quinta-feira, abril 07, 2005

Mariachi y tequila (19)

Escreveu um dia o saudoso cantautor espanhol Carlos Cano:
"Nunca he conocido um país más grandioso y exagerado que Méjico. Pertenece a una realidad más cercana a la magia que a la tierra, por eso me gusta tanto. No tiene sentido de la medida. Como casi todo lo determinante, lo crudo, se desborda a sí mismo" (Carlos Cano in El color de la vida, 1996, pág. 40)"

quarta-feira, abril 06, 2005

Viagens (18): Picos de Europa / 2001 (11)

5º Dia – 8 de Abril (Domingo)(tarde)
O Barco de Valdeorras é uma cidadezinha encaixada entre entre montanhas. Tem uma aparência genuinamente galega. Aí almocei num restaurante popular, ouvindo entre os comensais o afável bon proveito.... Depois, no parque, junto ao rio, escutei, entre idosos, uma conversa em galego do mais puro.
Retomei o caminho por uma estrada que entra no extremo sul da província de Lugo - comarca de Monforte de Lemos. Estas foram terras do senhorio de Traba, o que me fez lembrar Dona Tarasia ou Teresa (mãe de D. Afonso Henriques), que nestes pagos de seu amante veio perecer. Em breve me encontrei com o rio Miño, que surgiu em fundo vale, com uma imponência desconhecida, largo e caudaloso. Com ele reentrei na província de Ourense.
Ourense é, pelos pergaminhos de uma vasta plêiade de intelectuais, o centro do galeguismo lusófilo. Aqui se fala o galego mais descastelhanizado e se encontram os mais numerosos e entusiastas defensores da ortografia portuguesa. Sabia que era uma cidade interessante, mas, na verdade, revelou-se mais interessante do que supunha... O centro situa-se numa encosta. A ligação entrea parte mais antiga e a mais comercial faz-se por uma animada artéria pedonal, a Rúa do Paseo. O enquadramento da cidade é magnífico, num amplo vale formado pela confluência do Barbanza com o Miño. Pena é que, como sucede nas cidades galegas, a periferia urbana seja algo desarrumada...
Tomei a autovía das Rías Baixas, que segue na direcção de Vigo. É grandiosa a forma como corre pelo vale do Miño, saltando de margem em margem. Na comarca de O Ribeiro detive-me em Ribadavia. Lembrei-me de um canto popular com que Amancio Prada abre Caravel de Caraveles: “O cantar do arrieiro é um cantar moi baixiño / cuando canta en Ribadavia, resoa n’O Carballiño”. Quase todos os amoladores são desta região; com a sua gaita, que chama a chuva da terra distante, com a sua morriña e com a sua desconfiança labrega, chegaram a Lisboa, Madrid, Barcelona, Buenos Aires. Foram trás a roda.... Ribadavia é a terra do vinho Ribeiro, de amoladores, taberneiros e carvoeiros emigrados – aquele tipo de gente que inspira aforismos como: “se encontras um galego a meio de uma escada nunca sabes se vai a descer ou a subir”.
Já o sol ia baixo quando entrei na comarca de O Condado, província de Pontevedra. Pernoitei nos arredores de Vigo, em O Porriño, num motel bem suspeito... Eram apartamentos com garagem, onde os carros ficam ocultos de olhares curiosos. Havia espelhos espampanantes no quarto e filmes porno em circuito vídeo interno. Em que divertidos equívocos pode cair um incauto, levado pelas omissões de um guia de cheques de hotel...

Galícia (3)

Vigo (Antes de 1939)
Estes postais são muito antigos, mas não tenho modo de saber a data a que se reportam. Seguramente são anteriores a 1939 (fim da Guerra Civil). Entre outras coisas dão a visão de uma cidade penetrada por muitos sinais do mundo rural envolvente. Para quem, como eu, a conhece bem, é divertido comparar estas imagens com as que me são familiares.
Vigo é a maior cidade da Galiza, mas a sua importância é relativamente recente. Na verdade, no início do século XX não ultrapassava muito, em número de habitantes, a vizinha Pontevedra, o que hoje parece inverosímil. Foi só com a incorporação de Bouzas, Lavadores e vários outros povoados limítrofes que se tornou na mais populosa cidade da Galiza. Reflectindo esta realidade, ainda hoje, a capital de província é Pontevedra, apesar de Vigo ser quatro vezes maior.
É uma cidade simpática que beneficia de um enquadramento natural magnífico. Contudo, "cheira a peixe", ou seja, é marcante a influência das actividades marítimas, nomeadamente a pesca, na sua vida quotidiana. É, destacadamente, o principal porto pesqueiro de todo a Europa. Não por acaso, tem aí a sua sede Pescanova. Contudo, muitas outras indústrias se foram instalando (por exemplo, a Citroën), fazendo desta cidade a mais industrial da Galiza.

