sexta-feira, dezembro 10, 2004

Flamenco (3)

Manzanita - Talco y bronce (1981)
A CBS organizou uma digressão de Manzanita aos Estados Unidos, a fim de fazer alguns espectáculos e gravar com músicos locais. Tinha sucedido que uma emissora FM de Nova Iorque divulgara o seu segundo álbum, Espirítu sin nombre, obtendo uma inesperada adesão, sobretudo, em relação ao tema Paloma blanca. Ou seja, Manzanita tinha-se tornado quase um objecto de culto entre uma elite de iniciados, como, de resto, sucedera em mais algumas paragens (Israel, Japão...). Tal deveu-se à capacidade da multinacional CBS. Pois esta gravação é resultado imediato dessa digressão. As imagens da capa e contra-capa ilustram o facto. Mas a coisa não se limitou a ser uma operação de marketing - teve um efectivo conteúdo. Foi uma gravação parcialmente concebida e realizada em Nova Iorque. Os arranjos, a cargo de Dave Thomas, imprimem um carácter decididamente fusionista e o mínimo que há que dizer é que são espectaculares. Provavelmente nunca houve tão ousada fusão flamenca na vertente ligeira, a qual atreveu-se a utilizar instrumentos tão inusuais, como, por exemplo, o violino e a cítara. Tudo isto desembocou num ambiente sonoro refinado. A voz de Manzanita é decisiva para o resultado, estando mais domesticada, mais aveludada, sem perder a reconhecidatonalidade flamenca. É o trabalho mais criativo de toda a sua carreira. Não há um tema fraco e há um punhado de temas notáveis. Note-se que, com excepção do refrão do tema inicial de Por tu ausencia, tampouco se pode dizer que houvesse concessões comerciais. Refrão que merece, aliás, uma referência pelo facto de ser cantado em português com sotaque brasileiro – algo que voltará a suceder em temas do álbum seguinte. Temas como o instrumental Talco y bronce, Quien fuera luna (poema de Gustavo Adolfo Bécquer) Un ramito de violetas (da malograda cantautora Cecília) e El rey de tus sueños são soberbos e os melhores de uma inspiradíssima colheita que representará para sempre o apogeu da sua carreira. Resta acrescentar esta ironia: sem denotar particulares concessões comerciais, acabou por se tornar um espectacular êxito de vendas, com mais de meio milhão de cópias vendidas! Nunca Manzanita foi tão bem sucedido comercialmente, ao mesmo tempo que nunca foi tão aclamado pela crítica.
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Flamenco (2)

Manzanita - Mal de amores (1984)
Uma das vias de fusão do flamenco foi na direcção do cançonetismo. Mais do que uma novidade, esta via foi sempre uma ligação intermitente, transfigurada segundo as roupagens orquestrais das modas vigentes. Manzanita nunca a desprezou, mas é com este álbum que se lança nela plenamente. Fê-lo de um modo que constituiu uma ruptura na sua carreira. Com efeito, interrompendo a colaboração com o consagrado produtor José Luis de Carlos, fez esta gravação sob a direcção de Jorge Álvarez, vindo da área do pop/rock mais comercial. A CBS disponibilizou acrescidos recursos, os quais consistiram na participação da Royal Philarmonic Orchestra e do maestro Luís Cobos. O rumo apontava caminhos mais comerciais. Em todo o caso, os resultados de vendas foram decepcionantes, tendo em conta os gastos de produção e as vendas atingidas pelos álbuns precedentes. Não segurou o seu público mais exigente e não conquistou públicos mais amplos. Sucede, contudo, que este álbum é merecedor de atenção. Os arranjos são pesados, ora dando protagonismo à caixa de ritmos, ora configurando um cançonetismo de aparato. Ainda por cima atreve-se a impensáveis desplantes falhados, como pegar no La Bohème, de Aznavour, em moldes de zarzuela, ou na copla Los Piconeros com instrumentalização eléctrica... Outros excessos, porém, resultam magnificamente, como certas letras liricamente toscas e de conteúdo ao estilo de macho castigador, onde avulta esse delicioso vademecum do género que é Sin darme cuenta. Nesta linha, o primeiro e último temas são também fortes e sublinham a tónica de um mano a mano entre orquestrações pesadas e um desempenho vocal pleno de garra. Na verdade, a voz, entre o agreste e o aveludado, estava mais exuberante do que nunca. Para o bem e para o mal, tudo aqui é mais do que quente, é tórrido... Há coisas muito boas e muito más.
Com este álbum maldito, desenterraram-se alguns demónios relacionados com os seus antecedentes machistas (denúncias de assédio e opiniões tonitruantemente polémicas...) e começaram a esboçar-se sinais de uma decadência precoce. Depois do álbum seguinte, La quiero a morir, entrou numa fase de penumbra, de onde só chegaram os tímidos ecos da conversão a uma seita evangélica e os intermitentes testemunhos de uma carreira em retirada, através de uma série de álbuns menores.
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segunda-feira, dezembro 06, 2004

