quarta-feira, abril 20, 2005

Euskal Herria (13)

Albatzisketa: uma aldeia no coração de Euskal Herria
Assim votou Albatzisketa (Tolosaldea, Guipúzcoa), aldeia situada no sopé do Monte Txindoki, - nas eleições autonómicas do passado domingo:

95 (57,9%) EAJ/PNV-EA
54 (32,9%) EHAK/PCTV
7 (4,2%) EB-IU
5 (3,0%) Aralar
2 (1,2%) PP
1 (0,6%) PSE-EE
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(A verde: os partidos e coligações do nacionalismo basco)
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- EHAK/PCTV Euskal Herrialdeetako Alderdi Komunista / Partido Comunista de las Tierras Vascas (1)
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(1) Partido surgido muito recentemente. Recebeu indicação de voto por parte Aukera Guztiak (ex Batasuna), cuja candidatura às eleições foi anulada por decisão judicial (relações com ETA)
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Albatzisketa é uma aldeia representativa de um País Basco profundo, rural. Para se ter um noção global dos resultados das eleições, consultar:

terça-feira, abril 19, 2005

terça-feira, abril 12, 2005

Mariachi y tequila (21)

Vicente Fernández - Vicente Fernández y sus corridos consentidos (2005)
Na remessa de CD's recém-chegados dos EUA e de Espanha este perfilava-se como o mais sugestivo. Comecei por ele e, na verdade, dele ainda não saí... Considero-me em bem-aventurado transe, escutando-o repetidamente e encontrando cada vez mais motivos de deleite. Saiu há poucos dias (México e EUA) e assinala uma retorno. Com efeito, há 25 anos que Vicente Fernández não fazia um álbum exclusivamente de corridos. Tem, portanto, coerência temática. Além disso, é produzido com inusitado requinte, o qual se manifesta no grafismo do encarte (explanando pletórica iconografia da Revolução Mexicana), na qualidade da gravação e dos executantes. A voz, essa está melhor do que nunca. Continua poderosa e rica de nuances, tendo vindo a ganhar, com o tempo, um acento agreste. Fora do mundo da ópera não haverá voz, com excepção da de Mina, tão versátil. Num ápice vai do sussurro ao troar poderoso, sem fissuras. É expressiva nos mais diferentes registos e alardeia grandiosidade. Ou seja, as qualidades da interpretação de Vicente Fernández e a esmerada produção (Pedro Ramírez) puseram de pé um trabalho modelar! Todos os temas são fortes e todos se inserem na categoria de corridos tradicionais. Destaco: Valentín de la Sierra; El martes me fusilan - evocação dos levantamentos católico-tradicionalistas (Los Cristeros) contra o laicismo militante dos governos de Obregón e Calles nos anos 30; Valente Quintero; Los dos hermanos - um jogo de vozes entre um dueto sottovoce de Alejandro Fernández e Vicente Fernández Jr e a voz tenor do pai e protagonista, Don Chente; Le pusieron 7 leguas (mais um tema para a longa série de homenagens a cavalos).
É um álbum épico e, na intrínseca rudeza da sua matéria, na forma exímia como a trata, é sublime! A rudeza é a própria do género ranchero e, em particular, do corrido. Rudeza inscrita na temática das crónicas narradas, muitas delas centradas em heróis da Revolução Mexicana (1910-1919), mais ou menos subsidiárias da mítologia de Pancho Villa e Emiliano Zapata. São efectivamente crónicas, desenrolando tramas com impacto, repletas de violência. O epílogo chega, quase sempre, com a morte do herói, em estereotipado dramatismo. Sucedem-se cenas de fanfarronadas, desplantes absurdos e caprichos cruéis. Enfim, o politicamente correcto vive numa galáxia muito distante, como se pode apreciar neste exemplo: "que bonitos son los hombres que se matan pecho a pecho, cada uno con su pistola, defendiendo su derecho" (corrido de Arnulfo González).
Estes corridos consentidos entraram há muito na categoria de clássicos populares. Foi uma forma comum de perpetuar a memória de bandoleros, soldados, charros valientes y... caballos. É um completo devocionário de virtudes viris e valores essenciais. Aliás, o álbum tem uma faixa extra multimédia, que é um filme de animação, cujo enredo é significativo: Don Chente e seus dois filhos (Alejandro e Vicente Jr), passeando a cavalo, inquirindo estes sobre o seu famoso currículo de conquistador; o patriarca não dá confiança para se discutir o assunto, mas acaba por sair de cena abraçado a uma jovem, com visível vaidade de todos. É significativo, sobretudo, pela cumplicidade de valores varonis estabelecida entre pai e filhos. Na verdade, deste universo de corridos rancheros, o mulherio está num plano secundário. O seu lugar é o de figurante que ajuda a dar nexo à trama ou embeleza a paisagem. A excepção é enquanto mala mujer e/ou objecto de disputa, tornando-se um detonador de desgraças. Seja como for, como é evidente, não se deixa de cantar (e muito) o sexo, mas sempre em rigoroso plano machista. Os afectos e emoções que predominam são o amor paternal, o filial, o fraternal, assim como a camaradagem. Afectos e emoções que se sustentam em valores - precisamente os mais tradicionais e que, no caso, formam parte de uma imagem de um México profundo, que é já um mito. Enfim, para quem esse mito é sedutor e, particularmente, para quem conhece e gosta mesmo de música ranchera este álbum não é um apenas um álbum muito bom, é um objecto de culto!
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sexta-feira, abril 08, 2005

