segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Guia hispânico (8)

Estado: Sonora (Capital: Hermosillo)

Sonora é um dos estados norteños. Mais do que qualquer outro apresenta características de fronteira. É um território em parte desértico (Deserto de Sonora) ou semi-árido; de clima seco e quente; de baixa densidade populacional. Na segunda metade do século XIX aqui se instalaram colonos ambiciosos e aventureiros, vindos do superpovoado México Central, que se estabeleceram em haciendas. Desenvolveram uma cultura de forte individualismo, assente na lei do mais forte, tal como no Oeste dos Estados Unidos. Daqui vieram os primeiros construtores do México Moderno (Álvaro Obregón, Plutarco Elías Calles), vencedores da Revolução Mexicana (1910-1919). Os seus valores tornar-se-ão, em grande parte, estruturantes do México como estado-nação.

sábado, fevereiro 12, 2005

Mariachi y tequila (16)

Diego Rivera - Baile en Tehuantepec (1928)

Mariachi y tequila (15)

Diego Rivera - La molendera (1924)

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Guia hispânico (7)

Plutarco Elías Calles (1877-1945) - Presidente do México (1924-1928)
A difícil construção do México como estado-nação muito se deve a este caudillo. Como Álvaro Obregón, que o precedeu na Presidência da República, pertencia à casta de líderes oriundos de Sonora (Noroeste), que conquistou o poder no rescaldo da Revolução Mexicana (1910-1919). Os sonorenses faziam gala do seu individualismo, carácter violento e aventureiro. Mais difícil é definir a sua ideologia, para além de um genérico espírito liberal, de um irredutível anti-clericalismo e de um nacionalismo de cariz anti-gringo - algo que configura uma espécie de jacobinismo pragmático. Eles levaram para o centro do poder federal a cultura de fronteira própria de Sonora e dos outros estados norteños. Mas, uma vez no poder, os sonorenses transcendem as suas limitadas referências de origem - demonstraram estar, de algum modo, receptivos a influências cosmopolitas como as das ideologias autoritárias, quer de direita, quer de esquerda, em voga na década de 20. O carácter autoritário, desde sempre inscrito na sua acção política, foi assim ganhando amplitude, tanto mais que revelaram destreza no domínio dos instrumentos de poder do aparelho de estado federal. Na prática, a sua obra resultou na construção de um estado, assim como no reforço da identidade do México como nação. Por outro lado, se a política oficial era radical, exaltando a reforma agrária e o afrontamento das companhias petrolíferas, a verdade é que em muitos aspectos estava mais assente em retórica e simbologia do que em medidas concretas. Em todo o caso, de um modo geral, o estado sustentou eficazmente o desenvolvimento capitalista.
Só uma política vigorosa, com objectivos essenciais bem definidos e uma inquestionável liderança, tornou possível esta obra, a qual encontrou em Elías Calles, o seu mais perfeito executor. O seu poder foi tão grande, que, mesmo depois de ter abandonado a presidência, manipulou tranquilamente os seus sucessores, sendo, aliás, por isso mesmo, designado informalmente como Jefe Máximo e esse período conhecido como Maximato (1928-1934).
Um dos elementos decisivos da sua obra política acabou por ser a formação de um partido oficial em 1929: PNR (Partido Nacional Revolucionário), que mais tarde, e até aos dias de hoje, seria designado como PRI (Partido Revolucionário Institucional). Essa criação foi providencial para estabilizar, condicionar e reconduzir os impulsos revolucionários. O que os nomes sugerem - revolução nacionalista e institucionalizada - corresponde a um propósito de salvaguardar o património da memória revolucionária e torná-lo útil para a consolidação do estado e do projecto nacionalista associado. Se nas décadas de 20 e 30 o programa nacionalista era declaradamente assumido, posteriormente, deixou de ser tão pertinente a sua proclamação, mas continuou a ser pertinente o domínio institucional do aparelho de estado e a oficial consagração dos valores do estado e da revolução - algo que só há poucos anos atrás foi posto em causa.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Mariachi y tequila (14)

Tania Libertad - Tómate esta botella conmigo (1998)
Tania Libertad nasceu no Peru e nas suas veias corre sangue africano - aí, como em algumas outras zonas de Hispano-América, há descendentes de escravos negros. Vem, portanto, da mesma realidade étnico-cultural de que vem também, por exemplo, Susana Baca, só que a sua carreira já transcendeu muito as suas origens. Com efeito, vive há muitos anos no México e, não obstante nunca ter deixado de se apresentar como orgulhosa portadora dessas raízes afro-peruanas (de que o recente álbum Costa Negra é um cabal testemunho), a verdade é que já pertence plenamente à cena artística do seu país de adopção. Tem um timbre de voz original, de cariz lírico. O seu repertório tem incidido no bolero clássico, para o qual a sua voz se revela particularmente adequada. Contudo, para além dos retornos periódicos às suas raízes, tem feito incursões por outros âmbitos. Esta gravação é um exemplo disso, pois culmina em grande estilo algumas incursões prévias na música ranchera. Trata-se de uma homenagem a José Alfredo Jiménez, onde interpreta alguns dos seus temas num registo pouco comum ao género. Parece ser um pouco arriscado pôr uma voz tão delicada a interpretar um género tão bravio, mas o resultado não deixa de ser magnífico - destaque-se, por exemplo, o conhecido Si nos dejan, que soa inusitadamente celestial...
É curioso observar que as montagens fotográficas que acompanham este CD não só sugerem uma homenagem a José Alfredo Jiménez como também uma evocação da figura de Chavela Vargas - a pose de Tania Libertad é ostensiva nesse propósito. Aliás, para quem conhece a trajectória das duas trágicas glórias da música mexicana, nomeadamente os problemas de alcoolismo que os afectaram, a ideia faz sentido e reforça o significado do tema que é utilizado para título.
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domingo, fevereiro 06, 2005

Flamenco (11)

Chambao - Endorfinas en la Mente (2003)

Tendo em conta o factor originalidade, este álbum é, sem dúvida, a mais importante produção do Nuevo Flamenco nos tempos mais recentes. Chambao encontrou caminhos efectivamente inovadores, desta feita na direcção do chill out e música ambiente. Criou, enfim, uma sonoridade própria! Neste processo avulta a vocalista María del Mar Rodríguez, cuja voz, além de um timbre bem flamenco, tem fulgor sensual... Entre vários excelentes temas, destaque-se Ahí estás tú. De notar que, reforçando o que anteriormente havia sucedido com Flamenco Chill, Endorfinas en la Mente impôs-se junto da crítica e obteve sucesso comercial.
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Audio Sampler Es.Flamenco

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Flamenco (10)

Chambao - Flamenco Chill (2002)
Uma das características do flamenco é o de ser um universo musical que suscita formas de expressão diversificadas. Uma das mais recentes é a do Flamenco Chill - sub-género que está longe do dramatismo original e, pelo contrário, enquadra-se plenamente na ligeireza da música ambiente. O grupo malaguenho Chambao está na linha da frente do sub-género. Neste duplo CD cerca de metade dos temas são de sua interpretação e os restantes estão distribuidos por artistas diversificados, desde o guitarrista Vicente Amigo a Chill Out DJ's. A produção assegura homogeneidade através de uma onda harmoniosa que atravessa todo o disco e no qual os pontos altos são os acordes de Vicente Amigo e a voz de Maria del Mar Rodríguez, vocalista de Chambao. Se é certo que estamos longe do genuíno espírito flamenco, não é menos certo que os seus fortes ecos conferem um encanto particular a esta onda.
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quarta-feira, janeiro 05, 2005

Tiro ao Alvo (1)

Bjørn Lomborg - El Ecologista Escéptico (The Skeptical Environmentalist) (2001)

O Ecologista Céptico, do dinamarquês Bjørn Lomborg teve forte impacto aquando da edição em inglês. Suscitou imensa polémica. A partir de estatísticas oficialmente publicadas e reconhecidas (na grande maioria dos casos, as mesmas apressadamente utilizadas para dilacerantes denúncias...), aí se desmistifica a propaganda ambientalista e "sócio-catastrofista" com que a opinião pública usualmente se mortifica. É com argumentação rigorosa que se desmontam grande parte dessas verdades mediáticas que quase todos fomos incorporando na nossa percepção do mundo. Depois desta leitura ficamos a saber que, na maioria dos casos, não passam de autênticas fábulas ou efabulações... Note-se que o autor não pretende invalidar a preocupação social sobre as questões ambientais, nem sequer, desmentir ou ignorar muitos problemas efectivos. O que pretende é suscitar uma preocupação social guiada pela razão e não pela emoção e, por via disso, distinguir os problemas reais e os imaginários e, em relação aos primeiros, hierarquizá-los e reflectir sobre os meios a utilizar.
Não há ainda tradução em português. A tradução em castelhano saiu há pouco mais de um ano. Aquando da saída desta edição espanhola, Lomborg deu uma entrevista. O autor tem ainda um sítio oficial na Internet.
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terça-feira, janeiro 04, 2005

Vintage (3)

The Dave Brubeck Quartet - Time Out (1959)
Este álbum é um dos mais importantes da história do jazz. Foi adequadamente reeditado em CD no âmbito da colecção Columbia Legacy, que reúne algumas das mais históricas gravações dessa etiqueta. A sua importância consiste, desde logo, no facto que incluir Take Five, que, imagine-se, chegou aos tops - nem mais nem menos, #25 Top40 USA. O próprio álbum conseguiu ainda mais - #2 Top40 USA. Foi o álbum de jazz mais comercial de sempre! É um feito, obviamente, invulgar, tanto mais que não se trata de um caso de concessão comercial por via de algum tipo de fusão com ritmos e melodias mais populares. Os tempos eram outros e, para além da particular genialidade de Take Five, que tem a rara virtude de se impor a todos os ouvidos, sucede que em finais dos anos 50 e inícios dos anos 60, não se estava ainda no nível de democratização de consumo de música que se alcançaria alguns anos depois.
Em Take Five pontifica o protagonismo do alto sax de Paul Desmond e da percussão de Joe Morello. A composição é de Desmond, mas parece ter sido concebida para um destacado solo de Morello, o qual, efectivamente, lá está, reforçando a um nível espectacular o sabor swing de toda a peça. Porém, a imagem de marca reside na sonoridade do alto sax de Desmond. Para além deste tema mítico há ainda o destacado Blue Rondo a la Turk. O conjunto dos temas é muito bom, confirmando o sabor especial do moderno jazz clássico através de instrumentistas e compositores fora de série.
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