quarta-feira, outubro 05, 2005

Baúl de los recuerdos (5)

Jeanette - Sigo rebelde (1996)
Aí por finais dos anos 70 vi no Quarteto o filme Cria cuervos, de Carlos Saura (nesses tempos de faculdade muitos filmes eu via no Quarteto...). Era interessante, mas nada de especial guardei dele a não ser a música que acompanhava a ficha técnica. Consegui saber quem tinha aquela inusitada voz, indescritivelmente suave, infantil, dir-se-ia perfeitamente ajustada à personagem que dominava o filme, interpretada por Ana Torrent, então uma petiz de olhos grandes e expressivos. Pois, quem a cantava era uma tal Jeanette. Pelo nome e pelo castelhano de sotaque um pouco exótico deduzi que deveria ser uma cantora-criança francesa. Só bem mais tarde comecei a descobrir quem era Jeanette. Foi quando comprei o LP que tinha o tal tema de Cria cuervos, cujo título era, tal como o refrão atestava, Porque te vas. Na verdade, quase já o tinha esquecido. Tanto que nas minhas andanças por Espanha, sempre ocupado em encontrar discos, jamais me dera para encetar a correspondente busca. Foi por acaso, na discoteca Os Dezassete, no Chiado, onde se encontravam coisas raras e especializadas, que encontrei um LP com essa canção. Foi também aí que, uns meses depois, encontrei um outro LP de Jeanette, Todo es nuevo, que hoje é uma cotada raridade. Para lá do encanto que a audição dessas pérolas me proporcionou, a verdade é que as informações que tinha sobre a cantora eram ainda escassas. Sucede que em meados dos anos 80, já a estrela de Jeanette tinha declinado. No cenário musical de então era algo esquecido e fora de moda. Foi preciso esperar pelos anos 90 para que, entre vários revivalismos, Jeanette encontrasse uma oportunidade para ser recordada. É nesse contexto que surge este duplo álbum antológico.
Pois bem, Jeanette é antes de mais a voz, por excelência, da candura e suavidade, mas... também desconcertantemente perversa, pois há um erotismo imanente (aqui e ali com a ajuda de algumas letras...). Mas tudo em plano suavíssimo... Nunca conheci voz assim! Nesta antologia estão temas da fase inicial (finais dos anos 60) - quando era vocalista do grupo folk Pic-Nic, de Barcelona - , assim como temas da fase que lhe deu fama (segunda metade dos anos 70). Só foram compiladas gravações feitas para a Hispavox. Não há nenhuma de Todo es nuevo (álbum gravado para a Ariola), o que é uma lástima... Em todo o caso, constam os seus temas mais conhecidos e todos eles soberbos: Soy rebelde, Frente a frente, Por que te vas, Reluz, Corazón de Poeta e Viva el pasodoble - quase todos de um grande compositor da canção espanhola, Manuel Alejandro.
Para concluir devo esclarecer que Jeanette era, de facto, muito jovem, mas não era uma cantora-menina - tinha 21 anos quando gravou Porque te vas. Também não era francesa. Era hispano-britânica e vivia em Barcelona. Porém, até aos 12 anos vivera em Los Angeles e Londres (onde nascera). O pai era inglês. A mãe era espanhola, de origem canária. Tinha olhos verdes e um corpo fransino. Acabou por ser tornar, graças à voz e à aparência, num sex symbol de low profile adequado aos tempos da transição democrática e cuja correspondência no domínio da moral e dos costumes se designou como Destape. A fama que acabou por alcançar foi em larga medida credora do filme de Carlos Saura - a popularidade de Porque te vas não se seguiu à edição em disco, mas sim à exibição do filme e esteve longe de se limitar a Espanha (pelo menos foi extensível a França e Alemanha). Foi uma popularidade repentina, forte, mas efémera. Caiu numa terra de ninguém da qual só saiu, pela via da recuperação nostálgica nos anos 90. A voz, apesar de ter perdido muito da sua frescura, mantém ainda hoje um timbre que sugere uma espécie de eterna juventude.
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quarta-feira, setembro 28, 2005

