terça-feira, maio 10, 2005

Galícia (4)

Amancio Prada - Caravel de Caraveles (1976)
É um dos primeiros álbuns de Amancio Prada e assinala uma evolução - é um trabalho plenamente inserido no domínio da música tradicional galega, pura e dura. Permanece até hoje como uma obra de referência. Impera o recurso a instrumentos tradicionais - o protagonismo vai para a sanfona, a qual, não por acaso, aparece na capa. A sonoridade soturna e melancólica deste instrumento dá o tom, o qual se reforça com o carácter de muitos temas e com a voz de Prada. É um álbum de refinada beleza. Dir-se-ia marcado pela morriña e pela chuva miudiña, marcas indeléveis da alma galega.
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Viagens (19): Picos de Europa / 2001 (12)

6º Dia – 9 de Abril (2ª Feira)

O Porriño, fica no sul da Província de Pontevedra, a um tiro da fronteira. A ideia inicial era regressar daqui directamente para a casa, contudo a proximidade de Vigo e do El Corte Inglés foram mais fortes... Assim, manhã cedo rumei a Vigo. Na descida para a cidade não fui contemplado com a visão benfazeja do anfiteatro de vasto casario, da Ria e das Ilhas Cíes, pois havia neblina. Poucas cidades conheço tão bem como Vigo. Sem exagero devo ter lá ido uma dúzia vezes, pelo menos metade a partir do Porto. Apesar de ser uma cidade muito agradável e sempre interessante, tratava-se neste caso, apenas, de dar vazão a uma pulsão consumista... Foi também uma oportunidade para, uma vez mais, experimentar na cafeteria de El Corte Inglés o característico pequeno-almoço de Madrid - churros mergulhados em espesso chocolate. Estes famosos armazéns, estejam em que sítio de Espanha estiverem, têm, digamos assim, a faculdade de servir tudo o que é próprio da capital do império...
Pela enésima vez, fiquei espantado pela oferta de livros que há Espanha e pelos seus preços. Entre outras coisas, há uma oferta de mapas capaz de suprir as necessidades elementares de um aficionado pela Geografia, como é o meu caso e há, enfim, uma muito mais ampla oferta de traduções em todas as áreas. De facto, mesmo numa cidade periférica como Vigo isto nota-se. O resultado: mais um violento desfalque no cartão Visa... Foi em precárias condições que debandei para casa, auto-estrada fora, com meia dúzia de tostões na carteira e o saldo Visa quase no limite... Num ápice passei a fronteira e atravessei o Alto Minho. Nem sequer prestei vassalagem à minha "Sempre Invicta" e mal dei por mim, estava tardiamente a almoçar sanduíches na Área de Serviço de Antuã. Às cinco horas estava em casa.

quarta-feira, abril 27, 2005

Vademecum (3)

Henriette Walter - A aventura das línguas do ocidente (1994)
Para quem se interessa muito por línguas, não sendo, nem pretendendo ser, porém, um especialista, este é um livro a ler. De uma forma bastante acessível temos aqui um compêndio sobre a história e geografia das línguas europeias. É mais um exemplo de como a erudição pode estar eficazmente ao serviço da divulgação.
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Vademecum (2)

Richard Hill - Nós, Europeus (2001)
É um livro de leitura fácil. Em tom de divertida sátira, por vezes caricatural, aqui e ali raiando a polémica, um jornalista inglês, que apropridamente vive em Bruxelas, vai dando as suas impressões sobre o que se pode designar como temperamento colectivo (a pertinência do conceito é discutível...) dos vários povos da europeus. Alguns títulos de capítulos podem ajudar a perceber o teor destas considerações:
Os britânicos: uma sociedade sentimental;
Os franceses: os individualistas curiosos;
Os alemães: os místicos metódicos;
Os espanhóis: os igualitários egocêntricos;
Os italianos: os estetas por natureza;
Os luxemburgueses: os internacionalistas introvertidos;
Os holandeses: os dogmáticos democratas;
Os suiçps: os pacifistas práticos;
Os austríacos: os esquizóides sentimentais;
A orla céltica: a maravilha do Ocidente;
Os noruegueses: os marginais obstinados;
Os dinamarqueses: os extrovertidos empreendedores;
Os suecos: os realistas racionais;
Os finlandeses: os pragmáticos apaixonados;
Os portugueses: os românticos passivos;
Os gregos: os improvisadores inteligentes;
Os húngaros: os analistas lúcidos;
Os eslavos: uma miscelânea cultural.
Há observações certeiras, outras desajustadas, mas há, sobretudo, bastante verve e o resultado é muito divertido, sem deixar de ser instrutivo.
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Vademecum (1)

