sexta-feira, outubro 14, 2005

Andalucía (14)

Andaluzia
Região Autónoma: Andalucía - (7.600.000 habitantes)
Capital: Sevilla (710.000) / Outras cidades: Málaga (547.000); Córdoba (308.000); Granada (241.000); Jerez de la Frontera (183.000); Almería (166.000); Huelva (142.000); Cádiz (133.000); Jaén (113.000); Dos Hermanas (102.000); Algeciras (101.000); Marbella (100.000); San Fernando (88.000); Linares (85.000); El Puerto de Santa María (76.000).
Índice Paridades de Poder de Compra: 69,3 (Média UE25 = 100)
Províncias: Huelva (463.000); Sevilla (1.728.000); Córdoba (762.000); Jaén (644.000); Almería (537.000); Granada (822.000); Málaga (1.287.000); Cádiz (1.116.000).

A Andaluzia é uma região de admiráveis belezas e possuidora de um carácter muito vincado. Estes atributos contribuiram para uma imagem sustentada em lugares-comuns, os quais, aliás, se tornaram extensíveis à própria imagem de Espanha. São lugares-comuns bem conhecidos e que me dispenso de enumerar exaustivamente - vão desde a peineta y bata de cola ao salero y fiesta, passando, claro está, pelo flamenco. Em parte legítimos, em parte ilegítimos. Um exemplo é a ideia de que muitos destes elementos advêm da influência árabe, tendo em conta que foi aqui que persistiu o último reduto europeu muçulmano independente até tempos bastante avançados (1492) e persistiu uma forte minoria morisca até inícios do séc XVII. Na verdade, esses elementos são bastante menos do que se possa pensar, já que a colonização por gentes vindas do Norte foi massiva e substutuiu, efectivamente, as comunidades moriscas, as quais, depois de sofrerem a deserção pelo constante acosso, acabaram mesmo por ser expulsas. Isto não impede, evidentemente, que seja na Andaluzia que se encontre muitos dos mais brilhantes monumentos do Islão e que o urbanismo, as técnicas agrícolas e algumas tradições atestem poderosamente esse legado. Na passagem de testemunho de civilização para civilização houve muito que foi assimilado e houve uma paisagem geo-humana que, no essencial, se manteve. Daí, que a grande atracção da Andaluzia seja este carácter de interface de duas civilizações num privilegiado cenário.
Nem tudo é belo na Andaluzia. Muito do que mais desinteressante a Espanha tem está lá presente. Por exemplo: o turismo massificado da costa do Mediterrâneo com todo o seu cortejo de mau-gosto. Mas uma região que tem Sevilha, Granada e tantos e tantos outros lugares de encanto, tem larga margem para aguentar com Torremolinos... Por outro lado, há o atraso económico-social, bem assinalado por todas as estatísticas, nomeadamente as que dizem respeito ao desemprego, aqui tradicionalmente muito elevado. Com excepção dos bastiões turisticos (litoral de Málaga, Granada e Almería) e dos enclaves das produções de horto-fruticultura de estufa (Almería), a região é pobre e, em certo sentido, mais pobre do que já foi, na medida em que apresenta em Cádiz uma situação de forte desindustrialização, na generalidade no Baixo Guadalquivir (Córdoba, Sevilla) uma agricultura e pecuária sem perspectivas e no litoral de Huelva uma pesca em forçada recessão.

terça-feira, outubro 11, 2005

Andalucía (13)

