sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Guia hispânico (10)

Manuel de Falla (Victoria de los Angeles / Rafael Frühbeck de Burgos) - (2001): La Vida Breve (1966) / El Sombrero de Tres Picos (1964) / El Amor Brujo (1966)
Quando alguém me pede sugestão de uma música que melhor transmita a alma espanhola tenho poucas dúvidas: a suite El Sombrero de Tres Picos. É uma magistral concentração da geografia e temperamento da Espanha em meia hora de música. A Danza Final, inspirada directamente na jota aragonesa é um climax apoteótico, depois de uma empolgante viagem em crescendo. Poucos, como o compositor gaditano, tinham esta capacidade de captar a alma espanhola e traduzi-la em música. Soa assim como uma espécie de zarzuela depurada, exclusivamente orquestral, ao um mesmo tempo simples (porque inspirada directamente em toadas e danças populares) e elaborada (porque atravessada por conceitos modernistas).
Esta gravação, apesar de antiga, é a melhor que conheço. O maestro Rafael Frühbeck de Burgos é um dos melhores intérpretes de Falla. A soprano Victoria de Los Angeles, recentemente falecida, é, provavelmente, a melhor soprano espanhola de sempre. A edição também é a melhor, pois, além dessa gravação, inclui ainda La Vida Breve e El Amor Brujo - as outras obras maiores de Falla em gravações com os mesmos intérpretes. Aliás, é uma edição luxuosa e económica, como o são todas as da EMI Classics, série Great Recordings of the Century.
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sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Guia hispânico (9)

Miguel de Cervantes - El Ingenioso Hidalgo Don Qvixote de La Mancha (1605)
No âmbito das comemorações do 4º Centenário da publicação de Don Quijote multiplicam-se as iniciativas. Hoje o meu filho (tem dez anos) apareceu-me com um exemplar da famosa obra. Anunciou-me que já tinha lido até ao capítulo quarto. Fora distribuído gratuitamente aos alunos da sua escola, o Instituto Español de Lisboa (agora denomina-se Instituto Giner de los Ríos). É uma edição compacta, de bolso, mas com aparência digna. Tem introdução, notas e glossário de José Luis Pérez López. É certo que a letra é miudinha, mas também seria exigir demais não transigir com este óbice, pois, como se pode ler na contra-capa, esta edição custa 1 euro!

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Viagens (15): Picos de Europa / 2001 (8)

4º Dia – 7 de Abril (Sábado)(manhã)

Comecei o dia com o propósito de concretizar a subida aos Lagos de Covadonga. O céu deixava entrever aguaceiros, assim que, decidi aproveitar uma aberta com tímidos raios de sol. Na véspera comprara um CD do grupo asturiano Llan de Cubel e foi o que utilizei como “banda sonora” para o empreendimento. Confirmei que a subida era mais do que uma simples subida, era uma escalada por uma estrada íngreme, sinuosa e estreita, bordejando precipícios. Já tinha visto na TV chegadas de ciclistas aos Lagos de Covadonga (um clássico da Vuelta) e não tinha ideia que a coisa fosse assim tão... radical. Parecia impossível como um denso pelotão, mais carros de apoio e restante comitiva, fosse capaz de subir por ali acima.
No final, junto aos lagos, havia um frio tremendo. Foi, certamente, por um triz que não chegou a nevar, mas viam-se mantos de neve recente. A paisagem era, de facto, muito bonita, mas depois do visto nos dias anteriores, não impressionou tanto quanto poderia ter impressionado, se o contacto com os Picos de Europa tivesse começado por aqui. Na descida vi melhor o exterior do Mosteiro de Covadonga, o qual nada tem de especial com o seu romântico neo-gótico. Mais interessante pareceu ser a gruta, onde Pelayo teria tido a visão de Nossa Senhora. Em todo o caso, a mitologia de Covadonga não me sensibilizava – tresanda a franquismo... Muito mais sensível era à evocação do contexto histórico da constituição das Astúrias como reduto cristão independente e sua continuidade em relação ao tempo dos godos. Em relação a isto, a paisagem era, de facto, evocativa.
Segui rumo a Gijón, mas não por um promissor percurso costeiro que tinha seleccionado, pois em Arriondas enganei-me na estrada. Mas, como, entretanto, os aguaceiros deram lugar a chuva pegada e intensa, o meu ânimo não estava disposto a emendar imediatamente o erro. Assim só atingi o caminho pretendido em Villaviciosa – “capital” da sidra. Entre várias sidrerías avistadas, consegui distinguir a famosa El Gaitero. Contudo, da Ria de Villaviciosa quase nada entrevi por entre a bruma chuvosa.
Foi já debaixo de temporal que passei a placa anunciando Gijón / Xixón (assim mesmo, bilingue). Estava na maior cidade asturiana. Logo de entrada, vi o Estádio El Molinón, ou não estivesse numa das mais históricas canteras do futebol espanhol! Apesar do Real Sporting Gijón estar na 2ª divisão, continua a ser um clube respeitado, com solera. Tantos nomes sonantes saíram dos seus campos de treino de Mareo - Luís Enrique, Abelardo, Quini... Em boa verdade, para além da marginal junto à praia, nada de especialmente encantador detectei. É uma cidade industrial e esse facto é visível, mesmo sem sair do carro, sem parar, sob chuva incessante, como foi, desgraçadamente, o caso. Nestas condições, nada visíveis, naturalmente, foram as marcas de um passado operário que tornou Gijón um dos centros históricos do socialismo espanhol. Mal dei por mim estava no outro lado da cidade, à entrada da autopista e aproveitei a involuntária sugestão da placa para rumar a Oviedo, talvez mais na inconsciente necessidade de me ver livre da chuva, como se esta pairasse eternamente sobre a costa asturiana…

