sábado, outubro 09, 2004

Argel - Cairo - Beirute (1)

Om Kalthoum (Om Kalsoum) (Umm Kulthum) (1904-1975)

Esta cantora egípcia (o seu nome pode aparecer em caracteres latinos de diferentes formas) é a maior figura da música árabe. O seu apogeu, nos anos 40 e 50, corresponde a uma era de expansão do cinema dos estúdios do Cairo, cuja expansão abrangia directamente todo o vasto mundo de língua árabe e indirectamente áreas linguístico-culturais limítrofes (turca, persa, paquistanesa...). Esse cinema era de conteúdo romântico e tinha quase sempre uma feição musical. Foi aí que Om Kalsoum se começou a afirmar como intérprete de referência. Viviam-se tempos de ideais pan-arabistas. O Cairo era então não só a capital cultural do mundo árabe, como o foco difusor desses ideais, que tinham encontrado em Nasser o seu paladino. Mas enquanto os desafios políticos nasserianos mobilizavam a opinião pública, os cinemas enchiam-se, levando aos corações mensagens de amor e desamor. Assim, Om Kalsoum chegou a ser ainda mais popular que o próprio líder e realizou de modo mais efectivo uma certa forma de pan-arabismo...
A sua extrema popularidade não foi, contudo, suficiente para passar as fronteiras ocidentais. Sucede que a canção árabe pouco tem de semelhante com a estrutura da canção popular ocidental. Basta dizer que o padrão standard de 3 minutos corresponderá a uma parte da introdução de uma canção normal de Om Kalsoum. O complexo desenvolvimento melódico e a aspereza da língua árabe dificultam ainda mais o acolhimento ocidental. É, evidentemente, uma questão de códigos culturais, mas é estimulante exercitar a nossa sensibilidade para romper essas barreiras. Ao longo de um tempo, que pode ir de 5 a 50 minutos, cada canção conta uma história sentimental de uma forma lenta, que joga com distintos cenários instrumentais e com um clímax de expressividade que as suas capacidades interpretativas conseguem ir graduando de forma precisa. Claro está, que o tempo destas canções não foi condicionado pelas necessidades da indústria discográfica - o formato EP e até LP não eram adequados - frequentemente, um LP acolhia uma única canção e a operação de virar o disco interrompia o natural desenvolvimento da sua audição. O tempo é aquele que advem de formas tradicionais, aqui e ali adaptadas às necessidades do cinema. Onde se capta melhor a valia expressiva desta música é em gravações ao vivo. Aquela que é a mais conhecida das suas gravações, Al-Atlaal, demonstra uma participação intensa do público, o qual não se coíbe de sublinhar o dramatismo da narrativa com arrebatados aplausos e interjeições. Os sofridos gemidos da "diva do Nilo" são, assim, amplificados pela plateia.
Página Web

Musseque (1)

Papa Wemba - Papa Wemba (N' fono yami)(1988)
A matéria musical aqui presente é o Sokous - género pop oriundo do Congo (Zaire). É o melhor álbum de música africana que conheço. Sem a rusticidade das produções feitas em África e sem o artificioso de algumas produções feitas na Europa. Diria que está no perfeito meio termo. Mas, acima de tudo há dois elementos essenciais: a poderosa cadência rítmica que sugere aquela África verdadeiramente selvagem e a voz vibrante de Papa Wemba, a qual reitera esse carácter, no melhor sentido que pode ter... Deve-se dar particular atenção ao tema Esclave, que é das coisas mais emocionantes que a música africana já alguma vez deu.
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segunda-feira, outubro 04, 2004

Boulevard Nostalgie (12)