Manuel Gutiérrez Aragón / Juan Lebrón / Fernando Olmedo: Andalucía es de cine
Na senda aberta por A vista de pájaro surgiram séries análogas dedicadas ao País Vasco e Navarra, à Catalunha e à Galiza. Recentemente tomei contacto com esta série, dedicada à Andaluzia. É, como as demais, notável, contudo, apresenta algumas particularidades que a afastam do modelo mais ou menos estabelecido. Apresenta-se como uma enciclopédia audiovisual geográfica. São 250 clips com a duração de 1 minuto e meio, dedicados a uma localidade, comarca ou serra. As mais importantes localidades são contempladas com dois ou três clips - é o caso, por exemplo, de Sevilha, Granada e de todas as demais capitais de província. A duração e concepção dão a entender que cada clip foi concebido como interlúdio nas emissões televisivas do canal autonómico Canal Sur. Esta particularidade é, à primeira vista, um pouco desconcertante mas acaba por ser entendida não só em função deste conceito de inserção televisiva, como, sobretudo, pelo carácter enciclopédico com que a edição em DVD é apresentada. Efectivamente, cada clip é apresentado por ordem alfabética e existem informações complementares como base de dados, mapas de localização e fotografias sobre cada lugar objecto do clip. A série é também original, na medida em que, por exemplo, a locução e o carácter dos textos têm um carácter muito diferente das outras séries. A locução (a cargo do actor Juan Luís Galiardo) é épica, arrebatada, muito afastada, por exemplo, da sóbria emotividade de Juan María del Río. A música é também épica (sempre o mesmo extracto da suite orquestral The Planets, de Gustav Holst) Deve-se dizer que locução e música adequam-se à natureza dos textos, da autoria do escritor José Caballero Bonald - são textos de prosa quase poética, recheados de adjectivos enfáticos e exaltantes. Sob o ponto de vista técnico é uma série extraordinária. A qualidade da fotografia e montagem reflecte da melhor maneira os avanços da tecnologia, mas reflecte, sobretudo, a mestria de um realizador como Manuel Gutiérrez Aragón. Note-se que não há uma utilização exclusiva de meios aéreos, pois há alguns planos terrestres - inovação que, tendo em conta os precedentes, quase se assume como heterodoxa, mas, que, apesar de tudo, não pode deixar de ser saudada. Por fim, uma palavra para a matéria-prima básica. Como é bela a Andaluzia! Como são belos aqueles pueblos blancos nas serranias ou nas planícies, entre olivos ou à beira das marismas!
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quarta-feira, outubro 05, 2005

Perros callejeros (7)

Los Chunguitos - Todo Chunguitos (2005)
A EMI decidiu fazer em relação a Los Chunguitos o que agora está na moda: uma colectânea em edição dupla CD+DVD. O CD não é notável - é idêntico, para pior, comparado com anteriores colectâneas. Para pior, pois falta um punhado de temas indispensáveis e isso não é compensado pela remasterização, pela primeira vez aqui levada a cabo. Menos mal que três temas indispensáveis em falta (Embustera, Por la calle abajo, Soy un perro callejero - versão ao vivo) estão no DVD. Isto só reforça uma evidência: a vantagem desta dupla edição está, de facto, no DVD. Assim, pode-se ver o trio em acção, o que para qualquer fan que viva fora de Espanha (enfim, não devem ser muitos...) é um atractivo. Trata-se, na maior parte dos casos, de actuações em programas da TVE, entre 1981 e 1991. Pena é que o espectáculo gravado no Teatro Alcalá Palace, de Madrid, em 1988, figure apenas com três temas. Em todo o caso, desse espectáculo (que deu origem a um duplo álbum) figura a extraordinária versão de Soy un perro callejero (atrás mencionada), ainda que a introdução de guitarra eléctrica apareça amputada. Foi fascinante, finalmente, poder ver, ao fim de tantos anos, a execução deste tema, para mim um autêntico hino e inspirador do título deste blog. Também há um outro atractivo: nos primeiros temas pode-se ver o malogrado Enrique Salazar, prematuramente desaparecido e que foi substituído por Manuel Fernández. Enfim, por causa do DVD, este é mais um objecto de culto. ¡Viva la rumba canalla!
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Baúl de los recuerdos (5)

