segunda-feira, maio 30, 2005

Mariachi y tequila (22)

Paquita la del Barrio / Banda La Costeña - Paquita la del Barrio con Tambora (1993)
Na carreira discográfica de Paquita la del Barrio distinguem-se três modalidades de orquestração, as quais chegam a ter gravações cujo título alude especificamente a cada uma. Assim, temos Paquita la del Barrio con mariachi, ...con sonora ou ...con tambora. Esta última modalidade tem um carácter irredutivelmente kitsh. A existência de bandas conhecidas como tamboras é um fenómeno genuinamente mexicano, especialmente popular nas zonas norteñas da costa do Pacífico. A que aqui acompanha a diva tem precisamente o nome de La Costeña e é do estado de Sinaloa.
A sonoridade das tamboras não dá para acreditar... É uma charanga tonitruante onde avultam espessos trombones e demais panóplia de metais pesados sobre um fundo compassado de bateria crua. É frequente os cantores populares mexicanos gravarem com tamboras - faz parte de um percurso mais ou menos estabelecido pela tradição. Portanto, Paquita não é inovadora ao fazê-lo. Porém, tendo em conta as suas características, pode-se dizer que a junção é explosiva. Aqui, estão presentes algumas das suas mais morbosas e carismáticas canções, de modo que este álbum se torna num invulgar monumento ao kitsh! Perfeito exemplo é o último tema, Escoria humana, onde são desferidos alguns dos mais soezes insultos com que se pode brindar, neste caso não um homem (como é o mais comum com Paquita), mas uma mulher. A mensagem é adequadamente enquadrada pelo ribombar de trombones.
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terça-feira, maio 10, 2005

Guia hispânico (13)

Camilo José Cela - Mazurca para dois mortos (1983)
Camilo José Cela (Iria Flavia, A Coruña, 1916 - Madrid, 2002) é o escritor mais consagrado das modernas letras espanholas (Prémio Nobel em 1989). Foi representante por excelência de algo bem castelhano - o tremendismo. É um realismo radical (com particular atracção pelo sórdido e brutal) que, no caso deste escritor, foi servido por um crescente experimentalismo na direcção de um neo-barroquismo modernista. Contudo, esta inserção num género tipicamente castelhano (filiado nas tradições da novela picaresca) não nos deve fazer ignorar que era filho de mãe inglesa e pai galego. Cresceu na Galiza rural e este pano de fundo aflora com impacto em muitos dos seus romances.
Em Mazurca para dos muertos predomina um ambiente rural que se revela particularmente manhoso, violento e desbragado. Sucedem-se as peripécias grotescas que nos são servidas por uma escrita que denota ironia e humor cruel. Essa Galiza rural, labrega, quase selvagem, emerge assim brutalmente desse brando manto de bruma e chuva miudiña... Algo sempre me seduziu em Cela: a sua arrogante truculência era completamente alheia aos convencionalismos, nomeadamente o nauseante moralismo do politicamente correcto. Esse carácter transparece nos seus romances.
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Galícia (6)

Antón Seoane / Rodrigo Romani - Milladoiro (1977)
Antes de ser um grupo - o mais famoso do folk galego - Milladoiro foi um álbum realizado por Antón Seoane, Rodrigo Romani e Xosé Ferreirós (este último ainda num plano secundário em relação aos dois primeiros). Tornar-se-iam depois os fundadores e a espinha dorsal dos Milladoiro. São originários da zona do Xiabre, onde o Rio Sar se torna na Ria de Arousa, entre Catoira e Padrón - norte da Província de Pontevedra, bem perto de Santiago de Compostela. Aliás, Milladoiro é o nome dado aos montículos de pedrinhas que os peregrinos formavam ao longo do Caminho de Santiago e é também o nome de uma pequena localidade da região.
Este álbum é uma referência para a música tradicional galega. Foi inteiramente elaborado com instrumentos tradicionais e obedeceu a uma ortodoxia purista que é contrastante com a sonoridade que acabaria por se tornar mais identificadora do folk galego, incluindo a sonoridade do grupo Milladoiro. Aqui soa uma música exclusivamente instrumental, mas austera e quase primitiva. Entre marchas processionais e pasacorredoiras decorre um exercício de reconstituição de uma música perdida no tempo, vinda directamente das vísceras rurais de uma Galiza intrínsecamente arcaica. Como estamos longe do aparato do folk céltico! A imagem da capa, com uma velhíssima foto de uma pobre família de músicos ambulantes pelas ruas de Tui, é um adequada apresentação para o conteúdo.
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Galícia (5)

