domingo, setembro 04, 2005

Salsa y merengue (9)

Marc Anthony - Contra la Corriente (1997)
O nova-iorquino Marc Anthony está convertendo-se num ídolo pop internacional - algo que começou a desenhar-se desde que, a partir de finais dos anos oitenta, passou a alternar gravações em espanhol com gravações em inglês. A sua voz é, de facto, excelente e adapta-se a vários estilos. Contudo, para essa evolução, o mais importante foi talvez a sua figura e um certo glamour latino que dela emana. Note-se que, depois de ter estado casado uma miss universo, está agora casado com, nem mais nem menos que... Jennifer López. Apesar do empobrecimento musical inerente a esta evolução, não se pode ignorar que, Marc Anthony foi e ainda é um salsero soberbo. Foi nos anos 90 o salsero masculino com maior impacto, como este álbum pode ajudar a perceber. Com efeito, Contra la Corriente é uma gravação marcante na carreira de Marc Anthony. Consagrou-o como o artista da moda no universo hispânico dos EUA ao ponto de o ter lançado numa prova de fogo: um espectáculo no Madison Square Garden, que foi, aliás, apoteótico. Significativamente, este é o último álbum cuja produção corre por conta de Ralph Mercado, antes de ter assinado pela Sony Music. Reflecte toda uma linha de desenvolvimento da salsa romántica que sempre teve na Nueva Iorque puertoriqueña o seu epicentro (Lalo Rodríguez, Tito Nieves, José Alberto el Canario, Cheo Feliciano, Gilberto Santa Rosa...). Encerra o seu ciclo dourado como estrela exclusivamente salsera, a qual, para além das suas qualidades vocais, estava alicercada numa escola com tarimba e know-how na matéria... (A RMM, de Ralph Mercado).
Entre os temas aí incluidos sobressaem o que dá nome ao álbum (espectacular!) e o que o abre. Contudo, no que diz respeito às ondas radiofónicas, Si te Vas teve também impacto, como pude comprovar ainda no Verão de 2000, escutando-o assiduamente nas emissoras FM latinas de NY.
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terça-feira, agosto 30, 2005

Baúl de los recuerdos (1)

Antonio Mercero - Verão azul (1981/2005)
A recente edição em DVD da série Verão Azul é uma saborosa oportunidade para um exercício de nostalgia. Foi exibido na RTP algures em 1982 ou 1983 e foi um sucesso. Tanto quanto me parece, foi o maior sucesso que qualquer produção televisiva espanhola teve entre nós (entre as muitíssimo poucas que cá foram chegando). O segredo do sucesso é muito simples: o encanto que emana de histórias simples e ingénuas e um quadro de personagens joviais que compõem um doce cenário de férias. Há ainda o tema musical, um verdadeiro must entre as melodias assobiáveis e que traduz bem o espírito da série. Tema, aliás, que muito gratamente para mim, foi transformado num dos hinos informais do clube de que sou adepto, o FC Porto (pela cor azul...). Visto agora à distância, há evidentes limitações técnicas e a ingenuidade parece até um pouco primitiva, contudo isto reforça o sabor nostálgico. Avulta o personagem Chanquete, interpretado por Antonio Ferrandis - é uma espécie de avôzinho protector e sábio. A criançada anda à solta sob a tutela benévola e complecente de Chanquete e de Júlia, uma mulher madura, só e com pinta de culta e progressista. Os pais da criançada são uns idiotas, mais ou menos ausentes e é, felizmente, esse abandono que proporciona as aventurazinhas simpáticas, de moral edificante. Como estamos longe do artificialismo da vigente cultura juvenil de massas, agressiva e saturada de sinais explícitos de sexualidade precoce e alarve...
Nerja, o cenário da série, parece que resolveu perpétuar a efémera glória que a série lhe conferiu e construiu um pequeno parque temático que lhe é alusiva.
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quinta-feira, agosto 25, 2005

Soulsville (6)