Jeanette - Sigo rebelde (1996)
Aí por finais dos anos 70 vi no Quarteto o filme Cria cuervos, de Carlos Saura (nesses tempos de faculdade muitos filmes eu via no Quarteto...). Era interessante, mas nada de especial guardei dele a não ser a música que acompanhava a ficha técnica. Consegui saber quem tinha aquela inusitada voz, indescritivelmente suave, infantil, dir-se-ia perfeitamente ajustada à personagem que dominava o filme, interpretada por Ana Torrent, então uma petiz de olhos grandes e expressivos. Pois, quem a cantava era uma tal Jeanette. Pelo nome e pelo castelhano de sotaque um pouco exótico deduzi que deveria ser uma cantora-criança francesa. Só bem mais tarde comecei a descobrir quem era Jeanette. Foi quando comprei o LP que tinha o tal tema de Cria cuervos, cujo título era, tal como o refrão atestava, Porque te vas. Na verdade, quase já o tinha esquecido. Tanto que nas minhas andanças por Espanha, sempre ocupado em encontrar discos, jamais me dera para encetar a correspondente busca. Foi por acaso, na discoteca Os Dezassete, no Chiado, onde se encontravam coisas raras e especializadas, que encontrei um LP com essa canção. Foi também aí que, uns meses depois, encontrei um outro LP de Jeanette, Todo es nuevo, que hoje é uma cotada raridade. Para lá do encanto que a audição dessas pérolas me proporcionou, a verdade é que as informações que tinha sobre a cantora eram ainda escassas. Sucede que em meados dos anos 80, já a estrela de Jeanette tinha declinado. No cenário musical de então era algo esquecido e fora de moda. Foi preciso esperar pelos anos 90 para que, entre vários revivalismos, Jeanette encontrasse uma oportunidade para ser recordada. É nesse contexto que surge este duplo álbum antológico.
Pois bem, Jeanette é antes de mais a voz, por excelência, da candura e suavidade, mas... também desconcertantemente perversa, pois há um erotismo imanente (aqui e ali com a ajuda de algumas letras...). Mas tudo em plano suavíssimo... Nunca conheci voz assim! Nesta antologia estão temas da fase inicial (finais dos anos 60) - quando era vocalista do grupo folk Pic-Nic, de Barcelona - , assim como temas da fase que lhe deu fama (segunda metade dos anos 70). Só foram compiladas gravações feitas para a Hispavox. Não há nenhuma de Todo es nuevo (álbum gravado para a Ariola), o que é uma lástima... Em todo o caso, constam os seus temas mais conhecidos e todos eles soberbos: Soy rebelde, Frente a frente, Por que te vas, Reluz, Corazón de Poeta e Viva el pasodoble - quase todos de um grande compositor da canção espanhola, Manuel Alejandro.
Para concluir devo esclarecer que Jeanette era, de facto, muito jovem, mas não era uma cantora-menina - tinha 21 anos quando gravou Porque te vas. Também não era francesa. Era hispano-britânica e vivia em Barcelona. Porém, até aos 12 anos vivera em Los Angeles e Londres (onde nascera). O pai era inglês. A mãe era espanhola, de origem canária. Tinha olhos verdes e um corpo fransino. Acabou por ser tornar, graças à voz e à aparência, num sex symbol de low profile adequado aos tempos da transição democrática e cuja correspondência no domínio da moral e dos costumes se designou como Destape. A fama que acabou por alcançar foi em larga medida credora do filme de Carlos Saura - a popularidade de Porque te vas não se seguiu à edição em disco, mas sim à exibição do filme e esteve longe de se limitar a Espanha (pelo menos foi extensível a França e Alemanha). Foi uma popularidade repentina, forte, mas efémera. Caiu numa terra de ninguém da qual só saiu, pela via da recuperação nostálgica nos anos 90. A voz, apesar de ter perdido muito da sua frescura, mantém ainda hoje um timbre que sugere uma espécie de eterna juventude.
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quarta-feira, setembro 28, 2005

Baúl de los recuerdos (4)

