sábado, novembro 13, 2004

Boulevard Nostalgie (15)

LP: Herbert Pagani - Pagani a Bobino (1976)
Não foi feita ainda uma edição em CD desta gravação ao vivo de Herbert Pagani, o que é incompreensível, já que se trata de um trabalho excepcional. Pagani morreu em 1988, com apenas 44 anos, vítima de leucemia - uma desgraçada ironia para quem amava a vida e tinha uma conceito radicalmente optimista da condição humana. Aliás, uma vida que denota valores que foram sempre coerentemente assumidos como base inspiradora da sua arte, a qual não se reduziu à música. Eram valores que reflectiam uma sensibilidade libertária e ecologista, num empenhamento que era mais a um nível filosófico do que programático. A sua carreira foi feita quer no âmbito francês, quer no âmbito italiano, reflectindo o seu natural bilinguismo. Note-se que nasceu na Líbia no seio de uma família judia italianizada e que a sua vida adulta decorreu entre Itália e França.
O LP em apreço notabilizou-se, sobretudo, pelo tema L'Amitié - uma "hino instântâneo" que teve na época alguma repercussão. Contudo, está longe ser apenas um desfile de temas, já que obedece a um plano conceptual, construído em torno de valores e vivências do artista, num tom de arrebatado lirismo e emotividade. Ou seja, é um espectáculo que transcende o plano musical e que obedece a um guião de tipo quase teatral... Existem muitos temas musicais de elevada qualidade (destaco Leçons de Peinture, Serenade...) e declamações, que fazem a ligação entre eles. É esta intrínseca qualidade artistica que permite transcender o cliché da vulgata ideológica e confere intemporalidade.
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quinta-feira, novembro 11, 2004

Perros callejeros (5)

Los Chunguitos - Morir de Amor (2003)
Não conheço este álbum - provavelmente será o último (era temerário assegurar probabilidade semelhante nos anos 70 ou 80, quando a sua produção chegava a ser de mais de um álbum por ano...). Contudo, a pose da capa (que não, necessariamente, o título, enfim...) sugere alguma pacificação. O que é curioso neste trio rumbero, é que não foram afectados pelo sucesso comercial das suas irmãs. Com efeito, com excepção de um ábum, que foi um equívoco, mantiveram-se sempre num rumo muito próprio.

Perros callejeros (4)

Los Chunguitos - 1974-1992 Pasión Gitana (1992)
São várias as antologias em CD de Los Chunguitos. Esta é a mais representativa da sua longa trajectória. Aqui estão presentes os seus temas mais carismáticos: Dáme Veneno, Pa ti pa tu Primo, Soy un perro Callejero (versão original), Me Sabe a Humo, Embustera, Me Quedo Contigo, Vagando por Ahí, Ay que Dolor!, Por la Calle Abajo, Prisionero, Sangre Caliente... Crónicas de presos, de mulheres traiçoeiras, de vinganças passionais, de solitários marginais.
Pop/Rumba hard core - não aconselhável a gostos pudibundos, politicamente correctos, muito mainstreem...
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Perros callejeros (3)

Dinastia Salazar
Los Chunguitos são um dos vários produtos musicais de uma família - Salazar. Na verdade, um dos seus tios foi um nome importante do flamenco - Porrina de Badajoz. Por outro lado, o famoso duo Azúcar Moreno é constituído pelas duas irmãs mais velhas. Estas começaram como coros das suas gravações e espectáculos. O dúo Alazán é composto por duas primas. Entretanto também chegou a vez da irmã mais nova e de um sobrinho, que consituiram o duo Romanó, o qual começou logo com uma produção feita em Miami. Ver informação.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Noites tropicais (6)

Zizi Possi - Sobre Todas as Coisas (1991)
Portugal teve sempre o privilégio de estar próximo da música brasileira, tendo aqui os seus artistas ampla divulgação e popularidade. Contudo, este facto pode iludir que alguns nomes importantes permanecem pouco menos que deconhecidos entre nós, o que é válido para a paulista Zizi Possi (de ascendência napolitana).
Sobre Todas as Coisas nasceu como show e só depois passou á condição de disco, o que se nota, aliás, em certos aspectos do seu conceptualismo. Note-se que a artista tem uma voz de grande beleza e é ao mesmo tempo pianista de formação clássica. Sobre esta base privilegiada, a partir de finais dos anos 80 (com Estrebucha Baby), a sua carreira beneficia de um salto qualitativo, com produções sofisticadas e com um cada vez mais apurado critério na escolha de repertório. No caso em apreço, os temas são standards da canção brasileira ou da autoria de nomes grados da MPB - é, portanto, um disco eminentemente brasileiro. Porém, acentua-se uma configuração intimista que se assume, por vezes, como recriação num plano de intenso lirismo e delicadeza. É um produto do mais refinado bom-gosto, parecendo ser estes adjectivos que naturalmente emanam da sua figura de sempiterna beleza...
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Viagens (8): New York - New Jersey / Agosto de 2000 (2)