Baúl de los recuerdos (4)

Los Diablos
Não concebo a vida sem música! Entre muitíssimas outras coisas, a música tem-me fornecido marcos de referência para memórias pessoais. Pessoas, lugares e situações associo-os muitas vezes a músicas bem concretas.
Este velhinho single foi um dos primeiros discos por mim comprados. Vá lá saber-se porquê, desde que me conheço tive particular atracção por música espanhola (entre outras coisas dos nossos "inimigos históricos"...). Desde os 8, 9 anos que, quando caía a noite, punha-me à caça na Onda Média de emissoras como Radio Intercontinental, Radio España - Madrid (aqui na Amadora) ou Radio Nacional de España - Centro Emisor del Noroeste (quando estava no Porto). Por entre pasodobles e muiñeiras foram, com o tempo, rompendo figuras ascendentes do pop espanhol de finais de 60 e inícios de 70, como, entre outros, Juan y Júnior, Andrés do Barro e, sobretudo, conjuntos como os Formula V e Los Diablos. Lembro-me, aquando da minha primeira ida a Espanha (uma excursão à Galiza de vizinhos da Vitória, no Porto, onde então passava as minhas férias escolares), que arrasava por todo o lado Un Rayo de Sol. Lembro-me, em especial, que no miradouro do Castro, em Vigo, onde aquela algazarrenta tripeirada desaguou numa soalheira manhã de Agosto, que o rádio do autocarro, sintonizado na Radio Popular de Vigo, emitia essa musiquinha. Uma parte da adorável gente daquela excursão, extrovertídissima e muito dada à música, desatou a cantar Un Rayo de Sol ao mesmo tempo que se precipitava para um bar, onde alguns não resistiram à emoção de beber uma coca-cola (proibida em luso terrunho). Também eu, entre intermitente ensaio de assobio da introdução dessa melodiazinha de verão, bebi a minha primeira coca-cola. Já depois de vazia, a bojuda garrafinha ajudou a dar ao assobio uma tonalidade especial...
Para um miúdo de treze anos, na altura, não resultou fácil comprar un Rayo de Sol. Aliás nunca o cheguei a comprar... Algum tempo depois, também no Porto, entrei pela primeira vez numa loja de discos (na Rua de Santo António) com essa finalidade. Já não o tinham e comprei Oh, Oh, July, também de Los Diablos, mas que, desgraçadamente, não se comparava a Un Rayo de Sol...

terça-feira, setembro 27, 2005

Baúl de los recuerdos (3)

Anduriña

En Galicia un día eu escoitei
unha vella historia, nun café.
Era dunha nena que da aldea, se escapou....
Anduriña nova que vóou...
Choran ó pensar, ¿onde andará?
Mais ninguén a quere ir buscar.
Anduriña lle chamaron, os que alí deixou
torna pronto ó porto, ¡por favor!...
Un velliño fala xunto ó lar,
di-me moi baixiño e sin maldade.
Anduriña e nova... Voltará, ¡xa-lo verán!
Probe paxariño, sen plumar...
Nun día calqueira, pousará.
Seu misterio, xa non o será.
O nome Anduriña, xa xamais, se llo dirán.
Pero mentres tanto, ¿onde vái?Anduriña ¿onde vái?...
Anduriña ¿onde vái?...Anduriña... ¿Onde vái?...

Letra y Música de Juan Pardo y Antonio Morales (1968)

Las Canciones de Nuestra Vida in TeAcuerdas.com

sábado, setembro 24, 2005

Noites tropicais (7)

