as três mais destacadas e admitiria ainda que saísse vitoriosa. Já agora, fica aqui a minha lista das 25 melhores vde sempre (até 1985):

1958 03 Itália Domenico Modugno Nel blù dipinto di blù
1964 01 Itália Gigliola Cinquetti Non ho l'età
1965 01 Luxemburgo France Gall Poupée de cire, poupée son
1966 01 Áustria Udo Jürgens Merci Chérie
1966 13 Portugal Madalena Iglésias Ele e ela
1966 17 Itália Domenico Modugno Dio come ti amo
1967 01 Reino Unido Sandie Shaw Puppet on a string
1967 04 Luxemburgo Vicky Leandros L'amour est bleu
1967 06 Espanha Raphael Hablemos del amor
1970 01 Irlanda Dana All kinds of everything
1972 01 Luxemburgo Vicky Leandros Aprés toi
1972 06 Itália Nicola di Bari I giorni dell' arcobaleno
1973 02 Espanha Mocedades Eres Tú
1974 01 Suécia Abba Waterloo
1978 07 Luxemburgo Baccara Parlez-Vous Français
1980 01 Irlanda Johnny Logan What's another year
1981 04 Suiça Peter, Sue and Marc Io senza te
1982 01 Alemanha Nicole Ein bisschen frieden
1983 19 Espanha Remédios Amaya Quién maneja mi barca
1984 05 Itália Alice & Franco Battiato I treni di Tozeur

quinta-feira, outubro 20, 2005

Tiro ao Alvo (3)

Fernando Meirelles - Cidade de Deus (2002)
Vários filmes me impressionaram. Este foi o último. O verbo mais adequado será chocar... A brutal realidade social da Cidade de Deus, a maior favela do Rio de Janeiro e, parece, que de toda a América do Sul, é atirada aos olhos do espectador sem contemplações. É um panfleto de denúncia que sintetiza os velhos enunciados do neo-realismo num concentrado explosivo de imagens-choque. É um discurso que pulveriza toda a velha literatura enquanto panfleto de denúncia. É um neo-neorealismo...
A cinematografia brasileira tem, na verdade, tradições na matéria. Lembro-me de Pixote, o filme que mais se aproxima deste Cidade de Deus. Os brasileiros, no cinema e na TV são exímios em aproveitar as sensações do mundo violento em que vivem. Da melhor e da pior forma... Cidade de Deus é um filme muito bom, mas algo demagógico, sensacionalista. É certo que o Brasil está longe de ser aquele paraíso tropical com que meia humanidade sonha, mas o que parece entender-se do filme é que nem sequer pode haver algum lugar para a esperança e, sobretudo, que a haver alguma, virá de qualquer intervenção de natureza político-social. Só que o que nos é transmitido é tão forte que acaba por fazer diminuir o discurso social que está subjacente ao filme. Remete para a condição humana, ou seja para o domínio espiritual. Ironicamente, há um momento no filme bastante significativo: os bandidos, antes de se lançarem, nas suas operações, fazem as suas preces. Explica-nos o autor que o staff de realização ficou surpreendido por um dos figurantes, ele mesmo um favelado do mundo do crime, ter sugerido fazer-se no isso no filme, que era o que se fazia na realidade. Decidiram adoptar a sugestão. Parece o realizador não se ter dado conta que este pequeno fait-divers pode encerrar um significado profundo: o mal não estará tanto nas condições materiais de existência, mas nas condições espirituais. O cerne da questão não incide em qualquer dicotomia entre o mundo dos ricos e o mundo dos pobres, ou, utilizando os termos caros à litania marxista, entre oprimidos ou opressores. O cerne é muito mais simples e substantivo: O Bem e o Mal!
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segunda-feira, outubro 17, 2005

Baúl de los recuerdos (6)

