sábado, dezembro 11, 2004

Mariachi y tequila (10)

Julie Taymor - Frida (2002)
Este filme aborda a vida da pintora mexicana Frida Kahlo, qur foi casada com o famoso pintor Diego Rivera. É certo que foi uma vida marcada por uma personalidade invulgar e tão recheada de peripécias dramáticas que consitui um guião invejável para qualquer filme. Contudo, o desempenho de Salma Hayek como Frida e de Alfred Molina como Diego Rivera valorizam ainda mais o filme. Além disso, há que reconhecer que a desconhecida realizadora norte-americana, Julie Taynor, consegue, entre outras coisas, sintonizar-se com a estética subjacente à obra de Frida Kahlo. Se a tudo isto se juntar uma adequada banda sonora, temos, portanto, um excelente filme, que está à altura dos seis óscares para que foi nomeado, tendo ganho dois: melhor caracterização e melhor banda sonora original (Eliott Goldenthal).
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Guia hispânico (6)

Timothy Anna, Jan Bazant, Friedrich Katz, John Womack Jr, Jean Meyer, Alan Knight, Peter H Smith - História de México (2001)
O México é um dos países que mais me fascina. Tive sempre a ideia de conhecer um pouco da sua história, para além da época da conquista de Hernán Cortez. Não é tarefa fácil para quem tem dificuldades em língua inglesa, já que, a produção de sínteses que abranjam todo o período colonial e o período de independência não é abundante fora das universidades dos EUA e Grã-Bretanha. Porém, em boa hora, a Editorial Crítica, de Barcelona, começou a traduzir para castelhano sínteses parcelares da monumental Cambridge History of Latin America. Esta edição abrange os capítulos respeitantes ao México, desde a Guerra da Independência até à actualidade. Cada capítulo foi feito por um especialista. Todos partilham a velha e sólida perspectiva historioográfica tradicional anglo-saxónica.
Embrenhado nas peripécias da primeira metade do século XIX mexicano, não posso deixar de me espantar pela convulsiva instabilidade política e social, a qual, comparativamente, consegue fazer das guerras liberais portuguesas ou mesmo das guerras carlistas espanholas cenários relativamente serenos... Consegue-se por essas e outras razões entender melhor como foi possível que os Estados Unidos arrebatassem metade do território mexicano, naquilo que constituiu uma das mais espantosas mutilações territoriais da história contemporânea. Não menos espantoso é verificar como essa mutilação é tão generalizadamente ignorada...
Mas a coisa promete, pois que, aguardando Benito Juárez e, depois, Pancho Villa é caso para se dizer que o melhor ainda está para vir...
Nota final para a imagem da capa, que é a reprodução de um pormenor de um daqueles belíssimos murais de Diego Rivera.
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sexta-feira, dezembro 10, 2004

Flamenco (4)

Manzanita - Por tu Ausencia (1998) / Manzanita en Directo (2002)
Em 1988 Manzanita relança a sua carreira, depois de 10 anos de obscuridade. O seu apogeu ocorrera na primeira metade dos anos 80, quando tinha contrato com a CBS e como produtor José Luís de Carlos. Entre 1985 e 1986 deixou a CBS e ingressou na RCA para acompanhar o produtor. Contudo, produziu-se um declive, que correspondeu também ao surgimento de propostas de fusão flamenca mais ousadas, que passaram a ser privilegiadas pela crítica e pelo público. Manzanita teve dificuldade em adaptar-se a esta situação. Nos finais dos anos 70 anuncia a sua conversão a uma seita evangélica, troca Madrid por Barcelona e, depois do insucesso comercial de dois álbuns gravados para a RCA, deixa o seu produtor e assina por uma pequena editora de Barcelona, Horus. Embora continue a gravar álbuns com assiduidade quase anual, as suas presenças em espectáculos tornam-se raras, ao mesmo tempo que era cada vez mais notório o seu empenho religioso. Oe álbuns dessa fase não são completamente desinteressantes, porque se mantêm as suas qualidades interpretativas e porque há sempre alguns temas bons. Contudo, a qualidade do repertório baixa - deixa de haver propostas imaginativas e a produção opta por registos convencionais e melosos. Acentua-se assim o seu ostracismo artístico até 1988. Nesse ano, depois de assinar pela multinacional Warner, ocorre o espectáculo que assinala o relançamento da sua carreira, pela mão do produtor Paco Ortega. O espectáculo destinava-se à gravação de um álbum elaborado com uma produção cuidada. Paco Ortega convocou o grupo La Barbería del Sur, um dos mais vanguardistas da fusão flamenca e, deste modo, enunciou um caminho a seguir, o qual, aliás, recuperava a lógica inicial da carreira de Manzanita. O álbum tem coerência e é um produto adequado ao fim a que se destinava. Assenta no melhor do seu repertório (o mais antigo) e dá-lhe uma roupagem inovadora.
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Há cerca de dois anos foi feita uma edição em DVD, a qual, porém, pouco acrescenta, na medida em que se limita a ser uma registo visual estático da actuação em palco. Tem, no entanto, uma utilidade marginal - a de nos confrontar com a mudança de imagem do cantor, que adquirira uma corpulência mórbida, com mais de 130 quilos...
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Flamenco (3)