Juan Pardo - Alma Galega (1997)
Juan Pardo foi nos finais dos anos 60 e início dos anos 70 um dos mais destacados nomes da jovem música pop espanhola, como destacado integrante do grupo Los Brincos. Com o passar dos anos tornou-se um importante nome da canção ligeira, contabilizando alguns êxitos de vendas e tornando-se um artista com impacto em toda a geografia espanhola e América Latina. Contudo, pontualmente, sentiu necessidade de afirmar a sua condição e origem. Com efeito, apesar de ter nascido em Palma de Mallorca, essa circunstância fora casual. Era filho de galegos e nunca deixou de afirmar a sua própria identidade galega. Assim, encontram-se ao longo da sua carreira discográfica algumas gravações que o atestam, nomeadamente uma em que colige os mais importantes hinos do galeguismo histórico. É, aliás, um curioso contraste dentro de uma carreira basicamente convencional... Porém, o culminar desses tributos à Galiza é este duplo CD. É uma regravação, cuidadosamente produzida, de todos (ou quase) os temas galegos previamente interpretados. Colaboram alguns dos mais destacados cantautores, como Amancio Prada, Maria del Mar Bonet, Joan Manuel Serrat, assim como consagrados músicos folk, como Xosé Manuel Budiño e Carlos Nuñéz. Deve-se dizer que se o valor do conjunto é desigual, a verdade é que em alguns temas, particularmente nos pot-pourris de temas populares, se atinge uma sonoridade de entranhada alma galega...
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Galícia (4)

Amancio Prada - Caravel de Caraveles (1976)
É um dos primeiros álbuns de Amancio Prada e assinala uma evolução - é um trabalho plenamente inserido no domínio da música tradicional galega, pura e dura. Permanece até hoje como uma obra de referência. Impera o recurso a instrumentos tradicionais - o protagonismo vai para a sanfona, a qual, não por acaso, aparece na capa. A sonoridade soturna e melancólica deste instrumento dá o tom, o qual se reforça com o carácter de muitos temas e com a voz de Prada. É um álbum de refinada beleza. Dir-se-ia marcado pela morriña e pela chuva miudiña, marcas indeléveis da alma galega.
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Viagens (19): Picos de Europa / 2001 (12)

6º Dia – 9 de Abril (2ª Feira)

O Porriño, fica no sul da Província de Pontevedra, a um tiro da fronteira. A ideia inicial era regressar daqui directamente para a casa, contudo a proximidade de Vigo e do El Corte Inglés foram mais fortes... Assim, manhã cedo rumei a Vigo. Na descida para a cidade não fui contemplado com a visão benfazeja do anfiteatro de vasto casario, da Ria e das Ilhas Cíes, pois havia neblina. Poucas cidades conheço tão bem como Vigo. Sem exagero devo ter lá ido uma dúzia vezes, pelo menos metade a partir do Porto. Apesar de ser uma cidade muito agradável e sempre interessante, tratava-se neste caso, apenas, de dar vazão a uma pulsão consumista... Foi também uma oportunidade para, uma vez mais, experimentar na cafeteria de El Corte Inglés o característico pequeno-almoço de Madrid - churros mergulhados em espesso chocolate. Estes famosos armazéns, estejam em que sítio de Espanha estiverem, têm, digamos assim, a faculdade de servir tudo o que é próprio da capital do império...
Pela enésima vez, fiquei espantado pela oferta de livros que há Espanha e pelos seus preços. Entre outras coisas, há uma oferta de mapas capaz de suprir as necessidades elementares de um aficionado pela Geografia, como é o meu caso e há, enfim, uma muito mais ampla oferta de traduções em todas as áreas. De facto, mesmo numa cidade periférica como Vigo isto nota-se. O resultado: mais um violento desfalque no cartão Visa... Foi em precárias condições que debandei para casa, auto-estrada fora, com meia dúzia de tostões na carteira e o saldo Visa quase no limite... Num ápice passei a fronteira e atravessei o Alto Minho. Nem sequer prestei vassalagem à minha "Sempre Invicta" e mal dei por mim, estava tardiamente a almoçar sanduíches na Área de Serviço de Antuã. Às cinco horas estava em casa.