Flamenco (1)

Manzanita (José Ortega Heredia)(1956-2004)
Morreu hoje, subitamente, Manzanita. Foi um dos mais importantes percursores do Nuevo Flamenco.

domingo, dezembro 05, 2004

Viagens (11): Picos de Europa / 2001 (5)

Fuente De / Peña Vieja - Vista desde a estação (superior) do teleférico

Viagens (10): Picos de Europa / 2001 (4)

10

Riaño (antes e depois da submersão)

3º Dia – 6 de Abril (6ª Feira) (manhã)

Costumo dizer que nem mesmo em Espanha é fácil encontrar quem saiba mais da sua geografia (… e história) do que eu. Este interesse vem desde miúdo, graças às remessas de livros, postais e mapas que o meu pai despejava em minha casa, as quais atestavam as suas contínuas andanças por Espanha, nos anos 40 e 50. Com o tempo fui aperfeiçoando e alargando os conhecimentos, graças em parte a viagens, em parte a leituras. Assim, estava seguro que o percurso deste dia seria espectacular.
Logo de manhã, o espectáculo de Riaño e seu entorno superava o da véspera. Quanto à localidade, propriamente dita, observei que a maioria das casas deveria ser de segunda habitação. Os primitivos habitantes, aqueles que lá viviam antes da submersão, devem ser poucos. Não é que, antes, houvesse lá muitos, só que foi um processo traumático. Com efeito, nos anos 70 e 80 viveu-se uma polémica a propósito da construção da barragem e suas consequências. A localidade fica no extremo nordeste da província de León, junto aos Picos de Europa, escoltada por Torre Cerredo (2.648 m), Llambrón (2.617 m) e Peña Prieta (2.536 m). A própria aldeia primitiva situava-se numa cota acima dos 1000 metros. O seu isolamento geográfico é já de si uma realidade incontornável, mas, além disso, no Inverno, por causa de nevões, é sujeita a ocasionais bloqueios nas três estradas que a servem. O isolamento apercebe-se imediatamente. Por exemplo, às 10 horas vendia-se o Diário de León, mas mais nenhum outro jornal tinha ainda chegado.E sintonizar alguma emissora de rádio é tarefa complicada.
Parti pouco depois das 10, rumo a Fuente De. O que se seguiu não é fácil descrever sem cair em lugares comuns. A estrada estreita e cheia de curvas passava por contínuos desfiladeiros, ou melhor, apertadas gargantas entre colossos de rocha. Assim foi até ao limite nordeste da província de León.
No Puerto de San Glório, a 1.600 metros de altitude, entrei na Região de Cantábria, província de Santander. Foi imperioso parar e admirar a paisagem de cumes escarpados e nevados, os prados e os bosques. A partir dali havia vários caminhos de montanha e avistavam-se pequenos grupos de caminhantes. A descida foi feita em vertiginosas curvas e contra-curvas apertadas, sobre precipícios, sem guarda. À medida que se ía descendo, havia cada vez mais prados e uma densa população de vacas, que deve superar a humana, dispersa por aldeias perdidas e semi-abandonadas. Salpicando esta paisagem apareciam algumas ermidas românicas, cuja antiguidade deve mergulhar no ocaso dos tempos godos e primórdios da Reconquista.
Era meio-dia quando cheguei a Fuente De, no fim do vale de La Liébana. Há aí um teleférico, suspenso em cabos, que sobe quase 1.000 metros a pique! Entrar na cabine requer algum sangue-frio, mas que é recompensado por um panorama invulgar, quer na ascensão, quer lá em cima, junto aos 2.600 metros de Peña Vieja. A diferença de temperatura na saída do teleférico constituiu um choque álgido. A neve estacionava em mantos descontínuos, mas a panorâmica dos horizontes distantes prendia a atenção mais do que qualquer outra coisa - avistam-se picos e picos sem fim. É uma sensação de grandiosidade impressionante!

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Dancing Days (10)

Van McCoy (1940-1979)
Precocemente desaparecido, com apenas 39 anos, Van McCoy permanecerá, no entanto, sempre ligado ao auge do Disco Sound. A sua carreira musical, embora curta, foi muito preenchida, sobretudo como compositor e produtor de grupos pop (The Shirelles - anos 60) e soul (The Styilistics - anos 70). Mas, em 1975 estoira com um êxito absoluto, que se tornará um dos mais emblemáticos do Disco Sound: The Hustle (mais de 8 milhões de singles vendidos!). A dimensão deste fenómeno fez obscurecer a sua profícua trajectória. Ainda hoje, este tema permanece como detendo uma sonoridade das mais identificadoras dos anos 70...

