quinta-feira, agosto 04, 2005

La movida (10)

Radio Futura - La ley del desierto / La ley del mar (1984)
O ano de 1984 é, definitivamente, um ano especial na pop/rock espanhola. Entre alguns álbuns marcantes saídos nesse ano conta-se este, para mim, um dos melhores no meio de toda a diluviana produção do género. Não obstante a assinalável estreia com La estatua en el Jardín Botánico, o grupo dos irmãos Auserón não tinha ainda alcançado notoriedade. Por esta e outras razões, a gravação deste álbum, se bem que tecnicamente escorreita, está longe de evidenciar luxos de produção. Aliás, nota-se uma certa "sonoridade de garagem". O registo é mais rock que pop e expressa uma crua rudeza eléctrica. Santiago Auserón, que, sob o pseudónimo Juan Perro, segue hoje mais por caminhos de inspiração latina, é uma das melhores vozes do pop/rock espnhol. Se bem que o tempo tenha aperfeiçoado tais qualidades, já em 1984 elas estavam bem patenteadas.
O álbum apresenta uma curiosa característica conceptual: está dividido em duas partes distintas e a cada uma corresponde seu nome e sua capa; La ley del desierto é a face A e La ley del mar a face B. Se em termos estritamente musicais essa dualidade não é assim tão evidente, já o mesmo não se pode dizer das letras. Em todo o caso, os temas mais marcantes - Escuela de calor (versão cantada e versão instrumental) e Semilla negra - correspondem, respectivamente, ao deserto e ao mar, sendo que se adequam, quer na letra, quer mesmo na música, a essas distintas naturezas. Diga-se que são dois temas espectaculares e que, posteriormente, serão retomados e desenvolvidos em diferentes registos. Escuela de calor, muito particularmente, arrasou nesse verão e ainda sobrou para outros estios...
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La movida (9)

Mecano - Ya viene el sol (1984)
Para mim este é o melhor álbum de Mecano. O carácter naïf da capa é extensível a quase tudo o mais... incluindo, evidentemente, a voz de Ana Torroja. Símbolo apoteótico deste carácter é Hawaii-Bombay. Não por acaso este tema foi um dos mais ouvidos de então na rádio espanhola. É uma melopeia encantatória, concebida e executada de forma magistral. Os arranjos e a voz são a base deste sucesso. Tornou-se um hino do Verão de 1985, mas tem algo que transcedende a efemeridade simplória dos grandes êxitos instantâneos de Verão. O resto do álbum não deve, porém, ficar obscurecido. Em curioso contraste, impera nos demais temas um registo mais rock dentro daquela linha pop/rock em que o grupo sempre se inscreveu. Mas a inspiração de Nacho Cano e a voz de Ana Torroja estavam no seu ponto mais alto (curiosamente Hawaii-Bombay é da autoria do mais discreto membro do trio, José Maria Cano, irmão de Nacho).
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domingo, julho 31, 2005

La Movida (8)