CD: Salvatore Adamo - Adamo Vol 2 (La Nuit) (1965)
Antes de mais, este CD faz parte de uma colecção da editora francesa Magic Records que é um exemplo magnífico de como se pode reeditar velhos LP's de uma forma que é um exercício de reconstituição, pois existe o cuidado de recuperar o design original, que chega, inclusive, ao pormenor de dar à etiqueta do suporte a aparência do vinil. É, portanto, um produto adequado para coleccionadores ou simples nostálgicos. Diga-se, desde já, que este não é um dos melhores LP's de Adamo, contudo, apresenta uma particularidade: tem um tema cantado em italiano, Dolce Paola, que nunca teve versão noutro idioma. É um tema muito bonito que constitui uma dedicatória à princesa italiana do mesmo nome que tinha acabado de se casar com o herdeiro do trono belga. Note-se que os grandes êxitos de Adamo foram sempre originalmente cantados em francês, mas todos tiveram versões suas cantadas em italiano e espanhol. Algumas foram cantadas também em línguas tão insólitas como o japonês. Esta colecção da Magic Records apresenta algumas dessas versões comuns e exóticas como bonus tracks.
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Boulevard Nostalgie (11)

Salvatore Adamo
Adamo nasceu na Sicilia, mas, ainda na primeira infância, os seus pais emigraram para uma cidade industrial da Valónia, Bélgica. Nos anos 60 tornou-se um dos maiores nomes da música popular francófona, com grande projecção mundial. Foi um ídolo - o maior que a Bélgica jamais alguma vez teve, com a licença de Jacques Brel, que, enfim, teve um registo artístico diferente (curiosamente outro ídolo belga seu contemporâneo foi Rocco Granata, também italo-descendente) A voz melancólica ajustava perfeitamente com um ar angelical, sendo esta a base de uma pose romântica que consituiu o seu sucesso. Contudo, nesses tempos, estes fenómenos de popularidade não implicavam necessariamente má qualidade musical. Foi sempre um excelente cantor, servido por magníficas composições.

Boulevard Nostalgie (10)

Les Cornichons
Eis a prosaica letrinha de Les Cornichons (provavelmente com algum duplo sentido...) - canção que tem tanto de simples como de brilhante. Curiosamente parece que a versão original é norte-americana, mas, dessa, pouco transcendeu...
On est parti, samedi, dans une grosse voiture,
Faire tous ensemble un grand pique-nique dans la nature,
En emportant des paniers, des bouteilles, des paquets,
Et la radio !
Des cornichons
De la moutarde
Du pain, du beurre
Des p'tits oignons
Des confitures
Et des oeufs durs
Des cornichons
Du corned-beef
Et des biscottes
Des macarons
Un tire-bouchons
Des petits-beurre
Et de la bière
Des cornichons
On n'avait rien oublié, c'est maman qui a tout fait
Elle avait travaillé trois jours sans s'arrêter
Pour préparer les paniers, les bouteilles, les paquets
Et la radio !
Le poulet froid
La mayonnaise
Le chocolat
Les champignons
Les ouvre-boîtes
Et les tomates
Les cornichons
Mais quand on est arrivé, on a trouvé la pluie
C'qu'on avait oublié, c'était les parapluies
On a ramené les paniers, les bouteilles, les paquets
Et la radio !
On est rentré
Manger à la maison
Le fromage et les boîtes
Les confitures et les cornichons
La moutarde et le beurre
La mayonnaise et les cornichons
Le poulet, les biscottes
Les oeufs durs et puis les cornichons

Audio Sampler Amazon.fr (track 5 disco 1)

Boulevard Nostalgie (9)

Nino Ferrer - Nino Ferrer (2001)

Nino Ferrer nasceu em Génova, Itália, mas fez o mais importante da sua carreira artística em França, apesar de não ter deixado de sustentar uma carreira italiana, em paralelo. Nos anos 60 obteve grande sucesso com temas como Les cornichons, Agata e Mirza. Estava plenamente inserido na onda pop desses tempos. Contudo, desde o início tornou-se patente a sua versatilidade, quer pelo carácter jazzy que imprimia a muitas das suas composições, quer pela sua vocalização soul, quer ainda pelo seu talento em compor baladas melódicas. Com efeito, foi o autor do tema C'ést irréparable, que sairia do anonimato como Un anno d'amore, versão italiana popularizada por Mina e, posteriormente, ainda mais popularizado por Luz Casal na versão espanhola, Un ano de amor. Dando plena expressão a essa versatilidade, a partir dos anos 70 procurou caminhos musicais vanguardistas e explorou também outras áreas artísticas, com destaque para a pintura. Espírito atormentado, acabou por se suicidar, deixando grata memória entre os seus requintados fans.
Esta colectânea ilustra o conjunto da trajectória da sua carreira francesa. Não é um simples CD, já que este está integrado num pequeno livro com abundante documentação sobre o artista e excelente grafismo.