Manzanita - Talco y bronce (1981)
A CBS organizou uma digressão de Manzanita aos Estados Unidos, a fim de fazer alguns espectáculos e gravar com músicos locais. Tinha sucedido que uma emissora FM de Nova Iorque divulgara o seu segundo álbum, Espirítu sin nombre, obtendo uma inesperada adesão, sobretudo, em relação ao tema Paloma blanca. Ou seja, Manzanita tinha-se tornado quase um objecto de culto entre uma elite de iniciados, como, de resto, sucedera em mais algumas paragens (Israel, Japão...). Tal deveu-se à capacidade da multinacional CBS. Pois esta gravação é resultado imediato dessa digressão. As imagens da capa e contra-capa ilustram o facto. Mas a coisa não se limitou a ser uma operação de marketing - teve um efectivo conteúdo. Foi uma gravação parcialmente concebida e realizada em Nova Iorque. Os arranjos, a cargo de Dave Thomas, imprimem um carácter decididamente fusionista e o mínimo que há que dizer é que são espectaculares. Provavelmente nunca houve tão ousada fusão flamenca na vertente ligeira, a qual atreveu-se a utilizar instrumentos tão inusuais, como, por exemplo, o violino e a cítara. Tudo isto desembocou num ambiente sonoro refinado. A voz de Manzanita é decisiva para o resultado, estando mais domesticada, mais aveludada, sem perder a reconhecidatonalidade flamenca. É o trabalho mais criativo de toda a sua carreira. Não há um tema fraco e há um punhado de temas notáveis. Note-se que, com excepção do refrão do tema inicial de Por tu ausencia, tampouco se pode dizer que houvesse concessões comerciais. Refrão que merece, aliás, uma referência pelo facto de ser cantado em português com sotaque brasileiro – algo que voltará a suceder em temas do álbum seguinte. Temas como o instrumental Talco y bronce, Quien fuera luna (poema de Gustavo Adolfo Bécquer) Un ramito de violetas (da malograda cantautora Cecília) e El rey de tus sueños são soberbos e os melhores de uma inspiradíssima colheita que representará para sempre o apogeu da sua carreira. Resta acrescentar esta ironia: sem denotar particulares concessões comerciais, acabou por se tornar um espectacular êxito de vendas, com mais de meio milhão de cópias vendidas! Nunca Manzanita foi tão bem sucedido comercialmente, ao mesmo tempo que nunca foi tão aclamado pela crítica.
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Flamenco (2)

Manzanita - Mal de amores (1984)
Uma das vias de fusão do flamenco foi na direcção do cançonetismo. Mais do que uma novidade, esta via foi sempre uma ligação intermitente, transfigurada segundo as roupagens orquestrais das modas vigentes. Manzanita nunca a desprezou, mas é com este álbum que se lança nela plenamente. Fê-lo de um modo que constituiu uma ruptura na sua carreira. Com efeito, interrompendo a colaboração com o consagrado produtor José Luis de Carlos, fez esta gravação sob a direcção de Jorge Álvarez, vindo da área do pop/rock mais comercial. A CBS disponibilizou acrescidos recursos, os quais consistiram na participação da Royal Philarmonic Orchestra e do maestro Luís Cobos. O rumo apontava caminhos mais comerciais. Em todo o caso, os resultados de vendas foram decepcionantes, tendo em conta os gastos de produção e as vendas atingidas pelos álbuns precedentes. Não segurou o seu público mais exigente e não conquistou públicos mais amplos. Sucede, contudo, que este álbum é merecedor de atenção. Os arranjos são pesados, ora dando protagonismo à caixa de ritmos, ora configurando um cançonetismo de aparato. Ainda por cima atreve-se a impensáveis desplantes falhados, como pegar no La Bohème, de Aznavour, em moldes de zarzuela, ou na copla Los Piconeros com instrumentalização eléctrica... Outros excessos, porém, resultam magnificamente, como certas letras liricamente toscas e de conteúdo ao estilo de macho castigador, onde avulta esse delicioso vademecum do género que é Sin darme cuenta. Nesta linha, o primeiro e último temas são também fortes e sublinham a tónica de um mano a mano entre orquestrações pesadas e um desempenho vocal pleno de garra. Na verdade, a voz, entre o agreste e o aveludado, estava mais exuberante do que nunca. Para o bem e para o mal, tudo aqui é mais do que quente, é tórrido... Há coisas muito boas e muito más.
Com este álbum maldito, desenterraram-se alguns demónios relacionados com os seus antecedentes machistas (denúncias de assédio e opiniões tonitruantemente polémicas...) e começaram a esboçar-se sinais de uma decadência precoce. Depois do álbum seguinte, La quiero a morir, entrou numa fase de penumbra, de onde só chegaram os tímidos ecos da conversão a uma seita evangélica e os intermitentes testemunhos de uma carreira em retirada, através de uma série de álbuns menores.
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segunda-feira, dezembro 06, 2004

