quarta-feira, março 16, 2005

Rompecorazones (5)

Pasión Vega - Flaca de Amor (2005)
Esta cantora malaguenha veio do âmbito tradicional da copla - os seus primeiros álbuns (de distribuição pouco mais do que regional) são de temas consagrados do género. O timbre da sua voz adequa-se, aliás, perfeitamente a essa opção, a qual era lógica pelas suas origens e formação. Mas, na verdade, esse timbre tem qualidades que lhe deram asas para outros voos, sem perder o calor e o jeito coplero... Assinou contrato com a BMG e surgiram dois álbuns (Pasión Vega, 2001; Banderas de Nadie, 2003) que atestam um salto qualitativo para um nível mais sofisticado, onde a copla se funde com a moderna canção de autor. Esses dois álbuns tiveram acolhimento muito favorável a todos os níveis - desde a crítica mais exigente ao grande público. É uma voz sublime!
Flaca de Amor foi lançado agora com aparato e está destinado a um sucesso comercial ainda maior do que os anteriores - é pelo menos o que indicia a constante presença do tema Teresa nas ondas radiofónicas... Mas Teresa (assim como Tan poquita cosa e Por algo será) paira bem acima dos restantes. O repertório, tendo um valor médio muito aceitável, não consegue estar à altura dos dois álbuns anteriores, sendo certo, porém, que o esmero da produção e as qualidades da voz conseguem valorizar muito todo o conjunto.
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La Movida (5)

Gabinete Caligari - Discografia básica: Héroes de los 80 (1981-1983) / Cuatro rosas (1984) / Que Dios reparta suerte (1983) /Al calor del amor en un bar (1986)
Gabinete Caligari foi um dos grupos mais carismáticos e originais de la movida. Foram os criadores do que então foi designado como rock torero, que consistiu numa infusão de casticismo nas iconoclastas modas da vanguarda madrilena. O seu tema mais identificador foi Que Dios reparta suerte (o título é, já por si, um lema castiço...), de 1983. Teve impacto, com a sua cadência de pasodoble e ressoar de castanholas no meio de parafernália eléctrica. Um outro tema, do ano seguinte, alcançou também impacto: Cuatro rosas. Já não estava tão alinhado com esse estilo, pois, se bem que inserido na vaga neo-romântica, situava-se, um pouco inesperadamente, na vertente mais melódica. Passados já mais de vinte anos, resplandece como um dos melhores temas de sempre do pop/rock espanhol e um dos hinos de la movida. Ambos constam desta compilação de três álbuns e singles, editados originalmente entre 1981 e 1986.
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domingo, março 06, 2005

Soulsville (3)

Dionne Warwick - Then Came You (1975)
O revivalismo dos anos 70 não tem estado muito presente na agenda das grandes editoras. Isto é especialmente válido para o que não se insere no mainstream do pop/rock. Contudo, vão surgindo algumas pequenas editoras que vão explorando estes terrenos. É o caso da Ambassador Soul Classics, que recentemente lançou magníficas edições de LP's de soul, nomeadamente dois de Dionne Warwick, saídos orignalmente em 1975: Then Came You e Track of the Cat.
Dionne Warwick já havia passado a fase em que ainda eram marcantes as suas origens no godspell e tinha acabado se sair daquela fase em que se notabilizara como intérprete por excelência dos standards de Burt Bacharach e Hal David. Nos anos 70, afrontava a necessidade de uma adaptação a tempos menos propícios ao cançonetismo convencional. Assim, ambos os álbuns inserem-se numa linha de soul comercial, produzido com sofisticação. Sob o ponto de vista comercial, os resultados, contudo, foram muitíssimo bons para o primeiro e decepcionantes para o segundo. No espaço de menos de um ano que os separa, a cantora mudou de produtor, embora não de estilo. E, apesar de o primeiro ter uma qualidade ligeiramente superior, trinta anos depois, a diferença não parece justificar uma sorte tão divergente... No primeiro, o tema que dá nome ao álbum, interpretado com o grupo The Spinners, atingiu o #1 Top40USA. Ouvindo-o hoje, parece ser mais um argumento para admitir que êxito comercial e qualidade só passaram a estar sistematicamente afastados desde início dos 90... Além disso, o tema de entrada (Take it from me) é também excelente e todos os demais são de um nível médio bastante agradável. O mesmo é válido para o álbum Track of the Cat, onde também se encontra um nível médio quase idêntico e onde há dois temas que se destacam - o primeiro (Track of the Cat) e o último (Once You Hit the Road). Finalmente, é de notar um pequeno pormenor: entre um álbum e outro a cantora decide prescindir do "e" final de Warwicke...
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Dionne Warwick - Track of the Cat (1975)
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quarta-feira, março 02, 2005

