terça-feira, agosto 23, 2005

Mariachi y tequila (26)

Plácido Domingo - Cien años de Mariachi (1999)
Segundo um amplíssimo consenso que vai dos mais entendidos aos meros apreciadores da ópera, Plácido Domingo é o maior tenor da actualidade. É, aliás, curioso como a Espanha tem vindo a produzir tão extenso rol de grandes vozes líricas: Alfredo Kraus, Josep Carreras, Montserrat Caballé, Teresa Berganza, Victoria de los Ángeles... É sob este ponto de vista a maior potência operística do mundo actual. Neste contexto, que Plácido seja o número um, não admira... Muito menos admira a quem tenha ouvidos minimamente sensíveis e nem sequer é preciso estar introduzido no universo do bel canto... Com efeito, fazendo gala de um extraordinário eclectismo e de um notável despretensiosismo, Plácido tem oferecido a sua voz a muitos outros tipos de música. Até certo ponto, pode-se dizer, que, como Carreras, Caballé e Pavarotti, tem acarinhado uma carreira marginal e intermitente de estrela pop. A saga dos "três tenores" é o que tem mais visivelmente atestado esta faceta. Felizmente, porém, que a coisa não se tem esgotado nesse episódico trio...
Plácido é castelhano dos pés à cabeça, na nobreza do seu porte, no seu carácter. Contudo, muitas vezes, tem demonstrado a sua paixão pelo México - algo que se compreende melhor, se se tiver em conta que, desde muito novo e por muitos anos aí viveu. Assim, coerentemente, o que de melhor as suas aventuras extra-operísticas têm dado encontram-se no universo da música hispano-americana. Este CD é um bom exemplo. Contribuindo para a comemoração do centenário do estilo mariachi, este álbum situa-se no mais privilegiado lugar de divulgação da música ranchera pelo mundo. Graças, evidentemente, à notoriedade do tenor e à qualidade final do produto. É certo que, para os mais identificados com o género, há uma estranha pulcritude, ao mesmo tempo que um perfeccionismo artístico pouco acorde com a rusticidade ranchera. Mas não deixa de ser fascinante este encontro entre a perfeição artística e esse universo de rudeza viril! É uma produção perfeita para uma voz perfeita e para uns temas belíssimos. E é, assim, a melhor introdução possível à música ranchera para quem a desconhece.
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quinta-feira, agosto 11, 2005

Mediterráneo / Mediterrània (24)

Maria del Mar Bonet / Al Tall - Cançons de la nostra Mediterrània (1982)
Na esteira de uma série de magníficos álbuns, em 1982, surge Cançons de la nostra Mediterrània, feito com o grupo folk valenciano Al Tall. Para mim este é o último marco da fase mais notável da carreira de Maria del Mar Bonet. Ao contrário do anterior, insere-se no género puramente folk e tem a particularidade de ser uma espécie de mostruário da música popular de toda (ou quase) a geografia de língua catalã (Catalunha, Menorca, Mallorca, Ibiza e Valencia). É, na verdade, um mostruário de géneros, idiossincrasias e dialectos. Assim, passeamos desde a Catalunya Nord (Rossilhão francês) até Alacant (Alicante), passando pelo arquipélago balear, ao som de havaneras, boleros (os primitivos) e jotas. Tudo isto servido por uma esmerada produção.
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Mediterráneo / Mediterrània (23): Mallorca

Maria del Mar Bonet - Jardí tancat (1981)
Nas vésperas de encetar a minha primeira viagem a Maiorca, apropriadamente, resolvi repassar a discografia de Maria del Mar Bonet. Com permissão do antecedente Saba de terrer, considero este o melhor álbum de Maria del Mar Bonet. É certo que não conheço os mais recentes, mas não imagino ser fácil reencontrar agora o encanto ímpar aqui alardeado. A sua voz atinge uma doçura e suavidade que, se bem que nunca perdida, dificilmente poderia voltar a alcançar tal esplendor. Como se não bastasse, tudo o mais em Jardí Tancat parece tocado por um estado de graça: os arranjos de orquestração; o repertório de poetas maiorquinos contemporâneos; as fotos nos Jardins de Raixa (em Maiorca); a foto da capa... Curiosamente é um álbum na linha da canção de texto e em que a presença folk é discreta, apenas indirectamente trazida através da temática dos poemas. Entre um punhado de jóias, cabe sublinhar que a forma como o álbum se despede, com Cançó de la sirena, é algo de invulgarmente belo: uma melodia encantatória vai-se desvanecendo gradualmente, deixando no ar um perfume melódico, diria, de genuína essência mediterrânica...
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quarta-feira, agosto 10, 2005

