sábado, novembro 13, 2004

Castilla (9): Castilla y León

Nada te turbe

(Letrilla que llevaba por registro en su breviario)

Nada te turbe;
nada te espante;
todo se pasa;
Dios no se muda,
la paciencia
todo lo alcanza.
Quien a Dios tiene,
nada le falta.
Solo Dios basta.
Santa Teresa de Ávila (1515-1582)

Boulevard Nostalgie (16)

DVD: Marco Ferreri - La Grande Bouffe (1973)
Nos anos 70 a produção cinematográfica europeia era dominada por uma sensibilidade esquerdista. Este facto, compreensível no contexto daqueles tempos, não deve levar-nos a ignorar o brilhantismo de alguns filmes. Efectivamente, se uma parte desse cinema ficou irremediavelmente datado, sucede, por outro lado, que muito do que de melhor foi feito, com espírito rebelde e iconoclasta, foi feito nesse tempo e não se imagina que pudesse ser feito agora... É o caso deste filme, de Marco Ferreri (mais um italiano afrancesado...).
O argumento é uma metáfora que encaixa no tipo de denúncia simplista dos vícios da sociedade burguesa. Esta que foi a forma mais comum de apresentar o filme na altura, é uma interpretação redutora. Com efeito, o argumento parece tocado por aquela graça anarco-surrealista que não anda longe do génio buñueliano. Mas se o argumento é um achado (um grupo de quatro burgueses, consumados gourmands e amantes dos prazeres da vida, que se encerram numa mansão para se empanturrarem com opíparos manjares, em sessão contínua até ao suicídio...), o casting e a realização dão-lhe um definitivo toque de génio. Quatro pesos pesados do cinema francês e italiano repartem o papel de sibaritas: Michel Picolli; Philippe Noiret; Ugo Togazzi; Marcello Mastroianni. A eles junta-se uma Andrea Ferreol que, com o seu perfil felliniano, no limiar de uma pungente obesidade, compõe um papel de gorda lasciva. A componente sexual é protagonizada por esta figura de nutridos seios e nádegas, com comportamento tão relaxado como a das suas carnes flácidas. Com efeito, a determinado momento, o garanhão do grupo (quem haveria de ser senão Marcello?) entende que o prazeres carnais não se devem restringir à mesa... Depois de, por encomenda pontual, ter usufruido dos serviços de jovens esbeltas, mas de todo alheias ao espírito do grupo, Marcello seduz Andrea, que se aproximara da cerca da mansão e convence-a (com facilidade…) a entrar no empreendimento.
Temos a sensação que estes grandes actores são deixados em roda livre. Aliás, significativamente, o nome dos personagens coincide com o nome dos artistas e o registo que cada um assume está de acordo com o imaginário que temos deles. Andrea é a parceira ideal - em rigor, não faz parte do grupo; aparece por lá e por lá fica, a instâncias de Marcello e perante a desconfiança inicial dos restantes três, que encaravam a reclusão com espírito misógino.

A decadência progressiva do grupo é patética! Algumas imagens são inolvidáveis, nomeadamente a morte de Michel Piccoli, suspenso num parapeito, em épico transe de libertação de gases... O patético acentua-se quando o instrumento viril de Marcello deixa de funcionar, suscitando nele um desconcertante desespero. Os quatro morrem de formas bizarras, mas Andrea sobrevive-lhes melancolicamente e volta para as suas funções docentes - a senhora era mestre-escola...
Para além de reflexões que pode suscitar a propósito de decadência, La Grande Bouffe foi um filme que associou Rabelais e Sade, estabelecendo-se num universo de íntima relação entre comida/sexo, prazer/dor - algo que só voltará a ser visto em algumas geniais excentricidades do realizador inglês Peter Greenaway.
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Boulevard Nostalgie (15)

LP: Herbert Pagani - Pagani a Bobino (1976)
Não foi feita ainda uma edição em CD desta gravação ao vivo de Herbert Pagani, o que é incompreensível, já que se trata de um trabalho excepcional. Pagani morreu em 1988, com apenas 44 anos, vítima de leucemia - uma desgraçada ironia para quem amava a vida e tinha uma conceito radicalmente optimista da condição humana. Aliás, uma vida que denota valores que foram sempre coerentemente assumidos como base inspiradora da sua arte, a qual não se reduziu à música. Eram valores que reflectiam uma sensibilidade libertária e ecologista, num empenhamento que era mais a um nível filosófico do que programático. A sua carreira foi feita quer no âmbito francês, quer no âmbito italiano, reflectindo o seu natural bilinguismo. Note-se que nasceu na Líbia no seio de uma família judia italianizada e que a sua vida adulta decorreu entre Itália e França.
O LP em apreço notabilizou-se, sobretudo, pelo tema L'Amitié - uma "hino instântâneo" que teve na época alguma repercussão. Contudo, está longe ser apenas um desfile de temas, já que obedece a um plano conceptual, construído em torno de valores e vivências do artista, num tom de arrebatado lirismo e emotividade. Ou seja, é um espectáculo que transcende o plano musical e que obedece a um guião de tipo quase teatral... Existem muitos temas musicais de elevada qualidade (destaco Leçons de Peinture, Serenade...) e declamações, que fazem a ligação entre eles. É esta intrínseca qualidade artistica que permite transcender o cliché da vulgata ideológica e confere intemporalidade.
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quinta-feira, novembro 11, 2004

Perros callejeros (5)

Los Chunguitos - Morir de Amor (2003)
Não conheço este álbum - provavelmente será o último (era temerário assegurar probabilidade semelhante nos anos 70 ou 80, quando a sua produção chegava a ser de mais de um álbum por ano...). Contudo, a pose da capa (que não, necessariamente, o título, enfim...) sugere alguma pacificação. O que é curioso neste trio rumbero, é que não foram afectados pelo sucesso comercial das suas irmãs. Com efeito, com excepção de um ábum, que foi um equívoco, mantiveram-se sempre num rumo muito próprio.