Galícia (2)

Muxicas - Parolada (1982)
Este é o primeiro álbum de Muxicas, grupo de música tradicional que posteriormente alcançaria alguma projecção. Neste altura, porém, era ainda pouco mais de que um organizado passatempo de vizinhos que se dedicavam à música e a outras formas de cultura popular tradicional. Tinham surgido quatro anos antes, a partir do grupo Lembranzas Galegas. A imagem é a da capa do ábum. Aí todos aparecem ataviados como manda a tradição. A foto foi tirada no cimo de uma escadaria situada bem no centro de Vigo, próximo da Ribeira de Berbés.
A produção deste LP esteve isenta de requintes, constrangida por evidentes limitações, ou não se tratasse de grupo cuja expressão era ainda meramente local. Contudo, a sua qualidade advém da simplicidade de meios e está patente na forma despojada como abordaram um repertório tradicional ortodoxo. Há pouco artificialismo de folk céltico. Há, isso sim, tradição popular muito perto da efectivamente praticada enquanto tal. Há também competência no desempenho instrumental. O som proporcionado pelos dois gaiteiros é um dos mais vibrantes que já me foi dado ouvir - algo que se aprecia particularmente na arrebatadora Riveirana que encerra o álbum.
Uma nota final para o título Parolada, que nos pode soar mal. No Porto, por exemplo, a expressão parolo é depreciativa e qualifica alguém que vem da província e é ingénuo (equivalente a saloio, em Lisboa). Pois, é curioso que o termo parolo e o termo muito mais comum labrego permaneceram na Galiza com o mesmo objecto/significante, mas sem significado depreciativo.
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Galícia (1)

Galiza
Região Autónoma: Galícia (2.696.000 habitantes)
Capital: Santiago de Compostela (90.000) / Outras cidades: Vigo (293.000); A Coruña (237.000); Ourense (108.000); Lugo (88.000); Ferrol (78.000); Pontevedra (75.000).
Índice Paridades de Poder de Compra: 73,0 (Média UE25 = 100)
Províncias: Pontevedra (904.000); Ourense (365.000); A Coruña (1.096.000); Lugo (358.000).

A Galiza é a região espanhola com mais afinidades com Portugal. É um facto evidentíssimo. Até finais da Idade Média existiu uma unidade linguística e cultural com Portugal, atestada pelas cantigas de amigo. Contudo, desde então, a forma de falar a norte e a sul do rio Minho foram divergindo. O português evoluiu muito. O galego evoluiu menos e fê-lo em função da incontornável influência da língua oficial do estado, o castelhano. Até que ponto a divergência acabou por criar uma situação que torna artificial a noção de unidade linguística entre galego e português, na actualidade, é uma discussão em aberto... Sob o ponto de vista de temperamento colectivo são notórias também as afinidades entre galegos e portugueses, porém, o carácter dos galegos denota mais uma matriz rural, algo atávica e desconfiada. É uma região com vincada personalidade e com múltiplos atractivos, pelas suas belezas naturais (onde se destacam as rias) e pelas suas cidades (onde se destaca Santiago de Compostela). Também é riquíssima em tradições populares, sendo a sua música tradicional a mais rica de toda a Peninsula. Sempre se associou grande parte destas características a uma remota influência céltica. É, porventura, uma visão mitificada e romântica, mas, seja como for, existe um conjunto de afinidades com a Bretanha (França), Gales, Escócia (Grã-Bretanha) e Irlanda. Um dos elementos comuns é a gaita de foles, a qual, apesar das suas variantes, tem em todas estas regiões uma importância análoga.

terça-feira, abril 05, 2005

La Movida (7)