Guia hispânico (14)


Eduardo Delgado / Ángel del Pozo / José María del Río / Jaime Pérez - A vista de pájaro (2005)
Começo por reproduzir o texto do post que anteriormente escrevi sobre esta série:
"Trata-se de uma colecção de 18 cassetes com documentários sobre todas as províncias espanholas, vista de helicóptero. Foi realizado na segunda metade dos anos 80 pela RTVE e implicou a mobilização de vastos recursos humanos e materiais. Durante os anos 90 esses documentários foram exibidos na TVE 2 e na TVE Internacional, com o título A Vista de Pájaro, abrangendo cada capítulo uma província. Em 1999 foi feita esta edição em VHS. Ainda não há edição em DVD.
É um espantoso trabalho de produção e montagem e o seu resultado revela a que ponto de mestria pode chegar a aliança entre o amor às coisas próprias e a competência técnica. A própria Banda Sonora é original, da autoria de Jaime Pérez e... é magnífica. Diria que é uma das melhores formas de conhecer o país vizinho sem passar a fronteira. Tornou-se um clássico, na medida em que, pelo menos as televisões da Catalunha e do País Vasco já produziram um equivalente mais detalhado para o seu respectivo âmbito.
"
Pois sucede que a série acabou de ser editada em DVD, mais precisamente em 12 DVDs. Sublinhe-se o facto de se ter procedido a uma remasterização da imagem e do som, o qual, se não consegue operar milagres, nomeadamente, fazendo com que tivessem adquirido qualidades próprias de uma digitalização original, consegue uma notável melhoria em relação à imagem e som editados em VHS. Desnecessário parece-me, no entanto, ter-se acrescentado algumas (poucas) imagens actuais retiradas de uma série sobre turismo rural. Nem o espírito, nem o conteúdo concreto destas imagens vem a propósito... Mas é evidente que este pormenor é marginal e as melhorias técnicas decorrentes da remasterização constituem só por si uma mais valia preciosa.
Em relação ao post anterior quero salientar ainda algo. Um justo comentário aí colocado leva-me a reparar uma falta: a de não ter salientado a importância da narração/comentário. Este elemento é, de facto, crucial para a qualidade final desta série de referência. Quem o desempenha tão competentemente é José María del Río.
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quinta-feira, agosto 04, 2005

La movida (10)

Radio Futura - La ley del desierto / La ley del mar (1984)
O ano de 1984 é, definitivamente, um ano especial na pop/rock espanhola. Entre alguns álbuns marcantes saídos nesse ano conta-se este, para mim, um dos melhores no meio de toda a diluviana produção do género. Não obstante a assinalável estreia com La estatua en el Jardín Botánico, o grupo dos irmãos Auserón não tinha ainda alcançado notoriedade. Por esta e outras razões, a gravação deste álbum, se bem que tecnicamente escorreita, está longe de evidenciar luxos de produção. Aliás, nota-se uma certa "sonoridade de garagem". O registo é mais rock que pop e expressa uma crua rudeza eléctrica. Santiago Auserón, que, sob o pseudónimo Juan Perro, segue hoje mais por caminhos de inspiração latina, é uma das melhores vozes do pop/rock espnhol. Se bem que o tempo tenha aperfeiçoado tais qualidades, já em 1984 elas estavam bem patenteadas.
O álbum apresenta uma curiosa característica conceptual: está dividido em duas partes distintas e a cada uma corresponde seu nome e sua capa; La ley del desierto é a face A e La ley del mar a face B. Se em termos estritamente musicais essa dualidade não é assim tão evidente, já o mesmo não se pode dizer das letras. Em todo o caso, os temas mais marcantes - Escuela de calor (versão cantada e versão instrumental) e Semilla negra - correspondem, respectivamente, ao deserto e ao mar, sendo que se adequam, quer na letra, quer mesmo na música, a essas distintas naturezas. Diga-se que são dois temas espectaculares e que, posteriormente, serão retomados e desenvolvidos em diferentes registos. Escuela de calor, muito particularmente, arrasou nesse verão e ainda sobrou para outros estios...
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La movida (9)