Salsa y merengue (8)

Rubén Blades / Son del solar - Caminando (1991)
No início dos anos 70 o panamenho Rubén Blades encontra-se entre os que em Nova York deram origem ao que se designou como salsa (tradução literal: molho). Uma música intrinsecamente latina, pois baseia-se em ritmos tradicionais, particularmente, de Cuba, Puerto Rico e Santo Domingo (son, bomba, merengue, respectivamente). Contudo, elementos modernos fazem parte do seu código genétco e definiram o seu carácter. Esses elementos vieram sobretudo, do jazz, mas também, em alguma medida, do pop/rock. Em muitas das suas formas mais sofisticadas a salsa é um subgénero do jazz. Por outro lado, uma linha de evolução mais melódica, acabou por originar o que se designa como salsa romántica. Em todo o caso, a salsa mais genuína está a meio caminho das duas tendências e tem em Rubén Blades um dos seus melhores representantes. É, por excelência, o género mais representativo do universo hispânico da área metropolitana de Nova York, onde vivem cerca de três milhões de pessoas de língua espanhola.
Caminando é um dos melhores exemplos da música de Blades. Não teve, ao contrário de dois outros álbuns anteriores (Escenas e Antecedente) o reconhecimento dos grammys latinos, mas é, dentro da carreira de Blades, uma obra de maturidade, onde existe um conjunto de temas poderosos, começando, aliás, pelos dois iniciais (Caminando e Camaleón), fortíssimos, que dão o mote para o resto. A temática é quase exclusivamente de carácter político-social e o ambiente é poderosamente rítmico. Não se pode dissociar Blades de um radicalismo pan-hispano-americano e, mesmo, anti-gringo, sendo, talvez, o seu mais destacado representante nesta área. Aliás, não por acaso, acabou por fundar um partido político no seu país natal e aí concorreu às eleições presidenciais, sendo derrotado, é certo, mas obtendo uma votação expressiva. Que era uma espécie de homem dos sete instrumentos já se sabia, na medida em que, para além da música, sustentava uma carreira cinematográfica, ainda que limitada a papéis secundários. Seja lá como for, o seu talento musical é indiscutível, quer como compositor, quer como intérprete - tem uma voz de timbre metálico muito expressiva.
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Salsa y merengue (7)

Willie Colón / Rubén Blades - Siembra (1978)
Este álbum, editado pela Fania, produzido e dirigido pelo novaiorquino Willie Colón, composto e interpretado pelo panamenho Rubén Blades, é consensualmente considerado o mais importante na história da Salsa. Sobressai, desde logo, o facto de conter o famosíssimo tema Pedro Navaja, crónica de um marginal hispano de Nova York, cuja letra e desenvolvimento rítmico marcarão um estilo de referência. Contudo, os demais temas são magníficos, com destaque para a mordaz crítica social do tema incial, Plástico, (que começa em irónico ritmo disco...), para a sabrosura de Buscando guayaba e para a melodiosa Dime. No seu conjunto constitui uma álbum programático, quer pela proposta artística, quer pela temática, a qual se pode resumir no lema: orgulho hispano.