Golpes Bajos - Devocionario (1985)
Na breve trajectória de Golpes Bajos este é o terceiro e último álbum. É também aquele em que uma ironia mais radical se impõe, a começar pela desconcertante imagem da capa... Certo é que um espírito iconoclasta vinha então deixando muitos outros exemplos na cena musical pop/rock espanhola, mas aqui esse espírito assume uma feição mais consistente, pois todo o conteúdo (música e letras) alinha por uma candura angelical que torna o exercício irónico muito mais próximo da finura do que da boçalidade, como amiúde se verificava noutros grupos.
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La movida (6)

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Golpes Bajos - Todas sus grabaciones 1983-85 (1990)
O mais importante afluente da movida madrilena foi a movida viguesa. Com efeito, de Vigo vieram alguns dos grupos mais originais: Siniestro Total, Os Resentidos, de Antón Reixa; Semen Up, de Alberto Comesaña e Sérgio Castro (dos portuenses Os Trabalhadores do Comércio); Golpes Baixos, de Teo Cardalda e Germán Coppini. Destes últimos reuniu-se num duplo CD toda a sua obra, a qual se resume a três albuns editados entre 1983 e 1985. São apenas três álbuns, porém, foram importantes na história do pop/rock espanhol. Ainda hoje, ao ouvi-los, sente-se que é uma sonoridade que não ficou inexoravelmente datada. A voz de Germán Coppini, de exótica delicadeza, os arranjos de Teo Cardalda, assim como uma aguda ironia na pose e nas letras, configuraram um estilo que não mais se reencontrou, nem sequer na carreira a solo do primeiro ou na carreira do segundo no seu alter ego artístico Cómplices... Além do mais, a Golpes Bajos se devem algumas das canções identificativas do espírito de uma etapa tão criativa como foi a que se viveu até meados de 80: No mires a los ojos de la gente; Malos tiempos para la lírica; Escenas olvidadas; Santos de devocionario...
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segunda-feira, abril 04, 2005

Viagens (17): Picos de Europa / 2001 (10)

5º Dia – 8 de Abril (Domingo)(manhã)
A chuva parecia ter ficado definitivamente lá para trás da montanhas, nas Astúrias. A manhã, em León, surgiu com um céu impecavelmente azul. Não havia tempo para mais do que um passeio de carro pela cidade. Reforçou-se a noção da sua beleza e também da qualidade de vida que aí se desfruta – não falta espaço; a habitação é de qualidade; há boas infra-estruturas de lazer e cultura; tudo está inserido numa dimensão urbana ideal.
Já na estrada, ficando León para trás, contrastando com a extensa planura, viam-se ao longe cumes nevados. Paralelamente, seguia o mais importante sendeiro do Caminho de Santiago, por onde caminhavam peregrinos. Entrando na comarca de la Maragatería, contornei Astorga. Esta cidade fez-me evocar o Condado Portucalense, o senhorio de Astorga, enfim as remotas origens de Portugal. Já na autovía radial que liga Madrid à Coruña entrei na comarca de Bierzo. É uma região especial. Neste fértil vale já não estamos na austera meseta... A influência climática do Atlântico e cultural da Galiza dão a esta região mais ocidental da província de León um carácter próprio. Aliás, por aqui já se fala galego. Nos arredores da sua principal cidade, Ponferrada, nasceu o cantautor Amancio Prada, que se expressa tanto em castelhano como em galego.
Deixei a autovía e poucos quilómetros depois entrava na comarca de Valdeorras, província de Ourense, portanto, na minha querida Galiza. Parei na principal localidade da região, O Barco de Valdeorras, junto ao rio Sil.

sexta-feira, abril 01, 2005

Soulsville (4)

Isaac Hayes - Chocolate Chip (1975)
É o penúltimo álbum de Ike para a Stax e o primeiro da sua etiqueta Hot Buttered Soul. É também a última gravação com bom acolhimento na crítica e no mercado, antes de um efémero reaparecimento em meados dos anos noventa. Precede, portanto, um longo declínio. Dir-se-ia um dos último suspiros, mas... de grande fôlego. Longe, muito longe do luxo de produção de alguns anos antes - foi gravado quase improvisadamente e com escassos meios - Chocolate Chip é, contudo, pleno de garra e nele aparece em elevada dose um dos melhores atributos da sua música: a sensualidade, ou melhor, o erotismo... Este reveste quatro vertentes: as palavras (simples, mas mais que sugestivas... em vários temas), a ambiência (em Body Language), a melodia (em That loving feeling e muito especialmente no soberbo Come live wth me) e o ritmo (em Chocolate Chip).
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