Nino Bravo

Este foi um dos meus primeiros discos. Comprei-o em 1971. Por essa altura era fácil conhecer as novidades da música espanhola, quanto mais não fosse porque as nossas estações de rádio passavam-nas com uma frequência que hoje parece inverosímil. Não era raro que êxitos da música espanhola fossem também êxitos em Portugal. Esta canção foi um exemplo. Viviam-se ainda tempos de pré-massificação anglo-americana...
Nino Bravo foi uma das melhores vozes de sempre da música ligeira. Entrou na cena musical, quando já despontava o pop/rock, mas, impondo-se de imediato, graças ao poder da sua voz. É evidente que o seu género apontava noutro sentido, mais convencional - o da canção ligeira, embora num registo modernizado. Não é tanto o caso deste Te quiero, te quiero, o seu primeiro êxito, composto por Augusto Algueró e Rafael de León (um dos nomes consagrados da velha copla, componente da tríade León, Quintero y Quiroga...). É uma canção de corte tradicional, com refrão apropriado para exibição do seu virtuosismo vocal. Os êxitos sucederam-se em catadupa num curto espaço de tempo. Ninguém duvidava que lhe estava destinada uma carreira grandiosa, talvez de dimensão internacional (Algo que era, então, menos óbvio entrever em relação a Julio Iglesias...) Viviam-se, enfim, tempos de ninobravomania... Mas, em 16 de Abril de 1973 eis que surgiu uma trágica notícia: Nino Bravo falecia num desastre de automóvel. Entre a espantosa quantidade de desastres de automóvel que vitimaram artistas espanhóis, este foi o de maior impacto. Permaneceu um sentimento de perda e hoje, já completamente desfeitos na memória os inconsistentes candidatos a sucessores, percebe-se que o seu lugar ficou, definitivamente, vazio.
Nino Bravo era o pseudónimo artístico de Luis Manuel Ferri Llopis. Como os apelidos atestam, era valenciano. Vem a propósito referir que a região valenciana é uma terra musical que se caracteriza por ter em cada localidade, pelo menos, uma banda de música. Desta profícua cantera têm surgido muitos cantores, mas nenhum teve o impacto de Nino Bravo.

Página web Inolvidable Nino Bravo

domingo, outubro 16, 2005

Andalucía (16)

Salmarina - Salobre (1999)
Sanlúcar de Barrameda é uma cidadezinha andaluza, pertencente à província de Cádiz e situada na embucadura do Guadalquivir. Foi o centro do ducado de Medina Sidonia e tem um património que atesta a riqueza do seu passado. É também terra vinhateira e piscatória. Nos campos que a separam da vizinha Jerez de la Frontera estendem-se os vinhedos que originam o xerry. No seu porto ainda se vê atracada uma importante frota pesqueira. É também terra de música, ou não estivesse a um passo de Jerez - capital do flamenco. O trio Salmarina é de Sanlúcar e na capa deste álbum apresentam-se entre redes de pesca com traineiras ao fundo, num cais da sua cidade. Apropriadamente, ao longo do seu repertório, abunda a temática marinera. Sob este ponto de vista, portanto, não é novidade. Novidade é que, depois de uma trajectória que a partir de certa altura derivou por várias editoras e produtores de alguma projecção, este álbum foi produzido por Tate Montoya e editado por uma pequena editora local. Assinala o regresso a um âmbito localista; um certo esvaizamento de apostas inovadoras de fôlego ambicioso. É, contudo, um álbum excelente, marcado por uma apurada tonalidade acústica de signo flamenco. O repertório, onde predominam os temas do compositor (também ele sanluqueño) José Miguel Évora é muito bom. Contudo, o melhor de todos, Y se va, é de Tate Montoya. As vozes... essas continuam afinadas, vibrantes e expressivas como sempre.
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sábado, outubro 15, 2005

Andalucía (15)