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Web: Página Oficial

domingo, outubro 03, 2004

Noites tropicais (5)

Roberto Carlos - Detalhes (1971)
Para mim, Roberto Carlos é mesmo O Rei... da MPB (Música Popular Brasileira). É incompreensível que quando se apresente a MPB não se saliente, desde logo, este facto. Não se entende que a sua carreira, por ter assentado numa trajectória de êxito comercial, seja menosprezada. É um profissional exemplar, além de que as suas qualidades interpretativas jamais recorreram ao artificial e o seu posicionamento musical, durante os primeiros 10 anos da sua carreira, esteve na vanguarda ou próximo.
Este CD é a reedição de um LP que, não sendo o melhor da sua imensa discografia, tem o privilégio de abrir com Detalhes - para mim, uma das mais belas canções de sempre! É a "jóia da coroa" da profícua dupla Roberto Carlos/Erasmo Carlos. O tom íntimo da interpretação, a bela simplicidade da melodia, a melancólica amargura da letra, fazem um conjunto ímpar.
Há um outro tema que merece destaque, é o último: Amada Amante - uma proclamação amorosa, em toada reiterativa, com uma sonoridade própria daquela época (com protagonismo no órgão Hammond), que me recorda a rádio e os bailes populares daqueles tempos...
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Noites tropicais (4)

Walter Wanderley - Rain Forest (1966)
A colecção Verve by Request tem reeditado luxuosamente em CD (reproduzindo, em encarte, o grafismo original) os LP's produzidos por Creed Taylor nos anos 60. Este foi o responsável pelo salto qualitativo da Bossa Nova ao produzir as extraordinárias experiências de fusão com João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz. A ele se deve também a produção de Walter Wanderley . Este, pernambucano de origem, era um organista e pianista de night clubs de São Paulo e foi dos primeiros a entrar na onda da Bossa Nova, mediante a sonoridade, então moderníssima, do órgão Hammond. Gravou com Astrud Gilberto, mas depois iniciou uma carreira exclusivamente instrumental. Este é o seu primeiro LP dessa fase. O sucesso foi enorme, por causa de Summer Samba, de Marcos Valle, o qual atingiu o Top40. Como as notas deste órgão electrónico soam tão quentes! Wanderley ficou para sempre nos EUA, instalando-se na California, onde viria, aliás, a falecer em meados dos anos 80.
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sábado, outubro 02, 2004

Euskal Herria (12)

Pedro Antequera Aizpiri - Ay Ne! in La Esfera, 1915
A caricatura é uma alusão ao atávico tradicionalismo rural dos bascos. Para além do simplismo do estereótipo, a verdade é que as raízes do nacionalismo basco são profundamente tradicionalistas e desenvolveram-se sempre em intimidade com um catolicismo fundamentalista. Com efeito, Sabino Arana Goiri, o fundador do nacionalismo, foi a síntese de duas tendências: a do carlismo e a do racismo positivista. A primeira é ultra-conservadora e antes de se reciclar no nacionalismo pugnava pela recomposição das liberdades tradicionais (Fueros). A segunda pertence ao mesmo tipo de modernidade, que entre outras coisas, sustentou uma das bases teóricas do nazismo. O lema do Partido Nacionalista Basco era Jaungoikoa eta Lagizarra (Deus e a Lei Antiga). No essencial, com muito mais moderação, é certo, esta marca genética persiste na grande maioria do nacionalismo, o qual é maioritário no País Basco. Porém, numa vasta franja Abertzale (esquerda nacionalista radical), encontramos a juvenil kale borroka (violência de rua) e o terrorismo etarra, que, apesar de algumas ideias feitas, também se filiam nessas origens...