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domingo, fevereiro 27, 2005

Viagens (16): Picos de Europa / 2001 (9)

4º Dia – 7 de Abril (Sábado)(tarde/noite)
Oviedo é uma cidade agradável. No centro abundam edifícios de boa arquitectura em torno de uma grande parque, de aspecto cuidado. Tem um ar burguês, que contrasta um pouco com o carácter mais industrial de Gijón. Pertence à classe de cidades com El Corte Inglês e foi precisamente aí, no restaurante instalado no último piso, onde almocei como recurso expedito de viajante esfomeado. À saída, debaixo de chuva, ainda pude ver a torre da catedral e ao longe o novo estádio de futebol, que tinha sido inaugurado há poucos meses.
Eram quatro da tarde quando saí em direcção a León, pela auto-estrada. Despedi-me das Asturias, avistando a cidade mineira de Mieres. Lembrei-me das tradições de luta do operariado asturiano, da repressão da revolta de início dos anos 30, onde Franco fez o seu tirocínio para caudillo. A auto-estrada, na sua passagem pela cordilheira cantábrica, passa sob túneis e mais túneis, um dos quais com cinco quilómetros. Do lado de lá, a paisagem mostrou-se bem mais austera, menos verde e... sem chuva alguma. Estava de novo na meseta, em Castílla y León, Província de León.
À chegada à cidade de León, deparei-me com um estádio de futebol prestes a ser inaugurado. Aqui jogará a Cutural Leonesa, que ad eternum agoniza na Segunda B. Ao lado havia um moderno Palácio de Deportes. Certamente que os êxitos do desporto espanhol em várias frentes não podem ser dissociados desta fartura em infra-estruturas.
León é uma cidade admirável, não só pela sua conhecida catedral gótica, mas também pelo Hostal de San Marcos, que albergava os peregrinos rumo a Compostela e cuja fachada constitui um exemplo de plateresco, assim como pela Casa de Botines, de Gaudi (das poucas coisas que fez fora da Catalunha). É admirável também pelo seu ambiente global, desde o carácter do centro histórico até à elegância burguesa dos bairros do centro. Além disso, não é grande, mas, tampouco se pode considerar muito pequena - tem, digamos, o tamanho ideal (150.000 habitantes).
Deixei o carro num parque subterrâneo em pleno centro e por quatro horas paguei apenas 300 pesetas Não era uma novidade – em muitas coisas quotidianas os preços em Espanha são mais baixos. Por exemplo, nos supermercados, de um modo geral, os preços são mais baixos. Em Oviedo, antes de partir, entrei num pequeno supermercado, para comprar uma garrafa de água de litro e meio e paguei apenas 35 pesetas! Mesmo nos restaurantes, onde a tendência geral é para se pagar mais do que cá, não é de todo impossível encontrar exemplos contrários. Arrumado o carro, percorri várias ruas para peões, repletas de gente animada, apesar do frio. Apreciei a fachada da Catedral - a essa hora já não se podia entrar. Andei depois, ao acaso, por ruelas estreitas. Inesperadamente, acabei por ter o privilégio de presenciar uma procissão de Semana Santa. As trombetas e tambores anunciaram o desfile das confrarias com os seus respectivos andores. Fazia lembrar as procissões andaluzas, embora com menos esmero e aparato. Os confrades desfilaram com os seus capuzes bicudos e os costaleros sustentavam os andores, com uma abnegação teatral. Havia um ambiente misto de trágico e festivo. Entre os confrades figuravam algumas crianças e havia até uma confraria de mulheres! Em certos momentos o “público” batia palmas e animava os “penitentes”. Passou a procissão, mas a multidão continuava pelas ruas. Tapeava-se (petiscava-se) nas barras (balcões); enfiavam-se moedas nas omnipresentes máquinas de jogo, as tão populares tragaperras. Já passava das dez da noite, começava-se a cenar (jantar).