Mecano - Ya viene el sol (1984)
Para mim este é o melhor álbum de Mecano. O carácter naïf da capa é extensível a quase tudo o mais... incluindo, evidentemente, a voz de Ana Torroja. Símbolo apoteótico deste carácter é Hawaii-Bombay. Não por acaso este tema foi um dos mais ouvidos de então na rádio espanhola. É uma melopeia encantatória, concebida e executada de forma magistral. Os arranjos e a voz são a base deste sucesso. Tornou-se um hino do Verão de 1985, mas tem algo que transcedende a efemeridade simplória dos grandes êxitos instantâneos de Verão. O resto do álbum não deve, porém, ficar obscurecido. Em curioso contraste, impera nos demais temas um registo mais rock dentro daquela linha pop/rock em que o grupo sempre se inscreveu. Mas a inspiração de Nacho Cano e a voz de Ana Torroja estavam no seu ponto mais alto (curiosamente Hawaii-Bombay é da autoria do mais discreto membro do trio, José Maria Cano, irmão de Nacho).
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domingo, julho 31, 2005

La Movida (8)

Miguel Bosè - Bandido (1984)
Miguel Bosè, ídolo da pop espanhola nos anos 80, é, por sua vez, filho de dois ídolos dos anos 50: o matador espanhol Luís Miguel Dominguín e a actriz italiana Lucia Bosè. O primeiro, lembre-se, foi figura maior das arenas e protagonista, no ano de 1953, de uma cerrada rivalidade com o seu cunhado, o matador Antonio Ordoñéz. Essa temporada foi epicamente celebrada por Ernest Hemingway em Fiesta (Verão Perigoso). Lucia Bosè foi Miss Itália 1947 e, sobretudo, uma belíssima actriz que teve participação destacada no cinema italiano dos anos 50 e 60. Enfim, tal ascendência confere um destino de notoriedade... Desde muito novo, Miguel Bosè tornou-se um ídolo de adolescentes, graças, sobretudo, a uma música dentro das fórmulas simplistas adequadas, onde a imagem sempre teve um papel decisivo. Porém, essa fama começou em meados dos 80 a coexistir com consistência artística. Até à edição de Bandido, em 1984, Miguel Bosè inseria-se num registo fútil bastante alheio àquele das correntes dominantes da movida. O estrondoso êxito comercial deste álbum, aparentemente não só não o aproximava dessas correntes, como parecia confirmar uma natureza alheia. Contudo, a produção deste álbum atesta que muito delas beneficou, na medida em que um certo know-how e glamour da movida nele se plasmou. A coexistência de qualidade com sucesso comercial apanhou a crítica desprevenida, mas esta haveria de constatar e consagrar em posteriores álbuns o mais notável processo de credibilização artística que a pop espanhola conheceu. Com efeito, os anos 90 assistiram ao estabelecimento de um outro Miguel Bosè, intelectualizado e intérprete de uma pop sofisticada. Muito para trás havia ficado o jovem que arrebatava adolescentes, o qual, com efeito, pouco parece ter em comum com o Miguel Bosè maduro, dos tempos correntes... No início dessa transfiguração, esteve este álbum, cujo tema mais emblemático, foi não o que o abre, mas o terceiro, Amante Bandido. O seu público ainda era (e continuou sendo até finais da década) primordialmente constituído por adolescentes. A temática e os sinais dominantes ainda lhes são dirigidos, mas a voz, a substância das composições (letra e música) e os arranjos são muito mais consistentes. Por outro lado, não por acaso, aqui aparece um tema inovador na sua trajectória até então: Sevilla. Nesta homenagem à cidade andaluza temos, a todos os títulos, um sinal de amadurecimento. Bandido foi o ponto alto de equilíbrio entre simplicidade e sofisticação na sua carreira.
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domingo, julho 24, 2005

Viagens (21): La Vera e Sierra de Peña de Francia / 2002 (2)