Flamenco (1)

Manzanita (José Ortega Heredia)(1956-2004)
Morreu hoje, subitamente, Manzanita. Foi um dos mais importantes percursores do Nuevo Flamenco.

domingo, dezembro 05, 2004

Viagens (11): Picos de Europa / 2001 (5)

Fuente De / Peña Vieja - Vista desde a estação (superior) do teleférico

Viagens (10): Picos de Europa / 2001 (4)

10

Riaño (antes e depois da submersão)

3º Dia – 6 de Abril (6ª Feira) (manhã)

Costumo dizer que nem mesmo em Espanha é fácil encontrar quem saiba mais da sua geografia (… e história) do que eu. Este interesse vem desde miúdo, graças às remessas de livros, postais e mapas que o meu pai despejava em minha casa, as quais atestavam as suas contínuas andanças por Espanha, nos anos 40 e 50. Com o tempo fui aperfeiçoando e alargando os conhecimentos, graças em parte a viagens, em parte a leituras. Assim, estava seguro que o percurso deste dia seria espectacular.
Logo de manhã, o espectáculo de Riaño e seu entorno superava o da véspera. Quanto à localidade, propriamente dita, observei que a maioria das casas deveria ser de segunda habitação. Os primitivos habitantes, aqueles que lá viviam antes da submersão, devem ser poucos. Não é que, antes, houvesse lá muitos, só que foi um processo traumático. Com efeito, nos anos 70 e 80 viveu-se uma polémica a propósito da construção da barragem e suas consequências. A localidade fica no extremo nordeste da província de León, junto aos Picos de Europa, escoltada por Torre Cerredo (2.648 m), Llambrón (2.617 m) e Peña Prieta (2.536 m). A própria aldeia primitiva situava-se numa cota acima dos 1000 metros. O seu isolamento geográfico é já de si uma realidade incontornável, mas, além disso, no Inverno, por causa de nevões, é sujeita a ocasionais bloqueios nas três estradas que a servem. O isolamento apercebe-se imediatamente. Por exemplo, às 10 horas vendia-se o Diário de León, mas mais nenhum outro jornal tinha ainda chegado.E sintonizar alguma emissora de rádio é tarefa complicada.
Parti pouco depois das 10, rumo a Fuente De. O que se seguiu não é fácil descrever sem cair em lugares comuns. A estrada estreita e cheia de curvas passava por contínuos desfiladeiros, ou melhor, apertadas gargantas entre colossos de rocha. Assim foi até ao limite nordeste da província de León.
No Puerto de San Glório, a 1.600 metros de altitude, entrei na Região de Cantábria, província de Santander. Foi imperioso parar e admirar a paisagem de cumes escarpados e nevados, os prados e os bosques. A partir dali havia vários caminhos de montanha e avistavam-se pequenos grupos de caminhantes. A descida foi feita em vertiginosas curvas e contra-curvas apertadas, sobre precipícios, sem guarda. À medida que se ía descendo, havia cada vez mais prados e uma densa população de vacas, que deve superar a humana, dispersa por aldeias perdidas e semi-abandonadas. Salpicando esta paisagem apareciam algumas ermidas românicas, cuja antiguidade deve mergulhar no ocaso dos tempos godos e primórdios da Reconquista.
Era meio-dia quando cheguei a Fuente De, no fim do vale de La Liébana. Há aí um teleférico, suspenso em cabos, que sobe quase 1.000 metros a pique! Entrar na cabine requer algum sangue-frio, mas que é recompensado por um panorama invulgar, quer na ascensão, quer lá em cima, junto aos 2.600 metros de Peña Vieja. A diferença de temperatura na saída do teleférico constituiu um choque álgido. A neve estacionava em mantos descontínuos, mas a panorâmica dos horizontes distantes prendia a atenção mais do que qualquer outra coisa - avistam-se picos e picos sem fim. É uma sensação de grandiosidade impressionante!

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Dancing Days (10)

Van McCoy (1940-1979)
Precocemente desaparecido, com apenas 39 anos, Van McCoy permanecerá, no entanto, sempre ligado ao auge do Disco Sound. A sua carreira musical, embora curta, foi muito preenchida, sobretudo como compositor e produtor de grupos pop (The Shirelles - anos 60) e soul (The Styilistics - anos 70). Mas, em 1975 estoira com um êxito absoluto, que se tornará um dos mais emblemáticos do Disco Sound: The Hustle (mais de 8 milhões de singles vendidos!). A dimensão deste fenómeno fez obscurecer a sua profícua trajectória. Ainda hoje, este tema permanece como detendo uma sonoridade das mais identificadoras dos anos 70...