domingo, setembro 26, 2004

Noites tropicais (3)

João Gilberto - Amoroso (1977)
Alguém disse uma vez (José Nuno Martins no saudoso Os Cantores do Rádio) que este seria o melhor disco de música brasileira de sempre. Sem abandonar o espírito da bossa-nova, João Gilberto fez neste disco um exercício de sofisticação e cosmopolitismo. Sofisticação que decorre da sua forma de cantar (mais sussurrante do que nunca) e dos voluptuosos arranjos orquestrais de Claus Ogerman. Cosmopolitismo, porque o criador da bossa-nova capricha em interpretar três temas não brasileiros: 'S Wonderful, de Gershwin; Estate, de Bruno Martino; Bésame Mucho, de Chelo Velázquez. O curioso é que a inépcia linguística do genial baiano soa aqui como um must adicional - um italiano e um castelhano que soam assim divinamente adocicados! Estate alarga-se por 6 minutos e meio, tornando-se aqui uma espécie de afrodisíaco para espíritos refinados. Com o famoso bolero a receita intensifica-se. A cadência lentíssima e aveludada alarga-o por quase 9 minutos e é um êxtase! Mas se parece impossível superar o transe destas experiências, há que esperar até à último tema, Retrato em Branco e Negro (Zingaro), de Tom Jobim. Está para além da perfeição!
Esta obra-prima foi gravada em finais 1976 e início de 1977, entre Nova Iorque e Los Angeles e parece ser o culminar de uma década e meia em que o gosto norte-americano se rendeu à bossa-nova.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Noites tropicais (2)

Noites Tropicais (2000)
Noites Tropicais tem um correspondente em CD. É a melhor antologia da MPB que conheço - são muitos os grandes temas incluídos, os quais cobrem extensivamente todas as fases e tendências. Além do mais, a apresentação é soberba e está graficamente ajustada ao livro. O objectivo de funcionarem em complemento mútuo foi perfeitamente atingido.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Noites tropicais (1)

Nelson Motta - Noites Tropicais (2000)
Nelson Motta é um jornalista e escritor brasileiro que participava num programa de tertúlia da GNT, Mannattham Connection, produzido em Nova York. Com mais outros dois compatriotas abordavam temas variados, tendo como referência o facto de estarem num local privilegiado para observar o mundo. Poucos programas pude ver, mas deu para perceber o seu interesse. Algumas crónicas subordinadas ao mesmo título do programa foram também publicadas no Diário de Notícias.
Nelso Motta é muito conhecido no Brasil, pois tem uma longa trajectória no mundo artístico, nomeadamente como produtor musical. Este livro de crónicas e memórias reporta uma experiência ímpar nas origens e desenvolvimento da Música Popular Brasileira (MPB), desde a Bossa Nova até ao rock autóctone, passando por todas as tendências e movimentos. Privou intimamente com alguns dos maiores vultos (foi, por exemplo, amante de Elis Regina) e dá-nos informações que abragem aspectos da suas vidas íntimas, sem cair na futilidade.
Este livro inspira, assim, esta rubrica cujo roteiro passa por várias tendências da MPB, desde a cosmopolita Bossa Nova às mais regionais, como o Forró e Sertaneja, passando por grandes nomes, como Roberto Carlos, Elis Regina, Caetano Veloso. Contudo, apesar da música estar em destaque, não se confinará a ela...
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Geografia íntima (6)

Conjunto António Mafra - O Melhor dos Melhores (1994)
Para mim, música do Porto será sempre sinónimo de Neca Rafeal, Conjunto Maria Albertina e, sobretudo, Conjunto António Mafra. Estes últimos eram os melhores e os mais populares. O espírito tripeiro, folgazão e brejeiro tem aqui a sua melhor expressão. Nesta antologia é pena não figurar Vamos lá pró São João (Vamos, rapazes, vamos, vamos lá pr'ó São João... de ramalhosa e balão / haja alegria e animação, pois é assim que nos manda a tradição...), mas constam os temas mais conhecidos: Sete e pico, Abre a pipa ó Beatriz; Ora vejam lá (2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, sábado... domingo / vai a malta passear / sete dias na semana e um só para descansar); Ó Zé olha o balão; O vinho da Clarinha; O carrapito da D. Aurora; Arrebita, arrebita, arrebita (ai cachopa se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita). Era uma música simples, recheada de duplos sentidos malandros, que fazia as pessoas felizes.
Como era musical aquele Porto popular! Os que tinham rádio punham-no sonoramente ligado o dia inteiro com as janelas abertas. A música era pela manhã toda e para toda a gente. Para além destas músicas populares, da música dos ranchos minhotos, das novidades vindas do Brasil e Espanha, não me esqueço das melodias e dos diálogos dos reclamos (como então se dizia) dos Emissores Norte Reunidos.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Geografia íntima (5)

Porto (192?, 193?) (2)
Vista da parte norte da freguesia da Vitória, a partir da Sé. A torre dos Clérigos no centro - está situada na freguesia da Vitória.

Geografia íntima (4)

Porto (192?, 193?) (1)
A mesma panorâmica, mas muitos anos antes. Aparentemente, a única mudança relevante é que consta na parte superior central da fachada da Sé.
Qualquer panorâmica do burgo tripeiro confronta-nos com a imagem de uma cidade de carácter, que, aliás, transparece no carácter de uma boa parte dos tripeiros genuínos: gente trabalhadora, séria, frontal que ama e respeita os seus e aquilo que é seu.

Geografia íntima (3)

Porto (1987)
Vista da Sé, a partir da Calçada da Vitória. No plano central está a Sé, tendo a seus pés o conjunto mais antigo de casario da urbe. No lado direito vê-se o Convento dos Grilos.
Esta é uma das vistas mais espectaculares que o Porto pode oferecer. Com efeito, a Calçada da Vitória, no sopé da Bataria e no alto das Escadinhas, é um local com panorâmica privilegiada, quer nesta direcção, quer na direcção da Ribeira, do rio e de Gaia (girando 45º para o lado direito da orientação da foto). Não se compreende como, apesar de tudo, não é uma panorâmica mais divulgada.

Geografia íntima (2)

No Porto (Setembro de 1987) (2)

Geografia íntima (1)

No Porto (Setembro de 1987) (1)

Vivo na Amadora desde que me conheço, mas nasci e tenho raízes familiares no Porto, onde passava sempre, até aos 14 anos, as minhas férias escolares, na Vitória, bem no coração do velho burgo tripeiro, entre os Clérigos e a Ribeira, junto às escadinhas e à Calçada. Muitas memórias retenho desses tempos (anos 60): a canalha (miúdos) descalça e ranhosa; o ambiente ruidoso, (ora festivo, ora brigado). Impressiona-me recordar a pobreza, mas também essa vitalidade perdida. Era um cenário digno de filme italiano, num registo algures entre Totó e Fellini. Pela altura em que esta foto foi tirada já muito desse mundo se desvanecera...
Mas, acima de tudo, no Porto, admiro o carácter das gentes - essa solidez granítica que a cidade parece conferir a muitos dos seus habitantes e que se manifesta na expressividade, frontalidade, ausência de hipocrisia, no orgulho pela ética do trabalho e do esforço individual, no valor da palavra dada e na coerência com princípios e valores de vida. Isso parece emanar sempre daquelas pedras velhas...