Isaac Hayes - Black Moses (1971)
Estava Isaac Hayes no seu apogeu, logo após a edição da banda sonora de Shaft quando saíu este duplo álbum. É megalómeno! O delírio começa, desde logo, na apresentação. Com efeito, o duplo LP original ficou na história da art cover. Depois de sucessivamente desdobrado (da operação resultava uma enorme foto em formato de cruz), aparecia-nos Isaac Hayes (quase em tamanho natural) como uma réplica de Moisés, em teatrais vestes e cenário bíblicos... A megalomania é extensível à produção. Nunca uma gravação sua teve roupagens orquestrais de tão grande pompa! A Stax não se fez rogada em lhe proporcionar meios de uma super estrela e, aliás, a própria editora parece ter-se engalanado num desmedido triunfalismo ao levar a cabo, nessa mesma época, um evento como foi Wattstax (uma espécie réplica de Woodstock para a América Negra, em Los Angeles - onde, diga-se já agora, Isaac Hayes teve uma actuação destacada).
Significativamente, a unânimidade da crítica desfez-se perante Black Moses. A verdade é que o estado de graça perdeu-se... E, no entanto, é uma obra magnífica. Desigual, desproporcionada, mas, magnífica. Algumas das mais brilhantes pérolas da sua lavra estão aqui: Never can say good-bye (grande êxito, mesmo antes da ultra-famosa versão disco de Gloria Gaynor); Never gonna give you up (recriação de um tema de Jerry Butler); Help me love; Your love is so dogonne good; I'll never fall in love again (recriação do standard de David / Bacharach, popularizado por Dionne Warwick). Há também muitos raps, ao seu genuíno estilo. Aparecem numerados (Ike's rap I, Ike's rap IV...) e introduzem da melhor forma algumas das mencionadas pérolas, ajudando a criar uma atmosfera especial ...
Nota: Há uma edição digipack remasterizada deste álbum, da editora alemã Zyx, a qual apesar de conter a versão extensa de Never gonna give you up (não disponível no álbum original, nem na primeira reedição em CD), está amputada de alguns dos melhores temas.
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terça-feira, agosto 23, 2005

Mariachi y tequila (26)

Plácido Domingo - Cien años de Mariachi (1999)
Segundo um amplíssimo consenso que vai dos mais entendidos aos meros apreciadores da ópera, Plácido Domingo é o maior tenor da actualidade. É, aliás, curioso como a Espanha tem vindo a produzir tão extenso rol de grandes vozes líricas: Alfredo Kraus, Josep Carreras, Montserrat Caballé, Teresa Berganza, Victoria de los Ángeles... É sob este ponto de vista a maior potência operística do mundo actual. Neste contexto, que Plácido seja o número um, não admira... Muito menos admira a quem tenha ouvidos minimamente sensíveis e nem sequer é preciso estar introduzido no universo do bel canto... Com efeito, fazendo gala de um extraordinário eclectismo e de um notável despretensiosismo, Plácido tem oferecido a sua voz a muitos outros tipos de música. Até certo ponto, pode-se dizer, que, como Carreras, Caballé e Pavarotti, tem acarinhado uma carreira marginal e intermitente de estrela pop. A saga dos "três tenores" é o que tem mais visivelmente atestado esta faceta. Felizmente, porém, que a coisa não se tem esgotado nesse episódico trio...
Plácido é castelhano dos pés à cabeça, na nobreza do seu porte, no seu carácter. Contudo, muitas vezes, tem demonstrado a sua paixão pelo México - algo que se compreende melhor, se se tiver em conta que, desde muito novo e por muitos anos aí viveu. Assim, coerentemente, o que de melhor as suas aventuras extra-operísticas têm dado encontram-se no universo da música hispano-americana. Este CD é um bom exemplo. Contribuindo para a comemoração do centenário do estilo mariachi, este álbum situa-se no mais privilegiado lugar de divulgação da música ranchera pelo mundo. Graças, evidentemente, à notoriedade do tenor e à qualidade final do produto. É certo que, para os mais identificados com o género, há uma estranha pulcritude, ao mesmo tempo que um perfeccionismo artístico pouco acorde com a rusticidade ranchera. Mas não deixa de ser fascinante este encontro entre a perfeição artística e esse universo de rudeza viril! É uma produção perfeita para uma voz perfeita e para uns temas belíssimos. E é, assim, a melhor introdução possível à música ranchera para quem a desconhece.
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quinta-feira, agosto 11, 2005

