domingo, setembro 26, 2004

Geografia íntima (5)

Porto (192?, 193?) (2)
Vista da parte norte da freguesia da Vitória, a partir da Sé. A torre dos Clérigos no centro - está situada na freguesia da Vitória.

Geografia íntima (4)

Porto (192?, 193?) (1)
A mesma panorâmica, mas muitos anos antes. Aparentemente, a única mudança relevante é que consta na parte superior central da fachada da Sé.
Qualquer panorâmica do burgo tripeiro confronta-nos com a imagem de uma cidade de carácter, que, aliás, transparece no carácter de uma boa parte dos tripeiros genuínos: gente trabalhadora, séria, frontal que ama e respeita os seus e aquilo que é seu.

Geografia íntima (3)

Porto (1987)
Vista da Sé, a partir da Calçada da Vitória. No plano central está a Sé, tendo a seus pés o conjunto mais antigo de casario da urbe. No lado direito vê-se o Convento dos Grilos.
Esta é uma das vistas mais espectaculares que o Porto pode oferecer. Com efeito, a Calçada da Vitória, no sopé da Bataria e no alto das Escadinhas, é um local com panorâmica privilegiada, quer nesta direcção, quer na direcção da Ribeira, do rio e de Gaia (girando 45º para o lado direito da orientação da foto). Não se compreende como, apesar de tudo, não é uma panorâmica mais divulgada.

Geografia íntima (2)

No Porto (Setembro de 1987) (2)

Geografia íntima (1)

No Porto (Setembro de 1987) (1)

Vivo na Amadora desde que me conheço, mas nasci e tenho raízes familiares no Porto, onde passava sempre, até aos 14 anos, as minhas férias escolares, na Vitória, bem no coração do velho burgo tripeiro, entre os Clérigos e a Ribeira, junto às escadinhas e à Calçada. Muitas memórias retenho desses tempos (anos 60): a canalha (miúdos) descalça e ranhosa; o ambiente ruidoso, (ora festivo, ora brigado). Impressiona-me recordar a pobreza, mas também essa vitalidade perdida. Era um cenário digno de filme italiano, num registo algures entre Totó e Fellini. Pela altura em que esta foto foi tirada já muito desse mundo se desvanecera...
Mas, acima de tudo, no Porto, admiro o carácter das gentes - essa solidez granítica que a cidade parece conferir a muitos dos seus habitantes e que se manifesta na expressividade, frontalidade, ausência de hipocrisia, no orgulho pela ética do trabalho e do esforço individual, no valor da palavra dada e na coerência com princípios e valores de vida. Isso parece emanar sempre daquelas pedras velhas...

sábado, setembro 25, 2004

Mariachi y tequila (5)


Los Tigres del Norte - 20 Corridos inolvidables (2003)
Na novela A Rainha do Sul, de Arturo Pérez-Reverte, abundam referências aos corridos de Los Tigres del Norte, Los Tucanes de Tijuana e outros grupos congéneres que fazem o que é conhecido como Música Norteña. O escritor compreendeu a realidade sociológica que acompanha este tipo de música, que atingiu níveis de grande popularidade no México (sobretudo no Norte) e nas zonas chicanas dos EUA. Los Tigres, que já eram muito populares, viram expandir a sua fama graças precisamente a este romace. Para além de múltiplas referências no texto acerca do grupo, é curioso como o escritor teve a capacidade de utilizar títulos de alguns dos seus corridos como apropriados títulos de capítulos.
Sob o ponto de vista artístico, há alguns temas estimulantes, mas a utilização de um esquema instrumental assente apenas na bateria e no acordeão tex-mex, assim como a limitada imaginação melódica e capacidade vocal dos solistas, podem gerar alguma monotonia. Dentro deste modelo, Los Tucanes parecem mais imaginativos e o próprio texano Flaco Jiménez (expoente do tex-mex), de San Antonio, parece proporcionar maior variedade. Deve reconhecer-se, porém, que as letras podem ser excitantes, na medida em que, como nos corridos rancheros, constituem relatos de incríveis proezas e desgraças de ... (e aqui estará um problema ético!) ... narcotraficantes!
É de notar que a lista de corridos, digamos narcorridos (vulgariza-se a utlização deste termo...), que consta desta Antologia compreende aqueles cujos títulos foram adoptados como títulos dos capítulos de A Rainha do Sul.
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quarta-feira, setembro 22, 2004

Salsa y merengue (3)

La Lupe - Laberinto de pasiones (1992)
Este álbum é uma compilação da editora canária Manzana para o mercado espanhol, em plena onda revivalista de La Lupe. Onda revivalista que foi impulsionada por um dos filmes de Almodóvar, que incluiu o bolero Puro teatro na banda sonora. Tem um interessante texto do jornalista Diego Manrique com um resumo da acidentada vida da artista. Entre boleros e bogaloos constam os temas mais conhecidos. Impera um jeito bem próprio dos alvores da salsa, com a inconfundível fogacidade desta mulata cubana exilada em Nova Iorque.
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Salsa y merengue (2)