quarta-feira, abril 27, 2005

Vademecum (3)

Henriette Walter - A aventura das línguas do ocidente (1994)
Para quem se interessa muito por línguas, não sendo, nem pretendendo ser, porém, um especialista, este é um livro a ler. De uma forma bastante acessível temos aqui um compêndio sobre a história e geografia das línguas europeias. É mais um exemplo de como a erudição pode estar eficazmente ao serviço da divulgação.
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Vademecum (2)

Richard Hill - Nós, Europeus (2001)
É um livro de leitura fácil. Em tom de divertida sátira, por vezes caricatural, aqui e ali raiando a polémica, um jornalista inglês, que apropridamente vive em Bruxelas, vai dando as suas impressões sobre o que se pode designar como temperamento colectivo (a pertinência do conceito é discutível...) dos vários povos da europeus. Alguns títulos de capítulos podem ajudar a perceber o teor destas considerações:
Os britânicos: uma sociedade sentimental;
Os franceses: os individualistas curiosos;
Os alemães: os místicos metódicos;
Os espanhóis: os igualitários egocêntricos;
Os italianos: os estetas por natureza;
Os luxemburgueses: os internacionalistas introvertidos;
Os holandeses: os dogmáticos democratas;
Os suiçps: os pacifistas práticos;
Os austríacos: os esquizóides sentimentais;
A orla céltica: a maravilha do Ocidente;
Os noruegueses: os marginais obstinados;
Os dinamarqueses: os extrovertidos empreendedores;
Os suecos: os realistas racionais;
Os finlandeses: os pragmáticos apaixonados;
Os portugueses: os românticos passivos;
Os gregos: os improvisadores inteligentes;
Os húngaros: os analistas lúcidos;
Os eslavos: uma miscelânea cultural.
Há observações certeiras, outras desajustadas, mas há, sobretudo, bastante verve e o resultado é muito divertido, sem deixar de ser instrutivo.
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Vademecum (1)

Felipe Fernández-Armesto (dir) - Los hijos de Zeus / Pueblos, etnias y culturas de Europa (1994)
Bem perto de nós há lugares distantes. Frequentemente se esquece que a Europa é um denso mosaico de povos, etnias e culturas. Muitas vezes as diferenças entre vizinhos são dramáticas. Para alá da retórica, os europeus ignoram-se mutuamente, mais do que se supõe. Por detrás de lugares-comuns desde há muito entranhados, cada povo encarregou-se de fixar uma imagem e opinião sobre a vizinhança e estas ficaram fixadas ao longo dos tempos. A maior parte das vezes esta percepção da vizinhança é francamente hostil, por razões compreensíveis ou não - em larga medida este cenário sustentou um passado de guerras... Seja como for permanece uma espantosa ignorância - quem sabe, por exemplo, que a afinidade linguística entre finlandeses e escandinavos é quase nula? Que o mesmo se pode dizer da afinidade dos húngaros com os seus vizinhos eslavos? Ou que os bascos a terem alguma remota afinidade é, precisamente com hungaros e finlandeses? Quem tem a noção de que o que é hoje toda a periferia da França foi até finais da Idade Média um denso mosaico de línguas? Quem sabe que, desde finais da Idade Média as elites do Noroeste de Itália se tornaram francófonas e as do Norte e Nordeste germanófonas? Todas estas coisas e muitíssimas mais constam desta autêntica enciclopédiazinha - obra colectiva, dirigida pelo professor espanhol de Oxford, Fernández-Armesto. Para mim é um vademecum.
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