Emílio Santiago - Beija-Flor (1998)
A música popular brasileira teve sempre ampla difusão em Portugal. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proprcional à da origem. Se assim fosse, Emílio Santiago seria cá mais conhecido. Sabe-se como as vozes negras têm muitas vezes um travo bem identificativo. Pois, esta voz é um bom exemplo. Encaixa-se perfeitamente no tópico de "negão" - quente e poderosa. Diga-se que tais qualidades são apropriadas para a bossa nova e para o samba-canção... Não surpreende, portanto, que no seu repertório haja frequentes incursões nestes géneros.
Este álbum é posterior à série de álbuns Aquarela Brasileira, ao longo da qual o cantor se espraiou por clássicos da bossa e, sobretudo, do samba-canção. Foi um prolongado exercício nostálgico, comercialmente compensador. Contudo, esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. Com efeito, a sistemástica utilização do medley e de arranjos convencionais caracterizam a série Aquarela. As suas qualidades de intérprete acabariam por ser melhor aproveitadas nos últimos álbuns, os quais reflectem conceitos de produção mais refinados. Beija-Flor está produzido por Mazzola e é um trabalho elaborado, bem acabado e coerente. Apesar da presença de canções de compositores mais jovens (Lulu Santos, Chico César), há algumas de compositores mais antigos (Ivan Lins), alguns temas clássicos da canção brasileira e, mesmo um dos meus boleros preferidos, Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero. Há grande variedade de interpretações deste famoso bolero, pois a que aqui se apresenta é excelente. Enfim, para este tipo de vozes o bolero vem mesmo a calhar... Contudo, o ponto mais alto deste álbum de elevado valor médio, está em temas genuinamente brasileiros, entre as quais destaco o clássico Brigas.
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Para siempre boleros! (10)


Victor Victor - Alma de Barrio (1994)
Em Santo Domingo chamam bachata ao bolero. Mas, não é só uma questão de nome, pois os dominicanos acentuam-lhe a cadência, dando-lhe assim um sabor mais tropical. Victor Victor é um dos mais credenciados intérpretes e compositores de bachatas. A sua voz aveludada e de timbre sentimental é ideal para o género. É, com efeito, uma voz superior à do seu compatriota Juan Luís Guerra neste tipo de temas lentos, se bem que, por outro lado, menos adaptável ao ritmo acelerado do merengue...
Este álbum é dominado pela bachata, sendo, um dos mais representativos do género. Apresenta um conjunto homogéneo de temas que compõem um ambiente de evocação nostálgica de salão de baile popular... É também uma produção de qualidade, ao nível das de Juan Luís Guerra (não admira, pois também foi produzido em Miami...). Victor Victor alcançou nos anos 90 uma certa projecção nas ondas radiofónicas hispânicas, aproveitando-se do impacto de Juan Luís Guerra. Contudo, este álbum e, pelo menos, mais outros três gravados nessa altura são bem demonstrativos da sua íntrinseca valia.
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Euskal Herria (15)

Basta Ya! Iniciativa Ciudadana: Euskadi, del sueño a la vergüenza / Guía útil del drama vasco (2004)