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Guia hispânico (8)

Estado: Sonora (Capital: Hermosillo)

Sonora é um dos estados norteños. Mais do que qualquer outro apresenta características de fronteira. É um território em parte desértico (Deserto de Sonora) ou semi-árido; de clima seco e quente; de baixa densidade populacional. Na segunda metade do século XIX aqui se instalaram colonos ambiciosos e aventureiros, vindos do superpovoado México Central, que se estabeleceram em haciendas. Desenvolveram uma cultura de forte individualismo, assente na lei do mais forte, tal como no Oeste dos Estados Unidos. Daqui vieram os primeiros construtores do México Moderno (Álvaro Obregón, Plutarco Elías Calles), vencedores da Revolução Mexicana (1910-1919). Os seus valores tornar-se-ão, em grande parte, estruturantes do México como estado-nação.

sábado, fevereiro 12, 2005

Mariachi y tequila (16)

Diego Rivera - Baile en Tehuantepec (1928)

Mariachi y tequila (15)

Diego Rivera - La molendera (1924)

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Guia hispânico (7)

Plutarco Elías Calles (1877-1945) - Presidente do México (1924-1928)
A difícil construção do México como estado-nação muito se deve a este caudillo. Como Álvaro Obregón, que o precedeu na Presidência da República, pertencia à casta de líderes oriundos de Sonora (Noroeste), que conquistou o poder no rescaldo da Revolução Mexicana (1910-1919). Os sonorenses faziam gala do seu individualismo, carácter violento e aventureiro. Mais difícil é definir a sua ideologia, para além de um genérico espírito liberal, de um irredutível anti-clericalismo e de um nacionalismo de cariz anti-gringo - algo que configura uma espécie de jacobinismo pragmático. Eles levaram para o centro do poder federal a cultura de fronteira própria de Sonora e dos outros estados norteños. Mas, uma vez no poder, os sonorenses transcendem as suas limitadas referências de origem - demonstraram estar, de algum modo, receptivos a influências cosmopolitas como as das ideologias autoritárias, quer de direita, quer de esquerda, em voga na década de 20. O carácter autoritário, desde sempre inscrito na sua acção política, foi assim ganhando amplitude, tanto mais que revelaram destreza no domínio dos instrumentos de poder do aparelho de estado federal. Na prática, a sua obra resultou na construção de um estado, assim como no reforço da identidade do México como nação. Por outro lado, se a política oficial era radical, exaltando a reforma agrária e o afrontamento das companhias petrolíferas, a verdade é que em muitos aspectos estava mais assente em retórica e simbologia do que em medidas concretas. Em todo o caso, de um modo geral, o estado sustentou eficazmente o desenvolvimento capitalista.
Só uma política vigorosa, com objectivos essenciais bem definidos e uma inquestionável liderança, tornou possível esta obra, a qual encontrou em Elías Calles, o seu mais perfeito executor. O seu poder foi tão grande, que, mesmo depois de ter abandonado a presidência, manipulou tranquilamente os seus sucessores, sendo, aliás, por isso mesmo, designado informalmente como Jefe Máximo e esse período conhecido como Maximato (1928-1934).