Felipe Fernández-Armesto (dir) - Los hijos de Zeus / Pueblos, etnias y culturas de Europa (1994)
Bem perto de nós há lugares distantes. Frequentemente se esquece que a Europa é um denso mosaico de povos, etnias e culturas. Muitas vezes as diferenças entre vizinhos são dramáticas. Para alá da retórica, os europeus ignoram-se mutuamente, mais do que se supõe. Por detrás de lugares-comuns desde há muito entranhados, cada povo encarregou-se de fixar uma imagem e opinião sobre a vizinhança e estas ficaram fixadas ao longo dos tempos. A maior parte das vezes esta percepção da vizinhança é francamente hostil, por razões compreensíveis ou não - em larga medida este cenário sustentou um passado de guerras... Seja como for permanece uma espantosa ignorância - quem sabe, por exemplo, que a afinidade linguística entre finlandeses e escandinavos é quase nula? Que o mesmo se pode dizer da afinidade dos húngaros com os seus vizinhos eslavos? Ou que os bascos a terem alguma remota afinidade é, precisamente com hungaros e finlandeses? Quem tem a noção de que o que é hoje toda a periferia da França foi até finais da Idade Média um denso mosaico de línguas? Quem sabe que, desde finais da Idade Média as elites do Noroeste de Itália se tornaram francófonas e as do Norte e Nordeste germanófonas? Todas estas coisas e muitíssimas mais constam desta autêntica enciclopédiazinha - obra colectiva, dirigida pelo professor espanhol de Oxford, Fernández-Armesto. Para mim é um vademecum.
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sábado, abril 23, 2005

Guia hispânico (12)

Fotos da Revolução Mexicana (in The New York Times)
Emiliano Zapata (1915); Coluna revolucionária (1913); Mulheres à porta da prisão de Belén (México, DF) (1920)
Zapata e Villa são os dois mais importantes mitos da Revolução Mexicana. Contudo a relevância que ambos tiveram no imenso complexo desse movimento foi menor do que à primeira vista se possa supor, quanto mais não seja porque estavam à margem das facções vitoriosas. Por outro lado, o conteúdo social que se pode associar a ambos é também incorente e difuso, sobretudo no que diz respeito a Pancho Villa. Este último, aliás, está muito próximo do banditismo tradicional e integra-se num conjunto de caudilhismos plebeus que nessa época imperou por todo o México Norteño. Zapata tem pouco a ver com essa matriz. Emerge no Centro/Sul, no coração do mais tradicional México indígena, sobre um explosivo caldo de terríveis desigualdades sociais centradas em torno da terra. Há efectivamente uma fortíssima pulsão social no zapatismo. De algum modo esta vertente acabou por ser incorporada teoricamente nos valores vitoriosos da Revolução e acabou, na prática, por sustentar a reforma agrária dos anos trinta, com Lázaro Cárdenas.

sexta-feira, abril 22, 2005

Para siempre boleros! (9)

Nuria Villazán - Machin: Toda una vida (2002)