Los Diablos
Não concebo a vida sem música! Entre muitíssimas outras coisas, a música tem-me fornecido marcos de referência para memórias pessoais. Pessoas, lugares e situações associo-os muitas vezes a músicas bem concretas.
Este velhinho single foi um dos primeiros discos por mim comprados. Vá lá saber-se porquê, desde que me conheço tive particular atracção por música espanhola (entre outras coisas dos nossos "inimigos históricos"...). Desde os 8, 9 anos que, quando caía a noite, punha-me à caça na Onda Média de emissoras como Radio Intercontinental, Radio España - Madrid (aqui na Amadora) ou Radio Nacional de España - Centro Emisor del Noroeste (quando estava no Porto). Por entre pasodobles e muiñeiras foram, com o tempo, rompendo figuras ascendentes do pop espanhol de finais de 60 e inícios de 70, como, entre outros, Juan y Júnior, Andrés do Barro e, sobretudo, conjuntos como os Formula V e Los Diablos. Lembro-me, aquando da minha primeira ida a Espanha (uma excursão à Galiza de vizinhos da Vitória, no Porto, onde então passava as minhas férias escolares), que arrasava por todo o lado Un Rayo de Sol. Lembro-me, em especial, que no miradouro do Castro, em Vigo, onde aquela algazarrenta tripeirada desaguou numa soalheira manhã de Agosto, que o rádio do autocarro, sintonizado na Radio Popular de Vigo, emitia essa musiquinha. Uma parte da adorável gente daquela excursão, extrovertídissima e muito dada à música, desatou a cantar Un Rayo de Sol ao mesmo tempo que se precipitava para um bar, onde alguns não resistiram à emoção de beber uma coca-cola (proibida em luso terrunho). Também eu, entre intermitente ensaio de assobio da introdução dessa melodiazinha de verão, bebi a minha primeira coca-cola. Já depois de vazia, a bojuda garrafinha ajudou a dar ao assobio uma tonalidade especial...
Para um miúdo de treze anos, na altura, não resultou fácil comprar un Rayo de Sol. Aliás nunca o cheguei a comprar... Algum tempo depois, também no Porto, entrei pela primeira vez numa loja de discos (na Rua de Santo António) com essa finalidade. Já não o tinham e comprei Oh, Oh, July, também de Los Diablos, mas que, desgraçadamente, não se comparava a Un Rayo de Sol...

terça-feira, setembro 27, 2005

Baúl de los recuerdos (3)

Anduriña

En Galicia un día eu escoitei
unha vella historia, nun café.
Era dunha nena que da aldea, se escapou....
Anduriña nova que vóou...
Choran ó pensar, ¿onde andará?
Mais ninguén a quere ir buscar.
Anduriña lle chamaron, os que alí deixou
torna pronto ó porto, ¡por favor!...
Un velliño fala xunto ó lar,
di-me moi baixiño e sin maldade.
Anduriña e nova... Voltará, ¡xa-lo verán!
Probe paxariño, sen plumar...
Nun día calqueira, pousará.
Seu misterio, xa non o será.
O nome Anduriña, xa xamais, se llo dirán.
Pero mentres tanto, ¿onde vái?Anduriña ¿onde vái?...
Anduriña ¿onde vái?...Anduriña... ¿Onde vái?...

Letra y Música de Juan Pardo y Antonio Morales (1968)

Las Canciones de Nuestra Vida in TeAcuerdas.com

sábado, setembro 24, 2005

Noites tropicais (7)

Emílio Santiago - Beija-Flor (1998)
A música popular brasileira teve sempre ampla difusão em Portugal. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proprcional à da origem. Se assim fosse, Emílio Santiago seria cá mais conhecido. Sabe-se como as vozes negras têm muitas vezes um travo bem identificativo. Pois, esta voz é um bom exemplo. Encaixa-se perfeitamente no tópico de "negão" - quente e poderosa. Diga-se que tais qualidades são apropriadas para a bossa nova e para o samba-canção... Não surpreende, portanto, que no seu repertório haja frequentes incursões nestes géneros.
Este álbum é posterior à série de álbuns Aquarela Brasileira, ao longo da qual o cantor se espraiou por clássicos da bossa e, sobretudo, do samba-canção. Foi um prolongado exercício nostálgico, comercialmente compensador. Contudo, esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. Com efeito, a sistemástica utilização do medley e de arranjos convencionais caracterizam a série Aquarela. As suas qualidades de intérprete acabariam por ser melhor aproveitadas nos últimos álbuns, os quais reflectem conceitos de produção mais refinados. Beija-Flor está produzido por Mazzola e é um trabalho elaborado, bem acabado e coerente. Apesar da presença de canções de compositores mais jovens (Lulu Santos, Chico César), há algumas de compositores mais antigos (Ivan Lins), alguns temas clássicos da canção brasileira e, mesmo um dos meus boleros preferidos, Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero. Há grande variedade de interpretações deste famoso bolero, pois a que aqui se apresenta é excelente. Enfim, para este tipo de vozes o bolero vem mesmo a calhar... Contudo, o ponto mais alto deste álbum de elevado valor médio, está em temas genuinamente brasileiros, entre as quais destaco o clássico Brigas.
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Para siempre boleros! (10)