Tiro ao Alvo (2)

Viva Carlos e Camila!
São feios, antipáticos, flagrantemente fora de moda. Carentes de glamour. Pouco mediáticos, enfim... O príncipe é mesmo um bota de elástico, de gostos trivialmente convencionais. Não é nada espontâneo e tresanda a formalismo serôdio. Ela arrasta o estigma de adúltera e meio mundo revê nela o sempiterno estereótipo da bruxa feia... e ainda por cima (once more) a-d-ú-l-t-e-r-a! Pior ainda quando paira sobre eles a imagem da Princesa Diana... (um dos mitos mais idiotas entre todos os muitos que o hodierno circo mediático tem fabricado)
Eu gosto deste casal. Para já são a prova provada contra as beldades que pode haver um lugar de encontro para o amor ao qual não se chega necessariamente por essa vantagem adicional. São também a prova provada contra os cobardes que muitas e muitas vezes para chegar a esse lugar é preciso ter coragem.
Hurra, hurra e hurra!

Mariachi y tequila (20)

Vicente Fernández - Que de raro tiene (1992)
Eis aqui uma imersão na música ranchera pura e dura, com a vantagem de ser servida em produção de qualidade (neste género, a qualidade de produção só começa a aparecer a partir de meados de oitenta). Além de que é um Don Chente mais que maduro, cuja voz alardeia o mesmo poder de sempre, mas robustecida por uma patine que a torna mais vibrante e quente. Depois, temos uma secção de metais portentosa! A forte presença de metais no mariachi é um dos elementos que mais me atrai (ao contrário do que se possa pensar só aparece nos anos trinta).
Os treze temas são castiços e a maioria é espectacular. A saber: Que de raro tiene; La fiesta; Acá entre nos; Soñanando en Garibaldi; Maldita sea; El regalo; Soliloquio de un toro viejo. É uma paisagem povoada por mulheres traiçoeiras e paixões funestas. O tema inicial, Que de raro tiene é uma pungente rendição perante o desgraçado poder sedutor das mulheres, com um toque de fragilidade, dir-se-ia pouco acorde com a rudeza ranchera.. La fiesta é um corrido divertido que sugere o ambiente das parrandas charras (Mundo Charro); Acá entre nos leva-nos à duplicidade do discurso do macho ferido (o que é dirigido para a "galeria" e o da confidência íntima), servido por uma bela melodia, por um magistral jogo entre metais e violinos e por uma voz arrebatadamente dorida... Soñando en Garibaldi evoca inspiradamente alguma da simbologia mariachi (Plaza Garibaldi, México, DF). Maldita sea é um programa de acção frente à mulher traiçoeira (ni una sonrisa más, ni una mirada... la deuda que nos deja un mal amor hay que cobrarla...). Como sucede noutros temas, a meio solta uma imprecação (naquele empolgante sotaque genuinamente mexicano...), a qual é aqui ainda mais visceral, se possível... Regalo transporta-nos para a paixão equestre do cantor e também para um dos mitos da revolução mexicana - Emiliano Zapata. O narrador, vendo que El Jefe (pronunciado com incisivo ênfase) se sentia atraído pelo seu cavalo, oferece-o em nome da causa. Era a criatura que mais estimava na vida. Morrerá numa batalha... Por fim, Solilóquio de un toro viejo, é bem original. Não é cantado, mas sim declamado em toada melancólica, contrastante com um fundo musical distante de mariachi parrandero. Desabafa o velho touro decadente, relembrando antigas glórias. Para escapar ao triste fim dos touros velhos (ahí dijo el caporal que por tanto haber vivido no cumplían su cometido procedamos a castrarlos a la engorda incorporarlos...) resolve fugir em busca de morte digna (yo prefiero en mis mogotes ser pasto de zopilotes pero sí morir entero). Deste modo se despede o álbum numa cabal demonstração de fantasia charra... ¡Arriba Don Chente!