Que Euskal Herria é uma realidade histórico-cultural ninguém informado e de boa-fé o poderá negar. Porém, não se pode também negar a sua integração na hispanidade, como um vasto conjunto de mitos nacionaistas pretende fazer crer. É evidente que não há nacionalismos sem mitos, mas, no caso concreto da matriz do pensamento nacionalista basco, encontramos uma boa dose daqueles mitos que se formaram nos finais do século XIX e que tanto contribuiram para precipitar a Europa e o mundo na trágica deriva nacionalista cuja expressão mais extrema foi o nazismo. Com efeito, uma boa parte deste livro constitui desmontagem dessa mitologia arreigada às teorias de Sabino Arana Goiri, fundador do Partido Nacionalista Vasco (PNV/EAJ), as quais foram incorporadas até à actualidade no ideário dominante no universo nacionalista e abertzale. A ETA é um dos resultados desse ideário.
Esta obra colectiva obedece a um propósito de denúncia de uma situação que se tem vivido no País Basco e que é praticamente única na Europa Ocidental: a vigência de um clima de constrangimento e terror exercida sobre uma parte substancial da população, em nome de um nacionalismo étnico. Algo que só encontra algum paralelo nos Balcãs e Irlanda do Norte. Se é injusto assacar a responsabilidade desta situação a todo o nacionalismo, não é menos injusto minimizar a gravidade da situação e, em particular, desamparar as largas centenas de vítimas e suas famílias. (desde o fim do franquismo são quase um milhar de assassinados e largos milhares os ameaçados e chantageados!). Um bom início para criar um sentimento colectivo que sustente o fim deste estado de coisas é, precisamente, começar por desfazer mitos. A marcada personalidade de Euskal Herria não deixa de se integrar num puzzle com coerência histórico-cultural - puzzle que é a Espanha (sob este ponto de vista está mais integrada até, por exemplo, do que a Catalunha...). Muito do que é o genuíno carácter castelhano radica num estracto pré-romanização que se sedimentou nos redutos montanhosos do norte peninsular e que é comum a Euskal Herria. A própria língua castelhana, nascida nos confins nortenhos de La Rioja e de Burgos, o que tem de dissonante em relação às línguas românicas vizinhas é reconhecido como estando presente no idioma basco e resulta de comuns influências pré-romanização (a transformação do f em h, por exemplo). De algum modo podemos dizer que uma boa parte da Hispania pré-Romana (um vasto território do Centro Norte) era Euskal Herria e que Castela começou a germinar aí. Para lá do espesso manto da romanização depara-se, assim, uma afinidade muito maior do que se supõe... Depois, ao longo dos tempos nunca Euskal Herria correspondeu a uma entidade política autónoma e coerente, além de que, o que é ainda mais significativo, a sociedade nos seus segmentos mais dinâmicos e desenvolvidos (zonas urbanas e litoral, em geral) sempre se integrou, respectivamente em França e Espanha, sem especiais tensões.
Em Portugal, onde impera entre a intelectualidade (de esquerda e direita) uma visão distorcida da realidade basca, haveria bastante proveito em que este livro fosse traduzido.

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Basta Ya / Iniciativa Ciudadana - Página Oficial

quarta-feira, setembro 21, 2005

Flamenco (13)

Ketama / Toumani Diabate / José Soto Sorderita / Danny Thompson: Songhai-2 (1994)
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Ketama / Toumani Diabate / Danny Thompson: Songhai (1988)
Eis dois momentos muito especiais na história do Nuevo Flamenco: Songhai e Songhai-2. Transcendem muito o âmbito do género de que emergem - são um dos pontos cimeiros do que é comum designar-se como World Music - designação, aliás, ambígua. O fusionismo foi aqui levado a um nível de raro acerto, na medida em que não é errático, pois existe uma matriz que atravessa todo o projecto e que é irredutivelmente flamenca. A fusão pratica-se na direcção da África Negra, mais precisamente do Mali, mediante Toumani Diabate e a sua kora, etéreo instrumento que dir-se-ia ser, à partida, nada vocaciaonado para se casar com o duende andaluz... Puro engano! Se a este improvável casamento adicionarmos o contabaixo de Danny Thompson, temos então algo como que uma espécie de pequena e exótica macedónia musical. Mas o segredo, insisto, está na matriz assimiladora que é flamenca.
O universo musical flamenco pode ter tanto de ortodoxo como de heterodoxo, tanto pode encantar pela via tradicional, pura e dura, do cante jondo, como pela maleabilidade dos ritmos dos jovens flamencos. Estes últimos apresentam tremendas potencialidades de mestiçagem. Neste particular, os irmãos Carmona, foram muito longe e, deve-se, dizer até, talvez, longe demais, atendendo ao seu percurso mais recente. Seja como for, Songhai e Songhai-2, separados, note-se, por seis anos entre si, delimitam o período de apogeu do grupo que se tornara entretanto no mais conhecido e laureado do Nuevo Flamenco. Para mim já não são os mais importantes do género, mas tal não impede de conceder um lugar destacadíssimo ao projecto Songhai. Como símbolo máximo do seu poder encantatório temos o extraordinário Pozo del Deseo - é como se o Guadalquivir desaguasse en el viento del desierto... Quando enceto a sempre desesperante e inconclusiva tarefa de seleccionar as minhas 10 melhores músicas, começo logo por pensar em duas dúzias de temas irrenunciáveis nos quais consta sempre Pozo del Deseo.
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sábado, setembro 17, 2005

