quarta-feira, outubro 27, 2004

Mariachi y tequila (6)

José Alfredo Jiménez (1926-1973)
Alguém disse (Tony Évora in El Libro del Bolero) que não há nada mais intrinsecamente machista que a música ranchera. É bem possível, tanto mais que são evidentes, no seu conteúdo e pose, traços marcantes de uma cultura de fronteira, feita de bravatas e fanfarronices em narrativas épicas. Curiosamente, José Alfredo Jiménez, el Rey, que foi o maior compositor do género, assume, várias vezes, uma imagem que poderíamos designar como de "macho fragilizado"... Este facto não será alheio à sua dependência do álcool, que causou um processo degenerativo que culminou na sua morte precoce.
A protagonista da novela de Pérez Reverte, A Rainha do Sul, por entre as múltiplas referências musicais que evoca (entre narcocorridos e Paquita la del Barrio), reserva a mais sentimental para uma ranchera de José Alfredo. Esse é o momento em que a surpreendemos mais comovida, lembrando o seu México distante.

Salsa y merengue (4)

Juan Luís Guerra / 4.40 - Bachata rosa (1990)
A República Dominicana está na metade Oriental da Ilha Hispaniola (a metade Ocidental é o Haiti, de língua francesa). Foi o primeiro ponto do Novo Mundo onde os castelhanos se estabeleceram e foi, portanto, a primeira realização humana do que viria tornar-se a Hispano-América. Nos tempos coloniais, o seu nome era Santo Domingo, como ainda é o da capital. Actualmente é um popular destino de férias, graças às suas praias e paisagens paradisíacas, gozáveis a convidativos preços. Entre os muitos turistas que aí chegam serão poucos os que conhecem a importância da música dominicana. No entanto, para tal, bastaria conhecer Juan Luís Guerra...
Desde os tempos em que, com um punhado de compatriotas, em Massachusets (meados dos anos 80), constituiu o grupo 4.40 (espécie de versão latina dos Manhattan Transfer), Juan Luís Guerra começou um percurso que evoluiria até lograr um feito: a divulgação mundial da bachata e o merengue (géneros musicais do seu ignoto e pobre terrunho...). A primeira é uma forma de bolero local; a segunda é um ritmo frenético que ecoa africanidade.
Nada melhor que entrar nestes sons por via deste álbum, que é uma prova de como qualidade e êxito comercial podem andar a par. Não obstante outros notáveis trabalhos de Juan Luís Guerra (assim como de Victor Victor, por exemplo), Bachata Rosa é insuperável e, constituiu, além do mais, uma revolução, pela divulgação mundial que lugrou obter. No Verão de 1991, toda a Espanha era sacudida pelo ritmo de Rosalía, de A pedir su mano e de La bilirrubina, ao mesmo tempo que reencontrava o sabor do romantismo com Borbujas de amor. Ecos desse êxito chegaram, inclusivamente, até nós, pela divulgação feita na Rádio Cidade (então na moda...) deste último tema - o que proporcionaria um espectáculo do artista e do seu grupo em Cascais, a que eu tive, aliás, a oportunidade de assistir. Borbujas de amor teve, de facto, repercussão mundial, quer directa, quer também indirectamente, por via das de algumas versões locais. No Brasil, por exemplo, Raimundo Fagner fez uma versão que teve sucesso.
Com a sua figura longuilínea de quase dois metros de altura, com a sua barba rala, ominipresente chapéu e roupas garridas, Juan Luís Guerra, em tournées e televisões, tornou-se um ícone da música latina e um dos mais fortes representantes do que se convencionou designar como world music.
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terça-feira, outubro 26, 2004

Viagens (6): Picos de Europa / 2001 (1)

1º Dia – 4 de Abril (4ª Feira)