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quinta-feira, abril 07, 2005

Mariachi y tequila (19)

Escreveu um dia o saudoso cantautor espanhol Carlos Cano:
"Nunca he conocido um país más grandioso y exagerado que Méjico. Pertenece a una realidad más cercana a la magia que a la tierra, por eso me gusta tanto. No tiene sentido de la medida. Como casi todo lo determinante, lo crudo, se desborda a sí mismo" (Carlos Cano in El color de la vida, 1996, pág. 40)"

quarta-feira, abril 06, 2005

Viagens (18): Picos de Europa / 2001 (11)

5º Dia – 8 de Abril (Domingo)(tarde)
O Barco de Valdeorras é uma cidadezinha encaixada entre entre montanhas. Tem uma aparência genuinamente galega. Aí almocei num restaurante popular, ouvindo entre os comensais o afável bon proveito.... Depois, no parque, junto ao rio, escutei, entre idosos, uma conversa em galego do mais puro.
Retomei o caminho por uma estrada que entra no extremo sul da província de Lugo - comarca de Monforte de Lemos. Estas foram terras do senhorio de Traba, o que me fez lembrar Dona Tarasia ou Teresa (mãe de D. Afonso Henriques), que nestes pagos de seu amante veio perecer. Em breve me encontrei com o rio Miño, que surgiu em fundo vale, com uma imponência desconhecida, largo e caudaloso. Com ele reentrei na província de Ourense.
Ourense é, pelos pergaminhos de uma vasta plêiade de intelectuais, o centro do galeguismo lusófilo. Aqui se fala o galego mais descastelhanizado e se encontram os mais numerosos e entusiastas defensores da ortografia portuguesa. Sabia que era uma cidade interessante, mas, na verdade, revelou-se mais interessante do que supunha... O centro situa-se numa encosta. A ligação entrea parte mais antiga e a mais comercial faz-se por uma animada artéria pedonal, a Rúa do Paseo. O enquadramento da cidade é magnífico, num amplo vale formado pela confluência do Barbanza com o Miño. Pena é que, como sucede nas cidades galegas, a periferia urbana seja algo desarrumada...
Tomei a autovía das Rías Baixas, que segue na direcção de Vigo. É grandiosa a forma como corre pelo vale do Miño, saltando de margem em margem. Na comarca de O Ribeiro detive-me em Ribadavia. Lembrei-me de um canto popular com que Amancio Prada abre Caravel de Caraveles: “O cantar do arrieiro é um cantar moi baixiño / cuando canta en Ribadavia, resoa n’O Carballiño”. Quase todos os amoladores são desta região; com a sua gaita, que chama a chuva da terra distante, com a sua morriña e com a sua desconfiança labrega, chegaram a Lisboa, Madrid, Barcelona, Buenos Aires. Foram trás a roda.... Ribadavia é a terra do vinho Ribeiro, de amoladores, taberneiros e carvoeiros emigrados – aquele tipo de gente que inspira aforismos como: “se encontras um galego a meio de uma escada nunca sabes se vai a descer ou a subir”.
Já o sol ia baixo quando entrei na comarca de O Condado, província de Pontevedra. Pernoitei nos arredores de Vigo, em O Porriño, num motel bem suspeito... Eram apartamentos com garagem, onde os carros ficam ocultos de olhares curiosos. Havia espelhos espampanantes no quarto e filmes porno em circuito vídeo interno. Em que divertidos equívocos pode cair um incauto, levado pelas omissões de um guia de cheques de hotel...