La movida (11)

José Manuel Lechado - La Movida / Una Crónica de los 80 (2005)
Das minhas mais recentes incursões por terras de Espanha, resultou, como de costume, um apreciável desfalque financeiro, feito à conta não só do meu gosto em ficar em bons hotéis, como também do meu gosto em regressar sempre com um representativo stock de livros, CDs e afins. Isto ainda vai sendo assim, apesar da Internet e da minha tendência compulsiva para compras on-line. Na verdade, nada substitui o contacto físico directo com estes produtos... O mercado espanhol, em matéria de livros, pouco tem a ver com o nosso... Tal sucede, sobretudo, pela muito maior variedade editorial, quer de produção própria, quer de traduções.
Algumas das mais recentes compras dizem respeito directamente a assuntos musicais e afins. Este livro não hesitei um segundo em o comprar. Parece-me uma magnífico sumário crítico da famosa movida 80era. Além do mais, tem uma profusa documentação gráfica. É um dos que está em lista de espera (já é uma pilha...) para ler.

domingo, setembro 11, 2005

Extravagâncias (1)

Peter Greenaway - O Contrato (The draughtman's contract) (1982)
O cinema de Peter Greenaway ocupa um lugar bem distante em relação ao mainstream formatado pelos padrões de Hollywood, os quais estão cada vez mais pobres e incapazes de surpreender. Consabidas fórmulas de sucesso são exploradas reiteradamente até à exaustão e a imaginação parece tolhida. Esta evolução é mal disfarçada pelo arsenal técnico e pelo impacto mediático do star system. Se a história do cinema deve estar para sempre credora de Hollywood é, acima de tudo, pelo cinema clássico. Infelizmente, por outro lado, o cinema europeu cada vez tem menos capacidade para se constituir como alternativa - muito limitado de recursos e, em larga medida, incapaz de se libertar de um pedantismo discursivo. Neste contexto o cinema de Peter Greenaway, por sinal, assumidamente pedante e intelectual, consegue uma originalidade, mediante um olhar estético e um particular génio de loucura. Em filmes posteriores chegará mesmo ao grotesco e sórdido, características que, para mim, aliás, sempre foram atractivas.
O argumento é curioso. Estamos numa zona rural do sul de Inglaterra (Wiltshire) em 1694. Um artista é contratado por uma dama da nobreza local (gentry) para fazer 12 desenhos que retratem a sua propriedade. O resultado dessa encomenda seria uma surpresa para o marido (ausente em viagem), que não deixaria de a apreciar, tendo em conta o particular orgulho que tinha nos magnificentes jardins. Para vencer a renitência do artista, a dama aceita as mais desproporcionadas exigências dele, incluindo... 12 favores sexuais. correspondentes a cada um dos desenhos. Para culminar tamanha arrogância, o artista exige ainda que tudo fique, preto no branco, contratualmente registado. A execução da encomenda é pontuada pelo rigoroso cumprimento das condições contratuais e ainda por extras - a filha da dama, desatendida pelo seu marido (um holandês petulante e pouco diligente no cumprimento dos deveres conjugais), é também disfrutada pelo afortunado artista. Dizer que artista é afortunado acaba por ser um equívoco em que o espectador cai inevitavelmente. O desenlace reserva-nos uma surpresa e o artista de arrogante afortunado acaba em vítima ingénua...
Greenaway é um arquitecto que derivou para o cinema. A sua obra tem um recohecível toque britânico de non-sense e também um hiper-barroquismo próprio de um espírito extravagante. Neste filme, além do mais, o barroquismo é literal, pelo facto da acção decorrer em cenários barrocos. Os diálogos e situações ressaltam ainda uma ironia própria de espíritos finos. Os cenários, só por si, são um espectáculo, desde as perucas aos jardins. A música de Michael Nyman é também espectacular - com uma feição exótica que resulta de um curioso casamento entre contemporaneidade e barroco.
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