quinta-feira, outubro 14, 2004

Dancing Days (5)

CD: Grace Jones - Slave to the Rhythm (1985)
A jamaicana parisiense Grace Jones foi sempre em todos os domínios sinónimo de produção sofisticada. Os domínios foram ecléticos: moda, música e cinema... pelo menos. O seu corpo longuilínio e a sua face dura inspiraram experiências de produção imaginativas, normalmente em tons andrógenos. Na música, sempre sob orientação de produtores exímios, evoluiu desde o disco sound (onde irrompeu com uma espantosa versão hiper-inconoclasta de La Vie en Rose) até ao prenúncio das novas tendências da dance music. Esta gravação representa esse último ponto. Mais do que nunca, o verdadeiro protagonismo vai para o produtor, neste caso Trevor Horn e mais do que nunca Grace Jones é uma imagem, um pretexto... sugestivo e eficaz.
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segunda-feira, outubro 11, 2004

Boulevard Nostalgie (14)

Aimer à perdre la raison



Ah, c'est toujours toi que l'on blesse

C'est toujours ton miroir brisé,

Mon pauvre bonheur ma faiblesse

Toi qu'on insulte et qu'on délaisse

Dans toute chair martyrisée.



Aimer à perdre la raison

Aimer à n'en savoir que dire

À n'avoir que toi d'horizon

Et ne connaître de saisons

Que par la douleur de partir

Aimer à perdre la raison.



La faim la fatigue et le froid,

Toutes les misères du monde,

C'est par mon amour que j'y crois

En elles je porte ma croix

Et de leurs nuits ma nuit se fonde
Louis Aragon

Boulevard Nostalgie (13)

CD- Jean Ferrat - Ferrat chante Aragon (1971)
Este LP de Jean Ferrat é um perfeito exemplo de como a canção francesa é inexcedível na arte de adaptar poemas. Neste caso, Jean Ferrat faz um trabalho sublime com alguns dos mais conhecidos poemas de Louis Aragon. O lirismo das palavras é totalmente correspondido pela composição, arranjos e voz. Um particular estado de graça parece ter passado por aqui...
De notar que esta versão em CD corresponde à original, que é preferível a uma versão posterior, com arranjos diferentes.
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domingo, outubro 10, 2004

Castilla (8): Castilla y León

Calatañazor (Soria)

Castilla (7): Castilla y León

Leão e Castela Velha
De toda a Espanha, que tantos e tão diferentes atractivos proporciona, o que mais me emociona são as terras de León e de Castilla la Vieja. León corresponde às províncias de León, Zamora e Salamanca. Castilla la Vieja abrange as terras do coração de Espanha, onde nasceu a língua e onde se começou a forjar o poder do Império de Carlos V e Filipe II. Corresponde às províncias de Burgos, Palencia, Valladolid, Ávila, Segovia e Soria. Com o estabelecimento das autonomias estas designações caíram em desuso, em favor de Castilla y León - região autónoma que as engloba, com capital em Valladolid. Estes territórios estendem-se, em grande parte, por uma ampla meseta, seca e rude, de frios e calores extremos. Aldeias e cidades de carácter austero cortam aqui e ali uma paisagem de campos de trigo. Já não são, hoje em dia, tão pertinentes as alusões de Antonio Machado à decadência castelhana, mas deparamo-nos frequentemente com sinais de anacrónico espírito imperial: castelos em digna ruína; palácios grandiosos em lugares ignotos; nomes ressonantes de história em ínfimos pueblos; plazas mayores em lugarejos sem motivos para mais toponímia.
De León, Salamanca, Segovia, Ávila e Burgos conhecem-se sobejamente os atractivos, mas convém destacar as pequenas capitais de província (Zamora, Palencia, Soria), as pequenas cidadezinhas (Astorga, Benavente, Toro, Ciudad Rodrigo, Medina de Ríoseco, Tordesillas, Medina del Campo, El Burgo de Osma) e inúmeros pueblos: Sahagún, La Alberca, Miranda del Castañar, Alba de Tormes, Lerma, Covarrubias, Fromista, Carrión de los Condes, Peñafiel, Arévalo, Madrigal de las Altas Torres, Cuéllar, Sepúlveda, Turégano, Pedraza, Peñaranda de Duero, Medinaceli... Os castelos, os casarios (raramente violentados pela presença de edifícios destoantes), as torres das igrejas, as ermidas românicas, os horizontes amplos (ancha es Castilla...) com as montanhas de cumes nevados ao fundo são a estampa emblemática desta velha Castela. E há, acima de tudo, o carácter castelhano: altivo, orgulhoso, rude e sincero.