Foi editado em DVD este documentário sobre a vida de Antonio Machin. É do melhor que no género já pude apreciar. Apresenta uma vasta recolha de depoimentos de muitos dos que com ele conviveram: familiares, amigos e companheiros. Reúne excertos de espectáculos televisivos e algumas sequências de entrevistas. É um valioso documento.
Nasceu no Oriente de Cuba. Era filho de uma negra e de um modesto imigrante galego. Contudo, apesar destas origens, cedo se lançou na vida artística, obtendo imediata projecção. Não tardou que integrasse, como membro mais destacado, um grupo que teve oportunidade de gravar e actuar nos EUA. Nos anos trinta esteve, assim, na vanguarda da divulgação dos sons latinos. El Manicero é um símbolo destes tempos ainda pré-bolero. Com o mesmo grupo chega à Europa - primeiro Londres; depois Paris. Nesta cidade encontrará um ambiente mais propício ao prosseguimento da carreira. Com uma agenda de espectáculos preenchida e fama firmada, ali permaneceu até à eclosão da 2ª Guerra Mundial. Esta assinalou, porém, uma drástica mudança de ambiente. Rumou a Espanha, mais concretamente a Barcelona, onde era desconhecido e onde se viviam os tempos de penúria do pós-Guerra Civil. Era difícil imaginar pior contexto para relançar a carreira. "Comeu o pão que o diabo amassou", mendigando trabalho em obscuras casas de espectáculos de uma Barcelona deprimida e sem um duro para gastar para além das necessidades básicas. Lentamente, porém, tudo foi melhorando. À medida que a cidade ia saindo desta penumbra, emergia a sua voz melancólica cantando amores arrebatados, enfim, aquellos boleros que encheram o coração de uma Espanha derreada pela pobreza e opressão nos anos de chumbo do franquismo... Em meados dos anos quarenta tinha já readquirido a fama de outros tempos e lugares. A bandeira desses anos é Angelitos Negros, cujo retumbante êxito assinalou a sua conversão como mito da cena musical espanhola. Daí para diante estará sempre no primeiro plano. Mas sonado que las maracas de Machin tornar-se-á uma expressão coloquial para vincar o grande poder mediático de algum facto ou fenómeno. Na verdade, Machin tornou-se, mais que qualquer outro, no bolerista de Espanha. Para este facto contribuiu a sua ascedência paterna, mas sobretudo, o seu casamento (longo e... feliz!) com uma sevilhana de boas famílias. Um casamento que, desde logo, questionou profundos preconceitos racistas... Abdicou de viver em Barcelona e nunca chegou, propriamente, a viver em Madrid. Radicou-se na cidade da sua mulher, de onde partia em cíclicas tournés por Espanha. Pode-se dizer que tornou-se um sevilhano... de pele mais escura. Aí está enterrado.
Para além de um exímio profissional, Machin era um homem bom. Em todo o caso, quero salientar a qualidade única da sua voz frágil mas expressiva, com um timbre melancólico inimitável. Transporta em si como que uma lamento que a faz adequar-se àqueles boleros mais tristes...
A realização deste documentário é excelente. Foge ao convencionalismo de várias maneiras, nomeadamente renunciando ao fio cronológico expositivo e assegurando um ritmo vivo e imaginativo.
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quinta-feira, abril 21, 2005

Euskal Herria (14)

Oskorri: Vizcayatik... Bizkaiara (2001)
Oskorri é o mais importante grupo folk basco. Desde os anos setenta tem produzido uma extensa discografia assente na música tradicional basca, explorando-a em todos os seus âmbitos num sentido mais ou menos fusionista. Este álbum é dedicado a Vizcaya e incide em temas rítmicos, dançantes. É um trabalho magnificamente produzido. Ainda que sem alcançar o nível dos melhores (situados segunda metade dos anos 80), não deixa de ser uma boa opção para começar a conhecer o grupo.
Uma nota para a língua basca ou euskera, cuja aspereza indicia uma difícil musicalidade. Tal ideia carece de fundamento. Quer aqui, quer, sobretudo, noutros trabalhos que enveredam por caminhos mais melodiosos, Natxo de Felipe demonstra-o, com a sua voz suave e quente. Vem ainda a propósito referir que toda a metade leste da província de Vizcaya permanece euskaldun, ou seja, falante de euskera. Algo que já não sucede na parte oeste, nomeadamente, na capital, Bilbao. Em todo o caso, no leste de Vizcaya a língua basca tem grande vitalidade. As outras áreas ainda efectivamente euskaldun são toda a província de Guipúzcoa, o norte de Navarra e as zonas mais rurais de Iparralde (conjunto das províncias bascas sob soberania francesa).
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quarta-feira, abril 20, 2005

Euskal Herria (13)

Albatzisketa: uma aldeia no coração de Euskal Herria
Assim votou Albatzisketa (Tolosaldea, Guipúzcoa), aldeia situada no sopé do Monte Txindoki, - nas eleições autonómicas do passado domingo:

95 (57,9%) EAJ/PNV-EA
54 (32,9%) EHAK/PCTV
7 (4,2%) EB-IU
5 (3,0%) Aralar
2 (1,2%) PP
1 (0,6%) PSE-EE
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(A verde: os partidos e coligações do nacionalismo basco)
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- EHAK/PCTV Euskal Herrialdeetako Alderdi Komunista / Partido Comunista de las Tierras Vascas (1)
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(1) Partido surgido muito recentemente. Recebeu indicação de voto por parte Aukera Guztiak (ex Batasuna), cuja candidatura às eleições foi anulada por decisão judicial (relações com ETA)
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Albatzisketa é uma aldeia representativa de um País Basco profundo, rural. Para se ter um noção global dos resultados das eleições, consultar: