segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Mariachi y tequila (14)

Tania Libertad - Tómate esta botella conmigo (1998)
Tania Libertad nasceu no Peru e nas suas veias corre sangue africano - aí, como em algumas outras zonas de Hispano-América, há descendentes de escravos negros. Vem, portanto, da mesma realidade étnico-cultural de que vem também, por exemplo, Susana Baca, só que a sua carreira já transcendeu muito as suas origens. Com efeito, vive há muitos anos no México e, não obstante nunca ter deixado de se apresentar como orgulhosa portadora dessas raízes afro-peruanas (de que o recente álbum Costa Negra é um cabal testemunho), a verdade é que já pertence plenamente à cena artística do seu país de adopção. Tem um timbre de voz original, de cariz lírico. O seu repertório tem incidido no bolero clássico, para o qual a sua voz se revela particularmente adequada. Contudo, para além dos retornos periódicos às suas raízes, tem feito incursões por outros âmbitos. Esta gravação é um exemplo disso, pois culmina em grande estilo algumas incursões prévias na música ranchera. Trata-se de uma homenagem a José Alfredo Jiménez, onde interpreta alguns dos seus temas num registo pouco comum ao género. Parece ser um pouco arriscado pôr uma voz tão delicada a interpretar um género tão bravio, mas o resultado não deixa de ser magnífico - destaque-se, por exemplo, o conhecido Si nos dejan, que soa inusitadamente celestial...
É curioso observar que as montagens fotográficas que acompanham este CD não só sugerem uma homenagem a José Alfredo Jiménez como também uma evocação da figura de Chavela Vargas - a pose de Tania Libertad é ostensiva nesse propósito. Aliás, para quem conhece a trajectória das duas trágicas glórias da música mexicana, nomeadamente os problemas de alcoolismo que os afectaram, a ideia faz sentido e reforça o significado do tema que é utilizado para título.
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domingo, fevereiro 06, 2005

Flamenco (11)

Chambao - Endorfinas en la Mente (2003)

Tendo em conta o factor originalidade, este álbum é, sem dúvida, a mais importante produção do Nuevo Flamenco nos tempos mais recentes. Chambao encontrou caminhos efectivamente inovadores, desta feita na direcção do chill out e música ambiente. Criou, enfim, uma sonoridade própria! Neste processo avulta a vocalista María del Mar Rodríguez, cuja voz, além de um timbre bem flamenco, tem fulgor sensual... Entre vários excelentes temas, destaque-se Ahí estás tú. De notar que, reforçando o que anteriormente havia sucedido com Flamenco Chill, Endorfinas en la Mente impôs-se junto da crítica e obteve sucesso comercial.
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Audio Sampler Es.Flamenco

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Flamenco (10)

Chambao - Flamenco Chill (2002)
Uma das características do flamenco é o de ser um universo musical que suscita formas de expressão diversificadas. Uma das mais recentes é a do Flamenco Chill - sub-género que está longe do dramatismo original e, pelo contrário, enquadra-se plenamente na ligeireza da música ambiente. O grupo malaguenho Chambao está na linha da frente do sub-género. Neste duplo CD cerca de metade dos temas são de sua interpretação e os restantes estão distribuidos por artistas diversificados, desde o guitarrista Vicente Amigo a Chill Out DJ's. A produção assegura homogeneidade através de uma onda harmoniosa que atravessa todo o disco e no qual os pontos altos são os acordes de Vicente Amigo e a voz de Maria del Mar Rodríguez, vocalista de Chambao. Se é certo que estamos longe do genuíno espírito flamenco, não é menos certo que os seus fortes ecos conferem um encanto particular a esta onda.
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quarta-feira, janeiro 05, 2005

Tiro ao Alvo (1)

Bjørn Lomborg - El Ecologista Escéptico (The Skeptical Environmentalist) (2001)

O Ecologista Céptico, do dinamarquês Bjørn Lomborg teve forte impacto aquando da edição em inglês. Suscitou imensa polémica. A partir de estatísticas oficialmente publicadas e reconhecidas (na grande maioria dos casos, as mesmas apressadamente utilizadas para dilacerantes denúncias...), aí se desmistifica a propaganda ambientalista e "sócio-catastrofista" com que a opinião pública usualmente se mortifica. É com argumentação rigorosa que se desmontam grande parte dessas verdades mediáticas que quase todos fomos incorporando na nossa percepção do mundo. Depois desta leitura ficamos a saber que, na maioria dos casos, não passam de autênticas fábulas ou efabulações... Note-se que o autor não pretende invalidar a preocupação social sobre as questões ambientais, nem sequer, desmentir ou ignorar muitos problemas efectivos. O que pretende é suscitar uma preocupação social guiada pela razão e não pela emoção e, por via disso, distinguir os problemas reais e os imaginários e, em relação aos primeiros, hierarquizá-los e reflectir sobre os meios a utilizar.
Não há ainda tradução em português. A tradução em castelhano saiu há pouco mais de um ano. Aquando da saída desta edição espanhola, Lomborg deu uma entrevista. O autor tem ainda um sítio oficial na Internet.
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terça-feira, janeiro 04, 2005

Vintage (3)

The Dave Brubeck Quartet - Time Out (1959)
Este álbum é um dos mais importantes da história do jazz. Foi adequadamente reeditado em CD no âmbito da colecção Columbia Legacy, que reúne algumas das mais históricas gravações dessa etiqueta. A sua importância consiste, desde logo, no facto que incluir Take Five, que, imagine-se, chegou aos tops - nem mais nem menos, #25 Top40 USA. O próprio álbum conseguiu ainda mais - #2 Top40 USA. Foi o álbum de jazz mais comercial de sempre! É um feito, obviamente, invulgar, tanto mais que não se trata de um caso de concessão comercial por via de algum tipo de fusão com ritmos e melodias mais populares. Os tempos eram outros e, para além da particular genialidade de Take Five, que tem a rara virtude de se impor a todos os ouvidos, sucede que em finais dos anos 50 e inícios dos anos 60, não se estava ainda no nível de democratização de consumo de música que se alcançaria alguns anos depois.
Em Take Five pontifica o protagonismo do alto sax de Paul Desmond e da percussão de Joe Morello. A composição é de Desmond, mas parece ter sido concebida para um destacado solo de Morello, o qual, efectivamente, lá está, reforçando a um nível espectacular o sabor swing de toda a peça. Porém, a imagem de marca reside na sonoridade do alto sax de Desmond. Para além deste tema mítico há ainda o destacado Blue Rondo a la Turk. O conjunto dos temas é muito bom, confirmando o sabor especial do moderno jazz clássico através de instrumentistas e compositores fora de série.
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sexta-feira, dezembro 31, 2004

sábado, dezembro 25, 2004

Viagens (13): Picos de Europa / 2001 (6)

3º Dia – 6 de Abril (6ª Feira) (tarde)

Almocei magnificamente na bela localidade de Potes – uma habada (feijoada) típica da região. Potes tem um interessante núcleo central antigo, onde sobressaem uma velha ponte e um imponente paço medieval (Torre del Infantado). É a mais importante localidade de La Liébana, no sudoeste de Cantábria. Encontra-se já na área de influência de Santander – os jornais que se vêm são desta cidade, com destaque para El Diario Montañés.
A estadia em Cantábria limitou-se à travessia do seu extremo sudoeste. A estrada, apertada pelo imponente desfiladeiro de La Hermida, conduziu-me ao Principado de Astúrias. Entretanto, chegara a chuva inesperadamente. A verde Astúrias não abdicava da sua bruma e chuva, fazendo-se anunciar com esta mudança meteorológica... Assim entrei pela primeira vez nesta região, que desde há muito ansiava conhecer. Foi uma entrada à altura das expectativas. Em Cabrales, um desvio por motivo de obras, conduziu-me a um pedaço da recôndita ruralidade asturiana, onde me ia despistando por prados repletos de vacas, tendo como pano de fundo paisagens de alta montanha...
Ia agora na direcção Oeste, com o objectivo de subir ainda nessa tarde aos Lagos de Covadonga. Acabou por ser um objectivo gorado, pois o denso nevoeiro inviabilizou a façanha a meio da escalada, quando esta se tornava pouco menos que suicida. Assim, assentei arrais na cidadezinha de Cangas de Onís bem antes do anoitecer. Aqui nasceu o primeiro reino cristão independente da tutela muçulmana. Mas, além desta glória, apresenta um testemunho monumental do seu prestigioso passado - uma magnífica ponte medieval, que aparece frequentemente em prospectos turísticos da região. Nela está suspensa a emblemática Cruz de Pelayo, presente na bandeira asturiana.
Em Cangas de Onís apercebi-me da personalidade asturiana. Por todo lado há sidrerías – lugares onde se bebe sidra, que é uma típica bebida asturiana, feita a partir de maçã. Há também muitas lojas de recuerdos regionais: réplicas dos espigueiros asturianos (amplos e quadrados - diferentes dos galegos e minhotos, que são mais pequenos e rectangulares); gaiteiros (a gaita asturiana também é diferente da galega); figuras de míticos deuses célticos; múltiplos artefactos feitos com pele de vaca; gorros asturianos; CDs de música regional). Observei também que, nas bancas de jornais, onde imperavam os três principais diários asturianos (El Comércio, de Gijón; La Nueva España e El Periódico de Asturias, de Oviedo), havia um semanário escrito na língua vernácula da região, o bable, ou como os seus defensores preferem, o asturianu. Aliás, pelo caminho, tinha observado que, desde a entrada no Principado, muitas placas toponímicas estavam corrigidas na sua grafia por pichagens. Confirmei que por aqui também há nacionalistas e dedicados amantes de uma língua vernácula. Porém, não detectei ninguém que a falasse. É certo que alguns intelectuais falarão asturianu em actos simbólicos, mas provavelmente será preciso procurar nas montanhas quem ainda o fale com naturalidade. Já tinha lido uma vez no Público que linguistas da Universidade de Oviedo (já agora, Oviéu) tinham muita curiosidade em relação ao mirandês (da zona de Miranda do Douro) que é um dialecto idêntico ao bable / asturianu. Ambos são o que resta da língua astur-leonesa.
Duas coisas conclui: Cangas de Onís é um dos centros simbólicos do asturianismo; este movimento, se nunca teve expressão política, tem alguma existência cultural. Enfim, o cantonalismo das Espanhas não cessa de me surpreender...

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Boulevard nostalgie (18)

Charles Aznavour - La bohème (1965)
Os anos 60 são os melhores anos de Aznavour. A sua voz estava na plenitude e são de então os seus maiores êxitos. Eram tempos em que os tops se compatibilizavam com a qualidade e em que o pop/rock anglo-saxónico ainda não dominava tão esmagadoramente. Nesse tempo, portanto, Aznavour estava longe de se limitar a ser um fenómeno do mundo francófono, tinha uma projecção mundial (como Dalida e Bécaud, por exemplo). La Bohème é de 1965 e será uma das mais belas canções de sempre. O seu lirismo é indissociável da interpretação de Aznavour. Também no álbum se encontra um outro tema excepcional, Paris au mois d'août - que é genuinamente aznavouriano. Este CD reúne não apenas os temas do álbum original, mas também mais algums outras editados em EP ou single entre 1963 e 1966.
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Boulevard Nostalgie (17)

Charles Aznavour (Chahnour Varenagh Aznavourian)(Paris, 1924)
Se há voz com um timbre carismático, a de Aznavour é uma delas. Se a de Sinatra seduz pelo poder, a de Aznavour seduz pelo timbre que exala algo de agreste e, ao mesmo tempo de calor expressivo. É um intérprete por excelência de canções e a prova de como em pouco mais de três minutos se pode transmitir elevadas emoções musicais. Nada é banal na sua interpretação. Mais do que ninguém (com excepção de Edith Piaf), representa as virtualidades da chanson. E curiosamente, em rigor, não é um francês puro... Descendente de arménios exilados (a família Aznavourian foi obrigada pelos horrores do genocídio arménio a uma errância sem destino), nasce em Paris por acaso. Mas, seja lá como for, Aznavour é francês!
Nas nossas FNACs apareceu agora a sua obra integral (L'Intégrale) reunida numa enorme caixa que é uma peculiar réplica do Arco de Triunfo. São 44 álbuns, 786 canções, 64 páginas e... 700 euros. Sendo eu comprador compulsivo de CDs, DVDs e livros, assim estoirando, mês após mês, o meu salário quase até ao último cêntimo, senti-me tentado a elevar qualitativamente a incontinência com a aquisição de tão extravagante produto. Mas contive-me, héllas, que remédio...
A página oficial de Aznavour é monumental, mas há outras muito boas também. Eis um artista que está representado na rede a um nível correspondente ao seu valor.