Victor Victor - Alma de Barrio (1994)
Em Santo Domingo chamam bachata ao bolero. Mas, não é só uma questão de nome, pois os dominicanos acentuam-lhe a cadência, dando-lhe assim um sabor mais tropical. Victor Victor é um dos mais credenciados intérpretes e compositores de bachatas. A sua voz aveludada e de timbre sentimental é ideal para o género. É, com efeito, uma voz superior à do seu compatriota Juan Luís Guerra neste tipo de temas lentos, se bem que, por outro lado, menos adaptável ao ritmo acelerado do merengue...
Este álbum é dominado pela bachata, sendo, um dos mais representativos do género. Apresenta um conjunto homogéneo de temas que compõem um ambiente de evocação nostálgica de salão de baile popular... É também uma produção de qualidade, ao nível das de Juan Luís Guerra (não admira, pois também foi produzido em Miami...). Victor Victor alcançou nos anos 90 uma certa projecção nas ondas radiofónicas hispânicas, aproveitando-se do impacto de Juan Luís Guerra. Contudo, este álbum e, pelo menos, mais outros três gravados nessa altura são bem demonstrativos da sua íntrinseca valia.
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Euskal Herria (15)

Basta Ya! Iniciativa Ciudadana: Euskadi, del sueño a la vergüenza / Guía útil del drama vasco (2004)

Que Euskal Herria é uma realidade histórico-cultural ninguém informado e de boa-fé o poderá negar. Porém, não se pode também negar a sua integração na hispanidade, como um vasto conjunto de mitos nacionaistas pretende fazer crer. É evidente que não há nacionalismos sem mitos, mas, no caso concreto da matriz do pensamento nacionalista basco, encontramos uma boa dose daqueles mitos que se formaram nos finais do século XIX e que tanto contribuiram para precipitar a Europa e o mundo na trágica deriva nacionalista cuja expressão mais extrema foi o nazismo. Com efeito, uma boa parte deste livro constitui desmontagem dessa mitologia arreigada às teorias de Sabino Arana Goiri, fundador do Partido Nacionalista Vasco (PNV/EAJ), as quais foram incorporadas até à actualidade no ideário dominante no universo nacionalista e abertzale. A ETA é um dos resultados desse ideário.
Esta obra colectiva obedece a um propósito de denúncia de uma situação que se tem vivido no País Basco e que é praticamente única na Europa Ocidental: a vigência de um clima de constrangimento e terror exercida sobre uma parte substancial da população, em nome de um nacionalismo étnico. Algo que só encontra algum paralelo nos Balcãs e Irlanda do Norte. Se é injusto assacar a responsabilidade desta situação a todo o nacionalismo, não é menos injusto minimizar a gravidade da situação e, em particular, desamparar as largas centenas de vítimas e suas famílias. (desde o fim do franquismo são quase um milhar de assassinados e largos milhares os ameaçados e chantageados!). Um bom início para criar um sentimento colectivo que sustente o fim deste estado de coisas é, precisamente, começar por desfazer mitos. A marcada personalidade de Euskal Herria não deixa de se integrar num puzzle com coerência histórico-cultural - puzzle que é a Espanha (sob este ponto de vista está mais integrada até, por exemplo, do que a Catalunha...). Muito do que é o genuíno carácter castelhano radica num estracto pré-romanização que se sedimentou nos redutos montanhosos do norte peninsular e que é comum a Euskal Herria. A própria língua castelhana, nascida nos confins nortenhos de La Rioja e de Burgos, o que tem de dissonante em relação às línguas românicas vizinhas é reconhecido como estando presente no idioma basco e resulta de comuns influências pré-romanização (a transformação do f em h, por exemplo). De algum modo podemos dizer que uma boa parte da Hispania pré-Romana (um vasto território do Centro Norte) era Euskal Herria e que Castela começou a germinar aí. Para lá do espesso manto da romanização depara-se, assim, uma afinidade muito maior do que se supõe... Depois, ao longo dos tempos nunca Euskal Herria correspondeu a uma entidade política autónoma e coerente, além de que, o que é ainda mais significativo, a sociedade nos seus segmentos mais dinâmicos e desenvolvidos (zonas urbanas e litoral, em geral) sempre se integrou, respectivamente em França e Espanha, sem especiais tensões.
Em Portugal, onde impera entre a intelectualidade (de esquerda e direita) uma visão distorcida da realidade basca, haveria bastante proveito em que este livro fosse traduzido.

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Basta Ya / Iniciativa Ciudadana - Página Oficial