Notas de férias: Paisagem Urbana
Muitas das coisas relativamente surpreendentes que pude apreciar nessas férias em New Jersey já contava com elas. Contudo, uma das que verdadeiramente me surpreendeu foi a paisagem urbana. Não foi o facto de a esmagadora maioria das casas das zonas habitacionais serem vivendas unifamiliares de madeira - algo que já sabia de antemão, embora a sua proporção superasse o imaginado. Foi, isso sim, a amplitude de espaços e a quantidade de espaços verdes nas zonas habitacionais. Esta observação não é válida para Nova Iorque, propriamente dita, mas aplica-se a toda a zona norte do estado de New Jersey e, presumo, a toda a vastíssima área periférica da Grande Nova Iorque. Quando ressalvo o caso de Mannhathan, há que ter a noção da sua especificidade - uma ilha longuilínia com uma saturadíssima densidade urbana - e não esquecer que no seu centro se implanta aquele que deve ser o maior parque urbano do mundo - Central Park. Por todo o norte do estado de New Jersey as cidades não tem semelhança alguma com as cidades periféricas das áreas metroplitanas europeias. Estendem-se por vastas superfícies e consistem em aglomerados de vivendas no meio de baldios abertos (nos piores casos) ou no meio de autênticos bosques (nos melhores). As árvores e os revaldos estão presentes em grande quantidade. Pensava que este facto seria uma constante da América do Norte, mas que esta região seria uma das pontuais excepções. Assim não é. Passa-se o Hudson e o que mais há é espaço. Apesar da densidade populacional estar muito longe de ser baixa, não faltam espaços residenciais de grande sossego. O centro de cada uma dessas cidades suburbanas (com parcial excepção de Newark), limita-se a ser um cruzamento com semáforos e um par de edifícios de pedra e meia dúzia de lojas. A construção em altura é uma absoluta excepção que concide com estes pontos. As zonas residencias têm pouco comércio e um movimento escasso. Enfim, é um pleno contraste com Nova Iorque.

domingo, novembro 07, 2004

Rompecorazones (2)

Daniela Romo - Mis mejores canciones - 17 Super Exitos Vol. II (1993)
Entre as várias antologias de Daniela Romo editadas em CD esta não é a mais representativa, além de que é paupérrima em termos informativos. Contudo, aqui constam dois dos seus temas mais fortes: Amor Prohibido e Yo no te Pido la Luna.
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Rompecorazones (1)

Daniela Romo
Em 1983 a belíssima mexicana Daniela Romo, que até então se notabilizara como modelo, irrompeu na cena musical. Com um género comercial simples, entre temas dançáveis ao jeito disco e baladas românticas, teve uma estreia auspiciosa, confirmada um ano mais tarde com o álbum Amor Prohibido. Em breve a sua carreira alargou-se ao cinema e à televisão, protagonizando, por exemplo, algumas telenovelas. No final dos anos 80, a sua popularidade estava firmada em todo o mundo de expressão espanhola.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Viagens (7): Picos de Europa / 2001 (2)

2º Dia – 5 de Abril (5ª Feira) (manhã)

O primeiro destino do dia seria a Serra de Montesinho, o segundo o Lago de Sanabria e o terceiro, Riaño, já nos Picos de Europa. O tempo não estava soalheiro, porém parecia esconjurada a ameaça de chuva. Ao deixar Mirandela, confirmei a ideia de véspera – era uma localidade agradável e que poderia ser um ponto de partida para uma futura exploração do Nordeste Transmontano.
Em breve se chegou a Bragança – para não deixar de ter alguma imagem da cidade, deixei a IP4 e internei-me no núcleo urbano. Foi decepcionante – a zona nova era vulgar; a zona antiga estava demasiado degradada e sem encanto especial. De atraente encontrei somente a imagem do castelo, com a sua torre de menagem. Foi pena que nesta incursão, feita exclusivamente de automóvel, não se me tivesse deparado o ex-libris brigantino – Domus Municipalis.
De Bragança tomei uma estrada secundária em direcção a Espanha, através do Parque Natural da Serra de Montesinho. Ao longe avistavam-se os cumes nevados das serranias de Sanabria. As referências sobre a região destacavam duas localidades: França e Rio de Onor. Resultava incompatível conciliar uma passagem pelas duas. A opção pela segunda era pouco prática, pois o mapa indicava que a estrada em Espanha não era alcatroada. Além disso, tinha a ideia de que o interesse de Rio de Onor residiria apenas no facto de estar dividida pela fronteira. Note-se que em tempos antigos as gentes destas terras falavam leonês e tinham a mesma forma de vida, de um e de outro lado da fronteira. O mirandês (dialecto astur-leonês), cujos resquícios ainda hoje sobrevivem mais para sudeste, é, juntamente com esta comunidade aldeã transfronteiriça, o que ficou dessa primitiva unidade.
Montesinho, fazendo jus ao nome, mais que uma serra é uma bucólica colecção de montes. A aldeia de França, porém, foi uma desilusão - notei um punhado de casas características, com telhado de ardósia, mas degradadas, perdidas num conjunto incaracterístico, onde imperavam as portas e marquises de alumínio. Além disso, parecia uma aldeia fantasma, habitada por cães... Num café, onde se cumpriu o ritual de despedida do café português, indaguei as razões do nome da terra, mas a sorumbática mulher, que estava atrás do balcão, nada esclareceu, encolhendo os ombros com enfado.
Imediatamente antes de se abandonar Portugal, uma pequena placa apontava a direcção para uma aldeia anunciada como "preservada". De facto, perante o exemplo de França, é sensato imaginar que se impunha preservar alguma aldeia. Por um caminho poeirento entrei nas profundezas da Serra e, no fim, pude admirar uma aldeia genuína. Suspeito que foram os serviços do Parque Natural que possibilitaram a sua preservação.