La Alberca

Mais a Norte, já em Castilla y León, província de Salamanca, a Sierra de Peña de Francia tem uma paisagem contrastante com a dos planaltos castelhanos. É uma serrania verdejante que está situada entre a Serra da Malcata (Sierra de Gata) e a Sierra de Gredos. Peña de Francia, propriamente dita, é um agreste penhasco muito alto, que domina toda a paisagem da zona e onde, no topo, se encontra um santuário dedicado a uma virgem negra (é extensa a variedade de cultos a virgens negras por terras de Espanha...). A subida num autocarro por uma empinadíssima estradinha estreita feita de curvas e contra-curvas sem guarda, abeiradas do precipício, foi uma experiência que suscitou algumas emoções fortes. Ainda por cima, foi ingratamente compensada por uma densa nuvem de mosquitos que pairava no topo e importunou o desfrute de uma paisagem de horizontes grandiosos.
Há um rosário de castiças aldeias montanhesas: San Martín del Castañar, Miranda del Castañar, Mogarraz e La Alberca. Vimo-las todas e na última nos assentámos. São lugares encantadores a que imediatamente se pode aplicar o gasto tópico medieval... Somos, regra geral, poupados ao espectáculo dos alumínios e outras discutíveis modernices com que, em matéria de arquitectura popular, uma certa noção de bem-estar afronta o bom-gosto. Nessas aldeias impera uma arquitectura serrana, austera, primitiva, cujo símbolo são os avarandados de madeira. Quase todas têm ainda abundantes vestígios de muralhas e modestos castelos. As igrejinhas têm um ar severo, bem castelhano...
Particularmente notável é mesmo La Alberca. O seu isolamento propiciou o assentamento de uma comunidade de cristãos-novos que aí encontraram um pouco mais de protecção contra as assanhadas perseguições anti-judaicas. Daí, a persistência de algumas características peculiares que reforçam o ar de "terra perdida no tempo". Contudo, está longe de se poder dizer que ficou de fora dos circuitos turísticos. Há, na verdade, um turismo informado e culto que tem, desde há muito, La Alberca, como uma das referências da Espanha que verdadeiramente importa conhecer. Em função desta realidade há alojamento e restaurantes em quantidade, assim como cafés com esplanadas e um vasto comércio de recuerdos. Ficámos num magnífico hotel, de construção recente, cuja fachada se integra totalmente nas características da arquitectura popular local e cuja funcionalidade e conforto sustentam uma excelente relação qualidade / preço.

domingo, julho 17, 2005

Mariachi y tequila (25)


Vicente Fernández / Alejandro Fernández - En vivo juntos por última vez (2003)
Este duplo CD regista um memorável espectáculo de Vicente Fernández e seu filho Alejandro em México DF. Foi galardoado na 4ª edição dos Grammys Latinos como melhor álbum na categoria do género ranchero.
A produção é excelente, dando bem devida conta do ambiente apoteótico de um espectáculo pouco comum, que juntou duas primeiríssimas figuras da música popular mexicana, ligadas por uma emblemática ligação pai/filho e representativas de duas gerações distintas. Cada um por seu lado assegura partes demarcadas do espectáculo, mas há quatro canções interpretadas em dueto. O pai aparece em boa forma, o que é, só por si, garantia de qualidade. Tinha à partida, algumas reservas quanto ao filho. Contudo, o que mais acabou por me surpreender foi verificar que o jovem ídolo progrediu muito desde os seus primeiros passos numa indefinida trajectória entre a balada pop e a canção ranchera. A sua voz e, de um modo geral, todas as suas qualidades interpretativas melhoraram muito. A voz, particularmente, ganhou riqueza e espessura de timbre e está agora capacitada para abarcar géneros variados - tão adequada às rancheras como às baladas convencionais. Auguro excelente carreira para o mais maduros dos potrillos de Don Chente... Mesmo assim, os momentos mais altos coincidem com a presença em palco do velho patriarca, nomeadamente em Acá entre nós e nos duetos Amor de los Dos e Golondrinas sin Nido. Estes dois duetos são extraordinários! O primeiro é um virtuoso exercício de expressividade pelo poder; o segundo é um virtuoso exercício de expressividade pela finura. Uma palavra ainda para mais dois temas: Cuando yo quería ser grande e Mi Vejez. Um é uma comovente declaração de amor filial, sentidamente interpretada por Alejandro; o outro, logo a seguir, de forma quase encadeada, é uma exaltação do sentimento paternal, por Don Chente. Enfim, mais uma belíssima proclamação dos valores tradicionais! Todos estes são momentos muito altos, de grande intensidade emocional. O público, cuja arrebatada participação se faz constantemente sentir, ajuda a criar decisivamente essa intensidade emocional. O auge ocorre no quase mítico Volver, Volver, em que este é vigorosamente chamado a cantar e não se faz rogado... ¡Échale Bonito!
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