Miguel Bosè - Bandido (1984)
Miguel Bosè, ídolo da pop espanhola nos anos 80, é, por sua vez, filho de dois ídolos dos anos 50: o matador espanhol Luís Miguel Dominguín e a actriz italiana Lucia Bosè. O primeiro, lembre-se, foi figura maior das arenas e protagonista, no ano de 1953, de uma cerrada rivalidade com o seu cunhado, o matador Antonio Ordoñéz. Essa temporada foi epicamente celebrada por Ernest Hemingway em Fiesta (Verão Perigoso). Lucia Bosè foi Miss Itália 1947 e, sobretudo, uma belíssima actriz que teve participação destacada no cinema italiano dos anos 50 e 60. Enfim, tal ascendência confere um destino de notoriedade... Desde muito novo, Miguel Bosè tornou-se um ídolo de adolescentes, graças, sobretudo, a uma música dentro das fórmulas simplistas adequadas, onde a imagem sempre teve um papel decisivo. Porém, essa fama começou em meados dos 80 a coexistir com consistência artística. Até à edição de Bandido, em 1984, Miguel Bosè inseria-se num registo fútil bastante alheio àquele das correntes dominantes da movida. O estrondoso êxito comercial deste álbum, aparentemente não só não o aproximava dessas correntes, como parecia confirmar uma natureza alheia. Contudo, a produção deste álbum atesta que muito delas beneficou, na medida em que um certo know-how e glamour da movida nele se plasmou. A coexistência de qualidade com sucesso comercial apanhou a crítica desprevenida, mas esta haveria de constatar e consagrar em posteriores álbuns o mais notável processo de credibilização artística que a pop espanhola conheceu. Com efeito, os anos 90 assistiram ao estabelecimento de um outro Miguel Bosè, intelectualizado e intérprete de uma pop sofisticada. Muito para trás havia ficado o jovem que arrebatava adolescentes, o qual, com efeito, pouco parece ter em comum com o Miguel Bosè maduro, dos tempos correntes... No início dessa transfiguração, esteve este álbum, cujo tema mais emblemático, foi não o que o abre, mas o terceiro, Amante Bandido. O seu público ainda era (e continuou sendo até finais da década) primordialmente constituído por adolescentes. A temática e os sinais dominantes ainda lhes são dirigidos, mas a voz, a substância das composições (letra e música) e os arranjos são muito mais consistentes. Por outro lado, não por acaso, aqui aparece um tema inovador na sua trajectória até então: Sevilla. Nesta homenagem à cidade andaluza temos, a todos os títulos, um sinal de amadurecimento. Bandido foi o ponto alto de equilíbrio entre simplicidade e sofisticação na sua carreira.
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domingo, julho 24, 2005

Viagens (21): La Vera e Sierra de Peña de Francia / 2002 (2)

La Alberca

Mais a Norte, já em Castilla y León, província de Salamanca, a Sierra de Peña de Francia tem uma paisagem contrastante com a dos planaltos castelhanos. É uma serrania verdejante que está situada entre a Serra da Malcata (Sierra de Gata) e a Sierra de Gredos. Peña de Francia, propriamente dita, é um agreste penhasco muito alto, que domina toda a paisagem da zona e onde, no topo, se encontra um santuário dedicado a uma virgem negra (é extensa a variedade de cultos a virgens negras por terras de Espanha...). A subida num autocarro por uma empinadíssima estradinha estreita feita de curvas e contra-curvas sem guarda, abeiradas do precipício, foi uma experiência que suscitou algumas emoções fortes. Ainda por cima, foi ingratamente compensada por uma densa nuvem de mosquitos que pairava no topo e importunou o desfrute de uma paisagem de horizontes grandiosos.
Há um rosário de castiças aldeias montanhesas: San Martín del Castañar, Miranda del Castañar, Mogarraz e La Alberca. Vimo-las todas e na última nos assentámos. São lugares encantadores a que imediatamente se pode aplicar o gasto tópico medieval... Somos, regra geral, poupados ao espectáculo dos alumínios e outras discutíveis modernices com que, em matéria de arquitectura popular, uma certa noção de bem-estar afronta o bom-gosto. Nessas aldeias impera uma arquitectura serrana, austera, primitiva, cujo símbolo são os avarandados de madeira. Quase todas têm ainda abundantes vestígios de muralhas e modestos castelos. As igrejinhas têm um ar severo, bem castelhano...
Particularmente notável é mesmo La Alberca. O seu isolamento propiciou o assentamento de uma comunidade de cristãos-novos que aí encontraram um pouco mais de protecção contra as assanhadas perseguições anti-judaicas. Daí, a persistência de algumas características peculiares que reforçam o ar de "terra perdida no tempo". Contudo, está longe de se poder dizer que ficou de fora dos circuitos turísticos. Há, na verdade, um turismo informado e culto que tem, desde há muito, La Alberca, como uma das referências da Espanha que verdadeiramente importa conhecer. Em função desta realidade há alojamento e restaurantes em quantidade, assim como cafés com esplanadas e um vasto comércio de recuerdos. Ficámos num magnífico hotel, de construção recente, cuja fachada se integra totalmente nas características da arquitectura popular local e cuja funcionalidade e conforto sustentam uma excelente relação qualidade / preço.