Mediterráneo / Mediterrània (24)

Maria del Mar Bonet / Al Tall - Cançons de la nostra Mediterrània (1982)
Na esteira de uma série de magníficos álbuns, em 1982, surge Cançons de la nostra Mediterrània, feito com o grupo folk valenciano Al Tall. Para mim este é o último marco da fase mais notável da carreira de Maria del Mar Bonet. Ao contrário do anterior, insere-se no género puramente folk e tem a particularidade de ser uma espécie de mostruário da música popular de toda (ou quase) a geografia de língua catalã (Catalunha, Menorca, Mallorca, Ibiza e Valencia). É, na verdade, um mostruário de géneros, idiossincrasias e dialectos. Assim, passeamos desde a Catalunya Nord (Rossilhão francês) até Alacant (Alicante), passando pelo arquipélago balear, ao som de havaneras, boleros (os primitivos) e jotas. Tudo isto servido por uma esmerada produção.
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Mediterráneo / Mediterrània (23): Mallorca

Maria del Mar Bonet - Jardí tancat (1981)
Nas vésperas de encetar a minha primeira viagem a Maiorca, apropriadamente, resolvi repassar a discografia de Maria del Mar Bonet. Com permissão do antecedente Saba de terrer, considero este o melhor álbum de Maria del Mar Bonet. É certo que não conheço os mais recentes, mas não imagino ser fácil reencontrar agora o encanto ímpar aqui alardeado. A sua voz atinge uma doçura e suavidade que, se bem que nunca perdida, dificilmente poderia voltar a alcançar tal esplendor. Como se não bastasse, tudo o mais em Jardí Tancat parece tocado por um estado de graça: os arranjos de orquestração; o repertório de poetas maiorquinos contemporâneos; as fotos nos Jardins de Raixa (em Maiorca); a foto da capa... Curiosamente é um álbum na linha da canção de texto e em que a presença folk é discreta, apenas indirectamente trazida através da temática dos poemas. Entre um punhado de jóias, cabe sublinhar que a forma como o álbum se despede, com Cançó de la sirena, é algo de invulgarmente belo: uma melodia encantatória vai-se desvanecendo gradualmente, deixando no ar um perfume melódico, diria, de genuína essência mediterrânica...
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quarta-feira, agosto 10, 2005

Guia hispânico (14)


Eduardo Delgado / Ángel del Pozo / José María del Río / Jaime Pérez - A vista de pájaro (2005)
Começo por reproduzir o texto do post que anteriormente escrevi sobre esta série:
"Trata-se de uma colecção de 18 cassetes com documentários sobre todas as províncias espanholas, vista de helicóptero. Foi realizado na segunda metade dos anos 80 pela RTVE e implicou a mobilização de vastos recursos humanos e materiais. Durante os anos 90 esses documentários foram exibidos na TVE 2 e na TVE Internacional, com o título A Vista de Pájaro, abrangendo cada capítulo uma província. Em 1999 foi feita esta edição em VHS. Ainda não há edição em DVD.
É um espantoso trabalho de produção e montagem e o seu resultado revela a que ponto de mestria pode chegar a aliança entre o amor às coisas próprias e a competência técnica. A própria Banda Sonora é original, da autoria de Jaime Pérez e... é magnífica. Diria que é uma das melhores formas de conhecer o país vizinho sem passar a fronteira. Tornou-se um clássico, na medida em que, pelo menos as televisões da Catalunha e do País Vasco já produziram um equivalente mais detalhado para o seu respectivo âmbito.
"
Pois sucede que a série acabou de ser editada em DVD, mais precisamente em 12 DVDs. Sublinhe-se o facto de se ter procedido a uma remasterização da imagem e do som, o qual, se não consegue operar milagres, nomeadamente, fazendo com que tivessem adquirido qualidades próprias de uma digitalização original, consegue uma notável melhoria em relação à imagem e som editados em VHS. Desnecessário parece-me, no entanto, ter-se acrescentado algumas (poucas) imagens actuais retiradas de uma série sobre turismo rural. Nem o espírito, nem o conteúdo concreto destas imagens vem a propósito... Mas é evidente que este pormenor é marginal e as melhorias técnicas decorrentes da remasterização constituem só por si uma mais valia preciosa.
Em relação ao post anterior quero salientar ainda algo. Um justo comentário aí colocado leva-me a reparar uma falta: a de não ter salientado a importância da narração/comentário. Este elemento é, de facto, crucial para a qualidade final desta série de referência. Quem o desempenha tão competentemente é José María del Río.
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quinta-feira, agosto 04, 2005