Dancing Days (9)

CD2: KC and the Sunshine Band - 25th Anniversary Collection (1999)
No Disco Sound, poucos grupos tiveram tanta relevância como este. No que diz respeito a tops, nenhum alcançou tantos êxitos, nem mesmo os Bee Gees. A partir da Florida, o grupo de Wayne "KC" Casey (um branco...), fez um som negro ligeiro, para dança, mesclado com algumas referências latinas. Comercialmente foi um produto que se aguentou na primeira linha do sucesso entre 1975 e 1984. Ou seja, até para além do período áureo do Disco Sound. No USA Top40 (Singles) teve cinco #1 : Get down tonight (1975); That's the way (I like it) (1975); Shake your booty (1976); I'm your boogie man (1977); Please don't go (1979). O arrebatador Give It Up, que não teve o mesmo sucesso (#18), é de 1984.
A sua importância está bem presente nos nostálgicos do Disco Sound, tal como se pode verificar nesta lista do sítio Seventies Dance Music Page.

Dancing Days (8)

CD2: Disco / 40 Grandes Clássicos do Disco Sound (2004)
Esta compilação foi feita para o mercado português e em boa-hora, já que, entre nós, nunca se deixou de fazer sentir o eco de uma remota censura sobre o disco sound e, portanto, nunca abundaram iniciativas que viessem ao encontro da nostalgia disco. Tem este mérito básico, mas não deixa de ser pertinente observar que a opção por um único tema por artista, se tem alguma lógica, não deixa de acarretar inconvenientes, pois não dá o devido peso aos nomes mais significativos. Menos compreensível é a ausência dos Bee Gees, dos Boney M, com o poderoso Daddy Cool, ou de Peaches & Herb. Estes factores constituem um dano irreparável para a sua representatividade. Também é de lamentar a má qualidade audio de alguns temas. Contudo, há coisas muito positivas. A saber: o non-stop na ligação entre os temas, que é totalmente adequado ao género, sugerindo o ambiente de discoteca; a inclusão de certos temas emblemáticos, que no seu tempo não tiveram aqui a correspondente repercussão do seu êxito nos Estados Unidos. Neste último caso destaco: KC & The Sunshine Band - That's the Way (I Like It); Van McCoy - The Hustle; Hot Chocolate - You Sexy Thing; Patrick Juvet - I Love America; Lipps Inc - Funkytown. ~
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quarta-feira, dezembro 01, 2004

Complexo de Aljubarrota (2)

Cardinal Richelieu (Armand Jean du Plessis) (1585-1642)
Que faz aqui o Cardeal Richelieu? Pois sucede que hoje é dia 1º de Dezembro, feriado nacional. Poucos serão os portugueses com uma ideia rigorosa sobre o que originou este feriado. A maioria terá ideias que se resumirão à evocação de que "nesse dia nos tornámos independentes dos espanhóis". Os mais informados precisarão a Restauração da Independência como pondo termo a 60 anos de "domínio filipino". Na verdade, esse golpe nobiliárquico, pouco mais do que palaciano, veio criar uma situação que só se definiria cerca de 20 anos depois, no tempo da governação do Conde de Castelo Melhor. A Guerra da Restauração, no essencial, desenrolou-se nesse tempo diferido, muito depois do ocorrido no dia 1º de Dezembro de 1640. Não foi decisivo o sentimento nacional - de resto, este utilizar tal conceito para esta época ainda é parcialmente anacrónico. Foi decisivo, isso sim, o contexto de crise do império hispânico e, mais precisamente, o desafio lançado pela estratégia do "primeiro-ministro" de França, o Cardeal Richelieu. O criador da raison d'état veio alterar os dados estratégicos da Europa, com uma política que visava criar todo o tipo de dificuldades ao império hispânico. Nessa orientação se inseriu a instigação da revolta catalã, que eclodiu em Junho de 1640 e que, durante 19 anos, concentrou os mais importantes recursos militares do valido de Filipe IV, Conde-Duque Olivares. Durante esses 19 anos, Portugal pode preparar-se militarmente. Quando finalmente a máquina militar espanhola, desmoralizada e desgastada foi chamada a "pôr na ordem" os insurrectos portugueses, encontrou pela frente um motivado dispositivo militar de cariz defensivo, superiormente organizado pelo Conde Castelo Melhor. A Restauração ficou, finalmente, assegurada. O seu maior responsável objectivo tinha falecido há mais de 20 anos - fora o criador de la grandeur de la France: Richelieu. Falta um busto dele no monumento aos restauradores...