Galícia (3)

Vigo (Antes de 1939)
Estes postais são muito antigos, mas não tenho modo de saber a data a que se reportam. Seguramente são anteriores a 1939 (fim da Guerra Civil). Entre outras coisas dão a visão de uma cidade penetrada por muitos sinais do mundo rural envolvente. Para quem, como eu, a conhece bem, é divertido comparar estas imagens com as que me são familiares.
Vigo é a maior cidade da Galiza, mas a sua importância é relativamente recente. Na verdade, no início do século XX não ultrapassava muito, em número de habitantes, a vizinha Pontevedra, o que hoje parece inverosímil. Foi só com a incorporação de Bouzas, Lavadores e vários outros povoados limítrofes que se tornou na mais populosa cidade da Galiza. Reflectindo esta realidade, ainda hoje, a capital de província é Pontevedra, apesar de Vigo ser quatro vezes maior.
É uma cidade simpática que beneficia de um enquadramento natural magnífico. Contudo, "cheira a peixe", ou seja, é marcante a influência das actividades marítimas, nomeadamente a pesca, na sua vida quotidiana. É, destacadamente, o principal porto pesqueiro de todo a Europa. Não por acaso, tem aí a sua sede Pescanova. Contudo, muitas outras indústrias se foram instalando (por exemplo, a Citroën), fazendo desta cidade a mais industrial da Galiza.

Galícia (2)

Muxicas - Parolada (1982)
Este é o primeiro álbum de Muxicas, grupo de música tradicional que posteriormente alcançaria alguma projecção. Neste altura, porém, era ainda pouco mais de que um organizado passatempo de vizinhos que se dedicavam à música e a outras formas de cultura popular tradicional. Tinham surgido quatro anos antes, a partir do grupo Lembranzas Galegas. A imagem é a da capa do ábum. Aí todos aparecem ataviados como manda a tradição. A foto foi tirada no cimo de uma escadaria situada bem no centro de Vigo, próximo da Ribeira de Berbés.
A produção deste LP esteve isenta de requintes, constrangida por evidentes limitações, ou não se tratasse de grupo cuja expressão era ainda meramente local. Contudo, a sua qualidade advém da simplicidade de meios e está patente na forma despojada como abordaram um repertório tradicional ortodoxo. Há pouco artificialismo de folk céltico. Há, isso sim, tradição popular muito perto da efectivamente praticada enquanto tal. Há também competência no desempenho instrumental. O som proporcionado pelos dois gaiteiros é um dos mais vibrantes que já me foi dado ouvir - algo que se aprecia particularmente na arrebatadora Riveirana que encerra o álbum.
Uma nota final para o título Parolada, que nos pode soar mal. No Porto, por exemplo, a expressão parolo é depreciativa e qualifica alguém que vem da província e é ingénuo (equivalente a saloio, em Lisboa). Pois, é curioso que o termo parolo e o termo muito mais comum labrego permaneceram na Galiza com o mesmo objecto/significante, mas sem significado depreciativo.
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