terça-feira, outubro 19, 2004

Geografia íntima (13)

Porto (1912)
Esta Ribeira, pejada de carros de bois, não a conheci. Em todo o caso a minha Ribeira estava mais perto desta do que da actual. Não havia bares e restaurantes. Havia lojas onde se vendia bacalhau e polvo seco, com aquele característico cheiro salgado. Havia mercearias e casas de pasto. De manhã os gritos das vendedeiras dominavam o ambiente. Em muitas tardes de Verão a canalha de pé descalço atirava-se em mergulho para o rio.

Geografia íntima (12)

Porto (1912)
Ontem como hoje a face do Porto é a mesma: autenticidade, seriedade, solidez.
A meio caminho entre os Clérigos e a Ribeira, a igreja onde fui baptizado: A igreja da Vitória.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Dancing Days (7)

CD: Barry White - Barry White's Greatest Hits (1975)
Trata-se da reedição em CD de um LP antológico de 1975, o qual, portanto, concentra todos os grandes êxitos do tempo auge de Barry White, excluíndo, contudo, os que foram protagonizados pela sua Love Unlimited Orchestra.
Abre com os dois mais poderosos temas: What am I gonna Do with You (para mim, um hino intemporal...) e You're the first, the last, my everything. Pena é que, apesar da capa envergar uma estética concordante, o encarte seja pobre.
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Dancing Days (6)

Barry White (1945-2003)
A voz quente de Barry White, as suas composições e orquestrações foram um dos elementos mais identificadores do auge Disco Sound em meados dos anos 70. A um nível idêntico apenas chegaram os Bee Gees ou os KC & Sunshine Band. A junção de uma batida fortemente ritmada com um grandioso fundo orquestral, onde as cordas estavam em relevo, foi a receita que lhe trouxe êxitos sobre êxitos. Teve 4 temas no Top5 USA: Love's Theme (#1 - 1973)(com a sua Love Unlimited Orchestra); I'm gonna love You just a little more baby (#3 - 1973); Can't get enough of your love, baby (#1 - 1974); You're the first, the last, my everything (#2 - 1974). Todos estes temas são espectaculares e marcaram justamente uma era. Não por acaso, a título de exemplo, o último destes temas era o da promoção do canal SIC Gold. Incrível como uma fisionomia tão disforme (correspondente a muito mais de 100 Kg...) deu alma e forma a uma música popular, de amor e jovialidade. Barry White morreu há pouco tempo, mas ficará sempre como um dos ícomes dos anos 70.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Dancing Days (5)

CD: Grace Jones - Slave to the Rhythm (1985)
A jamaicana parisiense Grace Jones foi sempre em todos os domínios sinónimo de produção sofisticada. Os domínios foram ecléticos: moda, música e cinema... pelo menos. O seu corpo longuilínio e a sua face dura inspiraram experiências de produção imaginativas, normalmente em tons andrógenos. Na música, sempre sob orientação de produtores exímios, evoluiu desde o disco sound (onde irrompeu com uma espantosa versão hiper-inconoclasta de La Vie en Rose) até ao prenúncio das novas tendências da dance music. Esta gravação representa esse último ponto. Mais do que nunca, o verdadeiro protagonismo vai para o produtor, neste caso Trevor Horn e mais do que nunca Grace Jones é uma imagem, um pretexto... sugestivo e eficaz.
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segunda-feira, outubro 11, 2004

Boulevard Nostalgie (14)

Aimer à perdre la raison



Ah, c'est toujours toi que l'on blesse

C'est toujours ton miroir brisé,

Mon pauvre bonheur ma faiblesse

Toi qu'on insulte et qu'on délaisse

Dans toute chair martyrisée.



Aimer à perdre la raison

Aimer à n'en savoir que dire

À n'avoir que toi d'horizon

Et ne connaître de saisons

Que par la douleur de partir

Aimer à perdre la raison.



La faim la fatigue et le froid,

Toutes les misères du monde,

C'est par mon amour que j'y crois

En elles je porte ma croix

Et de leurs nuits ma nuit se fonde
Louis Aragon

Boulevard Nostalgie (13)

CD- Jean Ferrat - Ferrat chante Aragon (1971)
Este LP de Jean Ferrat é um perfeito exemplo de como a canção francesa é inexcedível na arte de adaptar poemas. Neste caso, Jean Ferrat faz um trabalho sublime com alguns dos mais conhecidos poemas de Louis Aragon. O lirismo das palavras é totalmente correspondido pela composição, arranjos e voz. Um particular estado de graça parece ter passado por aqui...
De notar que esta versão em CD corresponde à original, que é preferível a uma versão posterior, com arranjos diferentes.
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domingo, outubro 10, 2004

Castilla (8): Castilla y León

Calatañazor (Soria)

Castilla (7): Castilla y León

Leão e Castela Velha
De toda a Espanha, que tantos e tão diferentes atractivos proporciona, o que mais me emociona são as terras de León e de Castilla la Vieja. León corresponde às províncias de León, Zamora e Salamanca. Castilla la Vieja abrange as terras do coração de Espanha, onde nasceu a língua e onde se começou a forjar o poder do Império de Carlos V e Filipe II. Corresponde às províncias de Burgos, Palencia, Valladolid, Ávila, Segovia e Soria. Com o estabelecimento das autonomias estas designações caíram em desuso, em favor de Castilla y León - região autónoma que as engloba, com capital em Valladolid. Estes territórios estendem-se, em grande parte, por uma ampla meseta, seca e rude, de frios e calores extremos. Aldeias e cidades de carácter austero cortam aqui e ali uma paisagem de campos de trigo. Já não são, hoje em dia, tão pertinentes as alusões de Antonio Machado à decadência castelhana, mas deparamo-nos frequentemente com sinais de anacrónico espírito imperial: castelos em digna ruína; palácios grandiosos em lugares ignotos; nomes ressonantes de história em ínfimos pueblos; plazas mayores em lugarejos sem motivos para mais toponímia.
De León, Salamanca, Segovia, Ávila e Burgos conhecem-se sobejamente os atractivos, mas convém destacar as pequenas capitais de província (Zamora, Palencia, Soria), as pequenas cidadezinhas (Astorga, Benavente, Toro, Ciudad Rodrigo, Medina de Ríoseco, Tordesillas, Medina del Campo, El Burgo de Osma) e inúmeros pueblos: Sahagún, La Alberca, Miranda del Castañar, Alba de Tormes, Lerma, Covarrubias, Fromista, Carrión de los Condes, Peñafiel, Arévalo, Madrigal de las Altas Torres, Cuéllar, Sepúlveda, Turégano, Pedraza, Peñaranda de Duero, Medinaceli... Os castelos, os casarios (raramente violentados pela presença de edifícios destoantes), as torres das igrejas, as ermidas românicas, os horizontes amplos (ancha es Castilla...) com as montanhas de cumes nevados ao fundo são a estampa emblemática desta velha Castela. E há, acima de tudo, o carácter castelhano: altivo, orgulhoso, rude e sincero.