La movida (10)

Radio Futura - La ley del desierto / La ley del mar (1984)
O ano de 1984 é, definitivamente, um ano especial na pop/rock espanhola. Entre alguns álbuns marcantes saídos nesse ano conta-se este, para mim, um dos melhores no meio de toda a diluviana produção do género. Não obstante a assinalável estreia com La estatua en el Jardín Botánico, o grupo dos irmãos Auserón não tinha ainda alcançado notoriedade. Por esta e outras razões, a gravação deste álbum, se bem que tecnicamente escorreita, está longe de evidenciar luxos de produção. Aliás, nota-se uma certa "sonoridade de garagem". O registo é mais rock que pop e expressa uma crua rudeza eléctrica. Santiago Auserón, que, sob o pseudónimo Juan Perro, segue hoje mais por caminhos de inspiração latina, é uma das melhores vozes do pop/rock espnhol. Se bem que o tempo tenha aperfeiçoado tais qualidades, já em 1984 elas estavam bem patenteadas.
O álbum apresenta uma curiosa característica conceptual: está dividido em duas partes distintas e a cada uma corresponde seu nome e sua capa; La ley del desierto é a face A e La ley del mar a face B. Se em termos estritamente musicais essa dualidade não é assim tão evidente, já o mesmo não se pode dizer das letras. Em todo o caso, os temas mais marcantes - Escuela de calor (versão cantada e versão instrumental) e Semilla negra - correspondem, respectivamente, ao deserto e ao mar, sendo que se adequam, quer na letra, quer mesmo na música, a essas distintas naturezas. Diga-se que são dois temas espectaculares e que, posteriormente, serão retomados e desenvolvidos em diferentes registos. Escuela de calor, muito particularmente, arrasou nesse verão e ainda sobrou para outros estios...
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La movida (9)

Mecano - Ya viene el sol (1984)
Para mim este é o melhor álbum de Mecano. O carácter naïf da capa é extensível a quase tudo o mais... incluindo, evidentemente, a voz de Ana Torroja. Símbolo apoteótico deste carácter é Hawaii-Bombay. Não por acaso este tema foi um dos mais ouvidos de então na rádio espanhola. É uma melopeia encantatória, concebida e executada de forma magistral. Os arranjos e a voz são a base deste sucesso. Tornou-se um hino do Verão de 1985, mas tem algo que transcedende a efemeridade simplória dos grandes êxitos instantâneos de Verão. O resto do álbum não deve, porém, ficar obscurecido. Em curioso contraste, impera nos demais temas um registo mais rock dentro daquela linha pop/rock em que o grupo sempre se inscreveu. Mas a inspiração de Nacho Cano e a voz de Ana Torroja estavam no seu ponto mais alto (curiosamente Hawaii-Bombay é da autoria do mais discreto membro do trio, José Maria Cano, irmão de Nacho).
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