Um dos elementos decisivos da sua obra política acabou por ser a formação de um partido oficial em 1929: PNR (Partido Nacional Revolucionário), que mais tarde, e até aos dias de hoje, seria designado como PRI (Partido Revolucionário Institucional). Essa criação foi providencial para estabilizar, condicionar e reconduzir os impulsos revolucionários. O que os nomes sugerem - revolução nacionalista e institucionalizada - corresponde a um propósito de salvaguardar o património da memória revolucionária e torná-lo útil para a consolidação do estado e do projecto nacionalista associado. Se nas décadas de 20 e 30 o programa nacionalista era declaradamente assumido, posteriormente, deixou de ser tão pertinente a sua proclamação, mas continuou a ser pertinente o domínio institucional do aparelho de estado e a oficial consagração dos valores do estado e da revolução - algo que só há poucos anos atrás foi posto em causa.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Mariachi y tequila (14)

Tania Libertad - Tómate esta botella conmigo (1998)
Tania Libertad nasceu no Peru e nas suas veias corre sangue africano - aí, como em algumas outras zonas de Hispano-América, há descendentes de escravos negros. Vem, portanto, da mesma realidade étnico-cultural de que vem também, por exemplo, Susana Baca, só que a sua carreira já transcendeu muito as suas origens. Com efeito, vive há muitos anos no México e, não obstante nunca ter deixado de se apresentar como orgulhosa portadora dessas raízes afro-peruanas (de que o recente álbum Costa Negra é um cabal testemunho), a verdade é que já pertence plenamente à cena artística do seu país de adopção. Tem um timbre de voz original, de cariz lírico. O seu repertório tem incidido no bolero clássico, para o qual a sua voz se revela particularmente adequada. Contudo, para além dos retornos periódicos às suas raízes, tem feito incursões por outros âmbitos. Esta gravação é um exemplo disso, pois culmina em grande estilo algumas incursões prévias na música ranchera. Trata-se de uma homenagem a José Alfredo Jiménez, onde interpreta alguns dos seus temas num registo pouco comum ao género. Parece ser um pouco arriscado pôr uma voz tão delicada a interpretar um género tão bravio, mas o resultado não deixa de ser magnífico - destaque-se, por exemplo, o conhecido Si nos dejan, que soa inusitadamente celestial...
É curioso observar que as montagens fotográficas que acompanham este CD não só sugerem uma homenagem a José Alfredo Jiménez como também uma evocação da figura de Chavela Vargas - a pose de Tania Libertad é ostensiva nesse propósito. Aliás, para quem conhece a trajectória das duas trágicas glórias da música mexicana, nomeadamente os problemas de alcoolismo que os afectaram, a ideia faz sentido e reforça o significado do tema que é utilizado para título.
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domingo, fevereiro 06, 2005

Flamenco (11)

Chambao - Endorfinas en la Mente (2003)

Tendo em conta o factor originalidade, este álbum é, sem dúvida, a mais importante produção do Nuevo Flamenco nos tempos mais recentes. Chambao encontrou caminhos efectivamente inovadores, desta feita na direcção do chill out e música ambiente. Criou, enfim, uma sonoridade própria! Neste processo avulta a vocalista María del Mar Rodríguez, cuja voz, além de um timbre bem flamenco, tem fulgor sensual... Entre vários excelentes temas, destaque-se Ahí estás tú. De notar que, reforçando o que anteriormente havia sucedido com Flamenco Chill, Endorfinas en la Mente impôs-se junto da crítica e obteve sucesso comercial.
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Audio Sampler Es.Flamenco