domingo, julho 17, 2005

Mariachi y tequila (25)


Vicente Fernández / Alejandro Fernández - En vivo juntos por última vez (2003)
Este duplo CD regista um memorável espectáculo de Vicente Fernández e seu filho Alejandro em México DF. Foi galardoado na 4ª edição dos Grammys Latinos como melhor álbum na categoria do género ranchero.
A produção é excelente, dando bem devida conta do ambiente apoteótico de um espectáculo pouco comum, que juntou duas primeiríssimas figuras da música popular mexicana, ligadas por uma emblemática ligação pai/filho e representativas de duas gerações distintas. Cada um por seu lado assegura partes demarcadas do espectáculo, mas há quatro canções interpretadas em dueto. O pai aparece em boa forma, o que é, só por si, garantia de qualidade. Tinha à partida, algumas reservas quanto ao filho. Contudo, o que mais acabou por me surpreender foi verificar que o jovem ídolo progrediu muito desde os seus primeiros passos numa indefinida trajectória entre a balada pop e a canção ranchera. A sua voz e, de um modo geral, todas as suas qualidades interpretativas melhoraram muito. A voz, particularmente, ganhou riqueza e espessura de timbre e está agora capacitada para abarcar géneros variados - tão adequada às rancheras como às baladas convencionais. Auguro excelente carreira para o mais maduros dos potrillos de Don Chente... Mesmo assim, os momentos mais altos coincidem com a presença em palco do velho patriarca, nomeadamente em Acá entre nós e nos duetos Amor de los Dos e Golondrinas sin Nido. Estes dois duetos são extraordinários! O primeiro é um virtuoso exercício de expressividade pelo poder; o segundo é um virtuoso exercício de expressividade pela finura. Uma palavra ainda para mais dois temas: Cuando yo quería ser grande e Mi Vejez. Um é uma comovente declaração de amor filial, sentidamente interpretada por Alejandro; o outro, logo a seguir, de forma quase encadeada, é uma exaltação do sentimento paternal, por Don Chente. Enfim, mais uma belíssima proclamação dos valores tradicionais! Todos estes são momentos muito altos, de grande intensidade emocional. O público, cuja arrebatada participação se faz constantemente sentir, ajuda a criar decisivamente essa intensidade emocional. O auge ocorre no quase mítico Volver, Volver, em que este é vigorosamente chamado a cantar e não se faz rogado... ¡Échale Bonito!
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sábado, junho 18, 2005

Viagens (20): La Vera e Sierra de Peña de Francia / 2002 (1)