Perros callejeros (4)

Los Chunguitos - 1974-1992 Pasión Gitana (1992)
São várias as antologias em CD de Los Chunguitos. Esta é a mais representativa da sua longa trajectória. Aqui estão presentes os seus temas mais carismáticos: Dáme Veneno, Pa ti pa tu Primo, Soy un perro Callejero (versão original), Me Sabe a Humo, Embustera, Me Quedo Contigo, Vagando por Ahí, Ay que Dolor!, Por la Calle Abajo, Prisionero, Sangre Caliente... Crónicas de presos, de mulheres traiçoeiras, de vinganças passionais, de solitários marginais.
Pop/Rumba hard core - não aconselhável a gostos pudibundos, politicamente correctos, muito mainstreem...
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Perros callejeros (3)

Dinastia Salazar
Los Chunguitos são um dos vários produtos musicais de uma família - Salazar. Na verdade, um dos seus tios foi um nome importante do flamenco - Porrina de Badajoz. Por outro lado, o famoso duo Azúcar Moreno é constituído pelas duas irmãs mais velhas. Estas começaram como coros das suas gravações e espectáculos. O dúo Alazán é composto por duas primas. Entretanto também chegou a vez da irmã mais nova e de um sobrinho, que consituiram o duo Romanó, o qual começou logo com uma produção feita em Miami. Ver informação.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Noites tropicais (6)

Zizi Possi - Sobre Todas as Coisas (1991)
Portugal teve sempre o privilégio de estar próximo da música brasileira, tendo aqui os seus artistas ampla divulgação e popularidade. Contudo, este facto pode iludir que alguns nomes importantes permanecem pouco menos que deconhecidos entre nós, o que é válido para a paulista Zizi Possi (de ascendência napolitana).
Sobre Todas as Coisas nasceu como show e só depois passou á condição de disco, o que se nota, aliás, em certos aspectos do seu conceptualismo. Note-se que a artista tem uma voz de grande beleza e é ao mesmo tempo pianista de formação clássica. Sobre esta base privilegiada, a partir de finais dos anos 80 (com Estrebucha Baby), a sua carreira beneficia de um salto qualitativo, com produções sofisticadas e com um cada vez mais apurado critério na escolha de repertório. No caso em apreço, os temas são standards da canção brasileira ou da autoria de nomes grados da MPB - é, portanto, um disco eminentemente brasileiro. Porém, acentua-se uma configuração intimista que se assume, por vezes, como recriação num plano de intenso lirismo e delicadeza. É um produto do mais refinado bom-gosto, parecendo ser estes adjectivos que naturalmente emanam da sua figura de sempiterna beleza...
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Viagens (8): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (2)

Notas de férias: Paisagem Urbana
Muitas das coisas relativamente surpreendentes que pude apreciar nessas férias em New Jersey já contava com elas. Contudo, uma das que verdadeiramente me surpreendeu foi a paisagem urbana. Não foi o facto de a esmagadora maioria das casas das zonas habitacionais serem vivendas unifamiliares de madeira - algo que já sabia de antemão, embora a sua proporção superasse o imaginado. Foi, isso sim, a amplitude de espaços e a quantidade de espaços verdes nas zonas habitacionais. Esta observação não é válida para Nova Iorque, propriamente dita, mas aplica-se a toda a zona norte do estado de New Jersey e, presumo, a toda a vastíssima área periférica da Grande Nova Iorque. Quando ressalvo o caso de Mannhathan, há que ter a noção da sua especificidade - uma ilha longuilínia com uma saturadíssima densidade urbana - e não esquecer que no seu centro se implanta aquele que deve ser o maior parque urbano do mundo - Central Park. Por todo o norte do estado de New Jersey as cidades não tem semelhança alguma com as cidades periféricas das áreas metroplitanas europeias. Estendem-se por vastas superfícies e consistem em aglomerados de vivendas no meio de baldios abertos (nos piores casos) ou no meio de autênticos bosques (nos melhores). As árvores e os revaldos estão presentes em grande quantidade. Pensava que este facto seria uma constante da América do Norte, mas que esta região seria uma das pontuais excepções. Assim não é. Passa-se o Hudson e o que mais há é espaço. Apesar da densidade populacional estar muito longe de ser baixa, não faltam espaços residenciais de grande sossego. O centro de cada uma dessas cidades suburbanas (com parcial excepção de Newark), limita-se a ser um cruzamento com semáforos e um par de edifícios de pedra e meia dúzia de lojas. A construção em altura é uma absoluta excepção que concide com estes pontos. As zonas residencias têm pouco comércio e um movimento escasso. Enfim, é um pleno contraste com Nova Iorque.

domingo, novembro 07, 2004

Rompecorazones (2)

Daniela Romo - Mis mejores canciones - 17 Super Exitos Vol. II (1993)
Entre as várias antologias de Daniela Romo editadas em CD esta não é a mais representativa, além de que é paupérrima em termos informativos. Contudo, aqui constam dois dos seus temas mais fortes: Amor Prohibido e Yo no te Pido la Luna.
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