Castilla (6): Castilla y León

A orillas del Duero
El Duero cruza el corazón de roble
de Iberia y de Castilla.
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¡Oh, tierra triste y noble,
la de los altos llanos y yermos y roquedas,
de campos sin arados, regatos ni arboledas;
decrépitas ciudades, caminos sin mesones,
y atónitos palurdos sin danzas ni canciones
que aun van, abandonando el mortecino hogar,
como tus largos ríos, Castilla, hacia la mar!
Castilla miserable, ayer dominadora,
envuelta en sus andrajos desprecia cuanto ignora.
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¿Espera, duerme o sueña? ¿La sangre derramada
recuerda, cuando tuvo la fiebre de la espada?
Todo se mueve, fluye, discurre, corre o gira;
cambian la mar y el monte y el ojo que los mira.
¿Pasó? Sobre sus campos aún el fantasma yerra
de un pueblo que ponía a Dios sobre la guerra.
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(...)
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El sol va declinando. De la ciudad lejana
me llega un armonioso tañido de campana
—ya irán a su rosario las enlutadas viejas—.
De entre las peñas salen dos lindas comadrejas;
me miran y se alejan, huyendo, y aparecen
de nuevo ¡tan curiosas!... Los campos se obscurecen.
Hacia el camino blanco está el mesón abierto
al campo ensombrecido y al pedregal desierto
Antonio Machado

Castilla (5): Castilla y León

Antonio Machado (1875-1939)
Figura de primeiro plano da geração de 98, Antonio Machado foi o poeta que melhor transmitiu as emoções da paisagem humana e natural de Castela. Em 1912 publica Campos de Castilla, uma das suas obras mais populares. Ao longo da sua vida viveu em muitos lugares de Espanha e viveu também em Paris. Foi como professor de Francês que passou uma temporada em Soria - pequena cidade ribeirinha de um Douro mal acabado de nascer, capital da menos povoada província de Castela Velha e cujas paisagens são um acabado protótipo daquelas que o inspiraram.
Como tantos e tantos, exilado pela Guerra Civil, morreu longe de Castela, fora da sua amada Espanha, mas está sepultado a um passo da fronteira, em Collioure.
Como canta Louis Aragon:
Machado dort à Collioure
Trois pas suffirent hors d'Espagne
Que le ciel pour lui se fît lourd
Il s'assit dans cette campagne
Et ferma les yeux pour toujours

Guia hispânico (2)

Joan Manuel Serrat - Dedicado a Antonio Machado, Poeta (1969)
O cantautor catalão Joan Manuel Serrat começou a sua carreira na vanguarda do movimento nova cançó, cantando e compondo, portanto, em catalão. No conjunto da sua vasta discografia, essa fase inicial foi, sob todos os pontos de vista, a mais interessante. Contudo, este álbum é um dos primeiros cantados em castelhano e constitui um difícil e sintomático exercício: a adaptação musical de alguns dos mais conhecidos poemas de Antonio Machado - poeta, por excelência, de emoções castelhanas. A partir daqui, a vertente castelhana da obra de Serrat tornar-se-á mais relevante e, sobretudo, alcançará uma ampla divulgação. Deste modo, passará a ter em paralelo uma dupla carreira - em catalão e castelhano.
Adaptar musicalmente poemas é um exercício difícil. Neste LP, Serrat não consegue atingir um nível homogéneo. Dois temas se destacam acima da média: Cantares e La Saeta. Este último desenvolve-se num ambiente de densidade dramática que se integra totalmente com o poema, traduzindo bem o espírito das saetas da Semana Santa andaluza. Contudo, o aspecto mais relevante é que este trabalho, no seu conjunto, constitui uma comovente homenagem a Antonio Machado (note-se: ainda em tempos franquistas...) e é uma eficaz divulgação da sua obra poética.
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Castilla (4): Castilla y León

Castela e Leão

Região Autónoma: Castilla y León (capital: Valladolid).
Províncias: León; Zamora; Salamanca; Ávila; Segovia; Valladolid; Palencia; Burgos; Soria.