La Lupe (1939-1992)
La Lupe (Guadalupe Victoria Yoli Raymond) distinguiu-se em vários géneros e ritmo latinos, abrangendo um leque que vai do bolero à salsa. Na verdade, teve uma forma de interpretação que saltou as convenções. Por esse estilo bravio tão pessoal conheceu epítetos como os de Yiyiyi, Too Much e, posteriormente, a escritora nova-iorquina Susan Sontag defeniu-a como "a primeira punk".
Esta cubana teve uma vida de culebrón. Nascida em Santiago de Cuba, filha de um modesto trabalhador da Bacardi, estudou para ser professora primária. Contudo, escapou a um modesto destino de docente em alguma aldeia da montanhosa província do Oriente. Aliás, desde cedo manifestou tendências artísticas que não conjugavam com a imagem de educadora, ainda por cima, com uma pose ostensivamente sensual, própria de mulata descaradona... Quando Castro y sus barbudos desceram da Sierra Maestra já estava na vida artística profissional e havia adquirido notoriedade. De imitadora de Olga Guillot passou a cultivar um estilo pessoal que manteve e desenvolveu. O título do seu primeiro álbum é significativo: Con el diablo en el cuerpo. Em programas televisivos reforçou essa imagem, nomeadamente com os pitorescos vexames que infligia ao seu submisso pianista Homero, como, por exemplo, descalçar-se e bater-lhe com um sapato.
Para o seu temperamento era impossível viver numa sociedade subordinada aos preceitos do novo regime. Seguiu a via da maioria dos artistas e exilou-se. Depois de uma passagem pelo México, estabeleceu-se em Nova York, onde retomou a sua carreira graças às possibilidades criadas pela apetência para experimentações de fusão entre jazz e ritmos latinos. Ao mesmo tempo, tornou-se popular na comunidade latina e conhecida de todos os públicos, graças a shows televisivos. Explorou o filão de interpretar de modo latino standards como Going out of my head e Fever ou êxitos emergentes da pop, como Yesterday. Em finais de 60 actuava com a orquestra de Tito Puente e era conhecida como The Queen of Latin Soul. Tornou-se, assim, uma figura do som latino.
Os excessos conduziram-na ao declínio a partir dos finais dos anos 70. Esse declínio está marcado por elementos anedóticos e dramáticos. Entre o anedótico temos um incontrolado arrebatamento que chegou ao ponto de rasgar as vestes em certo show televisivo, em directo... Entre o dramático temos a adição a drogas e álcool. Uma tentativa de refazer a vida em Puerto Rico apenas acabou por acentuar a decadência. Nos anos 80 viveu no Bronx nova-iorquino, na miséria e esquecida por todos. Viveu então uma rocambolesco cortejo de desgraças que ultrapassam a imaginação de qualquer guionista de culebrones: um dia vai parar ao hospital espancada por um ex-marido; outro dia, ao pendurar umas cortinas, cai e fica temporariamente paralisada; outro dia, ainda, a sua habitação é palco de um incêndio. Recupera-se parcialmente de tanta desgraça e adere a uma seita religiosa evangélica com a denominação O Fim aproxima-se! Nos últimos anos vida, até um ataque cardíaco a ter fulminado, dedica-se a pregar o evangelho de porta em porta...
Antes de desaparecer, quando, ironicamente, já renunciara à vida artística em prol da regeneração espiritual, alguém a resgatou do esquecimento. Foi Pedro Almodóvar, no filme Mujeres al borde de un ataque de nervios, colocando um dos seus temas na banda sonora. O tema é o extraordinário bolero Puro Teatro, do porto-riquenho Tite Curet Alonso. Foi o início do revivalismo da música de La Lupe. Em Espanha, a rádio começou a divulgar os seus velhos êxitos, que conheceram, assim, divulgação em plena década de 90. Tornou-se objecto de culto em certos meios.
La Lupe in Salsa Magazine 1

terça-feira, setembro 21, 2004

Salsa y merengue (1)

Aldo Matta - Soy del Caribe (1993)
Aldo Matta é um cantor porto-riquenho cuja maior notoriedade coincidiu com um terceiro lugar obtido num qualquer dos desqualificados festivais da OTI. A sua carreira tem-se desenvolvido de modo discreto e oscilante, mais pelos terrenos do cançonetismo. No que diz respeito à salsa tem feito algumas incursões. Nos inícios dos anos 90 uma dessas incursões rendeu uma canção notável e um álbum magnífico. A canção é Derroche e o álbum é Soy del Caribe. Esta fase proveitosa foi dirigida pelo produtor Frank Torres. Não teve, porém, continuidade. É pena. O álbum aqui em apreço é um dos melhores da salsa romántica, género surgido em meados dos anos 80 entre Nova York e Porto Rico. Desfila um conjunto de temas que são um instintivo convite à dança, ao mesmo tempo que possuem encanto melódico - é o caso de Para tenerte siempre, Una tempestad de besos e Me encanta verte así. Quanto ao tema Derroche, incluído na edição espanhola deste álbum, tinha aparecido no álbum anterior, de 1991, com o mesmo título, mas a sua distribuição limitara-se às Américas. Se é um facto que o erotismo atravessa quase todos os temas, neste atinge-se o clímax, o que sucede através da conjugação da letra com um tórrido ambiente sonoro. Pouco tempo depois a cantora espanhola Ana Belén interpretou uma versão que teve impacto. Também Julio Iglesias acabou por vir a interpretar a sua versão com aquele inexpressivo artificialismo delicodoce que constitui marca pessoal...
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