Jarandilla de la Vera

Num fim de semana alargado (4 dias) em Junho alinhei numa excursão, com colegas da escola, a Monfragüe, La Vera e Sierra Peña de Francia.
Monfragüe é um Parque Natural junto ao Rio Tejo, província de Cáceres. É interessante pela sua paisagem agreste. Um pequeno passeio pedestre por algumas veredas deu uma cabal ideia da sua riqueza de fauna e flora. Em Paso de los Gitanos o rio passa apertado entre grandiosos penhascos num cenário que faz lembrar as Portas de Ródão, que ficam a cerca de 50 Km a oeste. Na verdade encontrei uma paisagem bem mais interessante do que a maior parte da Extremadura oferece.
A Comarca de La Vera ocupa um vale fértil, no extremo nordeste da província de Cáceres, entre a Sierra de Gredos e o Rio Tiétar. É uma região serrana. O seu micro-clima dá-lhe condições únicas para a produção de cerejas, pimentão (para paprika) e tabaco. A sua singularidade deriva da riqueza e isolamento. Possui bonitas povoações como Jaraiz, Cuacos, Jarandilla e Losar. Em todas predomina um casario branco (não cor de tijolo como é próprio de Castela, Aragão e Extremadura) e na última há um curioso arranjo de jardinaria que consiste em arbustos artisticamente esculpidos, que estão dispostos ao longo de toda a rua principal.
Não houve oportunidade para ver por dentro o mais famoso monumento da região, o Monasterio de Yuste, onde se albergou nos seus últimos dias o imperador Carlos V. Com efeito, Don Felipe, Príncipe de Asturias, resolveu alojar-se aí no dia em que nos preparávamos para visitar o histórico edifício – razões de segurança ditaram o inopinado afastamento de todos os turistas... Contudo, a desfeita foi amplamente compensada pelo desenrolar da viagem. Para começar, comemos e bebemos em pantagruélicos faustos. Tais emoções gastronómicas tiveram lugar em dois lugares a revisitar: Restaurante Carlos V (Losar) e Cueva Puta Parió (Jarandilla). Qualquer ignorante céptico acerca das qualidades da cozinha castelhana coraria de vergonha perante tão arrebatadora exibição... em quantidade e qualidade! O tapeo de entradas (constituído por luxuriante panóplia de queijos, presuntos, espargos e etc...) esteve ao nível dos melhores pergaminhos castelhanos. As piéces de resistence primaram pela qualidade da matéria-prima e abundância. Para concluir, o licor de manzana casero com que fomos brindados proporcionou inspirados êxtases...
Autêntica imersão nas entranhas da Espanha profunda foi um passeio pedestre pelas encostas de Gredos até à serrana povoação de Garganta la Olla, onde uma velhinha nos abriu a porta da igreja local. Era um pueblo isolado, onde se pode apreciar uma certa Espanha à margem do progresso e que escapa aos circuitos turísticos. Contudo, no seu conjunto, La Vera é um vale próspero devido a uma agricultura especializada que ainda vai dando rendimentos. A sua paisagem e características não têm nada a ver com as da Extremadura. É, para todos os efeitos como estivéssemos nas zonas mais montanhosas de Castela, aliás vizinhas.

sábado, junho 04, 2005

Mariachi y tequila (24)

Piérdeme el respeto
Cesse já o que Madonna e muitas outras anoréxicas musas pop-rock cantam! Quanto a mulheres imperativas e decomplexadas prefiro a fórmula Paquita. É ouvir o exemplo disponibilizado pelo Contra-Indicado através do tema Piérdeme el respeto.

sexta-feira, junho 03, 2005

Mariachi y tequila (23)

Rata de dos patas
Ide já de carreirinho ao Contra-Indicado ouvir um tema completo da grande Paquita: Rata de dos patas (y bien morboso...).
PS: Já agora aproveito para o dedicar (com muita estima...) alguém que eu cá sei...

segunda-feira, maio 30, 2005

Mariachi y tequila (22)

Paquita la del Barrio / Banda La Costeña - Paquita la del Barrio con Tambora (1993)
Na carreira discográfica de Paquita la del Barrio distinguem-se três modalidades de orquestração, as quais chegam a ter gravações cujo título alude especificamente a cada uma. Assim, temos Paquita la del Barrio con mariachi, ...con sonora ou ...con tambora. Esta última modalidade tem um carácter irredutivelmente kitsh. A existência de bandas conhecidas como tamboras é um fenómeno genuinamente mexicano, especialmente popular nas zonas norteñas da costa do Pacífico. A que aqui acompanha a diva tem precisamente o nome de La Costeña e é do estado de Sinaloa.
A sonoridade das tamboras não dá para acreditar... É uma charanga tonitruante onde avultam espessos trombones e demais panóplia de metais pesados sobre um fundo compassado de bateria crua. É frequente os cantores populares mexicanos gravarem com tamboras - faz parte de um percurso mais ou menos estabelecido pela tradição. Portanto, Paquita não é inovadora ao fazê-lo. Porém, tendo em conta as suas características, pode-se dizer que a junção é explosiva. Aqui, estão presentes algumas das suas mais morbosas e carismáticas canções, de modo que este álbum se torna num invulgar monumento ao kitsh! Perfeito exemplo é o último tema, Escoria humana, onde são desferidos alguns dos mais soezes insultos com que se pode brindar, neste caso não um homem (como é o mais comum com Paquita), mas uma mulher. A mensagem é adequadamente enquadrada pelo ribombar de trombones.
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