O tempo não prometia. Chovia e não havia abertas. Foi assim até mais de metade da auto-estrada Lisboa-Porto. Só o cessar da chuva e uns tímidos raios de sol, por alturas da área de serviço de Antuã, deixaram entrever alguns motivos para menor pessimismo.
A Sempre Invicta foi atravessada perifericamente, pela Ponte do Freixo e pela VCI. Sucede que o destino imediato era Mirandela e a minha cidade, neste contexto, não era objecto de passeio. Ainda assim, anotei como Vilar de Andorinho e Avintes estão muito diferentes dos tempos da minha infância – perderam muito do ar rural e suburbanizaram-se. Descortinei algumas fileiras de vivendas geminadas, com bom aspecto. Os grandes blocos de apartamentos que entretanto surgiram, estão ainda longe de predominar.
Entretanto, a chuva voltara. Em boa verdade, o passeio começava a partir do Porto. A minha atenção redobrara, mas os horizontes estavam pouco generosos. Da auto-estrada para o Marão fui entrevendo uma paisagem verde, salpicada por vivendas. Sobranceiro, num alto, vi Penafiel. A seguir, ao longe, adivinhei Marco de Canaveses – ambas visitadas no ano anterior. Desse passeio era impossível deixar de recordar as belezas de Amarante e o pormenor mórbido da passagem pela fatídica ponte de Entre-os-Rios...
A subida do Marão consistiu numa imersão nas nuvens, sem se ver mais do que as guias das bermas. O piso estava escorregadio e o limpa pára-brisas trabalhava em cadência acelerada. Logo após a passagem do ponto mais alto, a chuva parou. Pouco depois, Vila Real foi avistada, mostrando um crescimento próprio de capitais de distrito.
O tempo ia ficando, definitivamente, muito melhor. Havia nuvens escuras, mas a chuva desaparecera de todo e até surgiam horizontes com sol. Isto dava ânimo, assim como a noção de que iria conhecer a paisagem transmontana. Tinha presente os lugares-comuns acerca da sua rudeza, os quais, desde logo, se confirmaram. A densidade populacional vai-se tornando escassa – deixara-se de se avistar casas e o tráfego rareava. Nas margens da IP4, a vegetação era mais rasteira e emergiam penedos graníticos. Bonito!
Ás cinco da tarde entrava em Mirandela. Foi fácil encontrar o Hotel D. Dinis - um edifício moderno, demasiado grande para a escala do lugar. Gozei o privilégio de ter o quarto sobranceiro ao Tua e ao centro. Da linha do casario, sobressaíam a fachada do edifício da Câmara Municipal e a igreja, ao seu lado. Era, surpreendentemente, uma construção moderna, cuja traça, porém, se integrava no conjunto. Mas parecia-me insólito que não existisse uma antiga igreja matriz antiga. Um passeio nos minutos seguintes revelaria a realidade – a igreja nova era, afinal, um acrescento à antiga. Diga-se que, se sob o ponto de vista arquitectónico, a coisa tinha o seu interesse, mas achei insólito...
O mais bonito da terra é, sem dúvida, a ponte e o espaço ribeirinho. O Tua é, já de si, um senhor rio. Com uma represa a jusante, conseguiu-se um espelho de água, o qual, com os espaços ajardinados das margens, proporciona um panorama airoso. A ponte romana está reservada para peões, com bancos distribuídos longitudinalmente para as pessoas se sentarem como num jardim.
Depois de um agradável passeio, nada melhor do que um soberbo jantar. Assim aconteceu no restaurante O Grêz. Um óptimo naco de carne transmontana, servida de forma simpática e eficiente, fez-me reflectir, pela enésima vez, sobre como se como bem no Norte e fez-me ainda lembrar um cozinheiro transmontano estabelecido na Amadora, o Jaime de O Cordial.

terça-feira, outubro 19, 2004

Geografia íntima (17)

GNR - Rock in Rio Douro (1992)
Este álbum dos GNR tem dois temas especiais: Sangue Oculto e Pronúncia do Norte. Neles, a voz semi-falsete de Rui Reininho contracena, respectivamente, com Javier Andreu (vocalista do grupo espanhol La Frontera) e com a essa vibrante mulher do Norte que é Isabel Silvestre. De resto, todos os outros temas são vulgares, revelando que cá, como em todo o lado, as fórmulas do pop/rock se foram esgotando a partir de finais dos 80... Mas esses dois temas são, de facto, especiais. O primeiro tem força genuína, sendo, além disso, um original diálogo em castelhano e português. O segundo, descontados muitos exemplos vindos da Galiza, é o "hino" mais apropriado que conheço para aquele mundo de brumas e granito que é o Norte. Em dueto com Reininho, a voz de Isabel Silvestre parece esvair-se num fio etéreo, mas há uma superior expressão emotiva nesse fio que impregna toda a canção, dominando-a. Além de que o tema assenta no enunciado da pronúncia do Norte como expressão de carácter - essa pronúncia que se recusa a emudecer as vogais e que transporta a expressão em sonoridade. O português que vem do mais fundo dos tempos...
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Geografia íntima (16)

Porto (1912)
Nos anos 60 ainda se captavam com facilidade imagens idênticas à da foto. Pelas vielas abarrotadas de vida, extravasando misérias e alegrias, havia canalha por todo o lado. A meio caminho entre o tempo da foto e esse tempo que conheci há um inesquecível filme que dá fé dessa realidade: Aniki- Bóbó...

Geografia íntima (15)

Porto (1912)
É o Barredo, mas podiam ser os Guindais ou a Bainharia - Alma granítica atravessando o tempo...

Geografia íntima (14)

Porto (1912)
É conhecido o tópico do "homem do Norte", mas, ainda mais justo seria o tópico da "mulher do Norte"... de porte altivo, carácter autoritário, rija têmpera e vernácula expressividade que evocam um mítico matriarcado céltico...
Esta foto foi tirada no Mercado do Anjo, desaparecido há muito. Estava situado no que hoje é a Praça de Lisboa, no lado oeste dos Clérigos.
Apesar da foto se reportar a um tempo que é o dos meus avós, conheço muito bem aqueles xailes de lã, aquelas longas saias rodadas, aquelas fisionomias...

Geografia íntima (13)

Porto (1912)
Esta Ribeira, pejada de carros de bois, não a conheci. Em todo o caso a minha Ribeira estava mais perto desta do que da actual. Não havia bares e restaurantes. Havia lojas onde se vendia bacalhau e polvo seco, com aquele característico cheiro salgado. Havia mercearias e casas de pasto. De manhã os gritos das vendedeiras dominavam o ambiente. Em muitas tardes de Verão a canalha de pé descalço atirava-se em mergulho para o rio.

Geografia íntima (12)

Porto (1912)
Ontem como hoje a face do Porto é a mesma: autenticidade, seriedade, solidez.
A meio caminho entre os Clérigos e a Ribeira, a igreja onde fui baptizado: A igreja da Vitória.