Salmarina - Una noche de soberbia (1994)
O ponto mais extremo da trajectória inovadora de Salmarina foi atingido neste álbum. Tal ocorre, uma vez mais, pela mão José Miguel Évora, de regresso como produtor do grupo e, pela primeira vez, numa editora multinacional, a Polygram. O reconhecimento da crítica possibilitara a evolução. O conceito aqui presente é, efectivamente, inovador - encadeamento dos temas mais importantes de todo o repertório e utilização de arranjos sob duas formas distintas: exclusivamente acústica ou sinfónica (com a London Symphony Orchestra). A opção acústica não é uma novidade, já que se insere nas opções que sempre constituiram imagem-marca do grupo e que se caracterizam por uma aproximação aos moldes flamencos. Contudo, a opção sinfónica assumia-se como um risco evidente. O resultado está, sob todos os pontos de vista, além das melhores expectativas - é, uma vez mais, a confirmação de que o género sevillanas não tem, necessariamente, que ficar confinado nos estreitos limites formais que tradicionalmente o definem. Aparentemente, em termos estritamente comerciais, a aposta não correspondeu ao investimento. A partir daqui o trio de Sanlúcar de Barrameda encetará uma caminho marcado por opções cada vez mais convencionais e, a breve trecho, voltará a gravar para editoras de pequena dimensão.
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sexta-feira, outubro 14, 2005

Andalucía (14)

Andaluzia
Região Autónoma: Andalucía - (7.600.000 habitantes)
Capital: Sevilla (710.000) / Outras cidades: Málaga (547.000); Córdoba (308.000); Granada (241.000); Jerez de la Frontera (183.000); Almería (166.000); Huelva (142.000); Cádiz (133.000); Jaén (113.000); Dos Hermanas (102.000); Algeciras (101.000); Marbella (100.000); San Fernando (88.000); Linares (85.000); El Puerto de Santa María (76.000).
Índice Paridades de Poder de Compra: 69,3 (Média UE25 = 100)
Províncias: Huelva (463.000); Sevilla (1.728.000); Córdoba (762.000); Jaén (644.000); Almería (537.000); Granada (822.000); Málaga (1.287.000); Cádiz (1.116.000).

A Andaluzia é uma região de admiráveis belezas e possuidora de um carácter muito vincado. Estes atributos contribuiram para uma imagem sustentada em lugares-comuns, os quais, aliás, se tornaram extensíveis à própria imagem de Espanha. São lugares-comuns bem conhecidos e que me dispenso de enumerar exaustivamente - vão desde a peineta y bata de cola ao salero y fiesta, passando, claro está, pelo flamenco. Em parte legítimos, em parte ilegítimos. Um exemplo é a ideia de que muitos destes elementos advêm da influência árabe, tendo em conta que foi aqui que persistiu o último reduto europeu muçulmano independente até tempos bastante avançados (1492) e persistiu uma forte minoria morisca até inícios do séc XVII. Na verdade, esses elementos são bastante menos do que se possa pensar, já que a colonização por gentes vindas do Norte foi massiva e substutuiu, efectivamente, as comunidades moriscas, as quais, depois de sofrerem a deserção pelo constante acosso, acabaram mesmo por ser expulsas. Isto não impede, evidentemente, que seja na Andaluzia que se encontre muitos dos mais brilhantes monumentos do Islão e que o urbanismo, as técnicas agrícolas e algumas tradições atestem poderosamente esse legado. Na passagem de testemunho de civilização para civilização houve muito que foi assimilado e houve uma paisagem geo-humana que, no essencial, se manteve. Daí, que a grande atracção da Andaluzia seja este carácter de interface de duas civilizações num privilegiado cenário.
Nem tudo é belo na Andaluzia. Muito do que mais desinteressante a Espanha tem está lá presente. Por exemplo: o turismo massificado da costa do Mediterrâneo com todo o seu cortejo de mau-gosto. Mas uma região que tem Sevilha, Granada e tantos e tantos outros lugares de encanto, tem larga margem para aguentar com Torremolinos... Por outro lado, há o atraso económico-social, bem assinalado por todas as estatísticas, nomeadamente as que dizem respeito ao desemprego, aqui tradicionalmente muito elevado. Com excepção dos bastiões turisticos (litoral de Málaga, Granada e Almería) e dos enclaves das produções de horto-fruticultura de estufa (Almería), a região é pobre e, em certo sentido, mais pobre do que já foi, na medida em que apresenta em Cádiz uma situação de forte desindustrialização, na generalidade no Baixo Guadalquivir (Córdoba, Sevilla) uma agricultura e pecuária sem perspectivas e no litoral de Huelva uma pesca em forçada recessão.