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Para siempre boleros! (8)

Armando Manzanero - Duetos / Lo Mejor de Armando Manzanero (2000)
Armando Manzanero - Duetos (2001)
Estes dois álbuns que são duas edições do mesmo projecto. O primeiro é a edição espanhola. O segundo é a edição mexicana. Têm muito em comum, mas têm também bastantes diferenças, sobretudo nos parceiros de duetos. Comuns: Alejandro Sanz; Francisco Céspedes; Presuntos Implicados; Café Quijano; Miguel Bosè; Juan Pablo Manzanero. Exclusivos da edição mexicana: Olga Tañón; Edith Márquez; Ricardo Montaner; Lucero; Carlos Cuevas. Exclusivos da edição espanhola: Lolita; La Barbería del Sur; Cómplices; Rafa Sánchez (La Unión); Lydia. O repertório é o mesmo, com excepção de La mujer que me ama, Voy a apagar la luz (exclusivos da edição espanhola) e Extraño (exclusivo da edição mexicana). Nos temas comuns, os trechos cantados por Manzanero e as orquestrações são os mesmos. Foram, evidentemente, razões de ordem comercial que determinaram estas diferenças. Em todo o caso, é um projecto bem delineado e executado, à medida de uma homenagem ao grande bolerista que pretenda ser mais original do que uma simples colectânea. Os duetos são uma forma inteligente de viabilizar com dignidade a participação da sua voz (no estado actual) e, ao mesmo tempo, uma forma de viabilizar uma certa recuperação do bolero para a modernidade. Orquestrações modernas e vozes da actualidade demonstram como o género é flexível e só enriquece com desafios como este. Contudo, o mais notável é que a voz de Manzanero mantém, na sua patente fragilidade, aquele fulgor emotivo. O tempo tornou-a mais velada, ainda mais escassa de amplitude e potência, mas, dir-se-ia que a enriqueceu com calor e emoção... Mais decisivo ainda: as suas composições! Esses boleros são sempre magníficos, mesmo sob diversas metamorfoses, soando ora mais estranhos, ora mais familiares, mas sempre com aquela sensível linha melódica e aquelas singelas palavras de amor e desamor...
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Guia hispânico (10)

Manuel de Falla (Victoria de los Angeles / Rafael Frühbeck de Burgos) - (2001): La Vida Breve (1966) / El Sombrero de Tres Picos (1964) / El Amor Brujo (1966)
Quando alguém me pede sugestão de uma música que melhor transmita a alma espanhola tenho poucas dúvidas: a suite El Sombrero de Tres Picos. É uma magistral concentração da geografia e temperamento da Espanha em meia hora de música. A Danza Final, inspirada directamente na jota aragonesa é um climax apoteótico, depois de uma empolgante viagem em crescendo. Poucos, como o compositor gaditano, tinham esta capacidade de captar a alma espanhola e traduzi-la em música. Soa assim como uma espécie de zarzuela depurada, exclusivamente orquestral, ao um mesmo tempo simples (porque inspirada directamente em toadas e danças populares) e elaborada (porque atravessada por conceitos modernistas).
Esta gravação, apesar de antiga, é a melhor que conheço. O maestro Rafael Frühbeck de Burgos é um dos melhores intérpretes de Falla. A soprano Victoria de Los Angeles, recentemente falecida, é, provavelmente, a melhor soprano espanhola de sempre. A edição também é a melhor, pois, além dessa gravação, inclui ainda La Vida Breve e El Amor Brujo - as outras obras maiores de Falla em gravações com os mesmos intérpretes. Aliás, é uma edição luxuosa e económica, como o são todas as da EMI Classics, série Great Recordings of the Century.
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sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Guia hispânico (9)

Miguel de Cervantes - El Ingenioso Hidalgo Don Qvixote de La Mancha (1605)
No âmbito das comemorações do 4º Centenário da publicação de Don Quijote multiplicam-se as iniciativas. Hoje o meu filho (tem dez anos) apareceu-me com um exemplar da famosa obra. Anunciou-me que já tinha lido até ao capítulo quarto. Fora distribuído gratuitamente aos alunos da sua escola, o Instituto Español de Lisboa (agora denomina-se Instituto Giner de los Ríos). É uma edição compacta, de bolso, mas com aparência digna. Tem introdução, notas e glossário de José Luis Pérez López. É certo que a letra é miudinha, mas também seria exigir demais não transigir com este óbice, pois, como se pode ler na contra-capa, esta edição custa 1 euro!